3 O caminho metodológico trilhado
3.2 O meu encontro com a comunidade Cumbe em Aracati-CE
A minha primeira visita à comunidade Cumbe ocorreu no dia 6 de maio de 2006, quando fui acolhida pelo João Luís Joventino do Nascimento e sua família, hospedando-me em sua casa por três dias – cheguei ao Cumbe em um sábado pela manhã e retornei a Fortaleza na terça seguinte pela manhã.
Consegui o contato do João Luís com a Neuma Nogueira, orientanda da Profa. Raquel Rigotto, que havia realizado uma parte do trabalho de campo da sua pesquisa de dissertação de mestrado sobre o processo de trabalho da carcinicultura e os riscos ocupacionais a que estão expostos os trabalhadores na comunidade do Cumbe.
Liguei para o João Luís, apresentei-me e falei-lhe sobre a minha pesquisa de doutorado e expus o meu desejo de conhecer a comunidade do Cumbe. Foi uma grande alegria para mim ao perceber no meu primeiro contato com o João, e por telefone, a sua abertura em me receber no Cumbe e em sua casa, o que me deu certa tranqüilidade e
segurança. Tamanha generosidade é rara de se encontrar, mas existe! O João é uma prova disso!
A partir daquele dia já fiquei imaginando como seria a minha chegada à comunidade, como deveria me comportar, quais aspectos eu precisaria estar atenta com o intuito de compreender em um primeiro momento a forma como as pessoas se relacionavam, as singularidades da comunidade, o seu cotidiano, o seu modo de vida.
Combinei com o João o dia, a hora e como nos encontraríamos, a fim de seguirmos para a comunidade, pois no primeiro contato por telefone ele se prontificara a esperar-me na Igreja Matriz em Aracati e de lá seguiríamos juntos ao Cumbe, que fica a uns 12 Km da sede do município. Assim aconteceu.
No caminho para o Cumbe, João foi me mostrando as fazendas de camarão, os danos ambientais e as transformações que estavam causando na paisagem do lugar e na vida das comunidades. Apesar do cançaso da viagem, procurava ficar atenta à sua explicação rica em detalhes e fotografava os diversos cenários que ele me apresentava.
Chegando ao Cumbe, João me apresentou à sua família, que me recebeu muito bem, e em seguida, à medida que me contava sobre o lugar, me mostrou as notícias de jornais, revistas, artigos, documentos, fotos, e tudo que ele tinha à mão sobre o lugar, sobre a problemática relacionada à carcinicultura.
Aproveitei bem os dias em que estive no Cumbe pela primeira vez. Conversava muito com o João, que estava sempre disposto a me esclarecer alguns aspectos e a contar mais e mais histórias.
O período em que estive no Cumbe pela primeira vez coincidiu com o período das chuvas, o que dificultava o acesso, pois a estrada de terra ficava cheia de lama. Muito deste problema se devia ao fato de que as fazendas de camarão haviam sido construídas em áreas de apicum e os paredões dos viveiros impediam o fluxo das marés que vinham das gamboas e do Rio Jaguaribe, e ao atravessar a estrada esbarravam nas paredes dos viveiros de camarão. Foi assim que o João me explicou, ou, pelo menos, foi dessa forma que entendi.
Um aspecto positivo das chuvas e que traz muita alegria para os moradores da comunidade se deve ao fato de que se formam muitas lagoas entre as dunas. O Cumbe tem
um grande e bonito campo de dunas! Nesse período em que estive lá, as pessoas faziam luau, e nos finais de semana, especialmente, os moradores divertiam-se nas lagoas.
No domingo fomos – o João, sua família, alguns amigos e eu – a uma lagoa que se formara entre as dunas. Maravilhosa! Tinha uma barraquinha de palha próxima à lagoa que servia petiscos – entre os quais, o camarão ao alho e óleo de cativeiro –, e bebidas diversas (apresentamos imagens dessa lagoa no capítulo sobre A vida no Cumbe). Foi muito bom, porque conheci outras pessoas da comunidade, e foi nesse dia que conversei, pela primeira vez, com o Domingos, catador de caranguejo que havia se empregado na carcinicultura durante um período. Conheci também a Regina, marisqueira, uma das donas da barraca de palha. Aos poucos ia conhecendo as pessoas e me inteirando sobre a dinâmica das relações sociais no Cumbe. Já em casa tomava nota das minhas observações, impressões e do nome das pessoas, que em um futuro próximo seriam entrevistadas.
Terça-feira, 9 de maio de 2006, pela manhã, voltei para Fortaleza. Dei carona à irmã da Regina, que morava em Canavieira, sítio vizinho ao Cumbe.
Chegando a Fortaleza procurei Luciana Queiroz, do Instituto Terramar, que estava realizando a sua pesquisa de dissertação de mestrado sobre um diagnóstico socioambiental do Cumbe. Foi muito bom o contato com a Luciana, o que possibilitou que nos conhecêssemos e trocássemos experiências sobre as nossas pesquisas.
Procurei, a partir de então, aproximar-me dos movimentos sociais ambientalistas que estavam desenvolvendo algum trabalho junto às comunidades do litoral cearense e do mangue, as quais vivenciavam os problemas relacionados ao modelo de desenvolvimento adotado no Ceará, centrado no turismo de larga escala e no fortalecimento de atividades econômicas como a carcinicultura. Do Terramar já conhecia a Soraya Vanini, o Henrique e o Jeferson, contemporâneos do movimento estudantil da universidade, e, a partir daquele momento, a Luciana.
Assim fui me inserindo no universo empírico do meu tema/objeto de estudo, e durante a fase exploratória da pesquisa pude participar de vários encontros, reuniões em que a temática que estava estudando era debatida, além de nessas ocasiões ter tido a chance de conhecer de perto as problemáticas vivenciadas pelas comunidades e a forma como se
organizavam para enfrentarem os desafios e construírem a resistência à implantação dos grandes empreendimentos econômicos em seus territórios e os impactos destes oriundos.
De maneira breve, explano, abaixo, alguns dos encontros, atividades e reuniões que participei durante a fase exploratória da pesquisa:
1. Participação da II Assembléia dos Movimentos Sociais da Zona Costeira: TERRA É VIDA NA ZONA COSTEIRA em Tatajuba, Camocim-CE, 14 a 17 de Julho de 2006;
2. Participação do Seminário Nacional Manguezais e Vida Comunitária: Os Impactos Socioambientais da Carcinicultura, realizado no período de 21 a 24 de Agosto de 2006;
– Neste seminário houve um painel em Aracati, seguido de uma visita ao Cumbe, oportunidade que me possibilitou voltar e renovar os meus contatos com os moradores da comunidade.
3. Participação da sistematização do projeto SOS Zona Costeira, no período de 20 a 22 de outubro de 2006, em Águas Belas – Caponga, sobre o tema “Manguezais x carcinicultura: lições aprendidas”;
4. Reuniões do GT aqüicultura do FDZC (TELES, 2004).
Retornei ao Cumbe mais uma vez, de 10 a 11 de novembro de 2006, por ocasião de uma aula de campo dos alunos do Mestrado em Saúde Pública da UFC, que cursavam a disciplina Produção, Ambiente e Saúde, sob a coordenação da Professora Raquel Rigotto. Nessa oportunidade, eu já me encontrava no Cumbe e junto com o João fomos receber os alunos e a professora Raquel, em Aracati, e da mesma forma que o João fez quando me recebeu pela primeira vez no Cumbe, fizemos com os alunos do mestrado. Desta vez, eu já tinha condições de “ajudar” ao João na apresentação dos cenários e na descrição das belezas e dos problemas do lugar.