• Nenhum resultado encontrado

A corrente objetivista

No documento Direito processual civil intertemporal (páginas 49-52)

Capítulo III Fundamentos do direito intertemporal

3.6. A corrente objetivista

A despeito de ser até hoje uma das principais doutrinas do direito intertemporal, tendo sido incorporada a muitos ordenamentos jurídicos, a teoria de GABBA encontrou fortes opositores pela frente, os quais não aceitavam que os direitos adquiridos pudessem ser utilizados como principal astro dentro do sistema de direito intertemporal.

101

Direito Intertemporal ou Teoria da Retroatividade das Leis, p. 44.

102

A irretroatividade das leis..., pp. 214-215.

103

Os críticos de GABBA afirmavam, primeiramente, uma inconsistência no conceito de direito adquirido, de modo a impossibilitar sua ampla compreensão104. Também o número excessivo de exceções vislumbradas pelo autor italiano para casos em que não se aplicaria seu conceito foi utilizado como fator para negar a validade de sua teoria105.

Mas, além de criticarem o conceito de GABBA imputando- lhe um caráter vago e fugidio106, alguns doutrinadores procuraram demonstrar que a teoria subjetivista partia de premissas equivocadas, porque a proteção contra alterações legislativas futuras não deveria ser entendida do ponto de vista dos direitos individuais, mas das relações (ou situações, dependendo da teoria) jurídicas em si consideradas107.

A segurança que se esperaria do sistema não seria simplesmente contra atentados a direitos individuais previamente adquiridos, mas contra alterações que atingissem relações ou situações jurídicas constituídas antes do advento da nova lei.

Muitas doutrinas foram criadas a partir de então108, procurando um critério objetivo para a solução dos problemas de direito intertemporal. O modo como a lei pode ou não afetar as relações (ou situações) pendentes quando do seu advento passou a ser colocado no centro de

104

Nesse sentido, v. ROBERTO DE RUGGIERO, Instituições de direito civil, vol. I, p. 228,

105

Cf. RÁO, O direito..., p. 440.

106

Expressão utilizada por WILSON DE SOUZA CAMPOS BATALHA, Direito Intertemporal, p. 118. Em sentido análogo ROUBIER destaca as palavras de HOFFMANN, que proclamou “assez d’illusions! ne nous trompons pas plus longtemps! nous pourrons tourner et retourner cette preposition, d’après laquelle les droits acquis doivent être respectés par la législateur, nous n’en tirerons rien. C’est simplesment un mot: car sous ce terme de droits acquis, on entend justement les droits qui doivent être respectés par le législateur: c’est donc idem per idem! (Le droit transitoire, p. 168).

107

Bastante ilustrativa nesse sentido é a seguinte passagem de FRANCESCO FERRARA, trattato di diritto civile italiano, vol. I, pp. 263-264:“Ma la teoria in sè del diritto quesito è viziosa, perchè fraintende la ragione della irretroattività, che non è quella di proteggere diritti soggettivi, ma obbiettivamente rapporti giuridici. Certo il più delle volte l’intangibilità dei fatti compiuti importa come conseguenza quella dei diritti che ne dipendono, ma non sempre questa coincidenza avviene, perchè sono protetti dei fatti giuridici che non attribuiscono diritti soggettivi”.

108

Dentre elas pode-se mencionar a teoria de AFFOLTER sobre a exclusão, desenvolvida nas obras Geschchte des Intertemporalen Privatrechts e System des Deutschen Burgerlichen Ubergangsrechts a primeira de 1.902 e a segunda de 1.903) e a de CHIRONI e ABELLO sobre o fatto compiutto (Trattato di diritto civile italiano), também da mesma época (1.904).

observação dos problemas de direito intertemporal, deixando-se um pouco de lado a existência ou não de direitos adquiridos109.

3.6.1. A importância de PAUL ROUBIER para o direito brasileiro

Dentre os principais expoentes da corrente objetivista destaca-se o Professor da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas de Lyon, PAUL ROUBIER. Seu trabalho é citado à exaustão pela grande maioria dos doutrinadores posteriores a ele, e em terras brasileiras exerceu - e continua a exercer - forte influência, sendo amplamente admitido o conceito por ele fornecido de retroatividade da lei e de sua eficácia imediata.

Conforme veremos no capítulo seguinte, durante um curto período de nossa história o sistema de ROUBIER foi adotado isoladamente em nosso ordenamento, em momento no qual o legislador distanciou-se da doutrina dos direitos adquiridos.

Atualmente, em que pese a adoção de um sistema

preponderantemente fundado nos direitos adquiridos, a influência de ROUBIER

ainda é marcante, especialmente porque a Lei de Introdução ao Código Civil faz menção expressa à eficácia imediata da lei.

Não fosse por esses motivos, o conhecimento das lições de ROUBIER deveriam ser expostos pela clareza com que eliminou dúvidas

109

A propósito da colocação dos efeitos da lei como centro das teorias objetivistas, observa FABIO PESSOA, Elementos para uma teoria do direito intertemporal no processo civil, p. 29, que: “Na verdade, precisa a compreensão do fenômeno a partir de uma ótica objetiva no plano temporal - isso, é bom que se diga, independentemente da filiação doutrinária -, considerando a extensão dos efeitos da lei, em si mesmos, com abstração na medida do possível da natureza do texto legal inovador e de sua admissibilidade num dado ordenamento ou momento histórico (a retroação benigna, nesse sentido, é certamente retroatividade, nem por isso deixando de ser compatível com a maioria dos sistemas jurídicos). Dessa forma, o que cabe perquirir é se, ao fim e ao cabo, a lei se pretende expressamente aplicável a fatos passados, ou se, mesmo não declaradamente, termina por criar efeito correspondente conforme a aplicação que se lhe dê, pouco importando se benéfica ou prejudicial a retroação assim caracterizada, se capaz de afetar ou não direito adquirido ou ainda se permitida ou não no caso concreto; reconhecida objetivamente a existência de retroação, apenas então é que passa a importar o exame da respectiva repercussão jurídica”.

conceituais, e por ter chamado à atenção para um modo bastante diferenciado de fundamentar o princípio da eficácia imediata da lei. Feitas essas explicações iniciais, passamos ao estudo dessa doutrina.

No documento Direito processual civil intertemporal (páginas 49-52)