2 FORMAÇÃO DOCENTE: DE NORMALISTAS À PROFESSORAS DE
2.2 A CRIAÇÃO DA ESCOLA NORMAL E DO COLÉGIO NOSSA
A partir do século XIX, o Brasil, apropriado pelas ideias iluministas, via na expansão da escolarização a toda população brasileira uma forma de civilizar e modernizar o País, porém esses princípios esbarravam na falta de profissionais qualificados para atuar nesse campo. O Ato Adicional promovido pelo Governo Central, no ano de 1834, passou a responsabilidade para as províncias organizarem e criarem instituições educacionais de nível primário e secundário, como uma forma de resolver a escassez de professores para atuar nas primeiras letras. A formação obtida por aqueles que ingressavam nas escolas normais assegurava ao professor a habilitação para ministrar conteúdos de todas as disciplinas nas escolas primárias.
No Espírito Santo, foi a partir desse momento que se começou a pensar a formação de professores para as escolas capixabas. Tanto Simões, Schwartz e Franco (2008) quanto Schneider (2011) observam que o ensino primário oferecido no Estado se encontrava em uma situação precária, havendo, no início do século XIX, apenas uma escola de primeiras letras. Também não havia na província nenhuma escola de formação de professores. Segundo os autores, para que se resolvesse a falta de professores na província, ocorria o envio de pessoas que se interessassem pelo magistério primário para a Escola Normal da Corte, no Rio de Janeiro.71 Outra situação recorrente eram os péssimos salários pagos, pouco atrativos e desestimulantes que afastavam a procura pela formação no magistério.
O ensino secundário ocorria no Espírito Santo com a oferta de algumas cadeiras de Língua Latina, de Francês, de Geografia e História, voltada essencialmente para o sexo masculino. No ano de 1854, é criado um Liceu e, segundo afirma Schneider (2011), além da formação de alunos aptos a ingressarem nos cursos superiores, o Liceu passou a ser visto como um meio de formar professores para o ensino primário, porém não ganhou a repercussão esperada e, pela Lei nº 13, de 12 junho de 1867, transformou-se em Colégio Espírito Santo, mas
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foi instalado somente em 2 de março de 1868 (SIMÕES; SCHWARTZ; FRANCO, 2008). O Colégio Espírito Santo dedicava-se à educação do sexo masculino.
A mulher começa a ganhar espaço nessa instituição quando é criado, pela Lei nº 29 de dezembro de 1869, o Colégio Nossa Senhora da Penha, mas que passou a funcionar somente no ano 1871. Os dois colégios atuavam em espaços próprios. No ano de 1873, o Colégio Espírito Santo é transformado em Ateneu Provincial e, em uma de suas salas, é instalada uma Escola Normal, permanecendo como instituição de formação de professores no Espírito Santo (SIMÕES; SCHWARTZ; FRANCO, 2008).72
A Escola Normal mantém-se até início do século XX como a única instituição de formação de professores no Estado, quando, em 1890, são enviadas para Vitória três irmãs da Associação São Vicente de Paulo, que vieram para a Capital organizar um educandário (FRANCO, 2001).
Em 1900, cria-se, então, o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora ou, como ficou popularmente conhecido no período, Colégio do Carmo, um colégio católico.73 O colégio era somente para mulheres e oferecia, além da formação de normalistas, turmas do ensino primário e ginasial, atendendo às alunas matriculadas em regime de externato, internato e orfanato (SIMÕES; FRANCO, 2009).74
Os dois colégios se mantiveram até 1930 como as únicas instituições no Estado a formar professores para atuar no ensino primário.75 Hees e Franco (2012) observam que foi durante a Primeira República que houve crescimento da oferta de escolarização da educação no Brasil, vista como o único caminho para melhorar a situação em que o País se encontrava.
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Segundo Simões, Schwartz e Franco (2008), o espaço onde foi edificado o prédio da Escola Normal foi adquirido pela Fazenda Provincial nos anos de 1872 e 1873, localizado no território mais valorizado da cidade, próximo dos órgãos que simbolizavam o Poder e das moradias mais ilustres da cidade, representando um lugar nobre e que irradiaria influências sobre a sociedade capixaba.
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Como apontam Simões e Franco (2009), os historiadores indiciam a disputa entre os pioneiros da educação, que defendiam um ensino público, gratuito e laico, e a Igreja Católica, defensora de um ensino privado e confessional. Mesmo após a proclamação da República, apoiada nos ideários liberal e positivistas, e a desvinculação da Igreja Católica, com o Brasil considerado a partir desse momento um país laico, Estado e Igreja nunca romperam definitivamente os laços. As escolas católicas continuaram sendo criadas no Brasil, principalmente quando se voltavam à educação feminina.
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Segundo Franco (2001), a estreita ligação entre as elites oligárquicas que estavam no poder com a Igreja Católica explica a proliferação dos colégios religiosos no Brasil.
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O interventor João Punaro Bley, seguindo os demais Estados, com a Reforma Federal de Educação, denominada Reforma Capanema, instituiu, no ano de 1936, no Espírito Santo, o Curso de Formação de Professores com 1ª e 2ª séries, em substituição ao Curso Normal de quatro séries, para diplomar professores primários, não sendo mais necessários os cursos normais (100 ANOS, 1992).
Nas Figuras 6 e 7, visualizamos a arquitetura de ambas as instituições que permanecem até nossos dias.
Figura 6 – Vista arquitetônica da Escola Normal
Fonte: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 1912.
Figura 7 – Colégio Nossa Senhora Auxiliadora
Na antiga Escola Normal, desde 1936, foi criado o Ginásio Estadual Maria Ortiz, funcionando anexo à Escola Normal até que, em 1970, a Escola Normal foi transferida para o Edifício Cauê, localizado no bairro Praia de Santa Helena, onde hoje funciona a Escola Estadual de Ensino Médio Fernando Duarte Rabelo. Em seu antigo prédio, ficou a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Maria Ortiz, ainda hoje em funcionamento, localizada ao lado do Palácio Anchieta, no Centro de Vitória (100 ANOS, 1992). Já o antigo Colégio Nossa Senhora Auxiliadora atuou até a década de 1970, onde hoje se localizam a Escola Municipal de Ensino Fundamental São Vicente de Paulo e a Igreja do Carmo.