• Nenhum resultado encontrado

Capítulo II – Teoria do amadurecimento pessoal

5. A Criatividade e o brincar para poder-ser

A criatividade está, de acordo com Winnicott, presente tanto no viver momento a momento de uma criança com deficiências mentais que frui ao respirar, como na inspiração de um músico ao descobrir o que quer compor. Ela é algo da natureza humana que se realiza graças à relação mãe-bebê.202

201 WINNICOTT, D. W. (1956): Preocupação Materna Primária. TPP, p. 497. 202 WINNICOTT, D. W. PR, p. 69.

O estudo da criatividade visto por esse ponto de vista winnicottiano é importante, porque pode auxiliar aqueles que estão procurando se constituir como um si-mesmo (self) integrado, isto é, como pessoas inteiras que possuem experiências criativas. Winnicott escreve:

Constitui experiência freqüente no trabalho clínico o contato com pessoas que desejam ajuda, que buscam o si-mesmo e que estão tentando encontrar-se nos produtos de suas experiências criativas. Mas, para auxiliar esses pacientes temos de saber sobre a própria criatividade (...) torna-se necessário um estudo em separado da criatividade como aspecto da vida e do viver total.203

Desse modo, a criatividade que estuda Winnicott não é aquela dos estetas, mas sim uma mais fundamental, ela diz respeito ao estar vivo de cada um. Segundo ele, criatividade é uma proposição universal e relaciona-se ao estar vivo.204

A partir do trabalho com bebês e seus pacientes que sofriam de graves distúrbios emocionais ou não, Winnicott percebeu que o homem não podia ser pensado em termos de pulsionalidade e que o eu (me) de uma pessoa, assim como o sentido de realidade, deveria ser alcançado e constituído por esse ser que estava surgindo, isto é, pelo próprio bebê. Percebe-se, portanto, que:

Winnicott postula toda uma fase inicial em que ainda não há um si-mesmo constituído, mas um ser não-integrado, vivendo num estado de solidão essencial. A fissura humana fundamental não é pulsional, mas se dá entre o isolamento primordial e inextinguível do ser humano e sua tendência a abrir-se para relações com o outro e com o mundo. A integração inclui o encontro com a realidade.205

Falou-se acima de um ser não-integrado, isso nos leva ao postulado teórico de Winnicott de um estado inicial, em que o que se tem não é ainda uma unidade integrada. Ele escreve:

Uma pequena quantidade de teoria é necessária se se quer alcançar o lugar onde as crianças habitam – um lugar estranho – onde nada foi ainda separado como não-eu, onde, portanto, não há ainda um eu (...) Não é que o bebê se identifique ele ou ela mesma com a mãe, mas sim

203 Id. ibid. p. 54. 204 Cf. id. ibid., p. 67

que não há nenhuma mãe, nenhum objeto externo ao si-mesmo que seja conhecido; e mesmo esta afirmação é errada porque ainda não há um si- mesmo. Pode ser dito que o si-mesmo da criança, nesse primeiro estágio, é apenas potencial.206

Como ser humano, esclarece Elsa O. Dias, o bebê é apenas potencial: não tem um eu nem um não-eu, não tem objetos, metas ou interesses. A não-integração é um estado pré- objetal e pré-representacional. (Dias, E. O., 1998: 71).

Através da alteração entre estados de excitação e de descanso, ocorrem pequenas experiências de integração e, assim, o bebê vai conquistando aos poucos a integração e o seu status como uma unidade de forma estável e consistente, deste modo as conquistas do amadurecimento vão se tornando possíveis.

O bebê deve alcançar o estado unitário, um eu unitário, para poder estabelecer relações consigo mesmo e os objetos do mundo externo. É uma jornada a ser percorrida, durante a qual conquistas devem ser realizadas. Estas são graduais e “se dão através de integrações de muitos níveis e envolvem a constituição paulatina de um si-mesmo como identidade, concomitante ao início da instalação no mundo”.207 Essas conquistas dizem respeito à possibilidade de alcançar estados em que o bebê se pudesse falar expressar-se-ia assim: “Eu Sou”, “eu posso criar”, “eu existo em um mundo que é não-eu e interajo como ele”.208 Desse modo, para Winnicott, todos os estados do ser precisam ser alcançados e experienciados.

Conquistas como essas não vão por si. Elas só podem acontecer, como já foi mencionado, a partir de um cuidado suficientemente bom. No início, já que o bebê encontra-se em um estado de dependência absoluta, esse cuidado é tudo com que ele pode contar e esperar: “o lactente e o cuidado materno juntos formam uma unidade”.209

A desadaptação da mãe permite ao bebê caminhar, gradualmente, em direção à dependência relativa e depois para a sua independência. Dois fatores importantes estão implicados na passagem da dependência absoluta para a relativa: a ilusão e a desilusão.

206 WINNICOTT. D. W. (1960): The Relationship of mother to her baby at the beginning. FID, p. 17-18. 207 Dias, E. O. op. cit p. 62.

208 WINNICOTT, D. W. (1962) Ego Integration in Child Development. MPFE, p. 61. 209 WINNICOTT, D. W. (1960): The Theory of Parent-Infant Relationship. MPFE, p. 39.

Quando a mãe é suficientemente boa, ela propicia ao bebê a oportunidade para a ilusão. De acordo com Winnicott, a mãe propicia a ele a ilusão de que o seio dela faz parte do bebê, de que está, por assim dizer, sob o controle mágico do bebê.210

Se uma das tarefas da mãe suficientemente boa é proporcionar a oportunidade para a ilusão, a outra é a da desilusão. Esta deve ser gradativa e vem acompanhada da tarefa do desmame. Através da desilusão, o bebê pode alcançar mais um dos momentos do seu amadurecimento em que ele pode, então, ser capaz de lidar com o fracasso da adaptação e tolerar os resultados da frustração.

A desadaptação da mãe significa, para o bebê, desilusão. Mas a desilusão, com as aquisições que lhe são próprias, só pode acontecer sobre uma bem fundada capacidade para a ilusão. Esse processo inclui o desmame como uma de suas formas significativas.211

A criatividade no bebê pode começar tão cedo quanto o seu próprio existir como uma unidade. Aliás, existir e criatividade caminham juntos e dependem no início, na fase de dependência absoluta, de uma mãe suficientemente boa.

Em seu início, a criatividade do bebê – e conseqüentemente a de todo ser humano – depende da comunicação que é estabelecida entre o par mãe-bebê. Essa comunicação não é unilateral e deve se dar na mutualidade. Não se deve pensar que a capacidade para se comunicar já é inata ao bebê; inata é a tendência ao amadurecimento, que leva à comunicação. Portanto a comunicação é uma conquista.

Desta maneira, testemunhamos uma mutualidade que é o começo de uma comunicação entre duas pessoas, isto (no bebê) é uma realização do desenvolvimento que depende dos seus processos herdados que conduzem para o crescimento emocional e, de modo semelhante, depende da mãe e de sua atitude e capacidade de tornar real aquilo que o bebê está pronto para alcançar, descobrir, criar.212

Como se percebe, este é um dos primeiros momentos da possibilidade de existência da criatividade. Entretanto, segundo Winnicott, não é o momento inicial. A origem da

210 Cf. WINNICOTT, D. W. HN, p. 106.

211 DIAS, E. O. A Teoria das Psicoses em D. W. Winnicott. Tese de Doutorado, PUC-SP, 1998, pp. 153-154. 212 WINNICOTT, D. W. (1969): The mother-infant Experience of Mutuality. PE, p. 255,

criatividade é uma questão de ser, de estar vivo. Ele afirma: “a criatividade pertence ao estar vivo”.213

O sentimento de estar vivo é proporcionado pela mãe suficientemente boa. Através de sua completa adaptação às necessidades do bebê, durante a fase de dependência absoluta, ela lhe capacita a possibilidade de construção de um mundo subjetivo mantido pela ilusão de onipotência. A oportunidade para a ilusão, proporcionada pela mãe, permite ao bebê criar o seu primeiro objeto: o seio.214

Em outra linguagem, o seio é criado pelo bebê repetidas vezes, pela capacidade que tem de amar (pode-se dizer) pela necessidade. Desenvolve- se nele um fenômeno subjetivo, que chamamos de seio da mãe. A mãe coloca o seio real exatamente onde o bebê está pronto para criá-lo e no momento exato.215

Assim, a mãe, através da comunicação apoiada no sentimento de mutualidade, permite, no início da dependência total do bebê, que ele crie e tenha a ilusão de que aquilo que ele encontrou foi criado por ele mesmo, permitindo-lhe ter a ilusão de onipotência.

Está implicada nesta discussão, ainda, a terceira tarefa do cuidado suficientemente bom por parte da mãe: a apresentação de objetos – as tarefas de sustentação (holding) e manejo (handling) também são constituintes importantes dessa fase, mas, por enquanto, nos concentraremos nesta terceira tarefa, que nos leva direto ao tema da criatividade. A apresentação de objetos é a fonte de material para a criação de objetos subjetivos.

No período de adaptação absoluta da mãe, a apresentação de objeto – isto é, o fornecimento de material para a criação dos objetos subjetivos – era feita de tal modo que a realidade externa do objeto não afrontava a realidade do mundo subjetivo.216

Com o passar do tempo, a integração vai se tornando mais consistente e, lentamente, os objetos que são apresentados pela mãe para a formação do mundo subjetivo, pessoal, da criança vão se tornando um objeto do mundo externo. Porém este ainda aparece misturado à área de onipotência. É possível, assim, que o objeto seja assumido como transicional e

213 WINNICOTT, D. W. (1970): Living Creatively.HWSF, p. 41

214 Observação de nota de rodapé feito por Winnicott: “Quando se diz que o primeiro objeto é o seio, a palavra ‘seio’ é utilizada, acredito, para representar tanto a técnica da maternagem quanto seio físico”. In: WINNICOTT, D. W. PR, p. 11.

215 WINNICOTT, D. W. PR, p. 11.

que uma terceira área entre o que é subjetivo e o que é objetivo possa existir. Sobre essa terceira área, comenta Winnicott:

(...) a terceira parte da vida de um ser humano, parte que não podemos ignorar, constitui uma área intermediária da experimentação, para a qual contribuem tanto a realidade interna quanto a vida externa. Trata-se de uma área que não é disputada, porque nenhuma reivindicação é feita em seu nome, exceto que ela exista como lugar de repouso para o indivíduo empenhado na perpétua tarefa humana de manter as realidades internas e externas separadas, ainda que inter-relacionadas.217

Essa terceira área da experimentação humana pode ser chamada, também, de espaço potencial, que existe entre o objeto subjetivo e o objeto objetivamente percebido. Ele se encontra entre o eu e o não-eu do bebê, isto é, “encontra-se na interação entre nada haver se não eu e a existência de objetos e fenômenos situados fora do controle onipotente”.218

É nesse espaço ou terceira área que tem lugar a experiência cultural e, mais do que isso, é onde o brincar tem a sua morada. O brincar, a brincadeira e a criatividade estão intimamente ligados. Brincar é o que, nas palavras de Schiller, nos permite ser humanos:

O homem [Mensch] apenas brinca [spielt], onde ele é no total significado da palavra homem, e ele somente está aí inteiramente enquanto homem, onde ele brinca.219

A brincadeira é, para Winnicott, universal e a capacidade para realizá-la indica saúde. O brincar ajuda no crescimento individual e conduz aos relacionamentos grupais. Na psicoterapia e na psicanálise, aparece como uma forma altamente especializada de comunicação.220

A brincadeira, assim como vista por Winnicott, é uma atividade excitante. Entretanto nem por isso deve-se pensar que o que se faz presente é o predomínio de pulsões (Triebe). Pelo contrário, o brincar se dá na precariedade do interjogo na mente da criança do que é subjetivo e do que é objetivamente percebido. Winnicott assim nos explica:

A brincadeira é extremamente excitante. Compreenda-se que é excitante não primariamente porque os instintos se acham envolvidos; isto está implícito. A importância do brincar é sempre a precariedade do interjogo

217 WINNICOTT, D. W.op. cit. p. 02. 218 Id. ibid. p. 100.

219 Schiller, F. Über die aesthetische Erziehung des Menschen. Apud: Rudnytsky, P. L. Transitional Objects and Potential Spaces. 1993, p. xi.

entre a realidade psíquica pessoal e a experiência de controle de objetos reais.221

Qual é, então, a relação entre o brincar e a criatividade? O brincar é o elemento básico para que qualquer pessoa possa ser criativa e possa utilizar a sua personalidade como algo integral. Brincar é a atividade essencial e originária para se poder-ser: “é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o si-mesmo (self)”.222

Assim, o brincar, a brincadeira e a criatividade se dão no mesmo espaço, que não é nem o espaço objetivo nem o subjetivo, mas sim o seu intermédio. Esse, como já sublinhamos, só é possível de ser alcançado, assim como a capacidade para a criatividade e o brincar, através de uma provisão ambiental suficientemente boa.

Há algo ainda muito importante a ser dito a respeito da criatividade e que não foi explorado por nós. Na sua possibilidade de criar e em sua criatividade, as coisas que o bebê encontra são criadas por ele mesmo.223 Esmiucemos melhor essa idéia que, a princípio, parece sem sentido.

Através da apresentação gradual de objetos por uma mãe suficientemente boa e através da ilusão de onipotência, o bebê tem a “impressão” que o objeto que lhe foi apresentado foi encontrado e criado por ele. Por conseqüência, as coisas do mundo e o próprio mundo são criados de novo por cada novo ser humano, criação que tende a ser esquecida ou guardada, como expressa Marion Milner, em algum lugar secreto da memória:

Os momentos quando o ‘poeta’ original que há em cada um de nós criou o mundo externo para nós mesmos, através do encontro com familiar no infamiliar, são, talvez, esquecidos pela maioria das pessoas; ou, então, eles são guardados em algum lugar secreto da memória porque eles são como se fossem os momentos de visitação de deuses para ser misturados com os pensamentos do cotidiano.224

Ora, nós sabemos que o mundo já estava lá presente quando o bebê nasceu, mas não cabe, segundo Winnicott, tentar fazer com que o lactente se dê conta disso. Logo, estamos diante de um paradoxo. Como resolvê-lo? Novamente, não se deve, de acordo com

221 Id. ibid. p. 47.

222 Id. ibid. p. 54.

223 Cf. WINNICOTT, D. W. HN, p. 111.

224 Milner, Marion. The role of illusion in symbol formation. In: Rudnytsky, P. L. (org). Transitional Objetcts and Potential Spaces. New York: Columbia University Press, 1993, p. 18.

Winnicott, resolvê-lo, mas, sim, simplesmente tolerá-lo e aceitá-lo.225 Sobre essa questão do criar de forma paradoxal, Winnicott esclarece:

O lactente está [becomes] pronto para encontrar o mundo de objetos e idéias, e, na tranqüilidade do seu crescimento de seu aspecto de bebê, a mãe apresenta o mundo para ele. Nesse sentido, através do seu alto grau de adaptação no início, a mãe capacita o bebê a experienciar a onipotência, para que ele possa encontrar realmente o que ele criou, para criar e unir isso que foi criado com o que é real. O resultado é que cada bebê inicia com uma nova criação do mundo.226

Com esta apresentação sobre a criatividade em Winnicott, pretendemos, por um lado, mostrar a complexidade e originalidade das questões que envolvem o tema da criatividade e, por outro lado, fazer notar que esse tema, quando visto pela perspectiva do amadurecimento pessoal, refere-se à questão do estar vivo, estabelece as condições de possibilidade para o poder-ser.227 Nesse caso, poder-ser quer dizer: ter alcançado amadurecimento suficientemente bom para poder brincar, o que implica ter saúde emocional, que, por sua vez, significa continuar a ser de forma contínua, sem ter que reagir a intrusões. A criatividade justamente com o brincar para poder-ser revela um sentido de ser enquanto um si-mesmo unitário, estendido na precariedade do próprio existir.

Para se estabelecer um sentido de ser, faz-se necessário também levar em conta que existe um corpo que é condição necessária para a própria existência.