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Parte I – A teoria da acontecência em Heidegger

3. Acontecência

Para a tematização da noção de acontecência, Heidegger considera o ser-o-aí enquanto o ser inteiro próprio, em relação ao ser para a morte. Esta última é apenas “um fim, que abrange a inteireza do ser-o-aí” (SuZ, p. 373). O nascimento como um outro fim, assim como o “entre” (Zwischen) entre nascimento e morte, necessitam ser tratados, a fim de que a explicação do ser para a morte próprio ou impróprio não permaneça “unilateral” (einseitig). Nesse sentido, deve ser tematizado “o estendimento do ser-o-aí entre nascimento e morte” (idem), para se apresentar qual é a estrutura inteira do ser-o-aí.

Vulgarmente, o “estendimento” (Erstreckung) é entendido como “contexto” (Zusammenhang) da vida. Por isso, segundo Heidegger, trata-se de retomar esse conceito de “contexto” entre nascimento e morte, que ontologicamente ainda está obscuro de modo completo, partindo da temporalidade como sentido do ser da inteireza do ser-o-aí. O “contexto” no sentido vulgar, como contexto da vida (Lebenszusammenhang), é entendido como uma “seqüência de vivências ‘no tempo’” (idem). Por conseqüência, as vivências são entendidas “no agora” como o “real” (wirkliches) simplesmente presente, ficando as vivências do passado subentendidas como o que não é mais real e as do porvir como o que ainda não é real (idem).

Na característica do “contexto”, fica indeterminado existencialmente tanto o si- mesmo persistente como o que é mutável das vivências. Entretanto é objetivo da analítica do ser-o-aí mostrar que este não é uma mera soma de realidades momentâneas (Momentanwirklichkeiten) nem uma via (Strecke) simplesmente dada da vida, a qual pode ser preenchida pelas suas respectivas realidades. Na concepção vulgar de “contexto”, o “entre” nascimento e morte não é procurado fora do homem, mas, sim, com direito, no homem mesmo. Por isso, tomá-lo como algo simplesmente presente (Vorhanden),

intramundano, faz com que “fracasse toda tentativa de oferecer uma característica ontológica do ser ‘entre’ nascimento e morte” (SuZ, p. 374).

O ser-o-aí é aquele que em seu ser se estende (erstreckt) a si mesmo, e que “tem seu próprio ser, desde o princípio, constituído como estendimento” (idem). Nascimento e morte, existencialmente entendidos, estão já de algum modo compreendidos no ser-o-aí e referidos ao ser do ser-o-aí como o ser para a morte lançado, isto é, o ser-o-aí existe

nascencial (gebürtig) e, enquanto tal, também já morre no sentido de ser para a morte. Em conseqüência disso, aponta Heidegger:

Ambos “fim” e seu “entre” são, enquanto o ser-o-aí existe facticamente, unicamente possíveis em função do fundamento do seu ser-o-aí como cuidado. (SuZ, p. 374)

Na unidade do estar-lançado (Geworfenheit) – seja esquecendo-se ou repetindo-se – e da existencialidade – como ser para a morte na fuga ou como precursor –, o ser-o-aí já existe como cuidado para o seu próprio ser com o “entre” entre nascimento e morte:

Na unidade do estar-lançado como ser para a morte que foge e que é precursor “relacionam-se” [hängen] nascimento e morte no ser-o-aí. Enquanto cuidado, o ser-o-aí é o “entre”. (SuZ, p. 374)

O “contexto” do ser-o-aí torna-se esclarecido originariamente a partir da sua movimentação (Bewegtheit). A abertura do “entre” entre nascimento e morte é possível em razão da movimentação específica da existência, que não significa movimento (Bewegung) de um simplesmente presente, mas é determinada a partir da temporalidade ek-stática do ser-o-aí. A movimentação está indicada no estendimento (Erstrecktheit), que é originariamente um caráter ek-stático da temporalidade.318

As ek-stases se estendem e formam, como estendimento (Erstreckung), uma extensão (Erstreckheit) unificada. O ser-o-aí é ek-stático e mantém-se aberto (offen) no “entre” de ambos em razão do caráter do estendimento da temporalidade ek-stática. A movimentação da existência quer dizer “movimentação específica do estender-se estendido” (SuZ, p. 375), a qual possibilita a abertura do “entre” entre nascimento e morte. Heidegger nomeia essa movimentação especifica de “o acontecer do ser-o-aí” (das Geschehen des Daseins) (idem).

A pergunta pelo “contexto de vida” (Lebenszusammenhang) volta-se, assim, originariamente, para a questão ontológica-existencial pelo acontecer (Geschehen) do ser-o- aí. A análise do acontecer conduz à investigação da temporalidade e esta possibilita a movimentação e a continuidade-de-si-mesmo do ser-o-aí e, dessa forma, o seu acontecer. A liberação (Freilegung) da estrutura desse acontecer a partir da temporalidade tem o significado de “alcance da compreensão ontológica da acontecência” (idem).

318 Por não ser a temporalidade em geral um ente, Heidegger concluiu: “ela não é nada, mas sim temporaliza- se”. In: HEIDEGGER, M. GpPh, p. 329.

O que se abre no projeto (Entwurf) da acontecência, Heidegger apreende como “o que já se encontra encoberto na temporalização da temporalidade” (SuZ, p. 376). Sendo assim, pode-se afirmar que o ser-o-aí não é “temporal” (zeitlich), porque “encontra-se na História”. Pelo contrário, o ser-o-aí existe acontecente (geschichtlich) e pode, assim, existir porque é temporal no fundamento do seu ser (idem).

O esclarecimento da acontecência tem de forma metódica o caráter de construção (Konstruktion) fenomenológica. Isto é, o compreender da acontecência é uma construção fenomenológica da acontecência a partir da temporalidade.319 Esta realiza no modo em que a acontecência é “‘deduzida’, puramente, a partir da temporalidade do ser-o-aí” (SuZ, p. 377). Esta “dedução” não significa nem uma dedução lógica nem transcendental, mas sim “uma elaboração concreta da temporalidade” (SuZ, p. 382), isto é, a elaboração da temporalidade como aquela em razão da qual é possível o acontecer do ser-o-aí. A acontecência “deduzida” é assim possibilitada a partir da temporalidade e é apreendida ainda mais concretamente no modo de ser do ser-o-aí. A temporalidade é “condição de possibilidade da acontecência como um modo de ser temporal do ser-o-aí mesmo” (SuZ, p. 19).

O acontecer específico e temporal do ser-o-aí deve ser esclarecido na e a partir da estrutura acontecente (Geschehenstruktur) ontológico-existencial do ser-o-aí.

O “ser-passado” (Vergagensein) do ser-o-aí não significa o puro e simplesmente “ser-desaparecido” (Verschwundensein), mas sim apenas o “não-mais-existir” (nicht-mehr- Existieren). Isto que nós podemos chamar de ser-o-aí não-mais-existente já deve para nós ter sido aberto (“aí”). O ser-o-aí não-mais-existente não é assim “no sentido ontológico passado, mas sim um já-sido-aí (da-gewesen)” (SuZ, p. 380). Nesse sentido, as antiguidades ainda disponíveis encerram “um passado e um caráter histórico com base em sua pertença e tem procedência de um mundo já sido de um ser-o-aí que já-foi-aí” (SuZ, p. 380-1). O “de onde” do caráter histórico (geschichtlich) das antigüidades disponíveis é o mundo já-sido (gewesene).

319 Esta Konstruktion significa o “Projeto” (Entwurf) (SuZ, p. 376), que se realiza originariamente em razão da temporalidade do ser-o-aí como o seu sentido de ser (Seinssinn). Isto é, este projeto realiza-se no modo de uma elaboração concreta da estrutura do acontecer (Geschehenstruktur) do ser-o-aí a partir de sua temporalidade. Para uma investigação metodológica de construção, ver: VON HERMANN, Fr. W. Der

Begriff der Phänomenologie bei Heidegger und Husserl, p. 41-4 e BLUST, F. K. Selbstheit und Zeitlichkeit.

O ser-o-aí não se torna primeiramente histórico (geschichtlich) apenas com o já- sido-aí (Da-gewesenes), isto é, por ele não mais existir, mas sim, ele é histórico como existente fático. Por estar o ser-o-aí, em razão da temporalidade unificada, tornado-futuro- em-se-presentificando (gegenwärtigendes-zukünftigendes) e por sua vez tornando-se-já- sido (gewesenes), ele é em si acontencencial (geschichtlich). Aqui já não significa “acontecencial” (geschichtlich) a propriedade (Eigentlichkeit) da existência ou sua impropriedade. O ser do ser-o-aí “acontecencial” se diferencia segundo o modo de temporalização (Zeitigungsmodus) próprio ou impróprio. Por ser o ser-o-aí em geral já tendo sido e, nesse sentido, histórico, tanto mundo quando intramundano podem ser históricos. Isto é:

Acontecencialmente primeiro (...) é o ser-o-aí. Com efeito, o que vem ao encontro intramundanamente é o histórico secundário, não somente o instrumento disponível à mão em sentido mais amplo, mas também a natureza ambiental enquanto solo “histórico”. (SuZ, p. 381).

A tarefa da análise ontológica existencial é mostrar “um acontecer que determina a existência como acontecente” (SuZ, p. 382). A estrutura do acontecer do ser-o-aí é a acontecência do ser-o-aí. Por “acontecência“ pensa Heidegger: “a constituição do ser do ‘acontecer’ do ser-o-aí enquanto tal” (SuZ, p. 20). Na medida em que o acontecer do ser-o- aí pertence ao caráter ek-stático da temporalidade como o estender-se estendido (erstrecktes Sicherstrecken), então a interpretação da acontecência não é nada outro que “uma elaboração concreta da temporalidade” (SuZ, p. 382).

A decisão precursora desencobriu-se como aquela na qual se funda a temporalidade própria. Nesse sentido, deve ser procurado o acontecer caracterizante da acontecência própria, isto é, o acontecer próprio na decisão precursora. O ser-o-aí projeta-se na decisão precursora sobre o seu poder-ser mais próprio, de modo que ele se assume no seu próprio estar-lançado e transmite-se (sich überliefert) uma possibilidade de existência.

O lançar-se precursor sobre a morte é aquele que garante “somente a inteireza e a propriedade da decisão” (idem). Aí, as possibilidades fáticas abertas da existência não são deduzidas na morte, mas sim na decisão, que é em si o assumir do estar-lançado que traz o abrir (Eröffnen) da situação: “O assumir decidido do ‘aí’ fático e próprio significa o decidir na situação.” (SuZ, p. 382-3)

O “assumir do estar-lançado do si-mesmo no mundo” abre “um horizonte no qual a existência arranca suas possibilidades fáticas” (SuZ, p. 383). Este horizonte é a herança (das Erbe), na qual estão abertas na decisão suas possibilidades fáticas:

A decisão, na qual o ser-o-aí retorna a si mesmo, abre as possibilidades fáticas do existir próprio a partir da herança que ela assume enquanto lançada. (SuZ, p. 383).

A decisão torna-se originariamente segundo sua tendência de ser para o precursor na morte, que está livre “de toda ocasional e ‘provisória’ possibilidade” (SuZ, p. 384). Na finitude (Endlichkeit) da existência, torna-se escolhida a possibilidade da existência do ser- o-aí e, assim, transmite-se o ser-o-aí. Assim, apresenta Heidegger: “A finitude apanhada da existência (...) traz o ser-o-aí à simplicidade do seu destino (Schicksal)”. (idem)

Como destino, pensa Heidegger: “o acontecer originário que se encontra na decisão própria que se transmite, livre para a morte, a si mesma numa possibilidade herdada, mas, igualmente, escolhida” (idem).

O acontecer do transmitir-se de uma possibilidade fática na decisão é destino em seu caráter próprio. O ser-o-aí destinado (schicksalhaft) existe como ser no mundo essencialmente no ser-com (Mit-sein) com os outros. Nesse sentido, o acontecer do ser-o-aí é um acontecer-com (Mitgeschehen), isto é, “envio” (Geschick) (SuZ, p. 384). O acontecer do transmitir-se de uma possibilidade fática na decisão realiza-se, desta forma, na sua estrutura completa como envio destinado do ser-o-aí, que é a origem (Ursprung) ontológico-existencial da História (Geschichte) em sentido acentuado.

O ser-o-aí existente impropriamente compreende a sua história, porém a partir da ocupação. Por estar o ser-o-aí cotidiano disperso na multiplicidade acontecente fáctica, ele deve “recolher-se da dispersão e do descontexto do já ‘sucedido’ (...) desse modo ele deseja chegar a si mesmo” (SuZ, p. 390). Dispersão (Zerstreuung) e descontexto (Unzusammmenhang) são caracterizados pela existência imprópria, a cujo respeito torna-se compreendido “contexto” do ser-o-aí sempre somente como aquele das vivências disponíveis do sujeito. Nesse sentido, tem origem a pergunta pelo “contexto” do ser-o-aí “em geral somente a partir do horizonte de compreensão da acontecência imprópria” (SuZ, p. 390). O horizonte para a pergunta pelo “contexto” do ser-o-aí é “a indecisão que

constitui a essência da descontinuidade do si-mesmo” (idem). A partir desse horizonte, o qual concede somente a pergunta pela unidade do encadeamento de vivências entre nascimento e morte, não é possível ser realizada nenhuma interpretação existencial originária da estrutura do acontecer do ser-o-aí, isto é, sua acontecência.

A questão fundada ontológico-existencialmente pelo “contexto” do ser-o-aí não pergunta pelo contexto da unidade de um encadeamento posterior das vivências vindas (kommenden) uma após a outra (nacheinander), mas sim pelo contexto como o inteiro aberto da possibilidade entre nascimento e morte e pelo modo de ser do descontexto e da dispersão. O perder-se (Verlorenheit) no impessoal (Man) e no historial do mundo (Welt- Geschichtliche) torna-se caracterizado como o da “fuga diante da morte”.

Contrariamente, a decisão precursora, que traz o ser para a morte na existência, é o que realiza ao ser-o-aí sua repetição precursora que se transmite (vorlaufend sichüberlifernde) da herança das possibilidades. Sobre o retornando (zurückkommende) do sido, o ser-o-aí transmite-se (sich überliefert) na repetição das possibilidades já-sidas (gewesene) da sua herança. Com esse transmitir-se e no retorno a partir da inultrapassável possibilidade da morte, “nascimento” e “morte” estão “presos na existência” [in die Existenz eingeholt] (SuZ, p. 391); a existência própria, isto é, a acontecência própria, já alcançou em si nascimento e morte. Nesse sentido, diz-se:

A decisão do si-mesmo contra a descontinuidade da dispersão é em si mesma a continuidade estendida, na qual o ser-o-aí, enquanto destino como nascimento, morte e seu “entre”, mantém-se ‘abrangido’ [einbezogen] na sua existência, de modo que ele está momentaneamente em tal continuidade para o historial do mundo de sua respectiva situação. (SuZ, p. 390-1)

Esta continuidade (Ständigkeit) não é aquela que consiste de um preencher sequencial de “momentos” (Augenblicken), mas “decorre” da continuidade, isto é, “da temporalidade já estendida da repetição de um porvir que já foi sido” (SuZ, p. 391). Na decisão, encontra-se a continuidade existenciária, ou seja, a continuidade encontra-se na abertura própria o ser inteiro do ser-o-aí, a qual se mantém aberta através do momento existencial.

A continuidade da existência, o estendimento (Erstrecktheit) do destino está escondido (verborgen) na queda do ser-o-aí, pois este se presentifica (gegenwärtigt) junto ao seu “hoje” como si mesmo-impessoal (Man-selbst) descontinuamente (unständig). O

impessoal é descontínuo, desvia-se da escolha-de-si-mesmo (selbst-wahl) e não realiza a repetição precursora que se transmite (vorlaufende-sichüberliefernde), qual seja, a acontecência própria. O impessoal é descontínuo, não é propriamente acontecente (geschichtlich) e tem, a partir dessa descontinuidade, o modo de ser da existência imprópria da acontecência imprópria.

Realizado essa árduo caminho através da analítica existencial de Ser e Tempo, trata- se agora de tentar mostrar que essa análise sobre o ser-o-aí, enquanto ser acontecente, encontra ressonâncias no pensamento psicanalítico de Winnicott.