Parte I – A teoria da acontecência em Heidegger
2. Analítica do ser-o-aí
2.1. A essência do homem
2.1.4. Angústia e Temporalidade
A angústia traz o ser-o-aí diante do seu estar-lançado. Mas diferente do temor, a angústia traz o ser-o-aí própria e desencobridoramente diante do seu estar-lançado mais próprio e desencobre “a estranheza (Unheimlichkeit) do ser-no-mundo familiar do cotidiano” (SuZ, p. 342). O “diante do quê” da angústia é ao mesmo tempo o “pelo quê” da angústia, isto é, o ser-no-mundo. O seu caráter negativo tem, contudo, em si, um momento positivo. Na medida em que o nada (Nichts) do mundo aberto na angústia desencobre a nadidade do ocupável (Besorgbaren), desencobre-se também a impossibilidade de lançar-se num poder-ser fundido primeiramente num ocupado (Bersogten). O desencobrir dessa impossibilidade é em si “um deixar-brilhar (Aufleuchten-lassen) da possibilidade de um poder-ser próprio” (SuZ, p. 343).
Como tal a temporalidade da angústia pode abrir o sido aí (das gewesene Da) do mundo e compreender o ser-o-aí como um sido (gewesene) ser-no-mundo.
Ressaltemos, agora, o modo temporal da angústia do ser aberto para o poder-ser mais próprio. A angústia se angustia pelo ser-o-aí lançado na estranheza. Neste angustiar- se, ela traz de volta o ser-o-aí ao seu puro quê (Daß) do estar-lançado mais próprio e singularizado. Embora esse trazer de volta (Zurückbringen) tenha o caráter do esquecer desviante do presente, ele “já não é um assumir que se repete da existência na decisão” (idem). Por sua vez, a angústia traz de volta apenas “o estar-lançado como repetição possível” (idem). No modo do trazer de volta no estar-lançado possível e repetível (wiederholbar), a angústia desencobre “a possibilidade de um poder-ser próprio que deve retornar na repetição315 [Wiederholen] como futuro em relação ao já sido aí” (idem). O “trazer diante da repetição” é justamente “a disposição do modo ek-stático específico do passado próprio constituinte da angústia” (idem). O passado em sentido próprio (Gewesenheit) da angústia é o trazer de volta sobre o estar-lançado, que agora se descobre como repetível. Diferente da presentificação (Gegenwärtigen) não mantida do temor, o
315 Wiederholen em Heidegger apresenta dois sentidos: 1) zurückholen, ou seja, buscar algo e trazê-lo novamente para o lugar ao qual pertencia e 2) wiederholen no sentido de escolher (wählen) novamente. Para mais detalhes sobre esses dois diferentes significados, ver: BLUST, F. K. Selbstheit und Zeitlichkeit, p. 317 seg; e HEINZ, M. Zeitlichkeit und Temporalität, p. 150 seg.
presente (Gegenwart) da angústia é “mantido no trazer-se-de-volta no estar-lançado mais próprio” (SuZ, p. 344).
No fato de que a angústia se apóia “a partir do ser-no-mundo como ser para a morte lançado” (idem), encontra-se a primazia do estar-lançado para o fenômeno da angústia. Heidegger designa este do seguinte modo:
O futuro e o presente da angústia temporalizam-se a partir de um já ter sido originário no sentido de um trazer de volta na repetição. Com efeito, a angústia só pode elevar-se em um ser-o-aí decidido. (idem)
O caráter temporal da angústia e do temor como caracteres constituintes do ser-o-aí só são possíveis enquanto o ser é ser-no-mundo. Deve-se compreender, então, o que significa mundo nesse contexto.
Mundo316 quer dizer, como conceito existencial-ontológico da mundanidade (Weltlichkeit), o que se encontra na significância (Bedeutsamkeit). Esta, por sua vez, quer dizer o contexto das referências significantes do “em função de que” (Worum-willen), do “a fim de que” (Um-zu), do “para que” (Dazu), “do junto a” (Wobei), do “junto com” (Womit):
O “em função de que” significa um “a fim de”, esse um “para que”, que, por sua vez, significa um “junto a” do deixar ficar, esse um “estar com” da conjuntura (...) o inteiro referencial desses significados nomeamos de significância. Ela é o que constitui a estrutura do mundo de onde o ser-o-aí enquanto tal a cada vez já é. (SuZ, p. 87)
Na medida em que o ser-o-aí existe fático como um estar-lançado, ele se compreende no contexto do “em função de”, com um respectivo “a fim de”. A unidade da significância, no interior do qual o ser-o-aí existente se compreende, já está aberta como o existente do ser-o-aí como “aí” (Da).
Esse mundo “existe” como o abrir-se com (miterschlossene) na abertura do “aí”. Por ser o compreender-se do ser-o-aí o compreender de seu si mesmo como ser-no-mundo,
316 A palavra “mundo” (Welt), em seus diferentes usos, é ambígua: como conceito ôntico, “Welt” significa o todo dos entes; como conceito ontológico significa a região do ente que tem o seu próprio modo de ser (Seinsart), como conceito ôntico-existenciário o “mundo-nosso” (Wir-Welt) público ou o “ambiente” (Umwelt). Heidegger diferencia o conceito de mundo ontológico-existencial como “mundanidade” (Weltlichkeit). Este “pode ser modificado, a cada vez, na completa estrutura de ‘mundos’ particulares, mas inclui em si o a priori da mundanidade em geral” (SuZ, p. 65). O que a mudanidade constitui é a significância (Bedeutsamkeit).
mundo está aberto-com na abertura do “aí”. Isto é, “quando não existe ser-o-aí, também não existe mundo ‘aí’” (SuZ, p. 365). Mundo é a condição de possibilidade para o vir ao encontro do ente e possibilita o vir ao encontro dos entes intramundanos.
Os referências de significados que determinam a estrutura do mundo não são “um entrelaçamento [Netzwerk] de formas que é lançado sobre um material por um sujeito sem mundo [weltloses Subjekt]” (SuZ, p. 366), mas sim constitui-se de uma significância, conseqüentemente, de referência de sentido (Sinnbezüge).
Na medida em que a abertura do “aí” funda-se na temporalidade, a constituição ontológica do mundo no “aí” co-aberto (miterschlossenen) deve fundar-se da mesma maneira na temporalidade. Na medida em que o mundo mesmo sempre permanece como uma abertura, ele deve ter um horizonte transcendental e este só é possível porque a temporalidade forma um horizonte: “A condição temporal-existencial de possibilidade do mundo consiste em que a temporalidade, enquanto unidade ekstática, possui algo como um horizonte.” (SuZ, p. 365). Estando o mundo aberto no horizonte da temporalidade, deve-se saber qual é a forma que se tem de acesso às coisas do mundo e esse modo é instrumental, isto é, dá-se através do trato que temos com as coisas.