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Parte I – A teoria da acontecência em Heidegger

2. Analítica do ser-o-aí

2.1. A essência do homem

2.1.2. Morte e o poder-ser-inteiro

O inteiro significa ôntico-existenciariamente “o ser entre nascimento e morte” (SuZ, p. 233). Em que medida pode existir o ser-o-aí, que é originariamente o poder-ser, como um poder-ser-inteiro? Primeiramente, parece ser impossível uma apreensão ontológica e uma determinação do ser-inteiro (Ganzsein) do ser-o-aí. Pois o antecipar-se (Sich-vorweg) como primeiro momento do cuidado contradiz abertamente um possível ser-inteiro deste ente. Por um lado, o antecipar-se significa “uma inacababilidade constante” (eine ständige Unabgeschlossenheit) (SuZ, p. 236) e, por outro, o alcançar do “inteiro” (Ganze), isto é, a morte (Tod), para o ser-o-aí já significa o “não-ser-mais-aí” (Nicht-mehr-da-sein) (SuZ, p. 236). Portanto a impossibilidade de uma apreensão ontológica do ser-inteiro do ser-o-aí não se encontra em uma imperfeição (Unvollkommenheit) da capacidade de conhecimento, mas sim no caráter do ser do ser-o-aí mesmo. Todavia, para Heidegger, não se trata de uma categoria ôntica, mas sim de um sentido ontológico-existencial da morte e da possibilidade existencial do desencobrimento (Enthüllung) do ser-inteiro do ser-o-aí. Para Heidegger, “vale extrair o sentido existencial do chegar-ao-fim (Zu-Ende-kommen) do ser-o-aí nele mesmo e mostrar como tal ‘findar’ pode constituir o ser-inteiro do ente que existe.” (SuZ, p. 344)

A morte constitui com o fim (Ende) o ser inteiro do ser-o-aí. Este fim “limita e determina a cada vez a inteireza possível do ser-o-aí” (SuZ, p. 234). Assim, o ser-inteiro do ser-o-aí realiza-se no “chegar-ao-fim do ser-o-aí na morte” (SuZ, p. 311).

A morte, portanto, é uma possibilidade de ser do ser-o-aí. E como tal ela pertence ao ser do ser-o-aí.311 Trata-se do relacionar-se do ser-o-aí para com a morte, da análise existencial-ontológica da morte sozinha, isto é, trata-se do ser para a morte: “A morte é um modo de ser que assume o ser-o-aí, enquanto ele é” (SuZ, p.247). A morte encontra-se no interior do ser do ser-o-aí, está aberta ao ser-o-aí e “existe” no modo de ser do ser-o-aí como um ser para a morte: “O ser-o-aí (...) é a morte apenas em um ser para a morte existenciário” (SuZ, p. 234).

O sentido existencial da morte, isto é, o que a morte possibilita no modo da abertura como morte, é o ser para a morte. Na medida em que a morte é um fenômeno do ser-o-aí, pode-se desencobrir a sua estrutura existencial ontológica a partir da constituição

311 “A morte não é uma parte faltante de um todo como se fosse um composto, mas, sim, ela constitui já de antemão a inteireza do ser-o-aí” (Prol. 432).

fundamental do ser-o-aí. A morte já está sempre aberta ao ser-o-aí em sua existência e, precisamente, como “uma possibilidade de ser que assume, a cada vez, o ser-o-aí mesmo” (SuZ, p. 250). A morte como uma possibilidade do ser é “a mais própria, irremissível, inultrapassável” (idem). Como tal, ela nem é um simplesmente presente (Vorhanden) nem um estado (Zustand), mas sim “um eminente privilegiado” (SuZ, p. 250-1).312 A possibilidade existencial da morte como um eminente (Bevorstand) encontra-se somente na existência do ser-o-aí como ser-antecipando-se.

Na medida em que o ser para a morte é possível, em razão do antecipar-se como um momento estrutural do cuidado, o ser para a morte pertence ao cuidado. Na medida em que o ser-o-aí existe, ele está lançado na morte com sua possibilidade mais própria. A morte está “entregue” (überantwortet) (SuZ, p. 251) a si mesma como uma possibilidade de ser do ser-o-aí. O ser-entregue-à-morte, isto é, “o estar-lançado na morte” (idem), é a facticidade do ser-o-aí. O estar-lançado (Geworfenheit) na morte desencobre-se como tal na disposição da angústia. Primeiramente e no mais das vezes (Zunächst und zumeist) o ser-o-aí revela-se no “junto a...” (Sein bei...) decaído também já sempre no “mundo” da ocupação (Besorgen). No modo da queda, ele foge já sempre “da estranheza [Unheimlichkeit], isto é, do ser para a morte mais próprio” (SuZ, p. 252). Nesse sentido, torna-se caracterizado o ser para a morte através da existência, facticidade e queda. Estes são os constitutivos para o ser para a morte que, por sua vez, funda a sua possibilidade ontológica no cuidado.

O ser para a morte pertence originariamente ao cuidado. Ele se mostra também na cotidianidade como “a concreção (Konkretion) mais próxima do ser-o-aí” (SuZ, p. 252). Heidegger apresenta a interpretação mediana e pública na seguinte frase: “a gente morre uma hora dessas, mas, por enquanto, ainda não [man stirbt auch einmal, aber vorläufig noch nicht]” (SuZ, p. 255). No uso da língua alemã “também uma hora” (auch einmal) expressa a certeza da morte. O impessoal coloca-se junto à morte como “um fato da inegável experiência” (SuZ, p. 257), mas não possibilita a morte certa em sua existência no sentido de um assumir e de um abrir próprio, como o que se encontra na certeza empírica. O estar-certo (Gewißsein) significa outra coisa que a certeza empírica. Como tal, ele não é mensurável numa certeza empírica, mas, sim, depende de saber se o ser-o-aí abre

312 “A morte não é algo que ainda está por vir ao ser-o-aí, mas sim se coloca frente ao ser-o-aí, é eminente, no seu ser e, precisamente, coloca-se a sua frente constantemente, enquanto existe o ser-o-aí” (Prol. 432).

existenciária e antecipadamente a morte e se ele se mantém nessa abertura. O ser-o-aí cotidiano, que é no modo da queda, “conhece a certeza da morte e, contudo, desvia-se do estar-certo disso” (SuZ, p. 258). Através de tal desvio diante da morte certa, testemunha-se fenomenalmente que a morte está aberta ao ser-o-aí já como possibilidade certa, mesmo quando este é impróprio.

No outro uso da palavra “por enquanto ainda não” (vorläufig noch nicht), manifesta- se a tentativa do ser-o-aí cotidiano, como uma determinação de um indeterminado, quando da morte, de manter afastada a morte enquanto um acontecimento provisório e ainda-não. O cotidiano ser para a morte desvia-se da indeterminação do quando da morte de maneira paradoxal, de modo que proporciona a sua determinação (idem), através da qual o impessoal desvia-se daquela indeterminação que é possível para a morte a todo o momento. Através desse desvio, torna-se fenomenalmente testemunhado que a morte está aberta ao ser-o-aí, mesmo quando imprópria, como possibilidade indeterminada.

No cotidiano, o ser-o-aí comporta-se impropriamente (uneigentlich) em relação à morte. Através da interpretação do discurso cotidiano do impessoal sobre a morte, desencobre-se a certeza e a indeterminação da morte. Nesse sentido, desencobre-se também a morte em seu completo caráter ontológico-existencial, como a possibilidade mais própria, irremissível, inultrapassável, certa e indeterminada do ser-o-aí (SuZ, p. 258-9). O desvio na cotidianidade decaída (verfallende) diante da morte é um ser-para-a-morte impróprio, que forma uma possibilidade essencial da existência.

Vimos acima que o ser-o-aí existe na cotidianidade impropriamente como um ser para a morte. Como pode, então, ser caracterizado o ser para a morte propriamente? Este só pode ser concebido através da modificação do ser para a morte impróprio. Facticamente, mantém-se o ser-o-aí cotidiano em uma impropriedade do ser para a morte, desvia-se diante da sua possibilidade mais própria e encobre-se. O ser para a morte próprio deve, ao contrário, ser a não-fuga e não-encobrimento do ser para a morte:

O ser para a morte propriamente não pode escapar diante da sua possibilidade mais própria e irremissível e não pode encobri-la nesta fuga e não pode mudar de sentido em favor do entendimento do impessoal. (SuZ, p. 260)

O ser para a morte caracteriza o relacionar-se do ser-o-aí com a sua possibilidade mais própria. Como tal não significa o ser para a morte propriamente um “levar em conta

um algo possível como um ocupar-se de sua realização” (SuZ, p. 261), pois a morte como possível não é um possível disponível à mão (Zuhanden) ou um algo simplesmente presente (Vorhanden), mas sim uma possibilidade de ser mais própria do ser-o-aí. Assim, ser para a morte é um “manter-se junto ao fim em sua possibilidade” (idem) no sentido de um meditar (Grübeln) sobre a morte, uma vez que tal comportamento (Verhalten) é pensado somente em consideração à “realização” (Verwirklichung), ou seja, quando e como a possibilidade poderia se realizar. Um tal ser para a morte não é uma expectativa (Erwartung) ou um esperar por um possível, mas sim um comportar-se em relação à possibilidade de ser mais própria e precisamente no modo do seu desencobrimento como uma tal possibilidade:

O ser para a sua possibilidade como ser para a morte deve comportar-se, com efeito, para consigo mesmo de modo que ela [a morte] se desencubra neste ser e se desencubra para ele [o ser] como possibilidade. (SuZ, p. 262). Heidegger nomeia o comportar-se em função de uma possibilidade como precursor (Vorlaufen).313 Ele entende tal ser para a morte como a possibilidade “do precursor na possibilidade” (SuZ, p. 267), conseqüentemente, como “precursor para a morte” (idem). Esse precursor significa trazer-se-de-volta (sichzurückholend), ou seja, é um contra- movimento de escolher-se (sichwählend) em relação à fuga diante da morte.314 Como um tal contra-movimento, o precursor permite, sobretudo, a possibilidade mais própria e mais externa ao ser-o-aí de compreender-se a partir desta e, com isso, existir propriamente. Nesse sentido, o precursor é a possibilitação, isto é, “a possibilidade de compreensão do poder-ser mais próprio e mais extremo, i.e., a possibilidade da existência no sentido próprio”. (SuZ, p. 263). Heidegger determina o precursor do ser para a morte como segue:

O precursor desencobre para o ser-o-aí o estar perdido no impessoal mesmo e o traz diante da possibilidade de ele ser próprio, porém não primeiramente sustentado sobre uma preocupação ocupada, mas sim no arrebatamento apaixonado e fático, desprendido das ilusões do impessoal, de sua liberdade própria para a morte certa que se angustia. (SuZ, p. 266)

A morte é uma possibilidade sempre já diante de nós e, nessa medida, traz consigo a angústia de um diante de... Essa possibilidade se abre enquanto um precursor que remete

313 “(...) o ser não deve fazer valer sua possibilidade, a qual deve permanecer o que ela é, isto é, um precursor como algo presente, mas, sim, deve deixar ela estar como possibilidade e assim para com ela ser” (Prol, p. 439). “O ser para a morte como precursor na possibilidade possibilita, em primeiro lugar, esta possibilidade e a faz livre enquanto tal” (SuZ, p. 262).

314 “O precursor para a morte em todo momento do ser-o-aí significa o trazer-se-de-volta do ser-o-aí do impessoal no sentido de escolher-a-si-mesmo” (Prol, p.440).

aos fenômenos temporais de algo futuro – a possibilidade vindoura e sempre ameaçante e ameaçadora de minha própria morte –, de um retorno ao passado, podendo se ser livre para escolher suas possibilidades mais próprias diante do fato da finitude aberta pela morte. Deste modo, abre a fruição do presente a partir do momento a ser vivido agora, já que a morte é o eminente ameaçador. Por conseqüência, o que se percebe é que estamos envolvidos em uma questão temporal. Passemos à sua investigação.