OS IMPASSES DA HEGEMONIA DOS ESTADOS OS IMPASSES DA HEGEMONIA DOS ESTADOS
2- A crise de hegemonia e seus fundamentos empíricos
Afirmamos que ingressamos num novo ciclo de Kondratiev, que se estabelece nos Estados Unidos a partir de 1994 e se estende à economia mundial. Essa é uma afirmativa que contraria diversos autores. Alguns veem uma longa depressão na economia mundial, que se estabelece desde fins dos anos 1960, por causa do au- mento da competição internacional entre os Estados nacionais e da consequente
superprodução crônica (Brenner, 1998 e 2002). Outro ponto de vista, de maior alcance, converge na descrição de uma longa depressão, mas atribui suas causas a outras razões: à instauração, desde 1979, de um novo regime de acumulação mundial financeirizado (Chesnais, 1996 e 1998; Fiori e Tavares, 1993 e 1997; Fiori, 1999; Fiori e Medeiros, 2001; e Strange, 1986).
Não negamos a elevação da competitividade na economia mundial e a tendên- cia à superprodução que derivam em última instância da crise de hegemonia dos Estados Unidos. Elas dão lugar à formação de uma bolha financeira na economia mundial, que tem em parte sua origem na necessidade de financiamento do balan- ço de pagamentos estadunidense. Essa bolha também se forma pela necessidade de transformar a mais-valia extraordinária em lucro extraordinário o que, com o avanço das tendências seculares da acumulação capitalista, exige o apelo crescente à riqueza fictícia e a intervenção do Estado para viabilizá-la, sendo os Estados Unidos, como potência hegemônica, o epicentro da formação dessa riqueza. A bolha financeira funciona como um motor para alavancar a expansão da econo- mia mundial, mas provoca importantes contradições: o aumento da dívida pública desse país, a diminuição de sua taxa de poupança, o recurso à superexploração do trabalho e à crescente exportação de capitais para formação de lucros em regiões capazes de oferecer uma relação entre preço e valor da força de trabalho mais van- tajosa para a acumulação de suas empresas.
Desde 1994, entretanto, o aumento da competitividade e essa bolha se combi- nam com a retomada do crescimento econômico, o restabelecimento da taxa lucro e a sua liderança sobre os juros no processo de acumulação. Que elementos temos para fazer essa afirmação? Tomemos dois indicadores: a taxa de crescimento do PIB per capita, principal indicador das fases do Kondratiev, e a taxa de lucro140, seu
principal determinante.
Se observarmos esses indicadores nos Estados Unidos, perceberemos clara- mente o desenho dos Kondratievs. Entre 1938 e 1966, o crescimento per capita alcança 3%. Nesse intervalo, somente possuímos dados para a taxa de lucro entre 1959 e 1966, quando ela atinge o índice médio de 10,3%. Mas a alta convergência entre as taxas de crescimento per capita entre 1938 e 1966 e 1959 e 1966 nos per- mite supor uma taxa de lucro muito semelhante para esses intervalos. Entre 1967 e 1993, a taxa de lucro cai 35% e o crescimento per capita se reduz em 33%, em relação ao obtido na fase anterior. É um período em que a dívida pública tem uma
140 A taxa de lucro corresponde à percentagem representada pelos lucros em relação ao produto
bruto das corporações não financeiras. Em relação aos lucros, tomamos como referência seu valor após os impostos e o ajuste às variações de estoque e de consumo de capital fixo. No que se refere ao produto bruto, tomamos em consideração o seu valor, uma vez descontados os lucros do período.
expansão muito superior ao PIB, indicando a força dos juros na economia estadu- nidense e a reorientação da acumulação para a hegemonia financeira. A partir de 1993, o quadro se altera novamente. A taxa de lucro se elevou abruptamente e se consolidou num intervalo de seis anos, fato inexistente em 25 anos. Entre 1994 e 1999, ela alcança a média de 8,7%, com o pico de 9,8% em 1997. Esse movimento da taxa de lucro foi suficiente para alavancar o crescimento anual da renda per capita: esta atinge 2,9%, entre 1994 e 2000, índice 45% superior ao da fase B do Kondratiev (ver gráficos 4.1 e 4.2 ).
GRÁFICO 4.1 – Taxa de lucro: EUA
Fonte: Economic Report of The President (2010) e Economic Indicators (2010). Em 2010, contabiliza-se o primeiro trimestre.
GRÁFICO 4.2 – Taxa de lucro: EUA
Não possuímos dados sobre a taxa de lucro para a economia mundial. Mas os índices de crescimento per capita são ainda mais evidentes, por razões metodoló- gicas que detalharemos adiante, e nos permitem fundamentar com clareza nossas observações. A economia mundial experimentou, a partir do entreguerras, uma fase A do Kondratiev bastante longa. Ela começa em fins dos anos 1930 e é im- pulsionada pela expansão da hegemonia dos Estados Unidos. Dura 35 anos, com um crescimento per capita de 2,3%141. Sua fase dourada, entre o pós-guerra e 1973, apresenta um crescimento per capita de 2,9%. Entre 1974 e 1993, se desenvolve a fase descendente do Kondratiev. Nesse intervalo o crescimento per capita cai 48% e atinge 1,2% a.a. Uma nova inflexão ocorre entre 1994 e 2000. A renda per capita retoma sua expansão acelerada, alcançando o índice de 2,2%, e sinaliza a emer- gência do novo Kondratiev. Esse movimento se acentua durante o desdobramento da subfase de prosperidade e atinge 2,6% entre 1994 e 2008, índice que deverá ser ajustado para baixo com os impactos da crise de transição para a maturidade que se abre 2008 (ver gráfico 4.3).
GRÁFICO 4.3 – Crescimento do PIB per capita da economia mundial (%)
Fonte: Groningen Growth and Development Centre (2010).
A segunda tese que afirmamos foi a de que sobre esse novo Kondratiev que emerge incide o movimento descendente do ciclo sistêmico estadunidense. Uma
141 A fase A do Kondratiev do pós-guerra é mais extensa para a economia mundial do que para os
Estados Unidos. Estende-se de 1939 a 1973. Para os Estados Unidos, ela se encerra em 1967, como indica a brusca queda de sua taxa lucro que se inicia, sinalizando o deslocamento do dinamismo da economia mundial para outras regiões.
consequência dessa afirmação é que os Estados Unidos perderão a liderança do crescimento econômico mundial e provavelmente se expandirão em taxas infe- riores às da economia mundial ao longo desse período. Outra consequência é que esse Kondratiev deverá ter uma fase de expansão mais curta e menos expressiva em relação àquela do Kondratiev anterior, sobretudo na zona sob hegemonia da potência decadente, atuando a região ascendente como uma força amortizadora dessa tendência para a economia mundial.
Alguns autores contestam a assertiva de que os Estados Unidos estão perdendo sua posição hegemônica na economia mundial. Assinalam como sinal da reto- mada de sua hegemonia, a conversão do dólar em moeda mundial que financia, a partir dos anos 1980, a sua recuperação econômica. Os mais apressados afirmam que os Estados Unidos não só teriam recuperado a sua condição de potência eco- nômica e financeira, mas estariam se aproximando da condição de império.
A teoria do sistema mundial assinala que, para se analisar com cuidado essa conjuntura, é preciso resgatar a história como premissa metodológica. Em Caos e governabilidade no moderno sistema mundial (1999), Giovanni Arrighi e Be- verly Silver sustentam que a partir da longa duração podemos identificar, nos ciclos do moderno sistema mundial, padrões de repetição e evolução que nos ajudam a compreender a natureza das transformações que vivemos e as suas consequências futuras. Quando se deterioram as bases produtivas e comerciais de uma hegemonia, a potência dominante busca manter-se na liderança, de- senvolvendo um regime financeiro de acumulação. Ela utiliza o seu controle das altas finanças para, num ambiente competitivo e de disputa pelo capital circulante, drenar recursos da economia mundial e financiar seu crescimento econômico. Entretanto, ela não pode resistir à competição econômica das no- vas configurações de poder e ao desgaste ideológico de tornar-se um travão da economia mundial.
Tomemos em consideração o caso britânico. Sabemos do esgotamento da con- dição hegemônica desse Estado entre 1870 e 1913. Entretanto, essa decadência não se deu de maneira regular e uniforme. Por dezessste anos, isto é, entre 1880 e 1896, a Grã-Bretanha reverteu a perda de poder relativo que se iniciou nos anos 1870. Na década de 1870, a economia britânica aumentou o PIB per capita em 0,9%, enquanto os Estados Unidos o fizeram em 2,7%. Já nos dezessete anos de regime de acumulação financeira, a Grã-Bretanha cresceu acima da média mundial e da economia dos Estados Unidos. Seu PIB per capita se expandiu em 1,4%, contra os 1,1% obtidos pelos Estados Unidos e pela economia mundial. No entanto, a fase A do novo Kondratiev, que se inicia em 1897, derrota de vez a economia britânica. Reaparecem os valores da década de 1870. A economia britânica tem um desem-
penho medíocre, muito abaixo ao da economia mundial e ao dos Estados Unidos (ver gráficos 4.4 e 4.5).
GRÁFICO 4.4 – PIB per capita: EUA e Grã-Bretanha (1870-1913)
Fonte: Maddison (1997).
GRÁFICO 4.5 – Variação anual do PIB per capita da economia mundial (1870-1913)
Fonte: Maddison (1997)
Podemos traçar um cenário semelhante para a economia dos Estados Unidos a partir dos últimos trinta anos. Entre 1967 e 1982, os Estados Unidos crescem abaixo da média da economia mundial. Entre 1983 e 2000, retomam a dianteira (ver gráfico 4.6). Mas por quanto tempo?
GRÁFICO 4.6 – PIB per capita EUA/mundo (1967-2008)
Fonte: Economic Report of The President (2010).
Tal como a Inglaterra entre 1880 e 1896, a vinculação dos Estados Unidos à financeirização, entre 1983 e 2000 lhes permitiu retomar sua projeção sobre a eco- nomia mundial, mas não lhes devolveu a liderança no crescimento econômico. Embora no período de sua financeirização a Inglaterra ultrapasse provisoriamente os Estados Unidos, permanece secundada pela Alemanha no dinamismo econô- mico, que expande seu PIB per capita, nesse intervalo, em 1,8%. Já no período recente, os Estados Unidos ultrapassam o Japão, mas não conseguem fazer o mes- mo com o conjunto do Leste Asiático, que permanece à sua frente, impulsionado principalmente pelo dinamismo econômico da China e da Índia (ver gráfico 4.7).
GRÁFICO 4.7 – PIB per capita (1983-2000)
Na base dessa estratégia da tendência de reversão do declínio hegemônico, que havia se afirmado entre 1967 e 1982, esteve a valorização do câmbio e a liberali- zação comercial e dos investimentos. O governo e a burguesia norte-americanos capturaram parte significativa da liquidez internacional através da valorização dos seus ativos para realizar investimentos e impulsionar o crescimento. Ao mesmo tempo, por meio da concorrência, buscavam com maior ou menor agressividade se desfazer dos setores decadentes de sua economia. Nos anos 1980, essa estratégia utilizou como instrumento de captação a dívida pública, mas encontrou um limite em sua brutal expansão que ameaçou a previdência social e ao welfare state. Nos anos 1990, a estratégia se articulou à reestruturação e expansão do setor produtivo, mas já em 1998 dava evidentes sinais de exaustão.
A aparente solidez da estratégia de crescimento dos Estados Unidos apresentou grandes desequilíbrios. Um deles, como mencionamos, é o déficit comercial. Ele era a contrapartida da captura da liquidez internacional e significava que o grande capital norte-americano havia perdido a aposta, sobretudo para o Leste Asiático, na reconquista da competitividade mediante a concorrência. Entre 1979 e 1987, esse déficit se expande à taxa de 24,5% a.a.
Nesse período, a captação de poupança externa era realizada principalmente por instrumentos financeiros que elevavam os juros e dificultavam os investimen- tos; e esses, por sua vez, concentraram-se no setor militar, que, baseado no segredo e em hierarquias, revelava-se obsoleto para liderar o paradigma microeletrônico. Entre 1990 e 1993, a contenção dos gastos militares e a redução dos juros e do custo da hora de trabalho, possibilitada pela recessão do início da década, elevam a taxa de lucro, permitindo que o setor produtivo e a bolsa de valores fossem os instrumentos de captação de recursos externos. A crise de 1990-1991 e o financia- mento externo à guerra do golfo produzem certo alívio no balanço de pagamen- tos. Mas a volta do crescimento pressiona novamente o déficit. Entre 1992 e 2000, o rombo na balança comercial cresce 21,3% a.a., até atingir 3,8% do PIB (Council of Economic Advisers, 2008). Em 2001-2002, a economia desacelera para uma situação de crise e estagnação.
A análise da crise de 2001-2002 nos permite lançar luz sobre as contradições do modelo de desenvolvimento com que os Estados Unidos ingressam na fase A do novo Kondratiev. Os principais determinantes da crise estadunidense foram o déficit comercial e o aumento de salários que o crescimento acelerado provoca. Vejamos isso em detalhe.
A deterioração do poder comercial e produtivo dos Estados Unidos provoca a tendência a déficits comerciais e na conta corrente (ver gráfico 4.8). Essa tendência é impulsionada pela resistência da burguesia norte-americana em aceitar a perda de seu poder relativo. Ela prefere manter o dólar sobrevalorizado e financiar os
déficits em conta corrente através do financiamento externo. Nos anos 1980, como vimos, esse financiamento foi obtido através da dívida pública. Nos anos 1990, o financiamento se dirigiu ao setor produtivo por meio de fusões, aquisições e in- dexação da bolsa de valores. Entretanto, o déficit cresceu mais do que a massa de lucros, ameaçando a sustentabilidade do ingresso de divisas, já que a capacidade do setor produtivo para absorver essa massa de capitais era limitada. Para manter sob controle essa ameaça, buscou-se a valorização dos ativos através de um novo movimento de elevação do câmbio, que se inicia em 1996, utilizando-se para isso as taxas de juros. Esse movimento era contraditório: de um lado, manteve proviso- riamente o fluxo de capitais ao setor produtivo por meio de mecanismos especula- tivos, de outro lado, contribuiu para limitar o desenvolvimento da taxa de lucro142.
GRÁFICO 4.8 – Déficit comercial: EUA
Fonte: Cálculos do autor a partir do Economic Report of The President (2010). Déficit comercial em bens e serviços.
O dólar sobrevalorizado tornou a economia dos Estados Unidos altamente sen- sível à concorrência externa143. Os resultados foram baixas taxas de inflação, prin-
142 Esse é um dos fatores que explica porque a taxa de lucro, durante esse período de crescimento,
embora entre num novo patamar, não recupera os seus níveis dos anos de expansão do pós-guerra. Entre 1959 e 1966, os juros deduziram 1,4% do produto das corporações não financeiras, enquanto no período 1994 a 1999, reduziram 2,8% deste (Council of Economic Advisers, 2003). Entre 1994 e 2007 a taxa de lucro média dessas corporações estadunidenses é de 8,2%.
143 Robert Brenner (1998 e 2002) põe bastante ênfase nesse ponto, embora discordemos de suas
conclusões, que apontam para a longa depressão que estaria se abatendo sobre a economia estaduni- dense e a economia mundial desde o fim dos anos 1960.
cipalmente ao produtor, e a redução da margem de negociação frente às pressões salariais (ver gráfico 4.9). Nesse contexto, os setores de ponta da economia estadu- nidense, não podem acomodar a elevação salarial mediante o aumento de preços. Isso representa um enorme obstáculo à expansão da economia daquele país. Apesar dos salários médios nos Estados Unidos, a partir de 1979, caírem a níveis inferiores aos de 1962, o seu incremento desde 1996, provocou uma queda de 29,5% na taxa de lucro entre 1997 e 2001, causando a crise de 2001-2002144.
GRAFICO 4.9 – Taxas de inflação ao produtor nos EUA (%)
Fonte : Economic Report of the President (2010).
Dentro desse padrão de desenvolvimento, a economia estadunidense não mais funciona a médio e longo prazo com altas taxas de crescimento. Exposta à con- corrência externa, não poderá acomodar a tendência ao aumento salarial que a redução do desemprego proporciona sem afetar significativamente a taxa de lu- cro. Para retomar o crescimento, os Estados Unidos aumentaram o desemprego e contiveram a expansão de salários (ver gráfico 4.10)145. Trata-se de um formidável
obstáculo, que permanecerá atuando sobre seu desenvolvimento enquanto a sua burguesia não aceitar um substancial reajuste do valor de suas riquezas em relação
144 Cálculos do autor a partir do Economic Report of the President (2010).
145 A recuperação econômica dos Estados Unidos entre 2003 e 2007 se associa à elevação do desem-
prego, contenção salarial e expansão da pobreza. O desemprego salta de 4% a 6% em 2000-2003 e cai para 4,5% em 2007; o salário semanal e por hora estagnam, caem levemente e sobem suavemente em 2007, véspera da crise de 2008; a pobreza, por sua vez, cresce de 11,3% em 2000 para 12,5% em 2003, situando-se nesse patamar durante o período.
às da economia mundial (ver gráfico 4.11)146. Tais políticas públicas foram imple-
mentadas pelo governo George W. Bush e apresentaram profundas contradições, que se acentuaram num Kondratiev de tonalidade expansiva147.
GRÁFICO 4.10 – Salários reais por semana nos EUA (US$ constantes de 1982-1984)
Fonte: Economic Report of The President (2010).
A redução do valor dos salários no produto nacional dos Estados Unidos com- binada com a diminição da taxa de poupança, em função do endividamento pro- vocado pelos déficits comerciais, conduziu a importantes estrangulamentos para a realização da mais-valia extraordinária nesse país. A massa de valor apropriada com a economia de força de trabalho, a partir da inovação tecnológica, se reduziu relativamente com o avanço da automação e a demanda transferida por esse me- canismo aos segmentos de renda superior – associados ao capital e ao consumo da mais-valia – foi em parte capturada pela expansão do mercado internacional, tornando-se cada vez mais insuficiente para manter os preços das mercadorias nacionais e dos ativos financeiros a elas vinculados.
146 Os governos estadunidenses desde Reagan têm situado sua política cambial em um zigue-zague
entre a belle époque e os privilégios de seignorage. Durante a belle epóque valoriza-se o dólar. Quando essa valorização provoca forte acumulação de dívidas e importantes déficits comerciais, recorre-se à desvalorização do dólar, utilizando-se os privilégios de seignorage para destruir parte das dívidas em mãos de credores estrangeiros, com efeitos positivos de contenção dos déficits comerciais. Essa polí- tica de zigue-zague, todavia, possui limites. O dólar não pode se desvalorizar a um patamar em que perca sua credibilidade como referência internacional de valor.
147 A redução de impostos para os ricos e a elevação dos gastos militares posta em cena pelo governo
de George W. Bush agravou a dívida pública e os déficits comerciais. Direcionou a recuperação a um setor tecnologicamente decadente, recriou os déficits governamentais ao vincula-lá ao Estado e am- pliou os déficits comerciais ao transferir renda às famílias com baixíssima taxa de poupança.
GRÁFICO 4.11 – Cotação do dolar
Fonte: Economic Report of The President (2010).
No ano de 1973, a cotação do dólar em relação às moedas dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos era equivalente (ou seja, 1/1).
A crise de 2008, que parte dos Estados Unidos para a economia mundial, pode ser explicada por meio desse processo. Sua amplitude está relacionada à utilização do mercado estadunidense por amplos setores da economia mundial como fonte de lucro extraordinário em função da sobrevalorização do dólar e seus impactos posi- tivos sobre os preços internacionais, uma vez que as mercadorias são vendidas em dólar e produzidas em moeda nacional. Entretanto, a contrapartida desse processo é a restrição à expansão do setor produtivo estadunidense. As empresas estadunidenses reagem a esse processo aumentando relativamente os seus investimentos estrangeiros e a massa de lucros gerada desde o exterior148. O estrangulamento à realização interna
de mais-valia extraordinária culmina na queda de preços dos ativos e das taxas de investimento e na necessidade de intervenção estatal para sustentá-los, resultando na brutal expansão da dívida pública. Essa dívida vincula-se prioritariamente à es- peculação e à sustentação de preços fictícios, torna-se cada vez mais dependente de credores estrangeiros, em razão da queda das taxas de poupança nos Estados Unidos, e contribui para manter deprimida sua taxa de investimento (ver gráfico 4.12). Cons- titui assim um travão para o crescimento de sua economia, gerando transferências negativas de renda e ônus social para sustentá-la, operando de maneira muito distinta
148 Uma parte significatida dos investimentos das empresas estadunidenses se transfere para o exterior,
buscando custos de produção mais baixos. Em 1967, aproximadamente 5% dos lucros das empresas es- tadunidenses vinham do exterior. Entre 1994 e 2007, 17% dos lucros passam a vir do exterior, com picos nas crises de 2001 e 2008 de 23% e 26%, respectivamente. Ver Council of Economic Advisers, Economic
do que fez no pós-guerra, quando vinculou-se ao pleno emprego, à ampliação do mercado interno e à expansão do setor produtivo e da economia.
GRÁFICO 4.12 – Taxa de investimento EUA/PIB (%)
Fonte: Economic Report of The President (2010).
Desde 2000, os Estados Unidos vêm crescendo abaixo da expansão da economia mundial, invertendo as tendências do período de 1982 a 2000 (Groningen Growth and Development Centre, 2010)149. Essa nova trajetória que se desenha na economia
mundial aponta para o esgotamento da hegemonia dos Estados Unidos nos próxi- mos anos e para a articulação do dinamismo da economia mundial a outras regiões, dentre as quais se destaca o Leste Asiático150. Uma das evidências do descenso dos
Estados Unidos é a perda de sua liderança dos fluxos internacionais de capital (ver gráfico 4.13). Esta se manifesta principalmente na deterioração da sua condição de exportador de capital, em função do menor dinamismo da economia estaduniden- se. Se entre os anos 1970 e 1980 os Estados Unidos respondiam por 40% a 60% das exportações de capital, desde então oscilam entre 30% e 10%. A perda dessa lide- rança na exportação de capital foi inicialmente compensada, nos anos 1980, pela