OS IMPASSES DA HEGEMONIA DOS ESTADOS OS IMPASSES DA HEGEMONIA DOS ESTADOS
1- A hegemonia estadunidense em questão: teses centrais
A hegemonia constitui um dos temas mais decisivos para a análise das relações internacionais contemporâneas. Ela exerce um papel fundamental no desenvolvi- mento do moderno sistema mundial, dirigido pelo capitalismo histórico.
Vimos que esse sistema mundial baseia-se numa economia-mundo que arti- cula, por fluxos de capitais e mercadorias, diversas unidades políticas, centradas nos Estados-nacionais, desenhando uma arquitetura que permite à economia, por sua abrangência mundializante, se liberar do controle da política. Entretanto, a ausência de uma instituição política central traz o risco da anarquia. Torna-se fun- damental a existência de uma instância política que controle a competição entre os Estados e mantenha a coordenação entre eles para definir regras econômicas, jurídicas, políticas e militares que garantam o funcionamento de uma economia mundial capitalista. Essa instância é o Estado hegemônico.
Mencionamos que para um Estado alcançar a hegemonia, é necessário que exerça uma liderança internacional suficientemente poderosa para impor um in- teresse geral e sistêmico que condicione as distintas políticas nacionais. Essa li- derança possui limites, a partir dos quais se torna um obstáculo à acumulação de capital, pois a economia-mundo capitalista não se dirige à construção de impérios mundiais que restituam o domínio da política sobre a economia. As hegemonias devem, portanto, ser construídas e destruídas permanentemente, descrevendo um movimento cíclico no moderno sistema mundial.
Numa primeira fase, de expansão, o Estado hegemônico concentra a liderança internacional nos planos produtivo, comercial, financeiro, ideológico e militar. Na
segunda fase, de crise, vão se deteriorado os fundamentos de sua liderança mun- dial. Essa deterioração não ocorre de maneira uniforme. Ela atinge primeiro sua base produtiva e comercial para apenas mais tarde alcançar sua dominação finan- ceira e ideológica. Já a sequência em que se deteriora a dominação militar varia amplamente em cada hegemonia.
Se em sua fase de expansão o Estado hegemônico exerce um papel virtuoso sobre o sistema mundial, impulsionando o desenvolvimento de suas forças produ- tivas, durante a crise ele se converte em um fator de obstáculo a esse desenvolvi- mento. É consenso que desde 1950 entramos num período sistêmico de hegemo- nia dos Estados Unidos. Mas em que etapa estamos dessa hegemonia? E como ela afeta o sistema mundial hoje?
Essas questões têm dado lugar a um dos mais decisivos debates das ciências sociais contemporâneas, dada a sua importância para a análise prospectiva e para a formulação de alternativas ao neoliberalismo por parte dos movimentos sociais. As respostas a elas têm sido as mais variadas e se agrupam em duas grandes visões: de um lado, a visão da qual compartilhamos, que afirma que os Estados Unidos se encontram numa fase avançada de crise de sua hegemonia. De outro lado, aquela que, inversamente, aponta que a hegemonia dos Estados Unidos nunca foi tão forte e se encontra numa trajetória de expansão.
Neste capítulo, apresentaremos inicialmente nossa visão sobre o tema para, na seção final, nos concentrarmos no debate com outros enfoques.
Postulamos que os Estados Unidos, desde 1967-1973, ingressaram em um pe- ríodo de deterioração de sua hegemonia. Eles ainda conservam sua hegemonia fi- nanceira, ideológica e militar, mas ela está sendo crescentemente vulnerabilizada. pelas pressões que os déficits em conta corrente e públicos vêm exercendo sobre o dólar, pela crise de legitimidade do neoliberalismo, pelo desgaste do imperialis- mo estadunidense, relançado em 11 de setembro de 2001139 e as reações político-
-militares a ele, que ameaçam impulsionar para dimensões imprevistas os cus- tos de proteção do sistema-mundo. Para situarmos a trajetória da hegemonia dos Estados Unidos no sistema mundial, devemos integrar a longa duração à nossa análise da conjuntura. Para isso, devemos tomar em consideração os seguintes elementos analíticos que recapitularemos brevemente:
139 Diferenciamos os conceitos de hegemonia e imperialismo. Pelo primeiro nos referimos à domina-
ção econômica mundial dos centros capitalistas exercida pelo consentimento e persuasão ideológica, cabendo à coerção militar um papel de dissuasão ou de atuação em última instância. No imperialis- mo, inversamente, esta dominação se realiza pelo controle político direto, violando a autodetermina- ção e a soberania dos povos e Estados. Apesar de suas diferenças, hegemonia e imperialismo não re- presentam necessariamente realidades historicamente antagônicas, tendo mais se complementado na história do capitalismo ao cumprirem funções distintas na organização dessa economia mundial.
a) Um primeiro, os ciclos sistêmicos. Eles foram teorizados pela escola do sis- tema mundial, através da obra de autores como Giovanni Arrighi, Beverly Silver e Immanuel Wallerstein. Esses ciclos são organizados por hegemonias que se di- videm em fases de expansão e crise. Durante a crise, o poder hegemônico usa o seu poder financeiro para continuar liderando a acumulação mundial. Entretanto, sua força financeira não resiste à deterioração crescente de suas bases produtivas e comerciais. A desintegração da hegemonia dá lugar a uma etapa de caos sistêmico. Nela, desenha-se uma bifurcação na qual novas estruturas de poder disputam a hegemonia. No capitalismo histórico, esse processo termina com guerras de trinta anos que dão lugar a uma única configuração de poder. Ela reconstitui o sistema mundial sobre novas bases, expandindo-o ao aumentar sua abrangência e a inte- ração entre as suas partes.
b) O segundo elemento analítico que devemos tomar em consideração são os ciclos de Kondratiev. Esses ciclos estão ligados às revoluções tecnológicas e organi- zacionais e normalmente expressam períodos de cinquenta ou sessenta anos, que se dividem em fases A, de expansão, ou fases B, de crise econômica.
c) O terceiro instrumento de análise é o conceito de crise civilizacional, que se vincula à crise do modo de produção. A crise do modo de produção leva sua classe dominante a superutilizar os instrumentos políticos de apropriação dos exceden- tes, apoiando-se para isso no Estado. Isso ocorre quando ela tem dificuldades de extrair o excedente através de suas relações de produção. No feudalismo, as revo- luções tecnológicas no campo, que aumentaram a produtividade e impulsiona- ram as trocas, colocaram em cheque a servidão. A consequência desse processo foi a conversão da nobreza ao Estado e a construção do absolutismo em aliança com a burguesia mercantil. No capitalismo, o regime assalariado está sendo posto em questão pela automação. Essa relação é estabelecida por Marx, em O capital e nos Grundrisse, e retomada por Richta, na teoria da revolução científico-técnica, quando estabelecem a automação como a principal força motriz da tendência de- crescente da taxa de lucro. Desde os anos 1970, que o processo de automação se converteu num processo planetário, impulsionando o desemprego e o aumento da intervenção do Estado em favor do grande capital.
As trajetórias da hegemonia dos Estados Unidos e do sistema mundial nas pró- ximas décadas devem ser entendidas a partir da combinação dessas três tendências de longa duração. Postulamos que, desde 1994, se desenvolve, nos Estados Unidos, a fase de expansão de um novo ciclo de Kondratiev, que se estende à economia mundial. A fase de expansão desse novo Kondratiev não terá o esplendor da que se desenvolveu entre 1939 e 1973. Terá menor duração e/ou apresentará taxas menos expressivas de crescimento econômico – sobretudo, se consideramos o período de 1950 a 1973, posterior ao caos sistêmico de 1914-1945 –, principalmente em suas
regiões decadentes, representando um período de menor transformação material relativa já que dois movimentos descendentes lhe incidirão. Esses movimentos des- cendentes são a fase B do ciclo sistêmico e a crise civilizacional. Na nova fase de ex- pansão, os Estados Unidos terão deteriorados os fundamentos financeiros e ideo- lógicos de sua hegemonia e perderão a posição de liderança da economia mundial, exercida nos anos 1980 e 1990, só ultrapassada em dinamismo, no período, pelo Leste Asiático. O mundo entrará numa fase de caos sistêmico e nenhum Estado nacional será capaz de reconstruir o sistema mundial sob novas bases hegemônicas. Criar-se-á uma bifurcação. De um lado, estarão as forças cujo objetivo será o de reconduzir o capitalismo histórico através de uma hegemonia compartilhada entre os principais centros da riqueza mundial e, de outro lado, estarão as forças que buscarão superar o moderno sistema mundial por um sistema pós-hegemônico. Esse confronto, não será apenas entre Estados-nações, ainda que possa ser dirigi- do em parte a partir deles. Mas terá também uma forte dimensão transnacional. Ela já se insinua, por exemplo, nas manifestações de massa contra a coordenação oligárquica da economia mundial e o imperialismo estadunidense e nas tentati- vas de organizar mundialmente os movimentos sociais, que tem no Fórum Social Mundial importante expressão, buscando-se a criação de novas formas de poder para gerir o planeta e a existência humana. A transnacionalidade se desenvolve em uma tripla dimensão: Por meio da internacionalização dos movimentos sociais; da institucionalização das demandas de internacionalização solidária e cooperativa em governos nacionais; e da emergência de Estados periféricos e semiperiféricos que pressionam pela democratização das formas de regulação do sistema mundial. Essas três dimensões se desenvolvem ainda com muita autonomia e precária arti- culação. Se a dimensão transnacional predominar, a humanidade poderá atravessar o caos sistêmico sem sucumbir em uma nova guerra capaz de eliminá-la. Nesse caso, as forças transnacionais criariam correias de transmissão que atravessariam os Estados nacionais, impedindo o seu uso pelas oligarquias mundiais. Se a dimen- são nacional predominar, dificilmente se poderá evitar a tendência ao fascismo e à barbárie e o uso do Estado como instrumento de coerção.
Vejamos os fundamentos empíricos das teses que enunciamos.