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A crise do Estado-providência e a democracia

1.4 A CIDADANIA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

1.4.5 A crise do Estado-providência e a democracia

A importância do Estado de bem-estar social no mundo contemporâneo é imensa, sendo que se constituiu em verdadeiro paradigma, mormente após as grandes guerras. García-Pelayo260, em conhecido estudo sobre o tema, assinala, inclusive, que

a denominação e o conceito de Estado social inclui não somente os aspectos de bem-estar, como também os problemas gerais do sistema estatal de nosso tempo, que em parte podem ser medidos e em parte somente entendidos. Em uma palavra, o Welfare State se refere a um aspecto da ação do Estado, não exclusiva de nosso tempo – uma vez que o Estado do absolutismo tardio também foi qualificado como Estado de bem- estar – mas que o Estado social se refere aos aspectos totais de uma configuração típica de nossa época.

259 SCHMITT, Carl. La defensa de la Constitución. 2. ed. Madrid: Tecnos, 1998. p. 164. Carl Schmitt

sustentava, por exemplo, que a Constituição (jurídica) de Weimar fosse substituída por uma Constituição econômica, por ser natural que um Estado econômico fosse regido por uma Constituição econômica.

As transformações deste século, a partir da Primeira Guerra Mundial, passaram pela Segunda Grande Guerra, guerra fria, reformas econômicas na China (1979), inauguração da perestroika e da glasnost, queda do muro de Berlim (1989), crise dos sistemas capitalistas do Leste Europeu, abertura de novas fronteiras de expansão do capitalismo e universalização da produção, num sistema de economia- mundo, conforme lembrado por José Eduardo Faria261, criando um novo contexto no qual se encontra inserido o Estado contemporâneo.

A partir da decantada “crise do Estado contemporâneo”, antecedido pelo Estado liberal – de cunho contratualista – e pelo Estado social, importa salientar que o próprio conceito de soberania acaba tendo de ser revisto, como aponta Octávio Ianni262, pois não há um centro das decisões políticas num determinado espaço

260 GARCÍA-PELAYO, Manuel. Las transformaciones del Estado contemporáneo. Madrid: Alianza,

1996. p. 14.

261 FARIA, José Eduardo. Globalização e direito. São Paulo: Malheiros, 1999. Cap. 2.

262 O autor aponta, em seu livro A sociedade global – capítulo dedicado ao cidadão do mundo, as

novas variantes que compõem essa sociedade, bem como a necessidade de que o próprio conceito de Estados soberanos seja revisto, considerando as inúmeras alterações de comportamento social decorrente da globalização econômica, que pensa a cidade como mercadoria. No momento seguinte, assevera a necessidade de autoconsciência das pessoas, enquanto pressuposto da plena cidadania, desde que se propiciem as condições mínimas de informação pelo cidadão. Todavia, o desafio que a nova sociedade global impõe é a própria definição e delimitação da esfera individual, uma vez que até os problemas estritamente regionais são, hoje, pensados globalmente, criando um paradoxo da busca do individualismo numa sociedade que pretende a globalização. Existe uma crítica da chamada “razão instrumental” uma vez que o indivíduo teria sido anulado pelo fenômeno do individualismo, gravando a crise do homem moderno. O autor anota, ainda, como o protestantismo se universalizou em sua missão global econômica, de forma que a mercadoria poderia transitar sem traumas num mundo sem lugar para a autonomia do indivíduo e talvez para a ética. Nota-se, portanto, que a globalização econômica assume manifestações culturais dos mais variados matizes, inclusive religiosos, na medida em que impõe novos valores ao cidadão global, articulados numa teia de produção voltada para o individualismo. A própria língua falada se universaliza, já existindo propostas de uma moeda e língua únicas – o inglês, naturalmente. Em tal contexto, rareiam as críticas ao sistema e não se focalizam as dificuldades regionais de um determinado Estado. Também, a individualidade e a liberdade de expressão são substituídas pelo politicamente correto, aquele que fuma mas não traga. Cria-se o arquétipo do homem moderno, o qual ambiciona prescindir da sociedade onde vive uma vez que dispõe de internet e tevê a cabo, não importando o país onde viva ou as misérias que passam por sua janela. Fecha-se em si mesmo, procurando evitar sua redescoberta como indivíduo, porque a necessidade de integração na sociedade global não lhe permitiria conviver com a liberdade de crítica

territorial, mas sim, a convergência de interesses econômicos num plano global. Ferrajoli, por exemplo, entende que neste novo contexto – no qual a soberania interna perde sentido em favor de uma soberania internacional, baseada numa Constituição que transcenda os limites dos Estados nacionais – o Estado “já é demasiado grande para as coisas pequenas e demasiado pequeno para as coisas grandes”263. No plano interno, o Estado-providência acaba sendo apontado como a causa de todas as mazelas do Estado contemporâneo brasileiro, quando, em verdade, a adoção dos postulados econômicos da globalização é que levam o país à ingovernabilidade, além de afetar diretamente a democracia, em especial nos países periféricos264. Arruda lembra que

a outra face do que constitui a globalidade da crise mundial é a decadência do Welfare State, sob o impacto dos efeitos das políticas neoliberalizantes e suas exigências antidemocráticas, expressadas na redução considerável de conquistas populares no plano jurídico265.

Mergulha-se numa nova Idade Média, na qual as forças do mercado definem o plano de ação (políticas públicas) dos governos eleitos, sendo que o espaço

da razão massificada. Busca-se, desta forma, a alienação. Um estágio de letargia mental que supere a dor e a solidão da vida moderna, da vida global.

263 FERRAJOLI, Luigi. A soberania no mundo moderno: nascimento e crise do Estado nacional.

Tradução de Carlos Coccioli e Márcio Lauria Filho. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 50. Nesta obra, o autor explica que o Estado “É grande demais para a maioria das suas atuais funções administrativas, as quais exigem, até mesmo onde os impulsos desagregadores ou separatistas não atuam, formas de autonomia e de organização federal que contrastem com os velhos moldes centralizadores. Mas, sobretudo, o Estado é pequeno demais com respeito às funções de governo e de tutela que se tornam necessárias devido aos processos de internacionalização da economia e às interdependências cada vez mais sólidas que, na nossa época, condicionam irreversivelmente a vida de todos os povos da Terra”.

264 MÜLLER, Friedrich. A democracia, a globalização e a exclusão social. Anais. XVIII

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS ADVOGADOS: CIDADANIA, ÉTICA E ESTADO. Salvador, 11 a 15 de novembro de 2002. Brasília, 2003. v. I, p. 264. O autor recorda que “com a globalização o núcleo real do poder político transcende o espaço da democracia representativa, sendo que os que decidem não são eleitos e os que são eleitos não decidem”.

destinado ao debate democrático em torno do papel do Estado-providência brasileiro foi retirado rapidamente de pauta, através da emergência de uma cultura da crise. Edgar Morin menciona que

concebemos nossa sociedade moderna, em seu desenvolvimento, não como uma sociedade que ainda contém resíduos do arcaísmo, mas como uma sociedade que suscita um novo arcaísmo, não que expulsa o mito para a racionalidade, mas que suscita novos mitos e novas irracionalidades, não que supera de modo decisivo os problemas e as crises da humanidade, mas que suscita novos problemas e novas crises266.

A crise do Estado-providência é aquela de um modelo de democracia substancial, com a consequente redução dos serviços sociais e a limitação do acesso aos bens sociais e culturais, possibilidade de uma efetiva participação política do cidadão267.