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3 DA TEORIA GERAL DAS OBRIGAÇÕES À OBRIGAÇÃO COMO

3.4 A CULPA E O INADIMPLEMENTO (EM SENTIDO AMPLO)

Ponto instigante quanto ao inadimplemento (em sentido amplo) é o fato de saber se à sua estrutura é imprescindível à presença da culpa.

Para Marcos Mello, no que toca a questão da mora (ou inadimplemento relativo) “a culpa pode ser irrelevante, uma vez que se dá de pleno direito pelo inadimplemento, em seu termo, de obrigação líquida, embora não ocorra se não há fato ou omissão imposta ao devedor”.173

Sobre esse aspecto, mais detidamente em relação à mora, explica Pontes de Miranda ao trazer o assunto para o âmbito do Código Civil de 1916 que:

A tradição do direito brasileiro – e, falando de direito brasileiro, necessariamente temos de abstrair dos doutrinadores que estavam mais preocupados coma a letra da lei dos outros países do que com as Ordenações Filipinas, Livro IV, Título 53, §3, e o Código Civil – é no sentido que só a respeito de impossibilitação se aludir a culpa e não-culpa. A mora nada tem com isso.174

Para Pontes de Miranda, a confusão que se faz ao colocar a culpa no âmbito da mora parece provir da mesma confusão que se faz entre a mora (matéria pertinente à responsabilidade pelo inadimplemento) e a impossibilidade da prestação do devedor quando o produto prestacional da obrigação se deteriora por culpa do próprio devedor (matéria pertinente à responsabilidade pelo ato lesivo à prestação).

173 MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do Fato Jurídico: Plano da Existência. 15ª ed. São Paulo:

Saraiva, 2008, p. 249.

174 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de Direito Privado. Rio de Janeiro: Borsoi,

No primeiro caso, pela via objetiva, abstrai-se a culpa, chegando-se ao ilícito relativo, enquanto no segundo caso, o ilícito relativo exsurge da análise propriamente dita da culpa do devedor na deterioração da prestação.

Pontes de Miranda conclui o enfrentamento da discussão em comento, identificando que esse problema foi importado da doutrina estrangeira e nunca teve verdadeira guarida ao longo da história do direito civil luso-brasileira. Nesse particular:

O intérprete não pode importar discussões da doutrina estrangeira. Tem de primeiro ler, atentamente a lei brasileira. O que lhe pode interessar, na doutrina dos outros sistemas jurídicos, é a precisão de algum conceito, a revelação histórica de algum erro, os resultados da investigação lógico-científica e, ocasionalmente, a contribuição da pesquisa e da discussão em torno de algum texto que coincide com o texto indígena.175

Por caminho complementar, Marcos Catalan, amparado no perfil obrigacional formatado pela boa-fé em sentido objetivo e parametrizado como padrão de conduta a ser seguida pelos sujeitos da relação obrigacional, indica que:

[...] Se o princípio da boa-fé, enquanto parâmetro de conduta que informa o complexo orgânico obrigacional, impõe a ambas as partes deveres laterais como a lealdade, a cooperação, e a correção no comportamento, cuja análise é aferida mediante critérios objetivos, é evidente que a perquirição do elemento subjetivo resta prejudicado. Neste contexto, enquanto consequência dos negócios jurídicos, patentes a esperança do credor em receber seu crédito e o interesse da sociedade em promover a circulação de riquezas, sendo que a conduta do devedor deve ser de rigorosa colaboração em busca da satisfação de tais expectativa.176

Ademais, diz Catalan que o problema da identificação do inadimplemento relativo com a culpa é, em grande medida, decorrente de uma falha terminológica a qual coloca que “a ideia de culpa defendida pela doutrina está na violação do dever jurídico criado pela vontade das partes, e não na infração ao necessário dever de diligência”.177

Nesses termos, para rebater o entendimento que alinha mora e culpa, o qual possui apoio de uma parcela considerável da doutrina brasileira,178 179 com base na análise de Marcos Catalan, traz-se à colação o exemplo do pai de família que assume uma dívida, contando com o seu salário para saldá-la e que, logo em seguida, é demitido, não restando a ele qualquer reserva para honrar com o contratado.

175 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de Direito Privado. Rio de Janeiro: Borsoi,

1959, v.26, p.7.

176 CATALAN, Marcos Jorge. Descumprimento contratual. Curitiba: Juruá, 2012. p. 150.

177 Id.. Por um novo conceito de Mora e Inadimplemento. Disponível em: <http://www.faimi.edu.br/

revistajuridica/downloads/numero9/mora.pdf>. Acesso em: 24 jun. 2017.

178 Vide RIZZARDO, Arnaldo. Direito das obrigações. Rio de Janeiro: Forense, 2000, p. 502.

É evidente que o ilustrativo inadimplemento não é, em absoluto, culpa do devedor, ainda que objetivamente falando ele tenha que suportar toda a carga da imputação que dará subsídio à responsabilidade negocial, incluindo-se, aqui, perdas e danos, juros e correção monetária.180

Conclui-se que a revelação para efeito da incidência de mora é o ilícito relativo, que independe da culpa. Catalan, acerca desse entendimento, diz que:

[...] o que há de ser relevado para efeitos da incidência de mora é a antijuridicidade nascida do incumprimento, vista esta como ofensa à lei pactuada entre as partes, desde que não haja um fator externo a justificar a impontualidade no caso da mora, ou ainda, a violação positiva no caso de cumprimento parcial da obrigação ou o adimplemento em local diverso do ajustado.181

Note-se, ademais, que as conclusões pertinentes à mora quanto à presença ou ausência da culpa, também estão presentes na questão do inadimplemento absoluto e do adimplemento substancial.

Apregoada a construção do que fora proposto para o vertente capítulo, finaliza-o, pois, investigando mais detidamente a mora ou o inadimplemento relativo, como um meio termo entre os extremos delimitadores (inadimplemento absoluto e adimplemento total) da perturbação das relações obrigacionais, diferenciando-a do inadimplemento relativo.

3.5 DO INADIMPLEMENTO RELATIVO: APROFUNDAMENTO E