1.2. Noudar e Encinasola Um território, dois reinos.
1.2.1. Identidades e território num espaço raiano
1.2.1.2. A definição da fronteira na margem esquerda do Guadiana
A definição deste troço de fronteira, que tem sido tratado por alguns autores, foi motivada quer por especificidades locais, quer pela sua relação com os grandes processos de definição de fronteira - os tratados de Badajoz (1267) e de Alcanices (1297).
O processo denominado de reconquista criou dois factos que se relacionam com os tratados indicados. Se Castela, como herdeira do reino visigodo de Toledo, se achava no direito de controlar todos os territórios em posse do Islão que havia por conquistar, cada reino achava-se no direito de considerar suas as conquistas que ia efetuando. Estes processos levaram à posse, por Portugal, das vilas de Aroche e Aracena, na margem esquerda do Guadiana e a que Castela reivindicasse a posse do Algarve, continuidade natural do Reino de Portugal. O tratado de Badajoz clarifica pretensões, passando Aracena e Aroche para Castela e garantindo a Portugal o domínio do Algarve. A restante margem esquerda, hoje Portuguesa, mantém alguma indefinição, mas na posse de Castela261. As movimentações políticas não param e revestem-se por vezes de aspetos interessantes. D. Dinis adquire terras da região de Moura, que venderá posteriormente, ainda antes do
258
Paulo Casimiro, "«Uma vila quase independente»" - Barrancos", Ethnologia, nº 2, 1984, p. 204.
259 Adolfo Elizaicín, “Los estudios…”, cit., p. 608. 260
Maria de Fátima Amante, Fronteira e Identidade…, cit., p. 62.
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tratado de Alcanices262. A debilidade política em Castela, relacionada com conflitos de sucessão, é aproveitada pelo monarca português para afirmar as suas
pretensões263 e assim Moura, Serpa e Noudar passam definitivamente para a posse
de Portugal264.
A margem esquerda do Guadiana e em especial a parte mais oriental tem contudo um processo complexo de construção e consolidação da fronteira que importa descrever:
Este território foi sempre de fronteira. Embora não haja grande entendimento quanto à divisão entre a Lusitânia e a Bética, a proximidade ao Rio Anas265 e a existência de uma cidade denominada Fines266, deixam adivinhar uma divisão que passava por este território. Quer Noudar ficasse mais perto ou mais longe dessa divisão, ficava seguramente na zona da divisão. Outra separação deste território aparece-nos em período posterior. É bastante provável que o Rio Ardila, que veio depois, a separar os dois reinos nesta zona, dividisse os reinos de Badajoz e de Sevilha sob o domínio islâmico. A
existência de uma “atalaia” é um dos elementos de maior relevância para a
afirmação deste facto. Ainda hoje, não só a demarcação entre Portugal e Espanha, mas também a separação entre a Extremadura e a Andaluzia passam por aqui.
No período de dominação islâmica, a kura de Beja estender-se-ia até esta zona e integraria a vila de Aroche. A inclusão da vila de Aroche em Castela cria um problema quanto à partilha de zonas de pastagem ancestrais, comuns a várias comunidades da mesma antiga kura e é assim que surge o problema da Contenda de Moura, em que as vilas de Noudar e Encinasola também se viram envolvidas, certamente por as suas comunidades
262 Rita Costa Gomes, “A construção…”, cit., p. 365.
263 Miguel-Angel Ladero Quesada, “Reconquista…”, cit., p. 680. 264
Estas posses são consolidadas pelo Tratado de Alcanices, assinado em 1297. Miguel-Angel Ladero Quesada, “Reconquista…”, cit., p. 680.
265
Afirma Maria de Fátima Botão que o Guadiana sustentava a demarcação utilizada pelos Romanos para separar as duas províncias. (Maria de Fátima Botão, “A definição…”, cit., p. 745.)
266
André Carneiro, Itinerários Romanos do Alentejo. Uma releitura de “As grandes vias da Lusitânia –
O Itinerário de Antonino Pio” de Mário Saa, cinquenta anos depois, Lisboa, Comissão de
Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, 2008, p. 121. O termo fines também é tratado em Celine Martin, “’In confinio…”, cit., p. 269.
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ancestrais também terem direitos sobre a utilização desses pastos267. O território em disputa e de partilha comum foi diminuindo à medida que foram sendo possíveis os consensos, mas só no final do século XIX, a disputa foi completamente resolvida e só aí foi possível estabelecer uma linha divisória nessa porção de fronteira. Todo este processo, como é fácil de ver, foi um produtor incansável de conflitos, de encontros e logo, de documentação. No termo de Noudar é aplicado, aquilo a que podemos chamar de processo-
tipo de construção da fronteira, tão característico do reinado dionisino. Atribuição do território a uma ordem militar, com o objetivo de o defender e povoar. Como auxiliares, o rei emitiu ainda a respetiva carta de foral e criou o primeiro couto de homiziados do reino. Estamos assim perante os outros ingredientes que fizeram este território. Um senhorio, com o objetivo de organizar a defesa, povoamento e administração do território, com o espírito apresentado por José Marques: “Povoamento para garantir a defesa, e defesa para permitir o povoamento”268
. Foram ainda criados os mecanismos julgados necessários para promover o povoamento desse território difícil - Alentejo e fronteira.
No âmbito do processo de demarcação do termo de Noudar e da fronteira, os elementos naturais, nomeadamente os cursos de água, delimitam quase todo o território. Estes marcos poderiam ser contestados, mas nunca mudados. Numa parte da delimitação entre este termo e o de Encinasola não existem elementos naturais a assinalar a divisão, sendo que esta foi feita por malhões. Estes não só eram passíveis de contestação, como de mudança. É precisamente neste troço de fronteira que surge a aldeia de Barrancos e ela própria se torna um marco de separação a partir de meados do século XIV269. Manuel Gonzalez Jimenez refere-nos que a aldeia foi começada por castelhanos à procura de melhores condições jurídicas do que as que dispunham no seu reino. Não nos diz que condições seriam essas, mas é possível que fossem de natureza fiscal. Daí e em estreita relação com o
267 Maria Antónia Carmona Ruiz, “La explotación…”, cit., p. 242. Também Rita Costa Gomes (“A
construção…”, cit., p. 364) nos refere que nesta região não foram as antigas circunscrições árabes a imporem-se na definição da raia, mas sim um acordo entre mestres de ordens militares de ambos os lados da fronteira. Terá sido esta fuga à regra que levou a tão grande disputa?
268 Citado em Arnaldo Rui Azevedo de Sousa Melo, “Relações…”, cit., p. 554. 269 Rita Costa Gomes, “Construção…”, cit., p. 366.
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conceito de fronteira como limite de atuação do “braço administrativo” de determinado soberano, que a aldeia fosse implantada imediatamente depois do local até onde essa atuação era possível270. O surgimento da aldeia encontra-se envolvido por duas questões pertinentes relacionadas com o conceito de fronteira. A fronteira enquanto limite da possibilidade de atuação de uma entidade, neste caso jurídico-administrativa e a construção de uma aldeia que era simultaneamente marco de fronteira. Qualquer uma delas, pertinente para o nosso trabalho. Qualquer uma delas suficientemente forte para marcar a identidade da comunidade.