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A Democracia Contemporânea

No documento FACULDADE DE DIREITO (páginas 33-42)

O Direito age como vetor para concreção da democracia, uma vez é sob a proteção da lei que se assegura um ambiente em que os princípios de liberdade e igualdade possam ser exercidos. BOBBIO (1993, p. 18) classifica esse regime político como a resposta contra todas as formas de governos autocráticos, uma vez que nele todo grupo social é convocado a tomar decisões vinculatórias, em especial para definir quem está autorizado a tomar decisões coletivas e com quais procedimentos.

A febre democrática é fenômeno que não pode ser ignorado e que no último quarto do século XX alastrou-se por todos os continentes, com o franco estímulo estadunidense (WOOD, 2007). Muitos países recém-formados (leste Europeu, África) adotaram regimes

27 Rousseau afirma que intimamente cada indivíduo reconhece o bem comum para a sociedade, e a

vontade geral decorreria da expressão dessas vontades, cuja unicidade daria a vontade geral os atributos de indestrutibilidade e soberania (ROUSSEAU, 1999)

28 O autor explica que ao contrário do antigo culto a uniformidade e unanimidade como único caminho

para a manutenção da organização social; as democracias modernas entenderam que há espaço para a dissenção, a diversidade e as partes (que se transformaram em partidos) sem comprometer a ordem social e o bem-estar do organismo político. Dessa forma a democracia representativa incorporou o princípio de que a diferença, e não a uniformidade, é a levedura e o alimento dos Estados.

pautados, por vezes apenas formalmente, na soberania popular constitucionalmente estabelecida para obter o reconhecimento internacional de suas instituições representativas.

HUNTINGTON (1991) destaca que o fenômeno de difusão da democracia representativa, atua por sistema de ondas, ora se expandindo, ora se retraindo. Ele identificou na história as ondas democráticas coincidências com movimentos históricos significativos sendo que a primeira grande onda acontece após as revoluções do Séc. XVIII, com retrocesso verificado a partir de 1922, pela influência do governo de Mussolini, na Itália. A segunda grande onda decorre da vitória militar dos Aliados durante a 2ª Grande Guerra, cujo retrocesso, iniciado em 1960, reduziu pela metade o número de países democráticos. Por fim, o autor aponta cinco aspectos da terceira grande onda de expansão democrática iniciada em 1975 e ainda em expansão: a) problemas de legitimidade de regime autoritários, especial pela larga difusão dos valores democráticos; b) crescimento econômico globalizado, sem precedentes, a partir de 1960, com ampliação da classe média e elevação do padrão de vida; c) alteração no posicionamento da Igreja Católica (Segundo Concílio de 1963-1965), que importou na oposição das igrejas nacionais aos regimes autoritários; d) mudanças no relacionamento dos atores globais após a Guerra Fria; e) estímulo e padronização de modelos democráticos, que geraram efeito cascata para subsequentes esforços por democratização.

FERREIRA FILHO (1972, p. 1) destaca que “qualquer estudo político, nesta segunda metade do século XX, tem de partir de uma verdade paradoxal: a Democracia está em toda parte, a Democracia não existe em lugar algum” dado que a democracia se consolidou como valor supremo, e estranhamente, o povo detentor de toda a soberania, permanece como governado. O pudor ao classificar qualquer forma de governo como democracia reside no reconhecimento da evidência que o povo não se governa, especialmente, após a consolidação do mandato representativo, que isenta o eleito de qualquer vinculação com seus eleitores ou mesmo com o partido político pelo qual foi eleito; ou, ainda, aos princípios constantes no programa de governo, pois, após as eleições haveria de fato a formação de uma elite (minoria) governante29.

SARTORI (1994a, p. 22) denomina essa imprecisão de democracia confusa. Ao abordar o tema o autor ainda identifica a existência de uma tensão entre fato-valor intrínseca ao conceito de democracia, visto que a sua existência em si decorre dos ideais que encarta.

Para ele “sua imprecisão descritiva, ajuda-nos a manter sempre diante de nós o ideal - o que a democracia deve ser30”.

A operacionalidade da democracia representativa centrou-se no processo eleitoral. Todavia, apenas a normatização de um sistema de escolha de representantes políticos, via eleições, não permite que um regime seja classificado como democrático; considerando que sistemas totalitários e autocráticos também podem utilizar similar mecanismo para fixação da classe dirigente. Como bem disse SARTORI (1994a, p. 145) “eleições sem opinião livre não expressam nada”. O elemento vital nas democracias é a efetiva possibilidade da expressão da vontade de forma livre e com igual valor.

RAMOS (1988) pondera, ainda, que o desenvolvimento do sistema de representação democrática fez surgir a necessidade de dar algum direcionamento aos representantes políticos, fixar a orientação de atuação. Adotou-se como complemento ao sistema representativo a democracia de partidos - a ideia nesta fórmula é que os partidos dariam o sentido geral na escolha de programas de governo e indicariam as pessoas capazes de implementa-lo. Muitos traços desse sistema podem ser identificados na configuração do sistema democrático doméstico - como o monopólio das candidaturas eleitorais pelos partidos políticos, a fidelidade partidária e a representação proporcional ao quociente eleitoral nas casas legislativas.

FERREIRA FILHO (2014) assevera que ainda que no Brasil prepondere a fórmula representativa de democracia, abriu-se a possibilidade de maior participação direta. O autor destaca que o plebiscito e o referendo, dois dos instrumentos de participação direta previstos na Constituição da República, devem ser restritos a situações esporádicas sob o risco de propiciar distorções. Ele aponta que esses elementos permitem maior ação dos grupos de pressão social, e se usados com exagero podem levar a contradições de ingovernabilidade.

O direito contribui para o processo democrático na medida em que positiva garantias individuais e fornece mecanismos para a consolidação das instituições públicas. As sociedades dependem de regras abstratas que refreiem a vontade discricionária dos agentes que exercem o poder político; mesmo em sede de sistema democrático, os governantes eleitos representam quando muito uma pequena maioria e assim, persiste a necessidade de imposição de limitação ao poder a fim de proteger o direito das minorias vencidas nas eleições; contudo,

essas mesmas regras, contingenciam o ímpeto democrático do povo, limitando a possibilidade de autogoverno.

GARGARELLA (2015) aponta mesmo para uma verdadeira simbiose entre constitucionalismo e democracia. Há, contudo, um conflito latente entre os conceitos, a democracia funda-se na possibilidade irrestrita do exercício do autogoverno, supremacia da vontade soberana do povo sobre qualquer assunto ou tema; o constitucionalismo, de cunho nitidamente conservador, acaba por estabelecer regras sociais que tendem a se perpetuar, impedindo ou dificultando que sejam processadas alterações na norma fundamental.

A relação entre Constituição e democracia pode ser analisada por diversos prismas distintos, VIOLA (2003) sublinha dois ângulos que entende mais relevantes, a saber: a Constituição como limite externo a democracia; e, ainda, a Constituição como objeto dos mesmos procedimentos democráticos. Na primeira acepção a constituição margearia a democracia por estabelecer procedimentos e princípios jurídicos, não apenas pela normatização dos direitos políticos e do processo eleitoral, mas por constituir uma demarcação objetiva ao poder de decisão da maioria31. Esta configuração foi denominada pelo autor como Constituição-custódia e a democracia decorrente poderia ser classificada como vigiada. Na segunda acepção, a relação entre democracia e constituição se fundaria no contínuo processo de criação, uma vez que não estariam todos os princípios constitucionais plenamente codificados, demandando um tratamento casuístico de problemáticas específicas, trabalho complexo que deveria ser delegado a instituições democráticas, a fim de escolher qual a interpretação adequada - com respeito ao processo histórico-social; o modelo foi chamado de Constituição-semente, pelo autor.

Não existe soberania inocente, esta é a conclusão de COMPARATO (2003, p. 27). A história recente demonstrou que a minoria detentora do poder de controle social é capaz de legitimar “democraticamente” exclusões sociais, em nome do interesse nacional. O autor pontua que após um século de extremos de totalitarismo político, da massificação dos meios de comunicação e da espetacularização do Estado, não se pode confiar poderes ilimitados nem mesmo a soberania popular.

Reitera-se que adotar formalmente a democracia, pela expressa disposição no corpo das constituições apenas, não é suficiente para que se constitua um regime político substantivo e não meramente formal, haja visa que a sua caracterização material exige

31 O estabelecimento de cláusulas pétreas nesse aspecto seria uma restrição ao princípio democrático,

concomitância de requisitos que permitam o desenvolvimento de seus princípios organizacionais (liberdade e igualdade). Feitas essas considerações e a fim de alcançar uma definição que balize o desenvolvimento das posteriores conclusões desta pesquisa, pode-se destacar quatro aspectos essenciais a verificação do sumo democrático: a) autodeterminação do povo, b) vontade da maioria, c) liberdade e igualdade e d) ausência de arbitrariedade.

A capacidade de autogoverno despertou em pensadores, ao longo da História, sentimentos antagônicos. Para ARISTÓTELES (2005) era a autodeterminação do povo que contribuía para que a democracia fosse classificada como um regime de governo de segunda categoria, passível de ser corrompida - pois, para o filósofo, a preponderância de interesses pessoais, na orientação das escolhas políticas de cada cidadão impediria a formação de um governo ideal focado no interesse comum. TOCQUEVILLE (2005) também visualizou como potencialmente amargo o resultado que poderia advir de um governo formado pela bajulação do povo para obter seu beneplácito, e que o remédio contra tal perversão deveria ser o senso apurado de nacionalidade, em geral identificado de modo mais intenso entre os cidadãos que entre seus governantes.

A vontade da maioria, também conhecido como princípio majoritário, é método para obter a liderança ou direção e tem como contraponto o controle exercido pelas minorias32 a fim de evitar que o poder absoluto - seja de muitos, seja de poucos - gere tiranias. SARTORI (1994a, p. 184) adverte que os conceitos de minoria e maioria podem ser encetados de pelo menos três formas distintas, quando relacionados à democracia: a) a estruturais e processos constitucionais, pelo qual se procura garantir às minorias o direito de oposição; b) arenas eleitorais - como regra para apuração de resultado dos vencedores das eleições - o vencedor leva tudo; e, c) sociedade em geral - sentido empregado por TOQUEVILLE (2005) para designar a tirania da maioria, o ponto de tensão entre o indivíduo e a sociedade, isoladamente considerados.

Por exigência democrática acoplou-se ao conceito isonomia (igualdade perante a lei), gradualmente três aspectos: garantia de sufrágio universal, igualdade social e igualdade de oportunidade33. Incorporar o princípio da igualdade demanda o reconhecimento que os

32 Como explica Sartori (1994a, p. 183) a democracia representativa gera como produto a maioria, destaca diversas minorias, sempre no plural.

33 O autor assevera que a igualdade social implicava no reconhecimento da identidade, que todos

merecem tratamento digno, a despeito de classe social e riqueza. Mas é enfático ao afirmar que os revolucionários não pregavam a igualdade econômica, dado que a defesa da propriedade privada era tida como um direito natural e inalienável (SARTORI, 1994b, p. 115).

cidadãos participam em situação de mesma grandeza dos processos que determinam e fixam a estrutura básica da sociedade. A liberdade, outrossim, decorre em grande medida da internalização da capacidade que os indivíduos do grupo social reconhecem em si e nos demais para intervir na elaboração de suas instituições sociais, em nome de seus próprios interesses comuns e superiores (RAWLS, 2000).

A exigência de liberdades importa na possibilidade de contestação pública, que se verifica nos seguintes exemplos: a possibilidade de manifestação contrária ao governo sem temer represálias governamentais; o acesso a opiniões alternativas; o sigilo do voto. DAHL (2005) ressalta, ainda, que disposição do governo em conviver com a oposição em geral decorre da contabilização do custo entre eliminar e consentir sua existência.

Impor a ausência de arbitrariedade, em termos singelos, é dizer que se reconhece o respeito à autonomia de cada indivíduo para a formação e manifestação de sua vontade política, e além disso, que a maioria que governa não chegou ao poder pelo uso de força ou estratagemas que retirem a liberdade de opção dos eleitores.

FERREIRA FILHO (2015) aduz que a partir do século XX há uma nova concepção ao termo democracia, com a modificação do objetivo final do sistema que deixaria de ser o autogoverno do povo, para transformar-se naquele governo que depende do povo. Isto porque diante do reconhecimento da distinção entre governo e governados, pragmaticamente atribui a real possibilidade de democracia aos laços existentes entre os ambos polos dessa dicotomia; o povo exerceria seu poder por sua influência significativa sobre as ações do governo que em sintonia com tais demandas busca atender seus interesses. Essa visão particular pressupõe que o povo não se governa, nem poderia fazê-lo.

Ao analisar os pilares da democracia representativa SCHUMPETER (1961) apontou fragilidades no sistema eleitoral e na valoração do voto; uma vez que o sistema se funda em parâmetros nitidamente individualistas, classificou como irrealista a crença que a vontade do eleitor seja per se suficiente independente e racional. Em sua análise ignora-se que para que essa manifestação seja de fato uma vontade política relevante, dependeria que cada um dos cidadãos, mais que apenas movidos por impulsos e slogans e impressões errôneas, soubesse com clareza o que pretende defender, e que pudessem estar de fato livres da vontade manufaturada34.

34 O autor considera que a natureza humana na política não responde apenas e tão somente a

comandos racionais. A mentalidade coletiva é em geral desprovida de crítica, e guarda em si um potencial para grupos que queriam explora-la, através de mecanismos de publicidade; nesse aspecto

SARTORI (1994a, p. 133) reconhece que nas democracias hodiernas os meios de comunicação de massa exercem papel relevante, e que a formulação da ordem do dia, pautada no dever de vigilância sobre a condução das políticas públicas, pode gerar ondas de miopia e distorcer acontecimentos; a atomização e a desorganização dos membros da sociedade são elementos que contribuem para que algumas mensagens sejam ampliadas ou bloqueadas; de forma ordinária o mundo é absorvido pelos indivíduos conforme as lentes dos meios de comunicação o apresentam.

DAHL (2005) destaca que uma das mais fortes impressões em relação ao estudo da democracia contemporânea reside na constatação de que boa parte da população é legitimada a tomar parte nas periódicas eleições nominais; contudo, o sistema de contestação pública, isto é, o grau de tolerância do governo em relação à oposição, não tem se mostrado uniforme.

A democracia é o arranjo institucional que mais privilegia a liberdade do indivíduo. SARTORI (1994b) aponta que a liberdade política é relacional, isto é, tem por propósito criar condições para o exercício das diversas liberdades, e, por essa razão, precisa ser interpretada como proteção contra o poder arbitrário e absoluto.

A igualdade perante a lei (isonomia) foi a regra adotada no continente europeu após as revoluções burguesas, e coincidiu com a eclosão do sistema capitalista (considerado como a divisão da sociedade entre possuidores dos meios de produção e detentores da força de trabalho); essa dicotomia foi tão eficaz quanto o antigo regime em produzir distinções sociais de ordem econômica. A igualdade jurídico-política dos cidadãos derivava do conceito de isonomia, o critério de nacionalidade foi utilizado em razão da formação dos Estados modernos como mecanismo para produzir distinções - os direitos políticos eram restritos aos nacionais (ARENDT, 2015, p. 23).

O conceito presente de democracia não está confinado ao seu sentido etimológico, nem mesmo a aplicação original da Antiguidade; pois, resulta das transformações sociais ocorridas ao longo da História. O arranjo organizacional decorrente desse regime político favorece a preservação da liberdade individual e a preservação do direito das minorias ante o Estado bem como possibilita o tratamento isonômico dos cidadãos perante a lei - mas não poderia fazê-lo sem o suporte constitucional.

A democracia pauta-se na vontade da maioria, contudo é de sua essência a proteção das minorias, sem as quais não seria possível a existência de efetiva oposição. Apenas na o autor aponta que a análise dos processos políticos revela que no mais das vezes se trata de vontade artificialmente fabricada. (SCHUMPETER, 1961, p. 321).

democracia pode-se aliar a liberdade de expressão com a igualdade política, de forma que as vontades individuais de cada cidadão sejam consideradas, ao menos durante o processo eleitoral. Quanto mais forte for a oposição, mais a democracia se tornará uma política de compromisso (KELSEN, 2000, p. 106).

LIJPHART (2011, p. 18) ao analisar modelos de democracia, distinguiu entre os conceitos de maioria simples e consenso, sendo que ambos conceitos partem da formação da vontade democrática a partir da maioria, conquanto utilizem critérios distintos sua apuração; na segunda hipótese alia-se o aspecto qualificativo a maioria (exigindo um quórum mínimo para o seu reconhecimento). O autor pondera ainda que a adoção do princípio majoritário puro, simplesmente, age no sistema facilitando a concentração de poder, ao passo que proporcionalidade importa em formação de consenso e amplia a pluralidade de representação. Uma sociedade que tenha alcançado a condição democrática, não está imune a regressão do regime político para formas autoritárias ou totalitárias de organização do poder. Não obstante se reconheça a democracia como um avanço em termos sócio-políticos, fato é que a fragilidade é inerente ao seu concerto e não pode ser ignorada. Ainda que seja controverso o conceito de democracia, e que sua definição dependa do momento histórico, há dois princípios que lhe são inerentes a qualquer tempo: liberdade e igualdade, sem os quais não pode haver legitimação do poder de forma democrática.

Ao comparar os critérios estabelecidos por DAHL e BOBBIO para a identificação de sistemas democráticos, CAGGIANO (2011, p. 15, grifos conforme o original) sintetiza que a democracia deve

[...]necessariamente envolver na sua concretização eleições livres e

competitivas com amplos espaços para oposição, isto sob o norteamento dos princípios de liberdade e igualdade, única forma política - até o

momento idealizada - apta à salvaguarda dos direitos humanos

fundamentais.

O reconhecimento que todo poder emana do povo importa na reserva e garantias fundamentais dos indivíduos contra o poder Estatal. As constituições assumem a função dúplice de organizar as instituições do Estado e prover condições para o pleno exercício das liberdades. Aliás, SARTORI (1994b), ao discorrer sobre a liberdade política, esclarece que o constitucionalismo garante aos cidadãos o direito de resistir aos mandos do Estado.

Nesse universo de combinações é possível distinguir a qualidade democrática de cada arranjo, o método de gradação da democracia eleito por DAHL (2005, p. 29) corresponde

necessariamente ao encontro cartesiano, em maior ou menor medida, dos elementos oposição e participação popular; se ausente qualquer dos termos, resta descaracterizado o regime político.

Não se pode olvidar que a democracia estabelece um pactum societatis35 que fundamenta o poder estatal e garante o exercício da liberdade, tendo como base a produção normativa dela emanada36. Repousa no ordenamento e nas suas instituições a distinção da democracia em comparação a outras formas de regime políticos. Identificação do regime democrático, requisitos fundamentais.

São as constituições, ainda, os instrumentos formais que limitam o poder do Estado e garantem os direitos individuais e políticos aos cidadãos. Nesse aspecto o constitucionalismo, movimento iniciado nas revoluções burguesas do século XVIII, e que se consolidou no século XX, tem servido de instrumento de expansão da democracia. CAGGIANO (2011) é precisa ao identificar nesse movimento político e jurídico as garantias da presença e perpetuidade das instituições sobre as quais a democracia se desenvolve; o constitucionalismo, aliás, parece indissociável da democracia, como explica a autora.

Todavia, não se ignora que embora o constitucionalismo estruture as instituições básicas para o desenvolvimento da democracia, a limitação de poderes também atua sobre a soberania popular, especialmente pela imobilização de temas sensíveis, através de cláusulas pétreas e limitação das possibilidades de reforma dos textos constitucionais.

DAHL (2005) vincula a democracia ao conceito de responsividade37 a fim de isolar a sua característica chave e para tanto é preciso que haja um arranjo institucional (constitucional) que permita que os cidadãos possam formular, expressar e ter igualmente consideradas suas preferências. O autor elenca oito indicadores da existência de uma democracia. A saber: 1) liberdade de formar e aderir a organizações; 2) liberdade de expressão; 3) direito de voto; 4) elegibilidade a cargos públicos; 5) direitos de líderes políticos disputarem apoio/direito de os líderes políticos disputarem votos; 6) fontes alternativas de

35 O autor Giovanni Sartori em diversas passagens de seu A Teoria da Democracia Revisitada assevera

que é elementar ao regime democrático a existência do pactum societatis, isto é, a coexistência entre

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