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Raízes do termo Democracia

No documento FACULDADE DE DIREITO (páginas 18-33)

Compreender os sistemas de organização do poder na forma democrática e identificar o modo de operação dessa plataforma é a tarefa primária dessa dissertação; sem a qual não se poderá encontrar resposta para a dúvida genuína de qual forma se pode coibir a captura do mando social por interesses privados?

Conceituar democracia, entretanto, é tarefa imbricada tanto pela ausência de evolução histórica - ausente liame entre o uso durante a Antiguidade e as atuais fórmulas democráticas; quanto pela profusão de significados associados ao vocábulo. CAGGIANO (1987) assevera que apesar da plasticidade do conceito face à realidade histórico-social, uma vez que se amolda a cada povo e às suas peculiaridades; dimana dele um mecanismo para preservação da liberdade individual. SARTORI (1994a) enfatizou a ausência de conformidade conceitual, referiu-se esta época como a era da democracia confusa.

Atribui-se a Heródoto3, ainda na Antiguidade, o emprego do termo democracia pela primeira vez, em crônica, a fim de comparar os regimes monarquia, oligarquia e democracia. Nesse esboço inicial o termo democracia designava o sistema pelo qual os cidadãos4 em deliberação conjunta decidiam sobre os temas da coletividade (autogoverno) e elidiam abusos típicos da concentração de poderes; a preservação da liberdade decorria da ausência de hierarquia, uma vez que a decisão tomada em conjunto, favorecia o clima de igualdade entre

3 CAGGIANO (1995, p. 23, nota de rodapé 38) explica que o texto de Heródoto, em forma de peça,

apresentava a conversa entre três personagens, Dario, Megabizo e Otanes, que debatiam sobre as formas de governo, sendo cada um responsável pela defesa de um modelo distinto - o primeiro propunha a manutenção da monarquia; o segundo ao defender a adoção da oligarquia defendia que nesse modelo todos eles (que eram nobres) teriam espaço na condução do governo; por fim, Otanes discordando dos demais propôs que se adotasse uma forma de governo mais isonômica e que contasse com maior participação popular. O debate entre os personagens ilustra a coincidência entre sociedade civil e necessidade de organização das funções de governo; a conclusão do texto revela a predileção do autor, que concluiu que o governo por um só se revelava a melhor prática.

4 Diminuta parte da população gozava de tal qualidade, nesse conjunto estavam excluídos de forma

total mulheres, escravos e metecos, por serem considerados inferiores. (GOYARDE-FABRE, 2003, p. 20)

os indivíduos. A participação política implicava em dever social. Não havia nesse exercício a interposição de representantes; as regras sociais eram estabelecidas de forma direta.

Etimologicamente o termo democracia corresponde à junção em grego dos termos demos (povo) e kratos (poder) e em singela tradução: o poder do povo. O cerne central na Antiguidade que a distinguia dos demais regimes de governo consistia na participação dos cidadãos na tomada das decisões. Buscava-se por esse método eliminar a hierarquização social e assegurar a maior liberdade possível a cada um dos indivíduos, uma vez que os governantes e governados seriam coincidentes.

Convém considerar que os parâmetros da democracia da antiguidade, condicionados por seu momento histórico, foram fixados para uma sociedade de base escravagista, notadamente excludente (o rol de cidadãos equivalia a pouco mais de 10% do total da população da cidade, sem a participação de mulheres, escravos e metecos5) cujo desempenho das funções decorrentes da cidadania exigia de seus membros dedicação quase que exclusiva aos interesses da polis. A liberdade de antanho vinculava-se estritamente ao dever de participação política, vivia-se para a polis, para a manutenção da comunidade. O poder soberano dos cidadãos atenienses não conhecia limites, preponderando a vontade da maioria; as leis aprovadas em assembleia nem sempre reproduziam os hábitos já sacralizados; esse poder desregrado levou a ruína do sistema democrático na Antiguidade (SARTORI, 1994b, p. 50).

FERREIRA FILHO (2001) ao discorrer sobre o tema lembra que as cidades helênicas se utilizaram de várias formas de governo, incluindo a democracia; ele relaciona a grande admiração que goza a democracia ateniense à coincidência de ter se desenvolvido durante o apogeu de Atenas. Ele ainda destaca que as assembleias em sua essência não atraíam os cidadãos espontaneamente e foi preciso estabelecer um subsídio aos pobres (para que comparecessem) e uma multa aos ricos (caso faltassem), além de fixar um quorum de comparecimento mínimo para determinadas decisões; deliberava-se sobre questões políticas fundamentais.

Assevera, com razão, GOYARDE-FABRE (2003, p. 20) que a democracia da Atenas da antiguidade não significava que todos governavam, mas que ‘todos os cidadãos’ participavam do governo. A amplitude do direito a igualdade e a liberdade era limitada pelo

5 Como explica FERREIRA FILHO (2001, P. 5) metecos eram aqueles que embora tivessem nascidos

em Atenas, não descendiam de pai ou mãe ateniense. Conceito que mais tarde seria aprimorado no

conceito de direito romano jus sanguini, isto é, a nacionalidade adquirida pelo indivíduo decorre da

conceito de cidadão, empregado naquele tempo com viés excludente6. Não se deve esquecer que apesar daquela Atenas possuir amplas definições sobre o direito à vida, ao pensamento e à palavra, a escravidão não apenas era admitida como consistia na base econômico-social.

A democracia ateniense era avaliada com severidade por filósofos que lhe foram contemporâneos, em especial por Platão e Aristóteles. O maior receio de outrora consistia no temor que o governo da maioria se tornasse uma tirania do povo (entendido como turba/populacho) e causasse uma abrupta ruptura na organização social. A cisma decorria da possibilidade de prevalência dos interesses individuais que líderes demagogos pudessem inflar no âmago das paixões populares, e que os conduzisse a buscar vantagens pessoais em detrimento de preservação do interesse coletivo (FERREIRA FILHO, 2001, p. 4).

PLATÃO (2007) discorre sobre a formação de uma sociedade ideal, na qual cada pessoa possuísse uma determinada vocação para exercer uma função específica na estrutura da cidade. A visão do filósofo sobre a democracia revela-se, na sequência de diálogos, depreciativa; em poucas linhas: a democracia era uma forma de governo vinculada ao domínio da sociedade pelos pobres - necessariamente; com a imposição de igualdade material (pela distribuição uniforme das riquezas), e à atribuição do exercício de cargos de comando pela via do sorteio. A maior crítica do filósofo a essa configuração, contudo, repousava no fato que para o império da liberdade, não poderia haver constituição ou lei, uma vez que cada um organizaria sua vida como melhor lhe conviesse, isto é, observaria às leis se e como quisesse. A democracia traria em si um elemento instável e volátil (a vontade da maioria poderia ser corrompida por paixões individuais) que a dificultaria a concreção da forma idealizada de Constituição.

Ao estudar os sistemas de governo, Aristóteles buscou traçar um sistema lógico que permitisse identificar de forma clara a razão da cíclica alteração de regimes, contudo, como assevera GOYARDE-FABRE (2003), mesmo após analisar diversas constituições gregas e bárbaras, a conclusão do filósofo foi que não existe uma cíclica degenerescência de regimes; e que, no mais, o número de governantes não passaria de mero acidente na conceituação dos tipos de governo. A concepção de uma constituição pura seria incompatível com uma fórmula rígida, uma vez que as sociedades possuem condições sócio-históricas distintas. Menos impermeável à democracia que Platão, ainda que a classificasse como um sistema de segunda ordem, na formulação de um sistema de governo moderado, Aristóteles mesclou elementos da

6 Cerca de 10% a 20% da população da polis grega eram considerados cidadãos. (FERREIRA FILHO,

democracia com elementos da oligarquia a fim de moldar a forma de governo ideal, a república.

ARISTÓTELES (2007, Livro V) relacionava a igualdade com o conceito de justiça plasmada na nomos7, em sentido geral a lei era considerada boa pelo filósofo em razão do caráter não individualista. A equidade traduzia-se na flexibilidade necessária da aplicação da lei ao caso concreto, descendo da generalidade da norma às peculiaridades fáticas. Sempre que a lei fosse justa, equidade e norma estariam em harmonia. A autossuficiência dos homens livres dependia dessa igualdade. A soberania que ela [nomos] expressava, sempre que fundada na matriz democrática, pertencia ao conjunto dos cidadãos, axioma fundamental da democracia. A cidadania ativa exigiria de cada indivíduo o exercício da virtude, prudência e discernimento em busca do bem comum, evitando que o povo caísse na passividade e indiferença. Um regime que desejasse ser democrático dependeria da necessária participação paritária dos cidadãos, reconhecendo que a vontade soberana deles fundamenta e justifica toda a organização Estatal.

A democracia ateniense exigia a conjugação dos valores liberdade-igualdade conjuntamente. Aliás, os gregos possuíam um termo específico para designar esse valor isegoria, significava igualdade e liberdade de expressão (WOOD, 2007, p. 421). Nessa conjugação fundamentava-se a defesa da liberdade de expressão, pela qual cada cidadão poderia pensar e manifestar a decisão política de forma suficientemente livre e independente.

A noção de livre-arbítrio e de espaço privado como expressão de singularidade não integravam o pensamento das sociedades antigas, a polis era percebida como o espaço orgânico de convivência, os integrantes da sociedade não eram notabilizados pela sua individualidade, mas como engrenagens para construção do bem comum (VILANI, 1999, p. 20-21).

ARISTÓTELES (2005, Livro II) questionava, aliás, se os que dependiam do trabalho para se manter poderiam desenvolver as responsabilidades atreladas a cidadania - em especial a busca do bem viver coletivo; pois, para ele, não se poderia esperar daqueles a isenção necessária para desenvolver essa virtude antes de privilegiar interesses pessoais. Para o filósofo a questão crucial entre democracia e oligarquia repousava na distinção entre pobreza e riqueza, que acabaria por gerar a patologia no corpo político - pois, a democracia dependeria

7Nomos equivale a lei, todavia, em sentido distinto do contemporaneamente utilizado. Na democracia ateniense da antiguidade, a lei decorria da manifestação da vontade dos cidadãos, que deliberavam coletivamente e diretamente sobre circunstâncias concreta. (MASCARO, 2013. p. 79)

de absoluta igualdade material entre os pares. Outra crítica tecida a essa forma de organização derivava da constatação que o povo no exercício de sua autoridade, em geral agia em detrimento dele mesmo, apesar de ser a finalidade do governo a consecução do bem comum.

FERREIRA FILHO (2001) denota que a democracia ateniense foi instituída em 509 a.C., não tendo sido duradoura, em 322 a.C. foi definitivamente abolida, e por longos séculos permaneceu como prática esquecida. Após a queda das cidades-estados ligadas a Atenas, no século VI a.C., foram poucos os sistemas democráticos permaneceram ativos, dispersados em pequenas sociedades e longe dos grandes centros. Ainda na antiguidade a experiência democrática seria parcialmente retomada pelo Império Romano.

O termo inicial da Idade Média coincide com a fragmentação do Império Romano Ocidental, seguida de uma rígida estratificação da sociedade em três classes: nobreza, clero e povo. A Igreja Católica sobreviveu aquele desmembramento e exerceu grande influência na conformação da disposição social decorrente. O feudalismo trouxe consigo uma relação de poder piramidal na qual o povo, base da organização social, estava subordinado aos mandos das demais classes; o poder dos dirigentes era absoluto.

A matriz do pensamento cristão justificava a ordem social como reflexo da vontade de Deus (inclusive para o fundamento do poder dos governantes e submissão aos papéis sociais) e condicionava todas as ações para salvação do espírito (cultivo das virtudes, subordinação às ordens da Igreja). A rígida hierarquização da sociedade fez a Igreja Católica ascender ao governo, como interlocutora do governo espiritual com os governos temporais - esses, ao lado da Igreja tinham a missão de conduzir a humanidade ao caminho da retidão de Deus (VILANI, 1999). Religião e Direito se assemelharam, em especial pela interpretação ortodoxa que Santo Agostinho fez das escrituras no sentido de que todo o poder advinha de Deus, e a fé importava em submissão incondicional a esse comando, com confiança cega na justiça divina. Não havia espaço para contestações, a ordem imperfeita do mundo atendia ao propósito divino, incompreensível para os homens - esse pensamento foi adotado pela Igreja Católica, e predominou até a parte final da Idade Média (MASCARO, 2013).

Ainda que a democracia como sistema de governo tenha sido preterida durante a Idade Média; o debate teórico a cerca de dois de seus valores fundamentais: liberdade e igualdade, permaneceu em curso. COMPARATO (2010) destaca a obra de Boécio, no início do século

VI, com grande influência no pensamento medieval; sua clássica definição de pessoa8 serviu como premissa para a elaboração do princípio da igualdade; pois, a partir do reconhecimento de uma essência comum a todos, que supera as diferenças biológicas e culturais, formou-se o núcleo da universalidade de garantias, que mais tarde seria denominado como direitos humanos.

Durante a Idade Média foram registrados marcos legais que denotam que a sociedade civil, em certos momentos, pressionava o governante para o reconhecimento de limitações ao poder arbitrário. Dentre eles destaca-se a Carta Magna outorgada pelo rei inglês João Sem Terra, em 1215. COMPARATO (2010) classificou normatização da limitação do poder monárquico como a pedra angular para a posterior construção da democracia, dado que pela primeira vez na história a limitação decorrida da necessidade do governante em respeitar direitos subjetivos dos governados.

A questão que se buscava resolver na transição da Idade Média para a Idade Moderna repousava em como ser governado sem ser oprimido e não necessariamente na necessidade de autogoverno expressada no modelo democrático da Antiguidade (VILANI, 1999, p. 25).

Na transição entre o feudalismo e a formação dos Estados nacionais houve um resgate do pensamento clássico - em especial do pensamento aristotélico, período conhecido como Renascimento. Um dos maiores expoentes dessa corrente é Nicolau Maquiavel, o florentino, que analisou a necessidade de um governo moderado, a fim que o regente pudesse se perpetuar no poder, ele reconheceu que o poder não tem sustentação teológica e que para sua conquista e manutenção deve se ater as vontades dos governados (LEMBO, 2007a) - um conceito primário de responsividade.

Marsílio de Pádua, também deve ser lembrado. O autor das obras Defensor Pacis e Defensor Minor, embasado no pensamento aristotélico, defendeu a autonomia do poder temporal em relação às ordens do papado considerando a sociedade como um todo orgânico no qual o livre arbítrio é a expressão da razão humana, a lei natural - única com natureza coercitiva - decorreria da soberania popular (VILANI, 1999, p. 49, 52).

São Tomás de Aquino, através da Suma Teológica, buscou refinar o pensamento agostiniano, para inserir a visão aristotélica sobre as leis. Ele traçou uma distinção entre as

8 “persona proprie dicitur naturae raticionalis individua substantia” Boécio apud COMPARATO

(2015), uma tradução possível é diz-se propriamente pessoa a substância individual da natureza

racional, este conceito de pessoa seria incorporado ao pensamento de Santo Tomas de Aquino, na edição de sua Summa Theologiae.

leis de origem divinas, dividas entre as quem estariam fora do alcance de entendimento humano e as leis naturais; e, ainda, as leis dos homens, que são essencialmente injustas, o que de certa forma contesta o dogma de resignação e fé, propondo em contrapartida o uso da razão e da equidade (MASCARO, 2003).

Uma das reações ao pensamento tomista é a Reforma Protestante que retoma o diálogo

agostiniano. LEMBO (2007a) aponta que o modelo deuteronômico9 de governo estabelecido

por Calvino guarda relação com os parlamentos democráticos modernos, teria sido a célula da qual viriam a formarem-se, posteriormente, câmaras e a independência das igrejas protestantes, conduziria ao princípio federativo das repúblicas.

SARTORI (1994b) reconhece a importância da experiência puritana, na gênese da democracia moderna. A cisão entre os assuntos da religião e do governo aliada a luta pelo reconhecimento da sua liberdade de consciência religiosa contribuíram para o posterior amadurecimento que dissensão, diversidade e pluralidade de partes são de fato as bases da democracia moderna. A importância do evento, prossegue o autor, reside na alteração do paradigma relativo à unanimidade; antes do movimento revolucionário, a uniformidade e o consenso eram os fundamentos essenciais para formação do Estado; a partir de então, gradativamente, a unanimidade passou a ser suspeita.

A partir dos ideais liberais que reacenderam o debate sobre um regime de governo formado por iguais, retoma-se a questão da res publica, poder exercido segundo o interesse geral e o bem comum apesar de o repúdio à democracia persistir.

O pacto social foi o instrumento utilizado por pensadores Iluministas para justificar a organização civil que fundamentaria o Estado moderno, tendo o indivíduo como fonte de todo o poder, assim, o consenso seria a origem remota que justificaria a soberania (VIERA, 1997).

HOBBES (2003), precursor do pensamento iluminista, desenvolveu uma visão filosófica e racional para justificar o absolutismo, centrando o indivíduo como base de seu pensamento. Segundo o autor as ações humanas são voltadas para a satisfação de seus próprios interesses, e apenas o medo leva os homens a se associarem. Dessa forma, é a fragilidade recíproca que justifica a igualdade. Para o autor o poder político precisa ser absoluto, indivisível e irrevogável. Nessa condição, a fim de obter paz social, os homens abdicam de seus poderes individuais em favor do soberano ou de uma assembleia, como

9 A sistemática adotada por Calvino estava descrita no livro do Deuteronômio, integrante do

forma de obter a unanimidade necessária. Não se reserva nada ao indivíduo senão o direito de defender a própria vida contra decisões do Estado que a coloquem em risco.

LOCKE (1998), por sua vez, articulou sua teoria do contrato social vigorosamente contra o regime absolutista; para ele o poder é uma condição humana, mas opondo-se a visão aristotélica, defendia que o poder político não é espelho do poder familiar, não se confundindo com o pátrio poder. O poder político derivava de uma troca mútua entre os integrantes da sociedade, que tinha por finalidade garantir direitos fundamentais dentre eles a propriedade privada10, considerada pelo autor anterior a formação da sociedade civil. O pacto social centralizaria na figura do Estado o poder coercitivo, neutralizando os inconvenientes da prática da justiça11 por vias diretas, sem retirar dos indivíduos seus naturais direitos - as demais liberdades deveriam permanecer intocadas. É na obra de Locke que se verifica o esboço da especialização das atribuições do poder pela primeira vez; o Poder Legislativo possuía destaque em comparação com os demais, por considerá-lo o sistema central para o sucesso da sociedade. Aliás, caberia à própria sociedade constituir os representantes que limitariam a atuação do Estado - origem remota do princípio da legalidade. O autor inglês considerava que a distribuição de poderes a melhor maneira de assegurar as liberdades individuais12 que o Estado precisava garantir, além do poder legislativo, identificou outros dois poderes o executivo (dar cumprimento às leis postas, incluindo a atividade jurisdicional) e o federativo (para questões atinentes a relação com outros Estados).

ROUSSEAU (1999), de forma original destaca a necessidade de mitigação do racionalismo puro, na sua visão os sentimentos não podem ser soterrados, sob pena de não se conhecer o homem em sua totalidade. O contrato social foi um marco na retomada do debate sobre o regime de governo ideal, para o autor genebrino o Estado ideal seria formado para a proteção e defesa de seus integrantes e seus bens e para a consecução do bem comum, preservando ao máximo a liberdade de cada um. A liberdade, assim, deixaria de ser natural e passa a ser civil. A associação de todos à coletividade precisava ser plena, a vontade de todos

10 Vieira (1997, 41) aponta que a sociedade civil formada na teoria de Locke é necessariamente uma

sociedade de proprietários, logo o direito à cidadania se restringiria essa classe social. E mais, tendo por fim a preservação da propriedade, o Estado não poderia taxar ou instituir impostos sem o consentimento dos proprietários.

11 Locke defende que uma das vantagens do Estado é exatamente a instituição de juízes neutros para

apreciar eventuais violações aos direitos naturais, com possibilidade de aplicação de sanções.

12 Os detentores das liberdades individuais, na visão de Locke, seriam estritamente homens, brancos e

proprietários. Apesar do discurso sobre a liberdade, a fortuna de Locke se pautava no comércio de escravos africanos para a América do Norte.

se somaria para formar a vontade geral13 e, assim, cada indivíduo estaria livre do comando de outros para ser subordinado à vontade impessoal do todo.

FERREIRA FILHO (2001, p. 11) explica a proposta de Rousseau, em termos mais simples, a vontade geral desenhada na referida obra não surge sem a participação de todos. A soberania do Estado fundamenta-se na vontade geral cuja expressão, mais que o mero resultado aritmético das manifestações individuais, sintetiza o interesse comum e a vontade nacional.

É importante pontuar que ROUSSEAU (1999) criticou diretamente o sistema inglês de

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