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Risco de Captura da Democracia pelo Poder Econômico

No documento FACULDADE DE DIREITO (páginas 58-64)

Utiliza-se a expressão captura a fim de designar formas pelas quais o poder econômico consegue cooptar representantes eleitos para que atuem em defesa e proteção de interesses privados, valendo-se da capacidade financeira para interferir no comportamento do agente político (LIMA, 1996, p. 205-251).

A democracia é um sistema frágil cuja manutenção depende de afinados parâmetros; a instabilidade que lhe é intrínseca concorre para que possa ser comprometida com facilidade.

Das críticas que o regime sofreu desde a Antiguidade extrai-se a primeira das formas possíveis de captura: a vulnerabilidade do corpo eleitoral. Os antigos gregos preocupavam-se com a virtude dos cidadãos, condição que reputavam essencial para que as decisões emanadas das assembleias fossem orientadas para o bem comum e não para satisfação de interesses individualizados. Vale ressaltar que no axioma ateniense clássico, a democracia implicava

tanto em direitos quanto em obrigações, considerando que todos deveriam participar na organização e funcionamento da Cidade-Estado.

Frisamos que os pensadores da Antiguidade classificavam a democracia como um sistema de governo inferior, dado que sujeito a patologias. Aristóteles (2005, livro III), aliás, asseverava que a maior distinção entre a democracia e a oligarquia é a riqueza, presente na última e carente na primeira - reiterou, em diversas passagens que conceito de cidadão para democracia é distinto do empregado para a oligarquia. Para o filósofo, não se poderia crer que um cidadão pobre se dedicasse ao governo, em detrimento de suas necessidades pessoais, de forma desinteressada, espontaneamente; havia, portanto, a necessidade que todos, sem exceção, fossem educados para cidadania, o que deveria ser efetivado através do acesso à educação pública voltada para fomentar as qualidades do homem de bem.

O mesmo receio de possibilidade de arrebatamento da opinião dos cidadãos, no modelo democrático de governo, voltou a ser objeto de estudos e debate, durante o Iluminismo, tendo Rousseau se destacado em relação aos demais filósofos modernos pela defesa da democracia. Contudo, persistia a preocupação sobre a forma como o povo pode ser tomado por paixões circunstanciais e o governo democrático degenerar-se; o próprio Rousseau afirmava que a democracia convinha aos deuses, e não aos homens, tendo como critério a virtude. A educação também é apontada por Rousseau como a ferramenta necessária a formação da cidadania.

O pensamento liberal setecentista transformou o critério de legitimação dos agentes políticos, antes pautados em critérios nitidamente elitistas, admitindo-se que os mandatários pudessem ser escolhidos pela população. Montesquieu foi um dos arautos dessa transformação, pois, reconhecia a capacidade de escolha do homem comum para indicar quem detém melhores condições para gerir a administração do Estado. Contudo, essa afirmação também é dependente do princípio básico que todo cidadão na república deve ostentar: virtude; no sentido de amor à pátria.

A adoção do sufrágio universal (possibilidade ampla de votar e ser votado) não foi imediata nos Estados que desenvolveram a forma democrática representativa e diversos critérios foram adotados para contingenciar o acesso ao processo eleitoral, desde condições étnicas (nacionalidade), passando por exclusão de gênero (em geral as mulheres tiveram seus direitos políticos reconhecidos com anos de atraso), até por conceitos censitários (limitando a participação política aos que pagavam impostos, por exemplo); entre as justificativas apresentadas para a restrição do direito ao voto estava exatamente na persistência do

postulado da incapacidade da grande massa em manter-se imune às tentações oferecidas pelos candidatos em disputa.

A consolidação do valor político da democracia ocorreu no século XX, como afirma Bresser-Pereira (2008), favorecida pela ascensão do capitalismo e do sistema liberal, assimilando-a ao conceito de bom Estado. O autor identifica como fundamental para que tal arranjo fosse viável dois fatores: a) a menor resistência da burguesia à classe aristocrática, uma vez que os meios de apropriação do lucro dependiam menos da ação do Estado e mais da dinâmica do mercado; e b) ao menor medo da burguesia de eventual expropriação pelos pobres, o que facilitou a universalização do sufrágio.

O ideal do bom governo insta salientar é um anseio antigo da humanidade, e nas palavras de LEMBO (2007b, p. 1) raramente realizável; nessa configuração a finalidade do Estado se efetiva pela ação consciente de administradores, que pautados pela legalidade, conduzem a sociedade nos trilhos da liberdade, do bem-estar e da segurança, de forma perene, assegurando que essas condições persistam no futuro.

PRZEWORSKI (2004) acrescenta mais: o desenvolvimento do capitalismo não dependia, via de regra dos regimes democráticos; contudo, a maior riqueza acumulada, verificada em sociedades com desenvolvimento econômico favoreceu a produção de regimes democráticos que tendem a ser mais estáveis, o autor frisa que essa característica é decorrente de uma luta de classes menos intensa, mais que pelo desenvolvimento em si considerado51.

TILLY (2007, p. 12) observa que em tese a inclusão de todos os cidadãos no corpo eleitoral poderia causar problemas às elites para negociar concessões e ajustes; e aumentar o risco de instabilidade na direção do Estado. O autor observou que, com alguma regularidade, as democracias se desdemocratizavam sem que existisse efetiva resistência do povo à redução da participação política; e mais, que concomitantemente, nesses eventos, era possível verificar a influência das elites econômicas em favor de regimes totalitários ou autoritários.

O poder econômico torna-se um risco a democracia sempre que sua ação tende a se sobrepor às garantias democráticas, em especial a livre manifestação do pensamento e a igualdade, relegando os cidadãos a um papel marginal na formação da realidade política.

51 O autor explica que nesses casos a burguesia tem muito a perder com os riscos de eventual guinada

na condução do Estado, risco maior que tolerar a redistribuição de renda; em via oposta, também a classe trabalhadora entende a necessidade de manutenção da propriedade privada para continuidade de investimento e manutenção de seus salários, não pressionando para maior redistribuição de renda. Nesse cenário as democracias sobrevivem em países mais desenvolvidos.

Os sinais de instabilidade democrática podem ser mensurados considerando quatro elementos comparativos: (i) a extensão dos direitos civis; (ii) a igualdade entre os cidadãos (iii) mecanismos de proteção a direitos; e (iv) a responsividade na razão do vínculo entre as ações dos eleitos e a expectativa dos eleitores. Os processos de democratização qualquer que seja a transição dependerão, na perspectiva do autor a) a formação de redes de confiança interpessoal; b) o fim de políticas públicas que fomentam desigualdades; e c) o controle do poder coercitivo (TILLY, 2007).

O ideal de autodeterminação inserto no conceito de democracia faz idealizar a inexistência, ou, minimamente, a difícil distinção da linha divisória entre governantes e governados. Entretanto, como resultado do sistema representativo, vê-se que, após a divulgação dos resultados das eleições, há clara divisão entre governantes e governados, sendo formada uma elite política.

DUVERGER (1980, p. 103) identificou os riscos de captura da democracia, práticas deletérias com potencial de deformar o resultado da eleição: manipulação direta do eleitorado cujos efeitos irradiam com maior força sobre um corpo eleitoral com baixa escolaridade e rural, comunidades em que os princípios democráticos ainda não foram consolidados pela população; pressão exercida diretamente sobre os candidatos, o objetivo dessa prática é restringir, sufocar ou oprimir a possibilidade manifestação dos candidatos de oposição, eliminando a possibilidade de efetiva concorrência pelos cargos eletivos; pressão sobre os eleitores, essa categoria engloba tanto as promessas de facilidades em troca do voto como as ameaças em represália a desobediência ao comando, aduz ser mais comum a efetivação dessa prática em países em desenvolvimento, nessa categoria o autor também incluiu a coação moral exercida por líderes religiosos, intimidação de sanções no ambiente de trabalho pelos empregadores, terror policial - todas essas ações podem atuar como mecanismo de pressão contra a sinceridade da manifestação do eleitor; falsificação material dos resultados das eleições rasura de totais eleitorais, inserção de cédulas modificadas, troca de urnas, procedimentos que se tornam cada vez mais complicados, dada a maior fiscalização e tecnologia aplicada ao processo eleitoral.

O sistema político partidário brasileiro ainda é demasiado dependente da figura subjetiva de líderes, talvez como reflexo da internalização da figura do chefe52. Nossa cultura

52 MICHELS (1982, p. 56) reporta que massas democráticas acabam por fortalecer a figura dos chefes

como decorrência de sua imaturidade política; delegam aos grandes homens o direito de decisão

carece de nítida distinção ideológica entre as legendas partidárias. Seus mecanismos internos são opacos, e a sua organização estatutária no mais das vezes privilegia a conservação “donos do partido” em detrimento da renovação e oxigenação dos quadros. A confiança depositada em tais instituições possui pouca aderência, sendo comum que o político ao trocar de legenda leve consigo a maior parte dos votos que o elegeu, dada a dinâmica de identificação com o candidato em prejuízo do partido político.

O exemplo doméstico é emblemático nesse aspecto, (LEAL, 2012) ao esmiuçar a formação de governos municipais, a partir da Primeira República até a democratização de 1945, demonstrou com clareza como as relações de poder privado e resultado das disputas eleitorais se emaranhavam. Ao cunhar a expressão coronelismo o autor sinalizava que os resultados eleitorais de outrora traduziam a primazia do poder privado (econômico) em detrimento da vontade popular, decorrente da superposição de formas desenvolvidas do regime representativo a uma estrutura econômica e social inadequada, que transformava os latifúndios em currais eleitorais.

Numa sociedade, como é o caso da brasileira, em que existe o monopólio de candidaturas eleitorais, pelos partidos53, esses exercem uma dupla função: ao mesmo tempo em que constituem um grupo de pressão, em torno dos objetivos propostos em seu estatuto, assumem a função de atores políticos, protagonizando ao lado do corpo eleitoral e dos candidatos papel de especial relevo na formação da representatividade democrática.

A busca de idoneidade sobre o resultado dos pleitos eleitorais no Brasil se refletiu em adoção de medidas legais a fim de assegurar a livre expressão da vontade do eleitor. Pelo Decreto-Lei nº 7.586, de 28 de maio de 1945 (Lei Agamenon) foram introduzidas alterações legislativas significativas nesse sentido, e foi consolidada a Justiça Eleitoral54. Além disso, instituiu-se o monopólio dos partidos políticos para o lançamento de candidaturas e adotou-se o sufrágio universal e secreto. A legislação, contudo, era silente a respeito das formas de financiamento e obtenção de recursos pelos partidos políticos para as campanhas eleitorais. O primeiro intervalo democrático brasileiro manteve-se por cerca de duas décadas, permeado esperança que o ocupante do cargo máximo do Poder Executivo, em especial, seja o herói da pátria;

a pessoa capaz de liderar a nação para sua salvação.

53 Artigo 14, § 3º CF/88.

54 Um dos espólios da tomada do poder por Getúlio Vargas em 1930 foi a atribuição de competência

especializada a Justiça, como bandeira para a moralização do sistema eleitoral. A lei n. 21.076 de 24 de fevereiro de 1932 atribuiu ao Poder Judiciário competências amplas, do alistamento à proclamação dos eleitos. Todavia, com o golpe do Estado Novo (1937), foi extinta. Sua consolidação coincide com o fim do período ditatorial. Foi restabelecida apenas em 1945. (TSE, 2014).

por sobressaltos e sucessivas tentativas de tomada do poder fora do parâmetro democrático-eleitoral, fato que se consolidou em 1964; o regime autoritário, subsequente ao golpe militar, restringiu direitos civis, em especial os direitos políticos.

A fortuna pessoal dos candidatos é outro fator que deve ser avaliado sob a ótica do risco de captura. Nesse aspecto, além da possibilidade de arregimentar um séquito de cabos eleitorais para divulgação do candidato e tentativa de convencimento dos eleitores; são muitos os exemplos na história das eleições nos quais o dinheiro foi usado para obter a promessa de votos. Não obstante o risco de poluição do ambiente eleitoral, e comprometimento da sinceridade da manifestação do sufrágio; a fortuna pessoal pode causar um segundo efeito danoso: desequilibrar a disputa eleitoral sob a ótica igualdade de oportunidade entre os candidatos. CAGGIANO (1987, p. 105) adverte que a fortuna pessoal permite realizar campanha eleitoral com maior visibilidade e maior apelo publicitário.

O emprego de técnicas de marketing político, outrossim, além de enrobustecer os custos da atividade político-eleitoral, é outro ponto que fragiliza a democracia e favorece a sua possibilidade de captura. A condução das campanhas publicitárias focadas exclusivamente na obtenção do resultado eleição acabou por empobrecer o debate programático das diversas candidaturas, para dedicar valioso tempo de propaganda na desconstituição dos adversários. Outro efeito colateral dessa conduta, é a crescente depreciação do político, latu sensu, a credibilidade dos mandatários e candidatos, também sofre corrosão pelas frequentes notícias de corrupção. CAGGIANO (2002) reflete que o dispendioso custo da atividade política e o processo de arrecadação de dádivas têm sido encarados com bastante reserva, não apenas em função do eventual lastro que tais benesses privadas possam gerar na forma de conduzir o governo pelos eleitos, mas pelo potencial de deturpação da vontade popular expressa no voto.

2 O arranjo constitucional-democrático brasileiro a partir de 1988.

Tratamento dos Direitos Políticos.

No documento FACULDADE DE DIREITO (páginas 58-64)