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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.8 A dendrocronologia e o crescimento das árvores

Como se comporta o crescimento das plantas em uma comunidade em função das condições climáticas e ambientais ao longo do tempo é uma das questões principais da dendroecologia, podendo ser essa ferramenta muito útil quanto ao entendimento da dinâmica das espécies florestais da Caatinga, assim como o comportamento de espécies invasoras. A dendrocronologia corresponde ao estudo da sequência cronológica de formação de anéis de crescimento em espécies lenhosas associadas a eventos ou características ambientais (Stokes e Smiley, 1996). Tomazello et al., (2009) afirma que a dendrocronologia é conceituada como a ciência que permite a detecção e análise dos anéis de crescimento de madeira de árvores e pedaços de madeira, incluindo a aplicação da informação em sua estrutura, para estudos ambientais e históricos.

A formação do lenho através das divisões celulares periclinais e anticlinais do meristema secundário, ou câmbio, é fortemente influenciado pela estacionalidade climática, pelas características do solo, entre outras. Essa influência é evidenciada em variações qualitativas e quantitativas na estrutura anatômica do lenho (Marcati et al., 2001; Metcalfe e Chalk, 1985). Como resultado observa-se nas plantas arbóreas e arbustivas os anéis de crescimento. Entre os caracteres notadamente influenciados pelo clima e solo estão o comprimento das fibras e dos vasos, espessura da parede das fibras, diâmetro tangencial dos vasos, frequência de vasos por milímetro quadrado, presença de cristais prismáticos e sílica (Baas e Schweingruber, 1987; Carlquist, 1988).

A descoberta de ciclos sazonais de crescimento em espécies tropicais e subtropicais fazem da dendrocronologia uma ferramenta promissora para o estudo da estrutura e, principalmente, da dinâmica dessas florestas estando associado à forte sazonalidade climática que define uma estação de crescimento e outra de dormência a cada ano nas espécies vegetais (Oliveira et al., 2007). Em vários estudos realizados na região tropical a precipitação tem sido identificada como um fator primordial no crescimento (Lisi et al., 2008). Uma estação seca anual com dois ou três meses e precipitação mensal abaixo de 60 mm induz à formação de anéis de crescimento anuais em diversas espécies, e muitas áreas da região tropical e do Brasil apresentam este tipo de característica (Worbes, 1990). O crescimento vegetal é condicionado por uma série de fatores e as camadas de crescimento de espécies lenhosas podem conter o registro de diversos destes fatores (Brandes et al., 2011). Estudos de dendrocronologia retratam as características tecnológicas das madeiras das espécies florestais, permitindo a definição correta de seu emprego, bem como de práticas que possibilitem sua exploração sustentável.

A dendrocronologia ainda está se desenvolvendo e consolidando no Brasil, uma vez que estudos ligados a anéis de crescimento em regiões tropicais são bastante recentes em comparação a outras regiões de clima temperado. Tomazello et al., (2009) afirmam que para o Brasil as publicações de Alwim (1964) e Alwim e Alwim (1978) sobre a periodicidade do crescimento das árvores e o clima tropical foram os primeiros registros. O NEB representa uma região pouco explorada por estudos de dendrocronologia. Nesta região observa-se uma estacionalidade climática bimodal bem acentuada com um período chuvoso (outono-inverno) seguido por outro seco (primavera-verão) que favorece a formação de camadas de crescimento no xilema secundário das espécies lenhosas (Tsuchiya, 1990).

Espécies como Caesalpinia pyramidales e Cnidoscolus phyllacanthus, reiniciam a atividade vegetativa com o inicio do período de chuvas (Tsuchiya, 1995) evidenciando grande variabilidade anual nas larguras radiais dos anéis de crescimento, de acordo com o tempo de duração de cada período de seca. Mimosa acustistipula e a Astronium urundeuva, formam anéis de crescimento maiores e com maior número de vasos nos anos com elevado conteúdo de água no solo, e em anos mais secos, tanto o tamanho dos anéis de crescimento como o número de vasos diminuem (Tsuchiya, 1995). Aspidosperma pyrifolium e Mimosa hostilis, demonstraram forte correlação entre as larguras radiais dos anéis de crescimento e a precipitação que se produz nos meses de maior déficit hídrico (Tsuchiya, 1988). Nogueira Júnior (2011) demonstrou que a

peroba (Pachira stenopetala) apresentou anéis de crescimento anuais no bioma Caatinga, formados em função da precipitação pluviométrica do ano corrente, sendo que o aumento da temperatura no ano anterior (a partir de setembro) foi o fator determinante na diminuição da atividade do câmbio. Anholeto Júnior (2013) realizou importante estudo dendrocronológico quanto à composição isotópica (δ13) dos anéis de crescimento de árvores de Cedrela odorata na Caatinga e Mata Atlântica do Estado de Sergipe, corroborando com os resultados obtidos por Nogueira Júnior (2011). Cardoso (2014) analisou os anéis de crescimento de S. brasiliensis na Caatinga em Sergipe, obtendo uma cronologia expandida no tempo com madeira de construção rural, que correlacionou com a precipitação regional e a Temperatura da Superfície do Atlântico Sul (TSA). Pagotto et al., (2015), também na Caatinga, realizou estudo dendrocronológico com as espécies Poincianella pyramidalis (Tul.) L. P Queiroz (catingueira) e Aspidosperma pyrifolium Mart. (pereiro), demonstrando que essas espécie endêmicas do semiárido brasileiro, apresentam anéis de crescimento de formação anual, o que permitiu a construção de cronologias com significativa correlação com a preciptação local e a TSA. Esses trabalhos demonstram que árvores da Caatinga formam anéis de crescimento e que podem ser aplicados para estudos voltados à conservação e também de silvicultura, assim como estudos climáticos de ocorrência e intensidade dos fenômenos extremos globais, eventos ENSO e a própria TSA e suas possíveis relações com a dinâmica regional das chuvas e temperaturas.

A exploração das florestas historiada para o Nordeste e em especial a degradação dos ecossistemas, tem gerado a perda de informações importantes que foram registradas pelas árvores e, por isso devem ser priorizadas pesquisas em florestas tropicais (Boninsegna et al., 2009). As características anatômicas e a densidade da madeira podem variar entre gêneros, espécies de um mesmo gênero, entre árvores dentro de uma mesma espécie e entre diferentes partes das árvores, no sentido longitudinal e radial (Silva, 2004). Estas variações, segundo Kollmann e Cotê (1968), se devem às diferenças na estrutura anatômica da madeira e na quantidade de substâncias extrativas presentes por unidade de volume, sendo função, principalmente, da idade da árvore, genótipo, índice de sítio, clima, localização geográfica e tratos silviculturais. Esses estudos aplicados para espécies comuns no bioma Caatinga podem representar uma importante ferramenta de elucidação das questões concernentes à qualidade da madeira e sua correta aplicação, contribuindo para o desenvolvimento de novas tecnologias e promovendo saberes que fomentem a subsistência humana e das demais espécies que habitam esse bioma de Matas Secas.

Devemos aperfeiçoar o uso desses recursos em busca de processos sustentáveis, em especial a utilização das madeiras, possibilitando a conservação das espécies nativas promovendo sua estabilização nos ecossistemas e contribuindo para o recuo das espécies invasoras que tanto têm modificado os biomas em todo o mundo.