FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.2 O homem e o conceito de propriedade no NEB
O nordeste brasileiro abriga o agreste e o semiárido, onde este último por si só não oferece grandes condições de facilitação a sua ocupação (recursos hídricos, alimentos, clima, entre outros), o que dificulta mais ainda a permanência do homem na região. Contudo, a Caatinga foi ocupada (...), e o homem buscou dentro das possíveis alternativas disponíveis para a época (conhecimento), condições de estabelecimento de suas propriedades rurais, seja para exploração (comércio) ou simplesmente para sobrevivência (residência). Com o crescimento populacional e o aumento dos rebanhos, houve a necessidade de delimitar o espaço por meio da demarcação e apropriação de terras e sua divisão em áreas de cultivo e pastagens (Alves, 1999). Nos primeiros tempos de ocupação da região nordeste no Brasil, a criação de gado foi uma atividade a que alguns se dedicaram com espírito demasiado independente para se submeterem à hierarquia social rígida da época.
Para Andrade (2011) só após a guerra holandesa é que o sertão nordestino foi realmente conquistado e economicamente integrado ao Nordeste. Este processo tornou-se sistêmico a partir das lutas contra os índios cariris (revoltos com os pecuaristas) e o Quilombo dos Palmares. Estes eventos acabaram culminando com a origem de diversas sesmarias nas ribeiras nordestinas, o que possibilitou o desbravamento do Agreste e de parte do Sertão (Andrade, 2011). A partir da guerra holandesa e o medo de perder seus animais, que eram confiscados pelos invasores, os criadores alagoanos e sergipanos acabaram tendo que subir o rio São Francisco em demanda para o sertão (Andrade, 2011). Dentro dessa realidade, a origem das propriedades rurais no NEB está associada a diversos marcos históricos, sendo que essas novas áreas ocupadas, no agreste e no semiárido da Caatinga, sempre estiveram relacionadas ao desmatamento e uso “inadequado” de sua madeira. Historicamente, o homem tem utilizado os recursos naturais disponíveis em função das suas necessidades, desvinculado, na maioria das vezes, de quaisquer preocupações relacionadas ao esgotamento ou possíveis consequências desse uso.
Não se pode pensar no conceito de “propriedade”, assim como na origem da própria civilização humana, sem antes lembrar de Jean-Jacques Rousseau que foi um dos grandes pensadores do Iluminismo e teve como contemporâneos, Montesquieu, Hume, Kant e Voltaire. Nasceu em 1712, em Genebra, um país calvinista, cercado de grandes nações católicas, numa família burguesa. Morreu
aos 66 anos, no dia 02 de julho de 1778, na França (Lima, 2012; Wokler, 2012). Para Rousseau
produzido estava relacionado com a nossa própria sobrevivência, e desta forma dava-se origem a diferentes utensílios de maneira rústica, mas que eram eficientes, de acordo com as nossas necessidades, até o instante em que o homem sentiu que poderia conviver com os outros, condição facilitadora, desde que soubesse que poderia sobreviver desse jeito, o que possibilitou o desaparecimento de ações de desigualdades, e dessarte introduziu-se a propriedade e o trabalho que passou a ser necessário e fundamental para a construção da sociedade que conhecemos.
Rousseau diz:
“Como os homens não podem criar novas forças, mas só unir e dirigir as que já existem, o meio que tem para se conservar é formar por agregação uma soma de forças que vença a resistência, com um só móvel pô-las em ação e fazê-las obrar em harmonia. (...) Esta dificuldade introduzida em meu assunto pode assim enunciar-se: “Achar uma forma de sociedade que defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada sócio, e pela qual, unindo-se cada um a todos, não obedeça todavia senão a si mesmo e fique tão livre como antes” (Rousseau, 2004, p.31).
As florestas tem sido utilizadas com um único objetivo: transformá-las em campos aprazíveis, que, através de regras e com o suor humano, promove a produção agrícola que germinou e cresceu com as colheitas, onde também se viu miséria e escravidão. Deste modo, Rousseau ajuda a entender que o fundador da sociedade pode ter sido aquele que primeiro colocou cerca em volta de um terreno e que acabou tendo a ideia de falar para os outros que se tentassem entrar naquele cercado não poderiam, pois esse espaço lhe pertencia. No entanto, a partir do momento que outras pessoas começaram a não respeitar a presença das cercas por ele construídas, e promoveram sua derrubada para entrar, partindo do princípio que “a terra não tem
dono”! Nascem os primeiros conflitos e guerras em função da propriedade. Pode-se admitir que a
origem da sociedade e as primeiras leis deram novas formas que barraram os mais fracos e fortaleceram os mais fortes. Por isso Rousseau (2004) nos diz: “os homens nasceram livres, e por
toda a parte encontram-se a ferros”.
Seguindo o pensamento da época de Rousseau sobre a colonização da costa do Nordeste do Brasil, que se deu com a cana-de-açúcar e com o gado no sertão, esses dois processos têm todos os ingredientes de posse e do direito a propriedade. No pensamento de Rousseau a sociedade é como uma família, onde o Pai é o “Estado” e os filhos são o “Povo”. Os portugueses estabeleceram as capitanias hereditárias e o direito à posse das terras. Logo aos índios, os
vencidos segundo Rousseau, a eles restavam a morte ou a escravidão. Os Portugueses trouxeram da África os povos derrotados que foram subjulgados pela escravidão, mas os quilombolas resistiram contrariando essa condição. Os holandeses vieram com os mesmos objetivos: explorar e escravizar todos que viviam na costa e desenvolver o agreste. Os brasileiros fugiram para o sertão, desbravando e colonizando a Caatinga, inicialmente com atividade pecuária do gado e posteriormente com a exploração de suas madeiras, o que gerou inúmeros conflitos com indígenas da região, os quais muitos vencidos/derrotados tiveram que viver “com os vencedores”, escravizados em quase sua totalidade, mas sem dúvida perdedores de sua liberdade e conquistas culturais. A ocupação da foz do rio São Francisco, que se estende cerca de 300 km para o interior do nordeste teve seu início através do desenvolvimento da pecuária extensiva, o que também contribuiu para a atividade açucareira na região nordeste (Camelo Filho, 2005).
Historicamente, o aumento da densidade demográfica no meio rural nordestino iniciada no século XVII foi relativamente lenta, e esteve associada ao fato dessa região ser bastante seca (clima), além de ter apresentado uma rotina quanto ao uso coletivo das áreas (fins pastoris) e presença menos frequente de fazendeiros na região, o que possibilitou menor pressão sobre o espaço geográfico quando comparado a regiões de clima mais favorável à ocupação agrícola (Andrade, 1986). Chaves et al., (2014) afirma que culturas alimentares anuais como Manihot
esculenta Crantz, Phaseolus vulgaris L. e Zea mays L., e que possuem um rendimento aleatório,
acabavam sendo praticadas para o autoconsumo e em pequenas áreas cercadas (Alves, 1999). Barros (1959) relata que no Nordeste as formas de passagem (em cercas) usadas para dar acesso às propriedades receberam diferentes denominações, tais como: passadores, passadiços e saltadores. No Nordeste são observadas muitas formas de utilização de madeiras em cercas, sendo as mais comuns cercas, cercados, cancelas, porteiras, portões e fachinas.
No século XX e XXI a Caatinga foi sendo ocupada por fazendeiros bem como assentados de projetos rurais que colaboram substancialmente para a degradação desse bioma, o que tem causado a diminuição da qualidade do solo, juntamente com a regressão da sucessão ecológica, onde o estágio maduro retrocede para o início das Seres ecológicas (Santos et al., 2009). Mesmo com a prática de uma agricultura rudimentar e condições precárias de sobrevivência, realidade comum na região do Vale do São Francisco, a ação antrópica tem provocado nesses ambientes o contínuo uso inadequado dos recursos vegetais (Sampaio e Mazza, 2000). Através de séculos de exploração dos recursos florestais do semiárido, a Caatinga apresenta-se dentro de uma realidade
de perda de biodiversidade e riscos eminentes de extinção para diferentes espécies, muitas endêmicas e que possivelmente já foram extintas, e continuarão a desaparecer desses ecossistemas se houver avanços na solução de seus problemas.