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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.3 A ocupação da Caatinga e suas consequências

O bioma Caatinga faz parte do ambiente das Florestas Tropicais que recobrem aproximadamente 40% do nosso planeta (FAO, 2012), onde grande parte desse percentual (cerca de 42% ou 722 milhões de hectares) é ocupado por Matas Secas (Florestas Tropicais Secas). As matas secas ocorrem quando sua vegetação está inserida em região tropical e apresentam vários meses de seca severa ou absoluta (Mooney et al., 1995). Esses ambientes são definidos pela presença de uma vegetação submetida a volumes de chuva inferiores a média de 1600 mm, sendo característico a presença de períodos mínimos de seis meses com menos de 100 mm (Pennington et al., 2009). Esses ambientes apresentam grande variação quanto a dinâmica de crescimento de suas espécies, o que ocorre em função do rigor hídrico sob o qual estão submetidas. As florestas secas podem ter a cobertura do seu dossel, através da área foliar de sua copa, reduzidos em até 50% quando comparados a áreas de maior umidade (Murphy e Lugo, 1995). Essa condição a torna o tipo de vegetação mais ameaçada do mundo (Janzen, 1988), onde o homem é o grande responsável por esse problema, segundo Quesada et al. (2009) só na América Latina 66% desses ambientes já foram alterados e destruídos.

O uso indiscriminado da vegetação da Caatinga gera como consequência direta a degradação do solo, e isso ocorre em função da crescente demanda por produtos agrícolas e florestais, associado a pressão demográfica nessa região semiárido do NEB (Albuquerque et al., 2001). As profundas modificações que a Caatinga tem sofrido ao longo dos séculos em função do desmatamento, tem possibilitado a instalação, bem como a expansão dos processos de desertificação nessa região (Souza et al., 2015), o que associados aos percentuais descritos pela literatura quanto ao estado de modificação da sua vegetação, cerca de 80%, completamente alterada pela ação humana através do extrativismo (Araújo Filho, 1996), revelam o quanto esse bioma encontra-se ameaçado, correndo riscos reais de extinção. Os primeiros passos para a ocupação do semiárido datam o século XVII, em função das intempéries locais e as condições edafoclimáticas (Araújo Filho e Crispim, 2002). Uma das grandes razões de perda da cobertura florestal é a falta de planos de manejo florestais e os meios para sua implementação, pois o que

constata-se em grande parte das matas secas localizadas nas regiões tropicais é a concentração de esforços em plantações de florestas para induzir o rápido crescimento de espécies exóticas ao invés de buscarem conhecimentos para gerenciamento das florestas ainda existentes (Fries e Heermans, 1990).

O NEB tem sido explorado desde a passagem das primeiras “naus” que da Europa vinham para a Terra de Santa Cruz, principalmente para realizar a retirada do pau-brasil, largamente utilizado na Europa pela indústria da tinta e abundante em seu litoral (Andrade, 2011). A história nos mostra que o povoamento quase contínuo do Nordeste, desde Natal (Rio Grande do Norte) até as imediações de Penedo (Alagoas), Sergipe e o norte da Bahia já eram no final do século XVIII bastante habitadas (Andrade, 2011). Destaca-se o fato de que entre o século XIX e XX (1950), a prática das queimadas associadas à produção do carvão para fins energéticos atingiu seu auge motivado pela expansão da cultura do algodão no NEB (Souza et al., 2015). Foi nesse período que, em função do mercado favorável ao consumo da fibra de algodão, extensas áreas foram desmatadas (Souza et al., 2010).

A história de colonização do semiárido perpassa pelo uso da terra a partir da dinâmica econômica dominante naquele período. Paralelo aos canaviais, que oscilavam entre fases de crise e de esplendor, mas sempre localizadas próximas ao litoral do NEB, em função das condições climáticas favoráveis e facilidades de exportação, estavam a expansão da pecuária e do próprio algodão, ambas associadas à prática do desmatamento. A expansão da pecuária também esteve associada à substituição do gado por animais mais velozes, como cavalos e éguas, alternativa escolhida pelos proprietários a preferir a força mecânica dos animais à força hidráulica na movimentação de seus engenhos (holandeses) (Andrade, 2011). Outro fator importante descrito por Andrade (2011) foi que desde o governo de Tomé de Souza, e em busca de riquezas minerais, os colonizadores do sertão nordestino trataram de conseguir doações de terras, sesmarias, que cada vez mais penetravam nessa região.

Andrade nos diz:

“(...) subindo o Itapicuru e o Rio Real, para alcançarem o Rio São Francisco. Nem este grande rio deteve a ambição, a fome de terras dos homens da Casa Torre (Garcia d’Ávila e seus descendentes) que, através dos seus vaqueiros e prepostos, estabeleceram currais na margem esquerda, pernambucana, portanto, do Rio São Francisco e ocuparam grande parte dos sertões de Pernambuco e do Piauí. Até no Cariri cearense pleitearam os homens da Cassa Torre o recebimento de sesmarias. Construíram, assim, os maiores

latifúndios do Brasil, tornando-os senhores de uma extensão territorial maior do que muitos reinos europeus, pois possuíam, em 1710, em nossos sertões, mais de 340 léguas de terra nas margens do Rio São Francisco e de seus afluentes” (Andrade, 2011, p.183).

Esse processo de expansão da pecuária nos sertões nordestinos culminou no século XVIII nos currais baianos que se estendiam pela margem direita do Rio São Francisco e pelas ribeiras do Rio das Velhas (Minas Gerais), das Rãs, Verde, Paramirim, Jacuípe, Itapicuru, Real, Vasa Barris e Sergipe, possuindo cerca de 500 mil cabeças de gado (Andrade, 2011). Fator primordial de ocupação das terras na região NEB, a cultura do algodão, que prosperou economicamente por ocupar áreas que não eram utilizadas para cana, e que também não estavam sendo utilizadas pela pecuária, o que ocorreu especialmente no interior do nordeste, entre o agreste e o semiárido. Desse modo, a prática agrícola da cultura algodoeira se destacou economicamente.

Andrade nos diz:

“(...), pois, graças à descoberta da máquina a vapor, o algodão passou a ser largamente consumido na Europa pela florescente indústria de tecidos. Quem estudar um pouco de história econômica do Nordeste verá que ela se resume, nos dois últimos séculos, numa luta entre a cana-de-açúcar e o algodão” (Andrade, 2011, p.89).

Esses relatos retirados do trabalho realizado por Andrade (2011) demonstram de que modo a região NEB foi explorada no início de sua colonização e como o bioma Caatinga teve seus ecossistemas devastados durante o curso de nossa história. Vale destacar que todos os processos descritos estão relacionados diretamente à modificação da sua vegetação em função das práticas extrativistas adotadas durante todo o período de exploração. De fato, nunca houve por parte dos exploradores, sejam eles portugueses, holandeses, franceses ou ingleses, quaisquer preocupações que não se restringissem a meras questões econômicas ou de produção. A devastação do bioma Caatinga está marcada historicamente pela sua ocupação e modo de exploração, e tudo isso se associa com as práticas extrativistas, como observa-se através da cultura da cana, pecuária ou mesmo a prática algodoeira, desde o século XVI. É fato que o povoamento do NEB apresentou aspectos singulares quando comparado a outras regiões do Brasil, o que seguramente incidiu sobre os recursos florestais da região, maximizando seus usos e contribuindo diretamente para o estado atual de grande parte da cobertura vegetal não existente.

“Interessante é que, apesar da flutuação da procura do açúcar no mercado europeu e dos baixos níveis técnicos da agricultura e da indústria, a população nordestina espalhou-se no período que ora estudamos por toda a região, ocupando-a quase inteiramente. É verdade que amplas áreas continuaram cobertas de matas e que os engenhos, vilas e povoações ficavam situadas distantes uns dos outros, mas a superfície dos Estados nordestinos ficou praticamente desbravada, o que não ocorreu em outros trechos do território nacional, como os Estados do Sul do País e São Paulo, que ficaram com terras a desbravar até o século XX” (Andrade, 2011, p.88).

Esse desbravamento descrito por Andrade (2011), reflete diretamente na ausência de cobertura vegetal encontrada nos dias atuais, já que as populações “modernas” nunca se preocuparam com questões ligadas à conservação dos recursos florestais. No entanto, a ausência de cobertura vegetal promove a exposição do solo, o que reduz de forma direta a entrada de água, dificultando os processos de infiltração de água das chuvas, aumenta o seu escoamento (Galindo, 2008). Esse fenômeno faz com que os solos fiquem mais suscetíveis à erosão hídrica e eólica, o que causa uma maior remoção de seus nutrientes em função das chuvas, diminuindo as possibilidades de estabelecimento e crescimento de plântulas, assim como o recrutamento de novas plantas (Gutiérrez e Squeo, 2004).

Todo esse impacto antrópico ocorrido no NEB tem contribuído para a inserção e expansão dos processos de invasão desses ambientes florestais por espécies exóticas, que ocorrem quando essas espécies conseguem penetrar e se adaptar, passando a se propagar, alterando o equilíbrio desses ecossistemas (Pysek, 1995; Parker et al., 1999; Ziller, 2000). Estudos envolvendo invasão biológica, bem como a suscetibilidade de ambientes a este problema são relativamente recentes, estando a maioria dos trabalhos restritos as três últimas décadas (Noble, 1989; Roy, 1990; Rejmanek e Richardson, 1996; Williamson e Fitter, 1996; Pegado et al., 2006; Lawes e Grice, 2007; Andrade et al., 2008; Santana e Encinas, 2008; Andrade et al., 2009; Andrade et al., 2010; Oliveira et al., 2012; Nascimento et al., 2014; Gonçalves et al., 2015; Zenni et al., 2016). Os estudos referentes às espécies exóticas no Brasil ainda são limitados, apesar do avanço ocorrido nos últimos anos, de modo que as pesquisas, em grande parte, têm avaliado apenas aspectos meramente específicos relacionados à simples interação da espécie invasora com a nativa, restringindo-se a estudos de caso, onde pouquíssimos trabalhos ampliam essa dimensão (Zenni et al., 2016).

Esse assunto tem atraído a atenção da comunidade científica por causa dos seus impactos ecológicos e econômicos (Pauchard et al., 2004). Várias teorias têm sido propostas para explicar o sucesso das espécies invasoras em seus novos ecossistemas (Rejmánek et al., 2005), incluindo as características biológicas do invasor e dos ambientes (Foxcroft et al., 2004). Invasões biológicas provocam mudanças ambientais globais, interferindo no clima e na conversão direta dos ambientes naturais para uso intensivo (Zenni et al., 2016). O primeiro registro de espécie invasora no Brasil data 1824 com o capim africano Melinis minutiflora P. Beauv. (Zenni e Ziller, 2011). No entanto, durante muito tempo o Brasil não realizou estudos relacionados com espécies exóticas invasoras, a exemplo do período entre o final da década de 50 até meados da década de 80 (Zenni et al., 2016). Destaca-se o fato de que, em 1992, houve a inclusão desse tema na Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), legalizado em 1998 por decreto presidencial (no. 2.519, de 16 de março de 1998), sendo que somente em 2004 é que houve o primeiro “edital para

a elaboração de um Informe Nacional sobre Espécies Exóticas Invasoras” realizado pelo

Ministério do Meio Ambiente (Zenni et al., 2016).

Desse modo, a exploração secular da Caatinga de forma não sustentável realizada pelo homem, por exemplo, o que vem sendo feito ao longo dos tempos através do corte de madeira para lenha, a caça de animais, bem como a contínua remoção da vegetação para a dar lugar às pastagens necessárias para a criação de gado e caprinos, tem levado esse ecossistema ao seu empobrecimento (Leal et al., 2005). O que naturalmente faz com que algumas espécies nativas de ocorrência nesses ecossistemas passem a apresentar distribuições restritas e com baixas taxas de estabelecimento em seus habitats, porém, mostram crescimento populacional explosivo quando chegam a novos sítios (Lockwood et al., 2001). O desmatamento indiscriminado, associado às práticas inadequadas de manejo do solo no semiárido do NEB provocam o agravamento dos processos de degradação dos solos, o que potencializa a expansão das áreas degradadas já existentes (Albuquerque et al., 2001). Essa é a condição favorável para que espécies invasoras possam obter sucesso em ambientes com características particulares como as do bioma Caatinga, região semiárida de rigor hídrico acentuado e biodiversidade peculiar, com diversos endemismos. Grande parte das alterações dos processos ecossistêmicos relacionados à invasão biológica está associada à perda de biodiversidade (Winter et al., 2009; Vilà et al., 2011; Gilbert e Levine, 2013; Katsanevakis et al., 2014).