RESULTADOS E DISCUSSÃO
MATERIAL E MÉTODOS
Para a realização desse trabalho foram coletadas amostras de estacas mortas oriundas das cercas e de estacas de indivíduos vivos obtidos de árvores presentes nas propriedades rurais visitadas no município de Paulo Afonso, Bahia, Brasil (09°30’50.37”S, 38°09’22.15”O) (Fig. 2.4.1). Foram selecionados dois indivíduos por espécie-tipo de estaca para as espécies S.
brasiliensis e P. juliflora, presentes tanto na forma de estacas mortas como também presentes em
árvores vivas para as 20 propriedades rurais visitadas e avaliadas. Todo esse procedimento foi devidamente autorizado a partir de entrevista realizada mediante autorização prévia do proprietário e ou residente que foi informado sobre os objetivos do trabalho assinando o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), devidamente registrado e autorizado através da Plataforma Brasil, via certificado de apresentação para apreciação ética (CAAE) consubstanciado do CEP, sob o número 1.516.357. O clima da região é semiárido seco e quente, Bsh (Köppen, 1948) com precipitação média anual variando entre 300-1000 mm (Sampaio, 2010) e temperatura média do ar entre 17-33°C. Os solos da Caatinga que predominam na região de estudo são luvissolos crômicos, neossolos quartizarênicos e planossolos háplicos.
Figura 2.4.1: Mapa de Solos do município de Paulo Afonso, Bahia (Bacia hidrográfica do baixo São Francisco). Em vermelho a localização aproximada das áreas de estudo das propriedades rurais que foram visitadas no município de P. Afonso, Bahia.
MAPA DE LOCALIZAÇÃO NORDESTE - BAHIA
BRASIL
Rio São Francisco Luvissolos Cromicos Neossolo Litólicos Neossolos Quartzarenicos Planossolos Haplicos Pontos de Coleta
Fonte: Adaptação (autor) a partir de informações obtidas através da EMBRAPA Solos (http://www.uep.cnps.embrapa.br/solos/index.php?link=ba).
A identificação das estacas (espécie) presentes nas cercas utilizadas ocorreu através de incursões, utilizando a técnica da turnê-guiada (Montenegro 2001), com o auxílio dos informantes, que identificaram em campo os seus nomes vernaculares (Nascimento 2007; Chaves et al., 2014), assim como as respectivas árvores correspondentes à espécie indicada para comparações e auxílio na identificação (Mori et al., 1989). A confirmação da espécie se deu a partir da coleta de discos de madeira (2 cm de espessura) de um ou dois indivíduos de cada estaca da cerca (etnoespécie), onde foram realizadas análises macroscópicas da estrutura anatômica do lenho dessas madeiras utilizadas na sua identificação. O material testemunho encontra-se no Laboratório de Anatomia Vegetal e Dendrocronologia (LAVD) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). A determinação do nome das espécies e dos autores seguiu as regras do International Plants Names Index - IPNI (2013) e do Missouri Botanical Garden – MOBOT (2014).
Foram retirados um a dois discos com aproximadamente 2 cm de espessura para cada estaca (morta/velha e de árvores vivas/jovens) de S. brasiliensis e P. juliflora presentes nas propriedades rurais, para posterior seleção (ao acaso) e execução das análises físicas e químicas (orgânicas e carvão). Também foram coletadas 4 estacas inteiras (com aproximadamente 2,00 m de comprimento e circunferência média à altura do peito de 30 cm) de indivíduos mortos (estacas velhas) e de árvores vivas (estacas jovens) para cada espécie, para fins de produção de amostras utilizadas nos testes mecânicos. Inicialmente, foram feitas as mensurações das porcentagens de cerne e alburno de cada disco, antes que fossem realizadas as demais análises.
A partir da seleção (ao acaso) de dois discos de diferentes tipos de estaca (velhas e jovens) para cada espécie avaliada, foram retiradas de todos os discos duas cunhas opostas, utilizadas para a determinação da densidade básica da madeira. Desse modo, o restante do disco foi seccionado, sendo uma parte destinada à determinação da composição elementar e outra à composição química semelhante ao descrito por Castro (2011). As estacas retiradas das propriedades foram transportadas à Universidade Federal de Viçosa-MG, ao laboratório de Propriedades da Madeira, onde foram devidamente preparados os corpos de prova utilizados para análises químicas e físicas/mecânicas.
A determinação da porcentagem de cerne e alburno foi obtida a partir da marcação de duas retas perpendiculares nos discos de madeira, correspondentes às espécies S. brasiliensis e P.
juliflora, passando sobre sua medula. A partir dessas marcações, fez-se a medida da distância das
bordas até o início do cerne, nas duas extremidades da reta. A mudança do alburno para cerne foi verificada através do uso estereomicroscópio com aumento entre 10x a 40x para identificar e demarcar os limites anatômicos correspondentes. A porcentagem do alburno foi calculada subtraindo-se da área total a área do cerne. A relação cerne/alburno foi definida dividindo-se a área do cerne pela área do alburno. Todo esse procedimento foi realizado a partir de adaptação de metodologia proposta por Castro (2011).
Densidade básica da madeira
A partir das cunhas opostas retiradas dos discos de madeira das estacas mortas (estacas velhas), assim como das amostras de árvores vivas (estacas jovens) obtidas para S. brasiliensis e
P. juliflora, estas foram identificadas e destinadas à análise através do método de imersão em
água, seguindo os procedimentos descritos por Vital (1984), onde os valores foram calculados a partir da média aritmética das densidades das respectivas cunhas avaliadas. Todo esse procedimento foi realizado a partir de adaptação de metodologia proposta por Castro (2011).
Composição química da madeira
Materiais remanescentes dos discos das estacas de S. brasiliensis e P. juliflora utilizados para obtenção das cunhas que serviram para a determinação da densidade foram devidamente identificados e transformados em serragem, utilizando-se um moinho de laboratório do tipo Wiley, de acordo com a norma 257 om-52. Coletou-se a fração que passou pela peneira número 16 internacional, com malha de 40 mesh e ficou retida na peneira número 24 internacional, com malha de 60 mesh. Os teores de extrativos da madeira foram determinados com duplicatas de acordo com a norma TAPPI 264 om-88 (TAPPI, 1998) utilizando o método de extrativos totais, apenas alterando o etanol/benzeno pelo etanol/tolueno. Os teores de lignina insolúvel foram determinados em duplicata pelo método de Klason, modificado de acordo com o procedimento proposto por Gomide e Demuner (1986), derivado da norma TAPPI 222 om-88. A lignina solúvel foi determinada por espectrometria, conforme Goldschimid (1971), a partir de diluição do filtrado proveniente do procedimento para obtenção da lignina insolúvel. A lignina total foi determinada
através da soma dos dois valores obtidos para a lignina insolúvel e solúvel, enquanto o teor de holoceluloses foi obtido através do somatório dos teores de extrativos e de lignina totais subtraído de 100. Todo esse procedimento foi realizado a partir de adaptação de metodologia proposta por Castro (2011) e realizado em laboratório de química estrutural da madeira do departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa-MG.
Propriedades do carvão
Para a realização das análises químicas relacionadas às estacas jovens e velhas para S.
brasiliensis e P. juliflora quanto aos percentuais de cinzas, de carbono fixo e voláteis, foram
utilizadas as amostras remanescentes dos discos de madeira utilizados para obtenção das cunhas que serviram para a determinação da densidade. A partir de sua identificação foram moídas e peneiradas a uma granulometria de aproximadamente 0,2 mm de acordo com a norma ABNT NBR 8112, com algumas adaptações para a determinação dos percentuais descritos acima em base seca (ABNT, 1986). O teor de materiais voláteis foi determinado pelo aquecimento do carvão a 950ºC em forno mufla, onde as amostras foram colocadas em cadinhos tampados em seguida e levados à porta da mufla por dois minutos para aclimatação e, posteriormente, para o seu interior por mais nove minutos, totalizando onze minutos. O teor de cinzas foi obtida após a combustão completa do carvão, através de aquecimento em forno mufla a 650ºC durante 6 horas, sendo a massa de cinzas em relação à massa de carvão seco o próprio teor de cinzas. O teor de carbono fixo foi calculado através da soma dos teores de materiais voláteis e cinzas, subtraído 100. Todo esse procedimento foi realizado a partir de adaptação de metodologia proposta por Castro (2011) e realizado em laboratório de química estrutural da madeira do departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa-MG.
Propriedades mecânicas
Os ensaios de laboratório das estacas velhas e jovens das espécies S. brasiliensis e P.
juliflora foram realizados com corpos de prova escolhidos ao acaso. Esses corpos de provas
foram obtidos a partir das quatro estacas velhas (oriunda das cercas mortas) e das quatro estacas jovens (oriunda de árvores vivas) recolhidas das diferentes propriedades rurais avaliadas em Paulo Afonso, Bahia. Os corpos de prova utilizados para análises mecânicas foram preparados de acordo com a normativa da ABNT MB-26 (1940) e os ensaios foram realizados segundo a norma
NBR 7190 (1997). Adotou-se esse procedimento em função da conveniência de se utilizar corpos de prova com dimensões adequadas à realização dos testes, assim como pela disponibilidade do material original, de modo semelhante ao realizado por Texeira (2008). Os ensaios das características mecânicas executados foram: compressão paralela das fibras (CP); cisalhamento (CI) e flexão elástica (FE). Todos os resultados foram obtidos em daN/cm2.
Características anatômicas
Para fins de descrição anatômica das madeiras de S. brasiliensis e P. juliflora utilizaram- se amostras retiradas dos discos remanescentes empregados para obtenção das cunhas usadas no cálculo da densidade básica (estacas jovens), provenientes de regiões radiais equidistantes com dimensões de 2,0 x 2,0 x 3,0 cm. As lâminas histológicas foram confeccionadas a partir de corpos de prova utilizados para a caracterização macroscópica, nos três planos de estudo, sendo amolecidos em água à ebulição; obtidos cortes histológicos (12-14 μm) com navalha de aço em micrótomo de deslize; armazenados entre lâminas de vidro-papel metálico; clarificados com água sanitária-água destilada (1:1); lavados em água destilada; desidratados em álcool (30/50%); coloridos com safranina (30/70%); desidratados em uma série alcoólica (50/100%) de acetato e álcool (1:1) e, acetato de N-Butila; selecionados os melhores cortes e montados em lâmina de vidro com Entelam, cobertos com lamínula (Johansen, 1940; Sass, 1951).
Para a descrição anatômica qualitativa das madeiras avaliadas (estacas jovens e velhas) foram retirados cortes histológicos dos três planos fundamentais de cada amostra transversal, longitudinal tangencial e longitudinal radial, segundo IAWA (1989) e as normas de procedimentos em estudos de anatomia de madeira do IBAMA (Coradin e Muniz, 1992) que foram colocados em tubos de ensaio, com solução de peróxido de hidrogênio (Dadswell, 1972) e, em seguida, foram montadas lâminas temporárias medindo-se trinta fibras para cada dois indivíduos diferentes por espécie em função do tipo de estaca, determinando-lhes o comprimento, largura, diâmetro do lume e espessura da parede. Para essas medições utilizou-se um microscópio óptico acoplado a um sistema de captura de imagens, o que possibilitou a visualização das fibras no monitor e posterior captura da imagem através do software Axion-Vision. Os cortes foram feitos através de micrótomo de deslize. Todo esse procedimento foi realizado a partir de adaptação de metodologia proposta por Texeira (2008) e realizado em laboratório de anatomia da madeira do departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa-MG.
Delineamento experimental
Para as análises da composição química e determinação das propriedades do carvão foram realizadas duas repetições para as espécies S. brasiliensis e P. juliflora, tanto para as amostras referentes às estacas mortas como para as de estacas oriundas de árvores vivas (estacas jovens). Os resultados obtidos para ambas as espécies testadas foram comparados com dados correspondentes para as mesmas características tecnológicas avaliadas, obtidas para outras espécies. Os dados das estacas foram submetidos a testes de normalidade e testes de correlação simples. Considerou-se sempre o nível de significância de 5%. Para a avaliação das intercorrelações existentes entre as propriedades da madeira em função das possíveis diferenças entre estacas velhas e jovens, foram aplicados os testes de Pearson para ambas as espécies. Os testes estatísticos foram realizados com o auxílio dos programas STATISTICA® 7 e PAST (Hammer et al., 2001).
RESULTADOS E DISCUSSÃO