• Nenhum resultado encontrado

A desconstrução dos princípios parlamentaristas

CAPÍTULO 1 – CARL SCHMITT

1.4 WEIMAR E A ESCOLHA PARLAMENTARISTA

1.4.3 A desconstrução dos princípios parlamentaristas

O parlamentarismo foi a forma de governo oposta ao Estado monárquico autoritário que melhor reunia os princípios liberais, reconhecendo, portanto, uma nítida separação entre Estado e sociedade. Nesse sistema de governo, a sociedade, através da representação, detém o poder determinante, exercendo a soberania do povo pela lei (KERVÉGAN, 2008, p. 40). A crítica de Schmitt, já formulada em seu Romantismo Político (2001a), de que o liberalismo se caracteriza por uma conversa sem fim da burguesia-individualista, o que leva o Estado a uma incapacidade de decidir (hamletismo político)138, é incorporada ao parlamentarismo. Em 1923, em seu livro A crise da democracia parlamentar, Schmitt (1988a, p. 34) retoma essa crítica, afirmando que a ratio do parlamentarismo reside em um processo dinâmico-dialético de confronto de opiniões contrapostas, de onde surgiria a verdadeira vontade política.

Nessa obra, Schmitt (1988a, p. 35) utiliza-se do pensamento de Guizot, apresentando os três elementos característicos do parlamentarismo, sendo eles: (i) “que ‘os poderes’ sejam sempre forçados a discutir e, assim, a buscar a verdade juntos”139; (ii) “que a publicidade de toda a vida política coloque ‘os poderes’ sob o

controle dos cidadãos”140; (iii) “que a liberdade de imprensa incentive os cidadãos a

buscarem a verdade por si próprios, e que ela seja transmitida aos ‘poderes’”141. Assim,

tem-se que o parlamentarismo obedece a um princípio de discussão, a um princípio de publicidade e, por fim, a um princípio de liberdade de imprensa. O primeiro deles, discussão, apresenta, implicitamente, um outro princípio que seria o da separação de

138 Tal crítica toma como base a tradição do pensamento de Donoso Cortés assumida por Schmitt (1985,

p. 59), a partir da qual afirma o autor alemão: “era característico ao liberalismo da burguesia não decidir”, tendo ele “definido a burguesia como ‘uma classe que discute’”. Na tradução inglesa: “it was

characteristic of bourgeois liberalism not to decide”; “defined the bourgeoisie as a ‘discussing class’”.

139 Na tradução inglesa: “that ‘the powers’ are always forced to discuss and thereby to seek truth together”.

140

Na tradução inglesa: “that the openness of the whole of political life places ‘the powers’ under the

citizens control”.

141Na tradução inglesa: “that press freedom prompts citizens to seek the truth for themselves and to make it know to ‘the powers’”.

poderes. Isso é percebido na própria explicação de Schmitt sobre o princípio da discussão quanto ele afirma que são os poderes, no plural, que devem buscar a verdade, através da discussão. No tocante ao terceiro princípio, liberdade de imprensa, este possui um caráter instrumental, se colocando como um elemento de pleno desenvolvimento dos dois primeiros.

A estruturada tese de Guizot é criticada por Schmitt por se fundar e, consequentemente, se vincular, ao liberalismo. Isso porque, seu sistema se sustenta a partir da noção de discussão. Ponto esse de conexão também ressaltado por Balakrishnan (2000, p. 67), quando afirma que “a defesa liberal clássica do parlamento tinha sido baseada numa crença de que as melhores leis eram o produto do discurso racional”142. É justamente esse discurso racional, a discussão, que viabiliza a

concretização dos princípios da publicidade e da separação de poderes, pilares estes do parlamentarismo (SCHMITT, 1988a, p. 48-9). Tal noção de discussão, cara ao parlamentarismo, é, como se verá adiante, o fundamento de uma das críticas de Schmitt (1988a, p. 8), quando diz que “a crença no parlamentarismo, no governo pela discussão, pertence ao mundo intelectual do liberalismo. Não pertence à democracia”

143.

Já o princípio da publicidade é associado à crença na qualidade da opinião pública, tendo tal fato uma polêmica origem por duas razões distintas, sendo elas: (i) seu posicionamento contrário a teoria dos segredos do Estado (Arcana rei publicae); (ii) por ir contra a “política do gabinete, conduzida por ouças pessoas atrás de portas fechadas” (SCHMITT, 1988a, p. 38)144. Assim, Schmitt (1988a, p. 38-9) afirma que a

publicidade, principalmente com o Iluminismo, se torna um valor absoluto. Na sequência, o autor apresenta a ligação da crença na opinião pública advinda da publicidade à “divisão ou equilíbrio de diferentes atividades e instituições do Estado”145.

142No original: “classical liberal defense of parliament had been based on a belief that the best law were the product of rational discourse”.

143

Na tradução inglesa: “the belief in parliamentarism, in government by discussion, belongs to the

intellectual world of liberalism. It dos not belong to democracy”.

144Na tradução inglesa: “cabinet politics, conduced by a few people behind closed doors”. 145

Conforme Schmitt assevera, a separação de poderes revela a crença do liberalismo de que a questão da unidade absoluta do poder se solucionaria com o desenvolvimento de um sistema de mediações institucionais que cria uma pluralidade de pontos de vista e opiniões:

(...) o parlamento não deve ser apenas uma parte desse equilíbrio, mas precisamente porque ele é o legislativo, o parlamento deve-se ser equilibrado. Isso depende de um modo de pensar que cria multiplicidade em todos os lugares para que um equilíbrio criado a partir da dinâmica iminente de um sistema de negociações substitua a unidade absoluta (...). (SCHMITT, 1988a, p. 40-1)146

Esse equilíbrio não ocorreria somente entre os diferentes poderes, se viabilizando, também, dentro do próprio Poder Legislativo, como acontece nos sistemas bicamerais (SCHMITT, 1988a, p. 41). Logo, em coerência com o pensamento liberal, a discussão é trazida para dentro do Estado (MAIA, 2007, p. 161).

Diante do exposto, conclui-se que tanto a publicidade quanto a separação de se apóiam na discussão que, como demonstrado supra, atua como interseção entre o parlamentarismo e o romantismo político, sendo ambos expressões do liberalismo. Portanto, o parlamentarismo leva o Estado à impotência decisória, negando seu caráter político147, e evitando, assim, o deslinde de questões essenciais à comunidade política, em razão da permanente conversa sem fim que mantém a salvo os privilégios do status quo.

A política corporativista de grupos de interesse naturalmente gravitava em direção a compromissos sem princípios avessos aos riscos. A tentativa de evitar difíceis decisões que pudessem romper o sistema de compromissos pluralista, policrático, requer que o poder de governar efetivamente seja sempre mínimo, precisamente para que ele não possa ser usado para romper o delicado status

quo. Este era o real significado do ‘pluralismo’: um sistema político sem um centro, deslocando-se rumo à catástrofe. (BALAKRISHNAN, 2000, p. 104)148

146

Na tradução inglesa: “parliament should not to be just a part of this balance, but precisely because it is

the legislative, parliament should itself be balanced. This depends on a way of thinking that creates multiplicity everywhere so that an equilibrium created from the imminent dynamics of a system of negotiations replaces absolute unity”.

147 Caráter político aqui, sumariamente, pode ser entendido como a capacidade de decisão diante de um

conflito.

148

No original: “The corporatist politics of interest groups naturally gravitated towards risk-averse,

unprincipled compromises. The attempt to avoid difficult decisions which might disrupt the pluralist, polycratic system of compromises required that the power to govern effectively be kept at a minimum,

Apesar de reconhecer a contribuição dada pelo parlamentarismo que, numa perspectiva democrática, foi essencial à superação da monarquia, Schmitt (1988a, p. 49-50) crê que ele já não é mais adequado à realidade constitucional da época (1926). Tal conclusão é orientada pela reflexão schmittiana de que os debates – que deveriam se orientar no princípio da discussão, com vistas a apreciação de argumentos e contraargumentos racionais, em prol da tomada de decisões que não beneficiassem a parcelas específicas da população, mas ao povo como um todo – eram travados não no plenário, mas em

pequenos e exclusivos comitês de partidos ou de coalizões partidárias [que] tomam suas decisões a portas fechadas, e o que os representantes dos grandes grupos de interesses capitalistas acordam nos pequenos comitês é mais importante para o destino de milhões de pessoas, talvez, do que qualquer decisão política. (SCHMITT, 1988a, p. 49-50)149

Logo, o parlamentarismo, segundo Schmitt (1988a, p. 49-50), sucumbe em suas próprias fundações, pois se volta às decisões tomadas secretamente, tal qual ocorria na teoria da Arcana rei publicae, além de fugir às decisões políticas importantes, culminando no hamletismo político. O autor não apenas apresenta as bases da decadência do parlamentarismo, como também já apresenta uma forma de superá-lo rumo a uma nova forma de governo.

Ao invés de considerar, como o fez em sua obra Teologia Política, a multidão como indisciplinada e insurgente, Schmitt agora avalia o espírito heróico das mobilizações das massas e, com base nos trabalhos do sindicalista Georges Sorel, adepto das teorias irracionalistas do uso da força150, ele identificou a força motriz que

lhes subjaz nos grandes mitos políticos. Esta mudança da teologia política para a mitologia política significou uma grande abertura para a possibilidade de uma moderna política das massas.

precisely so that it could not be used to disrupt a delicate status quo.This was the real meaning of ‘pluralism’: a political system without a centre, drifting towards catastrophe”.

149 Na tradução inglesa: “small and exclusive committees of parties or of party coalitions make their decisions behind closed doors, and what representatives of the big capitalist interest group agree to in the smallest committees is more important for the fate of millions of people, perhaps, than any political decision”.

150 Em suma, são teorias que colocam em cheque o pensamento racional (que orienta o liberalismo), bem

Tomando como base o livro Reflexões sobre a violência (Réflexions sur la

violence) de Sorel, Schmitt se apropria da ideia de mito, pois ela dá às massas “uma

imagem mítica que empurra sua energia para a frente e lhe dá a força para o martírio, assim como a coragem de usar a força” (SCHMITT, 1988a, p. 68)151. A percepção de

Schmitt (1988a, p. 76) é de que “a teoria do mito é o mais poderoso sintoma do declínio do racionalismo relativo do pensamento parlamentarista”152.

A partir de sua compreensão decisionista-institucionalista do direito, Schmitt vê na teoria do mito de Sorel, a possibilidade de moção das massas, influenciadas por uma imagem mítica, que, rompendo com o hamletismo político, conduz a uma decisão, a qual funda uma efetiva democracia, pautada em uma igualdade democrática. O mito da República de Weimar, segundo Schmitt, era o Presidente.