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3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.1. A desertificação: conceitos, causas e conseqüências

“Apesar dos problemas identificados e da vulnerabilidade apontada, existem êxitos e razões para esperanças” (MMA, UNCCD).

A palavra ―desertificação‖ foi mencionada pela primeira vez pelo pesquisador francês Louis Lavauden, em 1927, sendo popularizada nos anos 40, por André Aubreville, silvicultor francês, conhecedor dos problemas ambientais da África tropical e subtropical, em sua publicação denominada ―Climats, Forêsts et Desertification de l’Afrique Tropicale‖ (AUBREVILLE, 1949), fato ocorrido depois de uma década de experiências relacionada com a degradação da terra na Grande Planície Americana, causada principalmente pelo desmatamento, exploração intensiva dos solos e nove (9) anos de seca intensa que afetou a região nos anos de 1929 a 1936. No entanto, a questão da desertificação data de 6000 a.c. - nessa época o desmatamento já se apresentava como causa do colapso das comunidades no sul de Israel/Jordânia (MMA, 2009).

A degradação dos solos é tão antiga como a própria humanidade e este problema têm acompanhado o homem desde a sua origem (REPÚBLICA ARGENTINA, 1997).

Posteriormente, a desertificação tem sido associada por diversos pesquisadores, em um determinado momento a processos naturais e em outro, a atividades humanas.

O tema da desertificação passou a ter atenção especial após a prolongada seca ocorrida no Sahel africano, de 1968 a 1973. Desde então, os pesquisadores e governos têm estudado este fenômeno que não apenas afeta as regiões tropicais, mas também aquelas localizadas em zonas subtropicais e temperadas (VIANA; RODRIGUES, 1999). Em 1967, os processos de desertificação foram identificados e reportados por vários países africanos (MMA, 2009).

Ciente das grandes perdas econômicas, sociais e ambientais causadas por aquela seca, a Organização das Nações Unidas (ONU) convocou uma Conferência Internacional, em Nairobi, capital do Quênia, em agosto de 1977. Durante essa Conferência foi discutida a situação da desertificação no mundo, sendo elaborado o Primeiro Plano de Ação Mundial de Luta contra a Desertificação - PLACD. O evento teve como finalidade aprofundar o conhecimento sobre a desertificação, suas causas, suas conseqüências socioeconômicas e ambientais e sobre o desenvolvimento e adoção de medidas de controle em países afetados pelo mesmo fenômeno. Importante lembrar que o Professor ecólogo João de Vasconcelos Sobrinho (Universidade Federal de Pernambuco) participou como coordenador, a partir de 1974, da elaboração do relatório do Brasil para essa Conferência.

A desertificação foi discutida novamente em fórum internacional durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD) realizada no Rio de Janeiro, em 1992. Na Agenda-21, elaborada durante aquela reunião, o capítulo 12 trata da luta contra a desertificação e da resistência a seus efeitos em zonas áridas, semi-áridas e subúmidas secas do planeta (BRASIL, 1997). Realizou-se também em Fortaleza, em 1994, a Primeira Conferência Latinoamericano de Desertificação (CONSLAD), cujo objetivo foi o de preparar o Anexo de Aplicação Regional da América Latina e Caribe para a UNCCD. Entre outras reuniões realizadas, a respeito das Sessões da COP’s (Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para Combate à Desertificação),

que é composta por um Secretariado Permanente no contexto das Nações Unidas (ONU) e que trata de ações relativas a esse processo. A COP-3 - a terceira sessão da Conferência das Partes das Nações Unidas da Convenção de Combate à Desertificação foi realizada em Recife-PE, em 1999.

Entretanto, apesar da extensa lista de estudos já realizados sobre o tema desertificação ao longo de décadas, ainda se tem uma grande limitação a respeito de sua compreensão. Desta forma, ainda estão em curso discussões sobre conceitos e fundamentos básicos, sobretudo, quanto a indicadores, e, por outro lado, a literatura apresenta diversas definições similares para desertificação, entre tantas se podem citar:

“Entende-se a desertificação como um problema complexo, de natureza sistêmica, problema ambiental por excelência que afeta a estrutura e o funcionamento das terras secas, abrangendo as múltiplas relações entre os processos que envolvem os fatores biofísicos, sócio-econômicos, políticos e institucionais” (ABRAHAM et al., 2006).

“Fenômeno integrador de processos econômicos, sociais, naturais e/ou induzidos, que destroem o equilíbrio do solo, da vegetação e da água, bem como, a qualidade da vida humana, nas áreas sujeitas a uma natureza edáfica e/ou climática...” (FERREIRA et al., 1994, apud VIANA; RODRIGUES, 1999).

O conceito de desertificação, como estabelece o Artigo 1º. da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, se refere a: “a degradação das terras das zonas áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante de fatores diversos tais como as variações climáticas e as atividades humanas” (UNCCD, 2007).

SAMPAIO et al. (2005), referindo-se a definição acima, comentam que esta definição tem um sentido muito vago, no momento em que caracteriza a degradação das terras e os fatores que podem causar a desertificação e fazem ressalvas ao termo ―vários fatores, incluindo as variações climáticas e as atividades humanas”. Explicam que, quando se trata de ―Vários fatores‖, esta dá margem a que qualquer degradação da terra, não importando sua causa, seja considerada desertificação. No tocante as “Variações climáticas” consideram ser indefinidas para um fenômeno variável por natureza e sem que seja especificada a escala temporal e espacial. Referindo-se às ―Atividades humanas”, consideram abrangentes que engloba todas as ações da humanidade, no presente e no passado.

Segundo estes autores, a Convenção reconhece a complexidade do processo e não parece querer resolver todos os problemas de suas múltiplas dimensões. E reforçam a tese de que esta definição restringe-se aos objetivos imediatos de prevenir a degradação das áreas agrícolas e com vegetação nativa e recuperar as já degradadas. Neste entendimento, argumentam que os problemas prioritários relacionados com o aumento da renda e a melhoria das condições sociais não apresentam soluções em curto prazo, sendo vislumbrado para melhoria dessas condições um futuro distante, e fazem ver que sejam aplicadas ações que promovam a diminuição da pobreza, melhoria no nível educacional, a questão sanitária, entre outras.

Seguindo essa linha de pensamento, documentos da FAO (1993) fazem referências a essa definição e explicam que esta é um pouco restritiva, já que não expressa de forma clara a interação entre os fatores climáticos e as atividades humanas que na maioria das vezes pode ser um fator determinante para o aparecimento de processos de desertificação. No entanto, é admissível que em certas partes do globo, podem ocorrer processos de desertificação

(degradação do solo), sem que a causa seja atribuída à atividade humana (geralmente baixa devido à baixa densidade populacional). Enfatiza ainda, que o fenômeno natural das repetidas secas talvez causadas pela mudança climática global, difícil de analisar, pode levar à degradação de tal magnitude, pondo em perigo a existência das populações que vivem nas regiões afetadas ou próximas ou oferecer impedimentos para o seu uso futuro.

A ligação entre a desertificação e assentamentos humanos parece ser um conceito de aplicação geral, e a FAO propõe a seguinte definição: ―Conjunto de fatores geológicos, climáticos, biológicos e humanos que provocam a degradação da qualidade física, química e biológica dos solos das zonas áridas e semiáridas pondo em riscos a biodiversidade e a sobrevivência das comunidades humanas” (FAO, 1993).

A Convenção considera as regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, as áreas com índice de aridez (proporção entre a precipitação anual e a evapotranspiração potencial) entre 0,05 e 0,65, exceto as regiões polares e subpolares. Ao mesmo tempo em que estabelece a definição de degradação da terra, como:

“a redução ou perda nas zonas áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, da produtividade biológica ou econômica e da complexidade das terras agrícolas de sequeiro, das terras irrigadas, das pastagens naturais, das pastagens semeadas, das florestas e das matas nativas devido aos sistemas de utilização da terra ou a um processo ou combinação de processos, incluindo os que resultam da atividade do homem e das suas formas de ocupação” (UNCCD, 2007).

Neste sentido, a Convenção reconhece que a desertificação tem sua origem em complexas interações de fatores físicos, biológicos, políticos, sociais, culturais e econômicos.

Como se destaca acima, nenhum dos autores discutidos, quando tratam do processo de desertificação, explora os processos históricos e às relações capital-trabalho, ou seja, o modo de produção capitalista, quando o homem se apropria da natureza para suprir o desejo do lucro. Também não tratam nem da questão das políticas públicas e nem da questão da globalização que acentuou a destruição da natureza pelo homem e de suas condições de vida.

O ponto comum das definições é que a desertificação tem sido um problema global que se reflete diretamente no nível de vida das populações das regiões citadas, cujas causas são atribuídas principalmente às ações do ser humano sobre o meio ambiente. Para ANGELOTTI et al. (2009) a degradação dos solos e sua associação com a desertificação têm relevância mundial com implicações nas estruturas sociais e econômicas das populações que vivem em áreas onde este fenômeno é observado.

Para BARBOSA (2011)1 ―o processo da desertificação é um desastre longo, lento e extremo, e seus riscos são construídos histórico e socialmente. Ele sucede porque os ecossistemas das terras áridas, semiáridas e subúmidas secas ficam em risco frente à exploração da terra, acima do suporte. As relações de capitais no campo têm degradado centenas de milhares de terras ao longo dos anos, pelo uso exaustivo das terras. A desertificação não é um fenômeno natural e sim econômico. É a territorialização do capital‖.

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BARBOSA, M. P. - Territórios de Insustentabilidade face ao Processo de Desertificação no Semiárido

No presente trabalho a definição de desertificação adotada é aquela dada pela UNCCD (United Nations Convention to Combat Desertification - Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação), ou simplesmente CCD, da qual o Brasil é signatário, desde 1996, ratificando-a em 1997. Os países que assinaram a Convenção são denominados ―Partes‖ da Convenção, reconhecem à problemática e se comprometem na implementação de ações de combate, mitigação e adaptação aos efeitos adversos da desertificação.

Considerando o cumprimento de ações importantes, o governo brasileiro tem adotado medidas para o controle da desertificação, entre estas, a que estabelece as Diretrizes para a Política Nacional de Controle da Desertificação, a Resolução do CONAMA 238, de 22 de dezembro de 1997 e o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PAN- Brasil), concluído em 2004. Em 2008, foi instituída através do Decreto da Presidência da República, de 21 de julho de 2008, a Comissão Nacional de Combate à Desertificação – CNCD, órgão colegiado de estrutura regimental do Ministério do Meio Ambiente.