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2. CAPITULO 1 – A HISTÓRIA DO SAMBA

2.1.6 A DIÁSPORA DO SAMBA

Ainda nos atendo à extensa obra de Tinhorão, podemos abordar o samba e a marcha

como produtos urbanos. Segundo o autor, esses gêneros musicais são reconhecidos como

ritmos tipicamente cariocas, pois os dois marcaram presença por aproximadamente sessenta

anos (de 1870 a 1930), após a decadência do café na região do Vale do Paraíba, acarretando

uma liberação de mão de obra escrava que se somou às outras camadas populares do Rio de

Janeiro.

Segundo Tinhorão, esses gêneros musicais são os verdadeiros representantes da

cultura urbana do Rio de Janeiro. É claro que podemos entender que o autor é reconhecido

como um defensor da cultura brasileira e grande crítico da cultura de elite, tanto que, segundo

ele, o samba e a marcha criaram ritmos específicos e capazes de atender a essas necessidades

de representantes da cultura urbana brasileira, que começa a ser representada no início do

carnaval de rua carioca: “das lentas passeatas dos ranchos e à procissão desvairada dos blocos

e cordões carnavalescos” (TINHORÃO, 2012, p. 18).

A marcha e o samba são produtos do carnaval, mas do carnaval dos negros e das

classes mais baixas, assim pode-se entender o porquê desses estilos serem expressões próprias

desses segmentos sociais; foi daí que surgiram, segundo o autor, a primeiras expressões

culturais urbanas do Brasil, até então o que havia culturalmente eram expressões

“importadas”:

Até então, o que havia era a música operística da elite (que eventualmente cultivava a valsa e a modinha), os gêneros estrangeiros das polcas,

schottisches e quadrilhas, importados para uso das

camadas médias e “populares”, e, finalmente, o batuque, de sabor africano, exclusivo dos negros que formavam o grosso da camada mais baixa, mas aos quais não se poderia chamar de povo. (TINHORÃO, 2012, p. 17).

De acordo com Tinhorão, após Mário de Andrade, a música popular brasileira

caminhou de maneira diferente do até então apresentado, sempre com uma conotação

folclórica. No seu primeiro livro, Tinhorão já se dedicava ao estudo sobre o surgimento do

samba e sua relação com a música popular brasileira:

Com a honrosa exceção de Mário de Andrade, e de alguns poucos estudiosos mais, as manifestações de cultura urbana foram sempre definidas depreciativamente como “popularescas”, como no caso dos folcloristas (que se interessam pelo povo com o paternalismo de autênticos senhores feudais da cultura. (TINHORÃO, 2012, p.13).

Direcionando o olhar para a questão do surgimento do samba e da marcha e, por

consequência, para a origem do carnaval carioca, pode-se utilizar das pesquisas

antropológicas de Tinhorão nos anos 1960. O autor buscou percorrer o caminho trilhado pelo

samba, ora por depoimentos, ora por documentos, também pelos discos gravados desde o

princípio da história do samba, pois antes dessa compilação de dados realizados por Tinhorão,

pouco se tentou construir essa historiografia da música popular brasileira e o samba como o

principal representante da nação Brasil.

[...] A nascente classe média do Segundo Reinado desde meados do século resolvera o seu problema de participação na festa coletiva com a criação dos préstitos imitados do carnaval veneziano. As camadas mais baixas, entretanto, sem recursos financeiros para a armação de carros alegóricos, tiveram que criar uma forma própria de expressão. E eis como nasceram os ranchos (TINHORÃO, 2012, p. 18).

Nesse ponto, a história começa a nos fornecer mais detalhes da trajetória do samba

pelo Brasil e suas representações sociais. Convém ressaltar que temos nos valido sempre de

um método comparativo, o que se aplica tanto na imitação europeia do carnaval veneziano

pelas classes mais privilegiadas, como no nascimento dos ranchos como uma forma de

expressão para os menos abastados – desta vez, porém, há uma herança nordestina, mais

precisamente da população baiana que se deslocou para o Rio de Janeiro, e que já tinha

incutido o ritmo dos tambores africanos. Então, o que se compara aqui são as relações do

samba (carnaval) versus o carnaval veneziano, se tratando das classes mais privilegiadas,

enquanto e o nascimento dos ranchos cariocas versus tambores africanos, uma herança dos

negros vindos da Bahia. Assim compara-se a semelhança entre os ranchos cariocas com os

baianos e a semelhança entre o carnaval carioca dos mais abastados com o carnaval

veneziano. Pode-se avaliar que essa é uma máxima da classe média e alta brasileira no

decorrer da história, a imitação do velho mundo.

Os ranchos carnavalescos, que representam a primeira manifestação popular do Rio de Janeiro, constituíram uma adaptação dos ranchos dos Reis

Nordestinos e devem a sua estilização aos baianos que formavam o grosso dos moradores da zona da saúde.

A zona da Saúde, ao longo da hoje Rua Sacadura Cabral, além da Praça Mauá, era o local dos trapiches onde se movimentava a mercadoria de exportação, principalmente o café do Vale do Paraíba. Para o transporte das sacas de 73 quilos exigia-se um tipo de trabalhador rijo e musculoso, que era sempre o trabalhador escravo. Com a decadência da cultura do café no Rio de Janeiro e a abolição da escravatura, essa mão de obra rural liberada convergiu para a Corte, onde o trabalho urbano mais compatível com a sua falta de qualificação e a força dos seus músculos era o trabalho do porto. Esses trabalhadores baianos – que assim têm explicada sua presença numerosa no bairro da Saúde – eram os mais habilitados a impor o seu estilo à crescente massa popular da cidade por uma razão fundamental: eles procediam do recôncavo baiano, onde a multiplicação dos pequenos portos permitira sempre uma relação tão dinâmica entre comunidades negras que, com o correr dos anos, se tornara possível obter nos campos da religião, da música e dos costumes uma síntese brasileira da cultura africana (TINHORÃO, 2012, p.18-19).

Um desses costumes citados acima, foram os ranchos carnavalescos cariocas que

foram criados por esses negros baianos por volta de 1870, esses ranchos utilizados no

carnaval carioca teve sua origem nas camadas populares baianas, essa camada de negros ex-

escravisados que trouxeram a sua cultura afrodescendente para o Rio de Janeiro nessa

construção do que seria o samba nacional, mas há que se ressaltar, que esse samba carioca,

veio com os negros da Bahia no apoio a construção do símbolo representante da cultura

nacional inerente do batuque de origem africana.

Ora, nesses ranchos, onde se cantavam em marcha as quadras e as solfas mais populares entre os negros da Bahia, também se “arrojava o samba”, isto é, também se incluía um ritmo e um sapateado que nada mais eram do que uma estilização da vigorosa coreografia do batuque (TINHORÃO, 2012, p.19).