2. CAPITULO 1 – A HISTÓRIA DO SAMBA
2.1.9 O SAMBA, O RACISMO E OS CONFLITOS SOCIAIS
Um racismo muito particular marca o Brasil: negado publicamente, praticado na intimidade.
Das origens coloniais do país aos dias de hoje (...) por trás do mito da convivência pacífica o
da exaltação da miscigenação, na prática, a velha máxima do “quanto mais branco melhor”.
Nunca foi totalmente deixado de lado. (Schwarz, Lilia, 2012)
Lilia Schwarz (2012) trata da questão do branqueamento apontando, inclusive dados
de pesquisas no decorrer da história que indicam que este tema está longe de ter fim. Pontua
os momentos e as dicotomias, desde o inicio da colonização até os dias atuais.
Voltemo-nos ao momento em que o samba, ainda está à margem da sociedade
estabelecida, convém observarmos a análise sociológica de Norbert Elias (2000), em que a
dicotomia acompanha a história da humanidade, pois há sempre, ou quase sempre, um lado se
opondo ao outro e, mais que isso, pode-se dizer que sempre haverá um grupo estabelecido que
sente-se superior e, dessa forma, fechado ao oposto, ao contrário, colocando esse outro à
margem da sociedade estabelecida. Norbert Elias (2000) trata desse conflito na citação a
seguir:
Essa é a auto imagem normal dos grupos que, em termos do seu diferencial de poder, são seguramente superiores a outros grupos interdependentes. Quer se trate de quadros sociais, como os senhores feudais em relação aos vilões, os “brancos” em relação aos “negros”, os gentios em relação aos judeus, os protestantes em relação aos católicos e vice-versa, os homens em relação às mulheres (antigamente), os Estados nacionais grandes e poderosos em relação a seus homólogos pequenos e relativamente impotentes, quer, como
no caso de Winston Parva, de uma povoação da classe trabalhadora, estabelecida desde longa data, em relação aos membros de uma nova povoação de trabalhadores em sua vizinhança, os grupos mais poderosos, na totalidade desses casos, veem-se como pessoas “melhores”, dotadas de uma espécie de carisma grupal, de uma virtude específica que é compartilhada por todos os seus membros e que falta aos outros. Mais ainda, em todos esses casos, os indivíduos “superiores” podem fazer com que os próprios indivíduos inferiores se sintam, eles mesmos, carentes de virtudes – julgando-se humanamente inferiores (ELIAS, 2000, p.19-20).
Nota-se, na citação acima, que os outsiders interiorizaram de tal forma a ideia de
exclusão que havia certo conformismo de que eram realmente inferiores. Já se voltarmos
nossos olhares para 1928, no Rio de Janeiro, percebe-se que nesse caso não havia o mesmo
aceite, pois os moradores do morro haviam trazido sua cultura para o centro urbano da cidade,
mas a exclusão era nítida. Os negros vinham para o Carnaval de rua do Rio de Janeiro, mas
continuavam excluídos, pois os carros alegóricos inspirados no carnaval europeu não eram
acessíveis a certos segmentos sociais. Segundo Tinhorão, os negros, pobres e mestiços saíam
em blocos e faziam ranchos.
Pode-se analisar esses fatos por outra vertente: a da compreensão dessas dicotomias
por meio da noção de configurações, esta elucidada por Elias e Scotson (2000) na obra Os
estabelecidos e os outsiders, pois os Outsiders são os de fora, que estão à margem de uma
sociedade
:As comunidades e bairros são um tipo especifico de configuração. O estudo mostrou o alcance e as limitações das opções que elas davam aos indivíduos que as compunham. Podemos imaginar um recém- -chegado que se instalasse no loteamento ou na “aldeia”. Quer chegasse sozinho ou com a família, ele certamente disporia de algumas alternativas. Poderia, como fizeram muitas pessoas do loteamento, “manter sua reserva”. Poderia seguir a minoria desordeira. Poderia tentar penetrar lentamente na sociedade da “aldeia”. Poderia decidir rapidamente que nem a “aldeia” nem o loteamento lhe convinham como bairros e se mudar. Mas, caso permanecesse, tornando-se um “vizinho”, não teria como deixar de ser apanhado nos problemas configuracionais existentes. Seus vizinhos começariam a “situá-lo”. Cedo ou tarde, ele seria afetado pelas tensões entre os “estabelecidos” e os “outsiders” (ELIAS, 2000, p. 184-185).