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A Dimensão Cultural na Perspectiva Social

A Dimensão Cultural na Perspectiva Social

A Origem, Significado e Valor da Confiança em Várias Culturas

Como já foi visto anteriormente, a confiança emerge através dos comportamentos honestos e estáveis dos membros de uma comunidade mediante um conjunto de regras comummente partilhadas. A confiança é passível de ser avaliada numa determinada sociedade através do seu Capital Social (Fukuyama, 1996).

Segundo Bourdieu e Wacquant (1992, citados por Moreira, 2007), o Capital Social é constituído pelos recursos actuais e possíveis de um indivíduo ou grupo, que aumentam mediante a força das redes de relacionamentos, muito ou pouco institucionalizados, onde há mútuo conhecimento e identificação. No mesmo sentido que os anteriores autores, Burt (1992, citado por Moreira, 2007) define-o como o conjunto de contactos, colegas e amigos, que abrem oportunidades ao uso do capital financeiro, estando o sucesso deste uso determinado mais por quem se conhece e menos pelo que se sabe. Knocke (1999, citado por Moreira, 2007) entende o Capital Social como processo, segundo o qual os actores sociais mobilizam e usam as conexões das suas redes (dentro e entre organizações) para conseguirem aceder a outros actores sociais. Já Portes (1998, citado por Moreira, 2007) caracteriza Capital Social como a capacidade dos actores, enquanto seres sociais, alcançarem benefícios graças à comunidade existente nas equipas de trabalho ou graças a outras estruturas sociais. Para Nahapiet e Ghoshal (1998, citados por Moreira, 2007), o Capital Social é constituído tanto pelas redes de relacionamentos como pelos activos que elas possam mobilizar, na medida em que os recursos actuais e potenciais estão embebidos, disponíveis e derivam dos relacionamentos em rede que um indivíduo ou unidade social possui. Pennar (1997, citado por Moreira, 2007) vê o Capital Social como a própria rede de relacionamentos, que ao influenciar o comportamento dos indivíduos influencia também o crescimento económico. No mesmo sentido que Pennar, Brehm e Rahn (1997, citado por Moreira, 2007) entendem que a rede de relacionamentos cooperativos entre cidadãos é o Capital Social, capaz de ajudar a resolver problemas colectivos de acção. Já Woolcock (1998, citado por Moreira, 2007) não compreende o Capital Social enquanto rede de relacionamentos propriamente dita, mas sim como o que está inerente à rede social em si, nomeadamente as normas de reciprocidade, a confiança e a informação. Coleman (1990, citado por Moreira, 2007) vem propor que o

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Capital Social seja definido pela função que assume. É constituído não apenas por uma mas por várias entidades distintas que partilham duas características comuns: todas são algum aspecto da estrutura social à qual pertencem e têm a função de facilitar determinadas acções das outras entidades que estão na estrutura. Putman (1995, citado por Moreira, 2007) considera que o Capital Social é o conjunto de características da organização social, tais como a confiança social, as normas e as redes, que ajudam os seus membros a cooperar e coordenar a sua actuação com vista ao benefício mútuo. Por fim, Inglehart (1997, citado por Moreira, 2007) considera que o Capital Social é uma cultura de confiança e de tolerância, a partir da qual despontam redes de associações voluntárias.

A partir destas diferentes definições do conceito de Capital Social, somos levados a concordar com Adler e Kwon (2002, citados por Moreira, 2007), que consideram as várias definições existentes francamente semelhantes. Por esta razão, continuaremos a seguir a lógica de Moreira (2007: 93), que não se concentrou apenas numa definição e procurou através do trabalho de Fukuyama (1996) reunir “um grupo de características que, conjuntamente, são susceptíveis de abarcar o amplo conceito de capital social”. E encontrou quatro dimensões. A primeira dimensão insere o Capital Social no Capital Humano. Este último diz respeito ao capital patente nos conhecimentos e capacidades cognitivas do ser humano, ao contrário dos terrenos, fábricas, máquinas e ferramentas que são Capital Físico (Becker, 1975, citado por Moreira, 2007). Segundo Fukuyama (1996), Coleman (1988) afirma que o Capital Social consiste na capacidade de associação das pessoas para todos os aspectos da vida em sociedade, sendo uma parte específica do Capital Humano.

A segunda dimensão do Capital Social afirma que este ganha forma em três níveis: nação, grupos intermédios e famílias. Fukuyama (1996) denomina os grupos intermédios de sociedade civil, que engloba um vasto e complexo conjunto de instituições intermédias, tais como as áreas empresariais, meios de comunicação social, instituições educacionais, associações voluntárias, clubes, igrejas, associações de caridade, entre outras.

A terceira dimensão considera que “o capital social não se adquire através de decisões de investimento racional” (Moreira, 2007: 93), ao contrário de outras formas de Capital Humano (Fukuyama, 1996). Segundo Fukuyama (1996), pode-se investir no Capital Humano através da formação profissional ou do ensino académico, mas o Capital Social só consegue ser adquirido se houver hábito no cumprimento das normas morais da comunidade a que se pertence, onde se inserem as virtudes da honestidade, lealdade e a interligação ao grupo. Por isso, Fukuyama (1996) considera o Capital Social mais difícil de adquirir que as restantes

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formas de Capital Humano, ao exigir da pessoa sociabilidade e por não emergir apenas da decisão individual da pessoa.

A quarta e última dimensão do Capital Social é a sua resistência à mudança ou à destruição, pelo facto de emergir da cultura. O Capital Social não pode ser criado por lei, como um governo cria um exército ou um banco central, porque ao estar ancorado na cultura não serão as leis ou um governo que tornarão uma estrutura familiar estável e forte ou farão uma instituição social perdurar no tempo; são sim os hábitos, os costumes e a ética das pessoas que fazem crescer a sociedade civil (Fukuyama, 1996).

Através destas quatro dimensões, patenteamos a origem do Capital Social: a cultura. Cada sociedade tem a sua e única própria cultura, diferentes entre si, mas não melhores ou piores. Mas do ponto de vista económico, podemos analisar uma sociedade quanto aos seus hábitos culturais virtuosos ou perversos/imorais. E temos de ter em conta que os hábitos culturais virtuosos tanto podem ser exercidos individualmente como socialmente, mas apenas os que emergem em contexto social, como a confiança recíproca é que contribuem para a formação de Capital Social (Fukuyama, 1996).

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Figura 8 – Virtudes Culturais Sob o Ponto de Vista Económico

Fonte: Adaptado de Moreira (2007: 94), que se baseou em Fukuyama (1996).

Assim, o Capital Social emerge da cultura e relaciona-se profundamente com o nível de confiança de uma determinada sociedade. Mas como nenhuma sociedade é igual a outra, o Capital Social não é globalmente homogéneo, pelo contrário, o que provoca de sociedade para sociedade maior ou menor propensão para os seus membros se associarem e diferentes formas de associação (Fukuyama, 1996). Como se pode ver na figura seguinte, Fukuyama (1996) distingue as diferentes sociedades com base no “raio de confiança que se encontra subjacente a cada um dos três níveis em que se corporiza o capital social” (Moreira, 2007: 95).

 Capacidade Trabalhar Arduamente;  Frugalidade;  Racionalidade;  Espírito Inovador;  Abertura ao Risco.  Confiança Recíproca;  Honestidade;  Espírito de Cooperação;  Capacidade de Inspirar Confiança;  Sentido de Dever.

Formam o Capital Social Emergem em Contexto Social São essenciais à incubação das virtudes individuais

Virtudes Culturais

(sob o ponto de vista económico)

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Figura 9 – Nível de Confiança em Diferentes Sociedades

Fonte: Adaptado de Moreira (2007: 95), que se baseou em Fukuyama (1996).

Fukuyama (1996) retirou duas conclusões acerca das sociedades que considerou no seu objecto. A primeira conclusão que o autor retirou é que há uma correlação positiva entre o nível de confiança da sociedade civil e o nível de confiança que há em relação aos representantes da nação, por isso é que vemos na figura anterior ambos os níveis no mesmo eixo. A segunda conclusão é que os 2 eixos permitem identificar 3 clusters. O cluster onde se inclui p.e. a Alemanha, EUA e Japão, é constituído pelas sociedades de forte grau de confiança aos 3 níveis. O cluster onde se incluem a Federação Russa e algumas sociedades ex-comunistas, é constituído por sociedades onde predomina uma baixa confiança aos 3 níveis. E o cluster onde estão as sociedades chinesas e latino-católicas caracteriza-se pelo

Fraca Fraca Forte Sociedade Civil e Nação Família Forte Alemanha EUA Japão Sociedades Chinesas e Sociedades Latino- católicas Federação Russa e

algumas Sociedades Ex- comunistas Família Confiança Sociedade Civil e Nação Fraca Forte Forte Fraca

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baixo nível de confiança na sociedade civil e nação, mas há um forte grau de confiança na família.

Relação da Confiança com a Estrutura Industrial e com o Desenvolvimento Organizacional

O objectivo de Fukuyama (1996) em classificar as sociedades que estudou, de acordo com os 3 níveis que traduzem o Capital Social, era perceber se havia uma correlação entre o nível de confiança e a dimensão média das empresas nas sociedades que foram seu objecto de estudo, bem como a correlação entre o nível de confiança e o grau de Desenvolvimento Organizacional da estrutura industrial desses países.

A investigação de Fukuyama (1996) verificou que nem sempre as grandes economias estão associadas a grandes empresas e que as pequenas economias não conseguem formar grandes empresas. Dá o exemplo de como a Holanda, Suécia e Suíça são pequenas economias com gigantes grupos privados, de como Taiwan e a Coreia do Sul são semelhantes na dimensão, mas a Coreia do Sul tem empresas de muito maior dimensão. Estes e mais exemplos de Fukuyama (1996) demonstram que associar directamente a dimensão do país à concentração industrial é errado, tal como também mostra a breve resenha histórica de Portugal do séc. XX no Anexo 1, onde apesar da pequena dimensão tínhamos os denominados Capitães da Indústria e uma grande concentração empresarial. Assim, não se deve considerar a dimensão dum país como uma variável explicativa da dimensão estrutural da sua indústria. Mas isto não significa que Fukuyama (1996) exclua a hipótese de vários factores internos de um país influírem na dimensão das empresas, tais como políticas fiscais, legislações anti-trust e outras deliberações legais. Mais uma vez, encontramos semelhança entre o Anexo 1 e as considerações de Fukuyama (1996), porque várias estipulações legais do Estado Novo levaram a uma forte concentração empresarial e a gigantismos industriais num país de pequena dimensão económica como Portugal.

Uma correlação importante encontrada por Fukuyama (1996) foi entre um grau elevado de confiança e a capacidade de um país criar vastas organizações empresariais, estando a falar especificamente do cluster de países onde se inclui a Alemanha, os EUA e o Japão. Inclusivamente o autor considera que estas foram as primeiras três economias que conseguiram criar grandes e modernas hierarquias empresariais profissionalmente geridas. Num contexto de Capital Social quase oposto a estas economias, temos os países de fraco grau de confiança onde predominam as organizações familiares. Estamos a falar do cluster

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das sociedades chinesas e das latino-católicas, onde se incluem a China, Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan, França, Itália e Portugal. É difícil à população destes países confiar em não aparentados, o que para Fukuyama (1996) impede o surgimento de empresas profissionalmente geridas e modernas, as empresas tendem a ser propriedade e de gestão familiar, o que acarreta manter uma dimensão pequena, na medida em que para alargarem a sua dimensão é preciso ir além da família e empregar gestores profissionais. Caso as indústrias de larga escala não familiares (impessoais) surjam, crescem de uma forma vagarosa.

Como podemos constatar a partir dos 3 níveis que formam o Capital Social presentes na figura 9, as sociedades familiaristas tem um forte grau de confiança na família e fora dela não. Segundo Fukuyama (1996), as famílias são a unidade básica de organização económica destes países e dada a dificuldade em criar empresas de larga escala, o Estado de países como a China, Coreia do Sul, França, ou Itália propuseram-se a intervir para fomentar a larga escala empresarial internacionalmente competitiva. Por conseguinte, o surgimento de grandes empresas não familiares com capacidade competitiva está dependente da intervenção estatal ou até do investimento estrangeiro. Já na Alemanha e no Japão, os níveis de Capital Social e de confiança elevados não colocaram a necessidade ao Estado de intervir para criar empresas de grande dimensão. Além disso, são países onde é possível, pelos mesmos factores, haver organizações não lucrativas bem sucedidas que ultrapassam o espaço familiar, como hospitais, escolas, igrejas, etc.

A propósito da intervenção do Estado, Lopes e Moreira (2004) consideram que Portugal, ao ter um fraco grau de confiança, encontra dificuldades para aumentar a dimensão das suas empresas e para desenvolver a cooperação inter-empresarial, propondo que estas lacunas podem ser ultrapassadas com a intervenção do Estado.

Indo agora ao segundo objectivo de Fukuyama (1996) – qual a correlação entre o nível de confiança e o grau de Desenvolvimento Organizacional da estrutura industrial dos países – foi verificada correlação entre um forte grau de confiança e o nível de Desenvolvimento Organizacional alcançado.

Nas sociedades de elevado grau de confiança, as pessoas que trabalham na mesma empresa partilham mais confiança entre si e operam mais segundo as normas éticas partilhadas, o que permite menos custos e demoras, bem como mais abertura para a inovação organizacional porque a elevada partilha de confiança permite mais relações sociais. Outra consequência do elevado grau de confiança no Desenvolvimento Organizacional é permitir às organizações gerir o trabalho com maior flexibilidade e mais orientação para o grupo, com uma

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descentralização das responsabilidades no sentido descendente até aos níveis mais baixos da organização (Fukuyama, 1996).

Nas sociedades com baixo nível de confiança, há maior tendência para a burocratização e para o estabelecimento de mais normas para conter e isolar os trabalhadores. Apesar de existirem nestas sociedades empresas familiares lucrativas e com forte dinâmica, muitas delas debatem- se com problemas de sucessão, por estarem dependentes do estado de saúde ou da competência do fundador da empresa familiar, na medida em que lhes é mais complicado optar por modos de governação mais duradouros (Fukuyama, 1996).

O quadro seguinte foi elaborado por Moreira (2007) com base em Fukuyama (1996) e sintetiza as implicações que níveis altos ou baixos de confiança têm na estrutura industrial e no Desenvolvimento Organizacional.

Quadro 7 – A Estrutura Industrial e o Desenvolvimento Organizacional nas Sociedades de Forte e Fraca Confiança

Critérios Sociedades de Fraca “Confiança” Sociedades de Forte “Confiança”

Poucas de grande dimensão (sendo de propriedade ou apoiadas pelo Estado);

 N.º significativo de grande dimensão (totalmente autónomas e privadas);

Muitas de pequena dimensão (familiares);

 Variável;  Poucas de nível intermédio

(familiares);

 Variável; Estrutura da Economia

Industrial

Rácio de concentração industrial baixo.

 Rácio de concentração industrial elevado.

 Gestão Familiar;  Gestão Profissional; Desenvolvimento

Organizacional

 A cooperação não surge

espontaneamente, mas forçada por um sistema formal de regras e regulamentos. Resiste-se à inovação e a novas soluções organizacionais.

 Grande variedade de relações sociais permite a inovação organizacional e adopção de novas formas organizacionais de entre as quais a Rede.

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Hipótese Predominante na Literatura Académica

Como iremos ver no decorrer deste ponto do presente anexo, a hipótese que predomina na literatura considera que quer a estrutura da economia industrial quer o nível Desenvolvimento Organizacional de uma dada sociedade ou país, são aprioristicamente determinados pelo seu grau de confiança. Além disso, predomina igualmente que a Constituição e Funcionamento de redes de pequenas empresas estão também dependentes do grau de confiança.

Se reportarmos ao anexo 8, decerto nos recordaremos que Portugal carrega a ‘lanterna vermelha’ ou vai imediatamente à frente dela nos ESS (2002 e 2008) e WVS (1990 e 1999), dados que vão ao encontro da asserção de Fukyama (1996), que Portugal é uma sociedade Familiarista, de fraco nível de confiança e de fraca capacidade de associação entre não aparentados, situando-se no cluster das sociedades chinesas e latino-católicas.

Temos visto ao longo desta dissertação que há uma progressiva – não definitiva ou total – tendência para a “transição das grandes organizações hierárquicas para redes de pequenas empresas” no contexto do paradigma emergente e do Desenvolvimento Organizacional, inevitavelmente ligado a essa emergência de um novo paradigma (Moreira, 2007).

A capacidade de resistência ou aderência à inovação organizacional está profundamente relacionada e dependente do Capital Social, da confiança e do valor da sociabilidade espontânea (Moreira, 2007). Para Fukuyama (1996: 41), a passagem de grandes hierarquias para redes de pequenas empresas é cada vez mais possibilitada pelas modernas tecnologias de informação. Todavia, estas alterações tecnológicas não produzem tão bons resultados em termos de inovação organizacional se a transição de grandes hierarquias para pequenas empresas não for intermediada pela confiança. Num contexto onde o mercado e as tecnologias rapidamente mudam, “as sociedades bem munidas de capital social estarão mais rapidamente preparadas do que outras para adoptarem novas formas organizacionais”. A figura seguinte facilmente demonstra este facto.

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Figura 10 – A Hipótese Dominante de Acordo com Fukuyama

Fonte: Copiado de Moreira (2007: 101), que se baseou em Fukuyama (1996).

Na figura 10, é possível verificar como Fukuyama (1996) cai num determinismo cultural, por taxativamente considerar que ao não haver confiança, inevitavelmente as velhas hierarquias serão restauradas, à semelhança da hipótese dominante na literatura académica.

Segundo Moreira (2007), Ring (1999) é outro autor enquadrado na hipótese dominante, muito semelhante a Fukuyama (1996), mas designa a confiança fraca de ‘frágil’ e a forte de ‘resiliente’.

Ring (1999, citado por Moreira, 2007) critica a perspectiva económica por esta supor que os actores económicos agem com o intuito de maximizar a sua própria utilidade, sugerindo que o fraco papel atribuído à confiança pela perspectiva económica deriva, possivelmente, da

Grandes Organizações Hierárquicas Sociedades com Forte Grau de Confiança Sociedades com Fraco Grau de Confiança Não emergem Comunidades Espontâneas Emergem Comunidades Espontâneas Organizações em Rede Pressupõe a existência de Capital Social Emerge da Cultura Transição para a Organização em Rede (Custos de Transacção menores pela existência de confiança)

Restauração das Velhas Hierarquias

(custos de transacção maiores pela falta do valor da confiança)

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dificuldade em distinguir diferentes tipos de confiança. Esta crítica integra Ring (1999, citado por Moreira, 2007) na perspectiva social, porque está patente como ele considera a confiança fortemente explicativa da actuação económica dos actores. Baseando-se em Baker (1984), Ring (1999, citado por Lopes e Moreira, 2004 e Moreira, 2007) considera que apesar da perspectiva económica admitir que a confiança integra a vida económica, acaba por não lhe reconhecer a devida importância e encara-a como um fraco mecanismo de controlo do oportunismo.

Para Ring (1999, citado por Lopes e Moreira, 2004 e Moreira, 2007) há numerosas disciplinas que suportam a concepção da importância crítica da confiança na acção e negociação económica, e considera haver dois papéis desempenhados pela confiança nas transacções económicas. O primeiro é substituir os sistemas de controlo que regulamentam qualquer transacção económica, através de normas e sanções. O segundo papel é o de ser condição permissora à formação de redes contínuas de transacção económica. Mas a análise que Ring (1999, citado por Lopes e Moreira, 2004 e Moreira, 2007) fez à literatura acerca de confiança tornou-lhe claro que estes dois papéis não podem ser explicados pela mesma definição de confiança, porque em cada caso há um diferente tipo de confiança. Por isso, o autor propõe uma concepção de confiança discriminada em dois tipos: confiança frágil (abordada pelos investigadores em economia e em gestão) e confiança resiliente (abordada pelos gestores de educação, sociólogos e filósofos).

Da revisão de literatura à área da gestão das organizações efectuada por Ring (1999, citado por Lopes e Moreira, 2004 e Moreira, 2007) emergem os dois conceitos, discriminados nas figuras 11 e 12 seguintes.

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Figura 11 – Confiança Frágil

Fonte: Copiado de Lopes e Moreira (2004: 49), que se basearam em Ring (1999).

“Os actores económicos expressam

confiança na previsão das suas

expectativas” (Zucker, 1986, citado por Ring, 1999: 119).

“Nesta definição, a confiança é

frequentemente comparada ao conceito do risco, ou probabilidade de os

resultados futuros associados à negociação virem a ser tal como o previsto pelas partes. O risco que os actores económicos assumem enfrentar é frequentemente uma consequência da ameaça do comportamento

oportunístico” (Ring, 1999: 119 e 120).

“Permite a negociação entre actores

económicos, mas apenas em situações protegidas. “(...) Nomeadamente, (...) “garantias tais como Commons (1924) descreve: tribunais, mediadores e árbitros” (Ring, 1999: 120).

“Pode ajudar as partes a simplificar as

suas relações económicas (Luhman, 1979, citado por Ring, 1999: 120). (...) mas, não explica os meios informais dessa regulamentação” (Ring, 1999: 120).

“Se as expectativas dos actores

económicos não forem conhecidas, é provável que se quebre ou desfaça a permanente dependência da confiança frágil” (Barber, 1983, citado por Ring, 1999: 121).

“Implica garantes terceiros ... (ex.

seguros, leis, hierarquias) ... porque a confiança frágil não constitui, por ela própria, um meio suficiente de controlo do comportamento oportunista” (Ring, 1999: 121).

“A estabilidade é uma característica

importante das relações em rede, assim a confiança frágil pode auxiliar as partes a preparar o terreno para criar uma rede” (Blau, 1964, citado por Ring, 1999:120).

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Figura 12 – Confiança Resiliente

Fonte: Copiado de Lopes e Moreira (2004: 49), que se basearam em Ring (1999).

Para concluir, Ring (citado por Lopes e Moreira, 2004 e Moreira, 2007) considera que os 2 tipos de confiança por ele elaborados têm consequências distintas na actividade económica. Embora a confiança frágil seja suficiente para se efectuar uma transacção económica, acaba por não ser necessária. Mas para que se efectue, numa rede, uma transacção económica, a confiança resiliente é necessária e suficiente.

Assim, quer Fukuyama (1996) quer Ring (citado por Lopes e Moreira, 2004 e Moreira, 2007), consideram que é a confiança que permite constituir e pôr a funcionar as redes. No caso de