• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 4: Disputando enquadramentos

4.5 A disputa dos enquadramentos

No estudo de Vimieiro & Maia (2011a e 2011b) sobre os enquadramentos midiáticos a respeito da temática da deficiência, dois principais ​frames foram identificados: um grupo de textos enquadrava o assunto como uma questão médica, enquanto outro enquadrava como uma questão de direitos. Essa diferença não é acidental - enquadrar esse tema de um jeito ou de outro traz significados e consequências. Como abordei anteriormente, o enquadramento visibiliza e salienta alguns aspectos da realidade, enquanto oculta outros (ENTMAN, 1993). Por isso, escolher um​frame ao invés de outro consequentemente: deixará sob a penumbra uma boa parte de determinada temática; definirá sob qual perspectiva essa temática deverá ser tratada; estabelecerá quais aspectos terão destaque. A construção de um enquadramento, portanto, depende de uma valoração moral - uma escolha do que é passível de ser salientado e o que não é; ou ainda, do que deve ser considerado mais importante e o que não deve.

Nesse sentido, nenhum enquadramento pode ser neutro (GAMSON, 1992 [2011]). Porque precisam se referir à uma temática comum com um termo também comum, normalmente os diferentes atores sociais (tanto os indivíduos comuns como os ​media​, por exemplo) passam a adotar um enquadramento único para mencionar aquela determinada temática - mesmo que logo em seguida defendam um enquadramento absolutamente contrário àquele mencionado (Gamson,

1992 [2011]). Por exemplo, Gamson cita o caso das ações afirmativas - diversas políticas públicas para inclusão de negros e negras. O próprio termo “ações afirmativas” não é neutro, mas ele se estabeleceu como o termo principal, e é difícil se referir à esse tema sem utilizar esse termo, mesmo que a fala vá totalmente contra esse enquadramento. “A ação afirmativa configurada como uma frase descritiva por meio da utilização convencional no discurso público, tornou-se a classificação oficial, apesar de não possuir neutralidade de enquadramento” (GAMSON, 1992 [2011], p. 31).

Para Gamson, se o termo “ações afirmativas” se estabeleceu como comum, foi devido à ação discursiva daqueles atores sociais que o defendem, e, “uma vez que o termo se torna estabelecido no discurso público, é difícil evitá-lo, mesmo para aqueles que têm um enquadramento diferente” (GAMSON, 1992 [2011], p.30). As definições de enquadramentos compartilhados, nesse sentido, “se tornam frequente e apropriadamente o alvo de disputas simbólicas entre defensores de diferentes modos de enquadrar um domínio temático” (GAMSON, 1992 [2011], p. 31). Esse processo foi observado nessa pesquisa ao percebermos, como discutido no Capítulo 2 ( ​A Discussão sobre o Aborto ​), a proeminência do ator ​mulher​e do tópico ​valor da vida ​como definidores do problema em ambos os lados da discussão sobre o aborto: mesmo a referência às mulheres sendo um enquadramento historicamente constituído pelo lado contra a criminalização do aborto, e o valor da vida pelo lado a favor da criminalização, ambos os enquadramentos se constituíram como comuns na discussão, utilizados pelos dois lados. A competição pela definição de um enquadramento comum exemplifica como a disputa de enquadramentos pode ser complexa, acirrada, cercada de interesses e motivada moralmente; enfim, a disputa de enquadramentos pode ser, também, uma disputa política (FERREE et al, 2004).

Ao longo dessa dissertação foi possível perceber através de diferentes resultados como os enquadramentos e/ou partes de enquadramentos encontrados foram altamente variados. Na última seção, por exemplo, nota-se como, na definição de problema, vários atores e vários tópicos diferentes foram utilizados. Dessa forma, seria impossível tratar os enquadramentos fora de uma perspectiva conflituosa e disputada. Na verdade, em diversos momentos determinados

enquadramentos foram inclusive contestados​explicitamente,​como é possível ver nos exemplos a seguir:

Tabela 13 - Exemplos de contestação explícita de enquadramentos

Movimento Social

"Houve uma época em que as linhas pareciam mais claras e os slogans diziam tudo. Pro-vidas eram seguidores do Papa amantes de Jesus, com uma paixão por grudar terços em ovários, e ateus tinham a resposta imediata: "mantenha sua teologia longe da minha biologia!". Mas então as linhas começaram a se misturar. O jornalista libertário e ateu Nat Hentoff disse que "Não ter teologia não é o menor empecilho para ser pró-vida". Don Marquis, professor de filosofia ateu, declarou que o aborto é " imoral" porque nega aos fetos em desenvolvimento "um futuro como o nosso". O âncora do programa Point of Inquiry (do Center for Inquiry - uma ONG que promove debates racionais) e autor de livros como Jesus está Morto e O Caso Contra o Caso de Cristo, Robert M. Price, chamou o aborto de " assassinato de segundo grau" em um de seus podcasts." Kristine

Kruszelnicki, atéia e presidente da organização laica Pro-life Humanists no artigo "Sim, existem ateus pró-vida por aí e aqui está porque sou um deles".

Representant e Político

Agora, o que eu pergunto é o seguinte: aquele que induz, instiga uma mulher a abortar, muitas vezes aquele que a engravidou e não quer assumir a responsabilidade, essa conduta não deverá ser criminalizada? Aquele, Sr. Presidente, que fica na Internet vendendo, ganhando dinheiro, matando crianças, é disso que nós estamos falando. Interrupção de gravidez, direito reprodutivo são expressões eufemísticas para um crime injustificável: assassinar uma pessoa humana, assassinar uma pessoa humana na sua fase intrauterina. É disso que nós estamos falando.

Cidadão comum

O vídeo foi lindo, e mais lindo ainda pois foi em prol das mulheres, das escolhas que elas devem fazer para sobreviver, das escolhas que são tiradas delas e da forma como o mundo as vê, as prende e as limita.

Mulher nenhuma vai abortar pelo simples fato de que amanhã ela pode abortar novamente, e assim sucessivamente, tudo é questão de bom senso!

O aborto deve ser tratado como um caso de saúde pública e não de forma criminal, pois "O aborto inseguro é a quinta causa de morte materna no Brasil, de acordo com o DataSUS".

No primeiro exemplo, o movimento social questiona a definição de problema relacionada às ​crenças religiosas​. No segundo exemplo, o representante político questiona o enquadramento de um objeto específico (ato de abortar como interrupção voluntária da gravidez ​e maternidade como direito reprodutivo​). No terceiro exemplo, o cidadão comum critica a visão criminal do aborto e afirma que este deve ser visto como uma questão de ​saúde pública​.

No âmbito de qualquer assunto político, mas especialmente daqueles mais controversos, o estabelecimento de uma forma de entender e dar sentido àquele tema é polêmica. “Na medida em que há competição política sobre uma dada questão, haverá competição pública sobre qual enquadramento é mais apropriado” (SNIDERMAN & THERIAULT, 2004, p. 114). No mesmo sentido dessa ideia, Maia (2009) defende um olhar para as disputas de enquadramentos e não apenas para ambientes sem contestação - pois, dessa forma, os processos políticos podem ser melhor compreendidos. “A política é tipicamente competitiva. Há frequentemente luta entre grupos de interesse, partidos políticos ou grupos sociais, entre distintos sistemas de pensamento e quadros ético-morais, de modo que as questões são muitas vezes enquadradas e debatidas em termos conflitantes” (MAIA, 2009, p. 304). É preciso destacar, ainda, que embora em algumas circunstâncias (como quando há muita polarização) os indivíduos já apresentem enquadramentos pré-definidos, frequentemente eles se mostram dispostos a lidar com um ambiente competição de enquadramentos (DRUCKMAN, PETERSON & SLOTHUUS, 2013; LEEPER & SLOTHUUS)