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Capítulo 4: Disputando enquadramentos

4.6 Oportunidades discursivas

Partindo da premissa de que os enquadramentos são conflituosos, podemos nos perguntar como esse conflito de fato ocorre. Um longo estudo de Ferree et al (2004) sobre as configurações dos debates sobre o aborto nos Estados Unidos e na Alemanha buscou investigar exatamente isso - a forma como os enquadramentos são disputados e como diferentes atores sociais agem nessa disputa para que seus entendimentos sobre a questão possam prevalecer. Abordarei alguns dos principais pontos analisados pelos autores tanto para compreender a maneira como um conflito de enquadramentos ocorre, tanto porque trata-se do mesmo tema da minha pesquisa. Os importantes resultados e análises de Ferree et al (2004) podem iluminar a futura análise sobre as disputas de enquadramentos sobre o aborto no Brasil.

Um dos principais argumentos de Ferree e colegas é que os diferentes atores sociais não disputam enquadramentos em uma arena neutra, mas sim “em um terreno complicado” (FERREE et al, 2004, p. 286). O terreno discursivo e simbólico onde enquadramentos são disputados não está nunca em branco, mas sim desenhado e marcado por uma extensa rede de

significados, dinâmicas políticas, valores e culturas já existentes. Isso quer dizer que nessa arena de disputa estão implicadas diferentes características políticas, sociais e culturais que configuram como essa disputa ocorre. Essas características configurariam o que os autores chamaram de oportunidades discursivas​.

A​estrutura de oportunidades discursivas faz parte da estrutura de oportunidades políticas mais amplas: conceito que se refere a todos os pontos de acesso institucionais e culturais que os atores podem aproveitar para tentar levar suas reivindicações para o fórum político, e que tem sido usado para explicar a frequência e o momento certos para protestos. A estrutura de oportunidades discursivas limita-se ao quadro de ideias e às instituições que agem sobre às construções de sentido em uma determinada sociedade. Esse conceito fornece uma ferramenta para entender porque certos atores e enquadramentos são mais proeminentes no discurso público do que outros. (FERREE et al, 2004, p. 62).

Essas estruturas de oportunidades discursivas podem ser pensadas em dois níveis: um mais institucional (sobre a estrutura política e jurídica) e outro mais cultural (sobre os valores, sentidos e significados).

Ferree et al (2004) perceberam que, nos Estados Unidos, as configurações políticas e jurídicas forneciam mais ​pontos de acesso para a sociedade civil do que as da Alemanha - promovendo, assim, mais oportunidades para os cidadãos e organizações civis apresentarem seus enquadramentos na esfera política. Percebeu-se que “os partidos políticos na Alemanha são organizações relativamente amarradas e centralizadas que desempenham um papel bem institucionalizado como intérpretes de significados. Eles tomam posições claras e definidas em problemas políticos e mantém uma disciplina partidária” (FERREE et al, 2004, p. 83). De maneira oposta, nos Estados Unidos “os partidos políticos não tem legitimidade constitucional e são organizações guarda-chuvas descentralizadas, mais como uma coalização solta do que um ator único. Eles têm vários porta-vozes, muitas vezes com mensagens conflitantes, e geralmente confiam em suas posições em questões onde há desentendimento interno do partido” (​ibidem​).

No nível social e cultural, foi identificado que, na Alemanha, havia uma presença marcante do fantasma do nazismo - o que altera e conforma o terreno discursivo no debate sobre o aborto. “Na Alemanha, uma das principais implicações para a oposição ao período nazista é a elevação do princípio de proteção da vida para o topo da hierarquia de valores. Isso fornece uma oportunidade discursiva especial para enquadramentos que abordam essa perspectiva” (FERREE

et al, 2004, p. 83). O valor da vida estava presente de forma tão significativa nos sentidos e significados sociais alemães que enquadramentos sob esse ângulo encontravam mais espaço na disputa pública. O enquadramento mais proeminente no discurso público alemão dizia respeito à vida do feto.

Constatou-se também que as configurações políticas, sociais e culturais em relação à questão de gênero e à religião também conformam as discussões sobre o aborto. Na Alemanha, devido às características dos partidos e das regras eleitorais (como as cotas partidárias, por exemplo), mais mulheres estavam presentes nas representações políticas formais. Essas mulheres, no interior dos partidos, não eram amplamente entendidas como feministas - esse rótulo era aplicado aos coletivos e pequenas organizações exteriores aos partidos, que se organizavam de maneira predominantemente local. Nos Estados Unidos, a atuação das mulheres se dava mais através de grandes organizações civis, entendidas como feministas, e do lobby - como é característico de vários movimentos sociais no país. “Culturalmente, apenas os grupos que permaneceram fora e à margem dos amplos processos políticos são considerados ‘feministas’ na Alemanha, enquanto a linha entre feminismo e o mais ampliado movimento de mulheres é tênue nos Estados Unidos” (FERREE et al, 2004, p. 84).

Em relação às ações políticas dos movimentos, há uma tradição fortemente ligada ao liberalismo nos Estados Unidos, o que levava às demandas um enquadramento de direitos e tratamentos iguais, mesmo nos grupos fortemente ligados à esquerda - o que não acontecia na Alemanha, onde a noção liberal era vista com suspeita e onde se pautava com mais frequência uma noção de gênero baseada no reconhecimento da diferença em relação aos homens. A própria noção de justiça evidencia as diferenças entre os dois países; se por um lado, na Alemanha, os entendimentos e reivindicações sobre o que é considerado injusto estão ligados às classes sociais e aos sofrimentos sofridos por grupos, nos Estados Unidos é uma noção individual que ganha força. “(...) todas as reivindicações baseadas em injustiças grupais são desfavorecidas nos Estados Unidos devido à norma cultural de que a localização social é irrelevante e todos devem ser julgados como um indivíduo” (FERREE et al, 2004, p. 84).

Em relação à religião, Ferre e seus colegas constataram uma diferença interessante entre os dois países. Se por um lado, na Alemanha, a conexão entre as principais tradições religiosas e

o Partido Democrático Cristão privilegiava os enquadramentos religiosos (ou seja, possibilitava a inserção desses ​frames ​na arena política através de uma via institucional), por outro, a religião não era tão presente ou importante na vida cotidiana dos alemães, o que fazia com que os enquadramentos ligados à religiosidade perdessem força nas discussões. De forma contrária, nos Estados Unidos a via institucional não favorecia os enquadramentos religiosos, dado que havia uma separação clara entre Estado e Igreja. Por outro lado, a religião formal é um fato presente de maneira ampliada e intensa na vida dos norte americanos. Por isso, “são os Estados Unidos que fornecem uma oportunidade discursiva muito melhor para enquadramentos religiosos” (FERREE et al, 2004, p. 84).

Embora o território simbólico seja desenhado e marcado por todas essas configurações de naturezas variadas, o debate em torno de uma questão depende, é claro, da ação discursiva dos atores sociais. Depende de qual enquadramento eles apresentam e como defendem seu posicionamento. É só no momento de embate entre os discursos provenientes de diferentes fontes que a disputa de enquadramentos de fato ocorre; por isso, a disputa de enquadramentos depende da forma como esses atores vão agir. “Seus recursos, conexões, habilidades e escolhas sobre a estratégia de enquadramento influenciam sua posição e a relativa proeminência de seus enquadramentos” (FERREE et al, 2004, p. 286). Entretanto, para que seus enquadramentos prevaleçam, os atores sociais “devem levar em consideração as características desta paisagem complicada” (FERREE et al, 2004, p. 287). Os atores devem agir frente às suas ​oportunidades discursivas que surgem dessas “paisagens complicadas” que envolvem desde a maneira como os partidos se organizam, até as noções compartilhadas de justiça. A disputa de enquadramentos está, nesse sentido, entre as configurações políticas, sociais e culturais, e a ação dos diferentes atores sociais frente a essas configurações.

Se levarmos em consideração a ação discursiva dos indivíduos, organizações, movimentos e outros, podemos perceber que as arenas de discussão (e os seus respectivos enquadramentos proeminentes) mudam ao longo do tempo. Essa transformação ocorre “na medida em que os atores tentam reestruturar o terreno em que a disputa ocorre” (FERREE et al, 2004, p. 287).