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Capítulo 4: Disputando enquadramentos

4.7 A disputa e a transformação de enquadramentos

Nossa pesquisa analisou as discussões sobre o aborto e o PL5069 em arenas informais ao longo de um ano, e nas arenas formais em três sessões da CCJ ao longo de dois meses. Abordo a seguir algumas mudanças que ocorreram dentro das temporalidades analisadas a fim de compreender se houve alguma transformação nos enquadramentos​e como essas transformações podem ser pensadas na perspectiva das oportunidades discursivas.

Os posicionamentos nos posts do ​Facebook​variaram de acordo com a data. O período de votação do PL5069 na CCJ - setembro e outubro - foi quando o PL obteve mais repercussão e, consequentemente, mais posts se posicionando (Gráfico 6). É interessante perceber, no Gráfico 7, que os posts com posicionamentos em relação à criminalização do aborto estão presentes em todos os meses, mas aumentam especificamente nos meses de maior repercussão do Projeto.

Gráfico 7: Posts com algum posicionamento sobre a criminalização do aborto por mês

Dado que setembro e outubro foram os meses em que houve a discussão e aprovação do PL na CCJ e, consequentemente, uma maior repercussão e discussão sobre o tema nas arenas informais (conforme mostrado nos Gráficos 6 e 7) é possível dividir o período analisado em três partes: a) período 1: antes das discussões do projeto nas arenas formais (fevereiro a agosto), b) período 2: durante as discussões do projeto nas arenas formais (setembro e outubro) e c) período 3: após as discussões do projeto nas arenas formais (novembro, dezembro e janeiro).

No que se refere às variáveis relacionadas à questão do enquadramento, ocorreram algumas mudanças ao longo dos três períodos. Em primeiro lugar, com relação à variável ​ator (definição de problema), ​a tabela a seguir apresenta os resultados por período nos posts e comentários.

Tabela 14 - Definição de Problema (Ator) nos ​posts​ e comentários por período

Posts Comentários

Mulher 33% 40% 35% 23% 24% 23%

Vítimas de Violência Sexual 5% 17% 14% 0% 13% 7% Mulheres negras e/ou pobres 9% 7% 8% 0% 6% 6% Família 3% 0% 3% 0% 1% 0% Profissionais de Saúde 0% 4% 4% 0% 0% 0% Sociedade como um todo 26% 22% 23% 27% 21% 32%

Destaquei na tabela três diferenças importantes: a) o ator ​mulher ​e o ​vítima de violência sexual ​cresceram durante o período de discussão do Projeto na CCJ, sendo que no caso das vítimas esse aumento também ocorreu nos comentários e se manteve no período posterior b) o ator ​feto ​sofreu uma grande diminuição tanto nos posts como nos comentários, queda que se manteve tanto no período de votação do PL como no período posterior e c) o ator ​mulheres negras e/ou pobres ​não aparecia no período anterior à votação do PL, mas começa a aparecer e se mantém durante e depois dela. A seguir apresento a tabela em relação à variável ​Tópico (Definição de Problema)​.

Tabela 15 - Definição de Problema (Tópico) nos ​posts​ e comentários por período

Posts Comentários Danos físicos ou psicológicos 13% 14% 14% 24% 16% 18% Valor da vida 17% 13% 10% 12% 11% 12% Normas jurídicas 13% 14% 13% 8% 20% 15%

Crenças religiosas 11% 3% 8% 21% 14% 12% Violência urbana 2% 7% 6% 1% 8% 3% Ciência 3% 1% 3% 6% 2% 4% Autonomia 9% 9% 7% 10% 8% 8% Dever do Estado 7% 10% 11% 12% 9% 5% Saúde Pública 12% 20% 19% 3% 4% 13% Economia 1% 1% 1% 0% 0% 0% Desigualdades de raça e classe 6% 4% 6% 0% 5% 5% Interesse popular 6% 3% 2% 2% 2% 5%

Destaquei na tabela três diferenças importantes: a) o tópico das ​normas jurídicas​cresce e se mantém alto nos proferimentos de cidadãos comuns durante e após o período de votação do PL b) as ​crenças religiosassofrem uma queda tanto nos posts como nos comentários - queda que se mantém no período posterior c) o tópico ​saúde públicatem um alto crescimento no período de votação do PL nos posts, e, no período posterior, aumenta significativamente nos proferimentos de cidadãos comuns. A seguir apresento os principais resultados em relação ao diagnóstico de causas - ou seja, apenas aqueles em que houve algum tipo de alteração significativaentre os três períodos. Não apresento todos os dados devido ao alto número de códigos nessa variável.

Tabela 16 - Diagnóstico de causas com alterações temporais nos ​posts​ e comentários

Posts Comentários

PL 5069 1% 12% 4% 1% 9% 5% Eduardo Cunha 3% 9% 5% 1% 16% 4% Ilegalidade do Aborto 17% 7% 9% 17% 7% 8% Bancada Evangélica 0% 8% 9% 1% 5% 5% Irresponsabilidade das mulheres que

abortam 1% 1% 0% 26% 12% 13% Violência sexual contra mulheres 1% 7% 9% 1% 7% 6% Atuação dos representantes políticos 5% 9% 4% 2% 6% 2% Desvalorização da vida humana (feto) 9% 3% 8% 10% 7% 8% Ausência de representatividade feminina 1% 1% 7% 0% 0% 0%

Um aspecto interessante dessa tabela é que algumas causas sofreram alterações passageiras - apenas durante o período de votação do PL e, depois, voltaram a como eram antes. É o caso das causas ​PL 5069​, ​Eduardo Cunha e ​Atuação dos Representantes Políticos​, que cresceram significativamente no período de votação e depois voltaram a índices baixos, e da causa ​desvalorização da vida humana (feto) que sofreu o processo contrário - durante a votação decresceu e depois voltou a um índice alto. Já outras alterações permaneceram. A ​Ilegalidade do Aborto ​e a ​Irresponsabilidade das Mulheres que Abortamsofreram uma queda durante o período de votação e mantiveram essa queda após esse período. Por outro lado, as causas ​Bancada Evangélica e ​Violência Sexual Contra as Mulheres quase não existiam antes do período de votação, apareceram significativamente durante esse período e se mantiveram altas depois. Um

último caso é a ​Ausência de Representatividade Feminina no Parlamento ​, que surgiu apenas no período posterior à votação do PL.

Como foi possível perceber nas três tabelas, os atores, tópicos e causas foram sendo alterados no decorrer das discussões sobre o PL e o aborto. Se em temas políticos controversos os enquadramentos são fortemente disputados, eles também são alterados no decorrer dessa disputa (MAIA, 2009; MENDONÇA, 2009; VIMIEIRO & MAIA, 2011b). Ao longo do tempo, conforme os diferentes atores políticos disputam discursivamente qual a maneira mais adequada de enquadrar algo, esses enquadramentos vão sendo modificados (MAIA, 2009; MENDONÇÅ, 2009; VIMIEIRO & MAIA, 2011b). No caso dessa pesquisa, o foco nas ​mulheres22​e nas​vítimas de violência sexual ​se destacou durante as discussões do PL e fez com que ambos os lados da questão utilizassem essa definição de problema; o mesmo ocorreu com o tópico ​normas jurídicas e ​saúde pública, ​temas intimamente ligados ao PL 5069. O movimento contrário também ocorreu - as definições de problema relacionadas ao ​feto​e às ​crenças religiosas​perderam força, provavelmente porque a questão passou a ser posta de uma outra forma, relacionada à saúde pública, às normas jurídicas, às mulheres e às vítimas de violência sexual, em ambos os lados da disputa. Um outro aspecto é o surgimento de novas definições e causas: o ator mulheres negras e/ou pobres não aparecia anteriormente nas falas dos cidadãos, e passa a aparecer após o pico da discussão. O mesmo ocorre com as causas ​Bancada Evangélica​, ​Violência Sexual Contra as Mulheres ​e ​Ausência de Representatividade Feminina no Parlamento.

Esses resultados indicam que a discussão sobre o Projeto foi um momento onde determinadas ​oportunidades discursivas ​foram aproveitadas. As características do Projeto e o decorrer das discussões sobre ele impuseram que ambos os lados utilizassem as definições de problema relacionados às mulheres​ ​, às ​vítimas de violência sexual, ​àsnormas jurídicas e àsaúdepública - ​enquadramentos que, se pensarmos na historicidade dos lados da discussão sobre o aborto, favorecem o lado contra a criminalização mais rígida. Além das causas que surgiram no decorrer das discussões, também historicamente ligadas ao lado contra a criminalização mais rígida: ​Bancada Evangélica​,​Violência Sexual Contra as Mulheres ​e, com destaque, a ​Ausência de Representatividade Feminina no Parlamento, ​que surgiu exatamente após a aprovação do PL

22 O foco na definição de problema relacionado às mulheres ocorreu em ambos os lados da discussão, mas apenas nas arenas informais, conforme foi discutido no Capítulo 3 (​Da Periferia ao Centro do Sistema Político​)

na CCJ. É preciso lembrar que o Projeto, embora aprovado na Comissão, não teve a tramitação continuada e está parado até hoje, o que significa uma espécie de derrota. Embora não seja possível afirmar uma relação causal entre os dois fenômenos (os enquadramentos e a não continuidade da tramitação), é interessante pensar sobre como os enquadramentos que prevaleceram eram mais favoráveis ao lado contra o Projeto (ou contra a criminalização mais rígida).

A questão das transformações de enquadramentos ao longo das discussões é o ponto em que a noção de disputas de enquadramento se encontra com a noção de disputa argumentativa que abordei no Capítulo 3 ( ​Da Periferia ao Centro do Sistema Político ​). Em um debate público, é através dos argumentos que opiniões podem ser modificadas, entendimentos podem ser alterados e enquadramentos podem ser transformados (MAIA, 2009). Numa discussão ampliada, envolvendo várias posições e maneiras de enxergar algum tema, há sempre a possibilidade de “incorporação de reivindicações conflitantes de oponentes no próprio argumento ou a complexificação da justificação das razões disputadas” (MAIA, 2009, p. 309) e isso é o que garante que haja transformações também na forma como enquadrar uma questão. A disputa de enquadramentos, nesse sentido, se dá concomitantemente à disputa argumentativa.