Capítulo 4: Disputando enquadramentos
4.9 Transformando enquadramentos através de argumentos, transformando argumentos devido aos enquadramentos
Na seção anterior destaquei algumas mudanças nos enquadramentos durante o período de análise dessa pesquisa. Retomando essas alterações de maneira sintética: a) houve um crescimento durante o período de votação e uma manutenção do aumento após esse período no caso das definições de problemas: vítima de violência sexual, mulheres negras e/ou pobres, normas jurídicas e saúde pública e das causas Bancada Evangélica,Violência Sexual Contra as Mulheres eAusência de Representatividade Feminina no Parlamento b) houve uma diminuição durante o período de votação e uma manutenção dessa diminuição no caso das definições de problema fetoe crenças religiosase das causas Ilegalidade do Aborto e Irresponsabilidade das Mulheres que Abortam. Alguém poderia argumentar que o aumento ou a diminuição dessas “partes” de enquadramentos ocorreu apenas devido ao momento específico da discussão. Entretanto, percebemos que alguns códigos aumentam apenas no Período 2 (durante a votação) e depois voltam ao normal, ou seja, voltam a índices parecidos com o que eram antes. É o caso da definição de problema relacionada à mulher e as causas PL 5069,Eduardo Cunha eAtuação dos Representantes Políticos. O significado disso é claro: os quadros de sentido específicos do período da votação, que aumentaram apenas por causa do momento, voltaram ao normal depois. As alterações que se mantiveram no Período 3 indicam que determinados aspectos dos enquadramentos foram de fato modificados a partir das discussões do PL.
Agora apresento as modificações que ocorreram com os argumentos. Em primeiro lugar, os argumentos a favor da criminalização mais rígida. Destaquei as principais mudanças.
Tabela 17 - Alterações temporais nos argumentos a favor da criminalização mais rígida nos
posts e comentários Posts Comentários 1º 2º 3º 1º 2º 3º 1 7% 9% 7% 0% 5% 8% 2 4% 5% 0% 0% 0% 0% 3 0% 9% 14% 0% 2% 0% 4 13% 12% 8% 12% 7% 14% 5 9% 2% 6% 9% 4% 8% 6 10% 7% 8% 18% 15% 19% 7 13% 9% 6% 15% 25% 11% 8 7% 5% 3% 6% 7% 8% 9 0% 3% 3% 9% 0% 0% 10 0% 9% 4% 0% 0% 0% 11 4% 1% 0% 0% 0% 3% 12 18% 4% 6% 29% 13% 19% 13 3% 2% 3% 0% 0% 0% 14 4% 3% 4% 0% 0% 3% 15 0% 1% 2% 0% 2% 0% 16 3% 2% 5% 3% 0% 0% 17 0% 10% 11% 0% 4% 3% 18 0% 5% 5% 0% 12% 5% 19 0% 2% 5% 0% 4% 0%
20 0% 3% 3% 0% 0% 0%
O Argumento 3 (O PL5069 protege as mulheres porque ajuda a punir os estupradores), o Argumento 17 (A obrigação do exame de corpo delito para o aborto em caso de estupro, prevista no PL5069, ajudará no combate ao crime de estupro) e o Argumento 10 (O PL5069 melhora o atendimento das vítimas de violência sexual nos hospitais e postos de saúde, proibindo que os agentes de saúde instiguem essas vítimas a abortar) foram alguns dos que mais cresceram no período de votação e também no período posterior. Nesses três argumentos há uma clara ligação com a definição de problema relativa às vítimas de violência sexual . No caso do Argumento 10, também há a definição de problema relacionada à saúde pública. Dado quevítimas de violência sexual e saúde pública são enquadramentos ligados a priori ao lado contra a criminalização do aborto, é possível interpretar que o lado a favor da criminalização mais rígida adequou seus argumentos aos enquadramentos com destaque naquele momento (vítimas de violência sexual e saúde pública). O contrário também ocorreu: houve uma queda no Argumento 12 (A vida do feto é sagrada ou divina. Destruir uma vida é errado ou pecado conforme determina religião) exatamente quando o enquadramento crenças religiosas não se mostrava em destaque.
Por outro lado, os comentários de cidadãos comuns apresentaram dois argumentos com destaque durante o período de votação: o Argumento 7 (O direito à vida está previsto na nossa legislação e, nesse sentido, o aborto é um crime, pois retira a vida do feto) e o 18 (O PL5069 corrige brechas na legislação brasileira que facilitavam o aborto. Sem o Projeto, a legislação é frágil e a criminalização é pouco rígida). Ambos os argumentos têm estreita ligação com o enquadramento normas jurídicas. Esse tipo de definição do problema, por sua vez, pode ter relação mais próxima com os ambos os lados da discussão. Assim, é possível tanto que esses argumentos impuseram o enquadramento normas jurídicas,quanto que o enquadramento normas jurídicas ao estar em destaque fez com que esses argumentos fossem utilizados. A seguir é possível ver os resultados referentes aos argumentos contra a criminalização mais rígida.
Tabela 18 - Alterações temporais nos argumentos contra a criminalização mais rígida nos posts e comentários Posts Comentários 1º 2º 3º 1º 2º 3º 21 9% 5% 7% 9% 0% 3% 22 5% 2% 2% 23% 2% 11% 23 1% 8% 2% 0% 7% 5% 24 15% 7% 9% 3% 7% 3% 25 10% 1% 6% 0% 2% 3% 26 1% 6% 7% 0% 17% 11% 27 0% 1% 1% 6% 2% 5% 28 2% 1% 2% 17% 4% 8% 29 1% 1% 0% 0% 0% 0% 30 2% 2% 4% 0% 5% 0% 31 5% 11% 7% 0% 5% 3% 32 5% 14% 8% 0% 5% 3% 33 9% 10% 8% 20% 17% 13% 34 2% 3% 2% 6% 2% 3% 35 8% 4% 7% 0% 0% 5% 36 2% 2% 4% 6% 14% 11% 37 6% 3% 2% 3% 0% 0% 38 1% 0% 1% 3% 0% 3% 39 0% 0% 0% 0% 0% 0% 40 5% 5% 7% 0% 5% 8% 41 4% 2% 2% 0% 0% 0%
42 0% 1% 1% 0% 0% 0% 43 4% 3% 2% 0% 0% 5% 44 1% 0% 0% 0% 0% 0% 45 0% 0% 0% 0% 0% 0% 46 2% 1% 2% 3% 2% 0% 47 2% 0% 0% 3% 2% 0% 48 0% 3% 1% 0% 1% 0% 49 0% 1% 1% 0% 0% 0% 50 0% 0% 0% 0% 0% 0% 51 0% 4% 4% 0% 0% 0%
Os Argumentos 23 (Vítimas de violência sexual não podem ser obrigadas a ter o filho do agressor, agravando ainda mais a violência sofrida por elas), 26 (Vítimas de violência sexual não devem ser obrigadas a passar por exame de corpo de delito, dado que essa seria um segundo constrangimento para essas vítimas) e 32 (As vítimas de violência sexual tem direito à saúde e devem ter um bom atendimento nos hospitais. Elas não devem perder o direito de receber a pílula nem ter o atendimento piorado) tiveram um aumento significativo durante o período de votação do PL5069. De acordo com os resultados mostrados anteriormente, é possível pensar que a utilização desses argumentos alteração a discussão e contribuíram para que a definição do problema relacionada às vítimas de violência sexual e a saúde públicacrescessem. Além disso, houve um aumento também no Argumento 31 (O Código Penal prevê a inimputabilidade no caso de estupro. Criminalizar nesse caso seria regredir e retirar esse direito das mulheres), que tem relação próxima às normas jurídicas.
Dessa forma, nossos resultados mostram que o processo de argumentação e o de enquadramento se relacionam primeiramente porque “ao debater temas diversos, os atores fundamentam suas posições com justificativas que emolduram a natureza do problema em discussão e as soluções propostas” (MENDONÇA et al, 2013). Um argumento invariavelmente diz de um enquadramento. Ao argumentar, alguém mobiliza também um determinado quadro de
sentidos de alguma questão. “Assim, os argumentos mobilizam (e atualizam) ‘quadros de sentido’ no processo de interpretação e construção da realidade” (MENDONÇA et al, 2013). O termo atualizamé utilizado porque, como mencionei, é através da discussão pública e a troca de argumentos que os enquadramentos podem ser modificados e disputados (MAIA, 2009). “A troca argumentativa altera a permanência dos próprios argumentos na arena discursiva, como também modifica o ambiente para o entendimento de problemas, a percepção de relações causais e a proposição de soluções” (MAIA, 2009, p. 310).
Nas palavras de Sniderman & Theriault (2004, p.151) “cidadãos não apenas podem se levantar e manter seus valores em face de um argumento político (...) como a voz de argumentos opostos pode mesmo ajudá-los a traduzir suas atitudes políticas em posições sobre questões específicas”. As interações e disputas de argumentos e enquadramentos fizeram com que não apenas cidadãos, mas diversos atores sociais, atuassem na cena pública, alterando a forma como a questão deveria ser enquadrada. Essa dinâmica provocou um posicionamento dos atores diante dos enquadramentos proeminentes. Considerando a dimensão interativa da disputa de enquadramentos, Leeper & Slothuus (2017) mencionam que “embora alguns argumentos possam ser mais fortes a priori (ou seja, capturarem um amplo suporte público compartilhado), isso não necessariamente se mantém. Como tal, a natureza interativa do enquadramento competitivo traz novos argumentos no debate”.
Considerações finais do capítulo
Nesse capítulo, abordei algumas questões relevantes na literatura sobre enquadramento e, na sequência, sobre enquadramento e deliberação. Mostrei a complexidade na utilização de fontes e recursos na construção de enquadramentos e a forma como diferentes atores sociais para além dos media apresentam enquadramentos distintos em uma discussão política ampliada. Discuti, também, a dimensão conflituosa dos enquadramentos, que são às vezes até mesmo questionados explicitamente.
Por fim, explicitei como as disputas por enquadramento e argumento em torno do aborto se alteraram ao longo do período analisado, especialmente diante do período de grande discussão
do PL5069 - os dois meses em que ele foi votado na Câmara dos Deputados. Como Chong & Druckman (2007) apontaram, “o enquadramento é melhor conceitualizado como um processo que evolui ao longo do tempo. A dimensão do tempo nos permite separar novos problemas de problemas anteriormente debatidos”. Com uma metodologia e uma análise que levaram em conta diversos atores sociais em diferentes períodos temporais foi possível explorar importantes aspectos sobre como os enquadramentos são disputados.