Quando eu era empregado de uma grande construtora, ocupava a função de projetista-calculador de concreto armado. Nessa função, trata-se de incorporar, de dimensionar e de armar, no projeto de arquitetura, os elementos que deverão contribuir para solidificar a estabilidade do edifício.
Em um canteiro particular, deviam-se construir grandes pórticos de concreto armado que deveriam sustentar diversos andares de escritórios e permitir ter, no térreo, um grande salão desobstruído para receber o público. Um pórtico de concreto armado é um conjunto rígido e sólido de elementos verticais e horizontais, que permite grandes vãos livres e, consequentemente, suportar grandes cargas. O mais belo exemplo é o do rol de entrada do edifício
“Le Corbusier”, em Marselha. No nosso caso, esses pórticos deveriam, não somente sustentar os andares superiores, mas também participar da estética do rol de entrada. Segundo a expressão do arquiteto, eles deveriam ter: “uma projeção vegetal” (sic). Ao dizer isso, ninguém na empresa nunca verdadeiramente compreendeu o que ele
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entendia por essa expressão. Não era porque não tínhamos uma resposta, ao contrário, tínhamos muitas e todas diferentes, e mesmo contraditórias e, frequentemente, divertidas. Este foi durante muito tempo um dos assuntos de conversas preferidas no restaurante da empresa (ou na cantina, como dizem os operários). Em resumo, era complicado realizar.
E, principalmente, desenhar para permitir aos operários (armadores) compreenderem como dar a esses pórticos as famosas “projeções vegetais”.
Havia diversas expressões como ladeiras e contra-ladeiras, bolsos com frutas, pães cortados, pés-direitos trapezoides que evoluíam, em meio às trocas de sentidos até se tornarem compreensíveis. Diante da dificuldade de traduzir toda a complexidade da obra em linguagem de desenho industrial, ficou decidido que eu deveria me deslocar até o canteiro de obras para explicar à equipe de armação o que era necessário fazer. E, foi então que os incômodos começaram! Mesmo que isso remonte a questões antigas, eu me lembro perfeitamente da cena. Isso se passava no barracão do canteiro de obras, de um lado de uma mesa grande, estavam o chefe do canteiro e eu, com todo meu material. Em frente a nós, bem sabiamente alinhados, estavam os pedreiros. Como eu sabia que seria difícil, eu havia feito uma boa preparação da minha intervenção.
Enfim, pensava eu!
Para melhor compreender a sequência, é necessário esclarecer certas coisas! Primeiramente, eu mesmo sou de origem operária e cresci em um
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bairro operário de Marselha. De forma que, eu devia estar, em princípio, de preferência mais à vontade para me fazer compreender. Eu esperava que não tivesse a barreira da língua. Grave erro!
Eu era um responsável sindical dessa empresa já há alguns anos. Eu era então conhecido desses pedreiros onde alguns eram sindicalizados, e até dirigentes do sindicato. O que, enormemente, facilitou os contatos. Não se tratava do “Senhor”
que vinha falar aos “peões de obra”, mas antes de tudo, um companheiro, um camarada que vinha lhes ajudar compreender o projeto. Deixamos as formalidades de lado e a atmosfera amenizou.
Esses armadores eram operários altamente qualificados e reconhecidos com tal por todo o mundo. Frequentemente, havia uma expressão consagrada: “Era a fina flor dos armadores da empresa”. O que era lógico, levando em conta a natureza difícil das formas de concreto que seria preciso realizar no canteiro de obras.
Eu parto então para minha explicação com muitos desenhos, croquis, perspectivas e comentários adaptados. Eu via bem em suas mímicas, que não era tão evidente para eles.
Insistia: “Oh, se vocês não compreenderam bem, digam que eu respondo. Eu vim aqui para explicar o que for necessário. Eu não partirei enquanto vocês não tiverem entendido”. Em vão! Apesar de todos os esforços que eu podia empregar, as expressões de suas caras eram sempre também duvidosas. Cansado de pelejar, o mestre de obras
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se aproxima e me pega pelo braço e diz: “Deixa comigo Pierre. Eu vou lhes explicar”.
A partir de então, um de cada vez. Meu calvário começava! Eu não parava de interromper o mestre de obras: “Não, não! Zé, não é assim!” E ele, sempre muito calmo, repetia: “Deixa comigo, você verá! Você verá! Você verá!” Talvez! Mas, o que eu via no momento ou mais exatamente, o que eu compreendia de suas explicações, não correspondia de jeito nenhum, do meu ponto de vista, ao que eu queria. Finalmente, ele me propôs: “Escuta, faremos a primeira fôrma. Antes de encher com o concreto, se não for o que você quer, sem problema, a gente recomeça”. Isso me pareceu razoável. Visto que eu não tinha outras soluções eu disse: “Será mais fácil compreender a partir de uma fôrma já realizada. Assim, partiremos do concreto”.
Quando eu fui ver o resultado, fui obrigado a constatar que era exatamente o que se deveria fazer.
Pessoalmente, eu fiquei surpreso, e na cara dos armadores, parecia estar escrito: “Mas, a quem você pensa estar ensinando”! E, incontestavelmente, eles tinham razão.
Depois dessa experiência, eu me coloco muitas questões! Que os armadores não entenderam minhas explicações, nada de anormal! O que se tinha para realizar era muito complicado, então, era difícil para eu explicar e, para eles compreender. Mas para mim, eu não entendia o que o mestre de obras dizia e isso me atormentou por muito tempo. De fato, a partir do momento
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em que eu sabia o que era necessário fazer, por que eu não compreendia o quê o mestre de obras dizia sobre o que se deveria fazer? Não falávamos a mesma linguagem. Mesmo que empregássemos palavras perfeitamente compreensíveis para todos. Por quê? De fato, eu falava a língua dos conceptores. Quer dizer, o que me preocupava e que eu explicava, era o que a obra deveria ser no final. E eles, somente compreendiam a língua da execução. Como observou mais tarde, um armador:
“Você, você fala cheio, nós, nós falamos vazio”.
Dito de outra maneira, eu falava do resultado, eles, enquanto armadores, o que lhes interessava era o que eles deveriam fazer (a forma, o molde) para que a tarefa se realize, a fim de receber o concreto.
Não estávamos em sintonia! Não falávamos da mesma coisa! Não fomos formados na mesma experiência. Como nos compreendermos?
Enquanto eu descrevia “o cheio”, o qual deveria ser alcançado, seria necessário que eles o traduzissem em “vazio”. Quer dizer, como realizar a fôrma (a cavidade) na madeira, que deveria conter o concreto armado, para lhes dar a forma desejada, uma vez desformado o concreto, uma vez suprimida sua própria mão-de-obra. O que somente o mestre de obras sabia fazer. Sua posição e sua competência hierárquica não dependem somente de um diploma, mas principalmente de uma experiência acumulada que lhe permite a cada vez fazer essas traduções. Mas, o que é finalmente a função principal do mestre de
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obras? É traduzir em linguagem de execução, os elementos que lhe foram fornecidos em língua de concepção. Um tradutor, uma interface, além, evidentemente, de suas competências técnicas e de comando. E quem pode dizer onde se aprende essa competência? Em qual livro? Em qual formação? Não é simplesmente de sua própria experiência, de sua própria história? Não é do
“saber investido”? Não é um verdadeiro saber?
Durante minha tentativa de explicação, utilizava de palavras conhecidas e compreensíveis para todos, mas que não tinham o mesmo significado, porque não tínhamos a mesma experiência, a mesma vivência profissional. Por exemplo, quando eu falo de viga aparente, todos sabem que se trata da parte visível da viga, aquela que aparece debaixo da laje. Mas, quando eu explico: “É necessário uma viga aparente de 25 cm”, não é evidente para eles.
Então, o chefe traduz: “Será necessário colocar dois sarrafos” (bastaings). Mas, eu não estou, de jeito nenhum, de acordo porque eu sei que um sarrafo na construção civil, mede 16 cm de largura* e que 2, darão 32 cm e não 25 cm. Mas, o quê eu não sabia é que eles sabem perfeitamente, sem que seja necessário precisar, é que ao longo e em baixo do último sarrafo, será necessário fixar um sarrafo de 5 x 5, sobre o qual iremos colocar uma tábua com espessura de 2 cm que fará o fundo da viga. O que deixará 25 cm da viga visível. O que era necessário confirmar/demonstrar (Cequ’il fallait de montrer/
CQFD). De fato, não se pode prender a prancha no
* Na França os sarrafos de madeira (bastaings) utilizados na construção civil têm a largura e espessura padronizadas em 16x5 cm.
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fundo da viga, diretamente, sem o último sarrafo (5X5). Os pregos não resistiriam ao peso e à pressão do concreto que após a concretagem, é vibrado para melhor distribuir os agregados (areia, cimento e brita). E, além do mais, teríamos os problemáticos
“respingos” de concreto. É necessário saber disso!
Mas, para saber, é necessário fazer! Ter experiência!
É isso!
Todos eles sabem que o ferro deve estar bem coberto pelo concreto. Trata-se da medida que separa o exterior da ferragem das bordas da viga em questão. Essa medida varia sob certas condições (características do ar ambiente, proteção contra os riscos de incêndio, etc.). Quando eu demando uma distância mínima de 6 cm, o mestre de obras traduz: “Colocaremos os mesmos calços sobre...”.
Na sequência, o nome de outro canteiro de obras que eles realizaram juntos, mas que eu não conheço. Isso não me diz nada. A eles sim! Eles têm uma experiência que eu não tenho.
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Todos esses saberes que os operários compartilham, compreenderemos que são saberes da experiência, “saber investido”.