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A diversidade do ponto de vista dos públicos

4.4 Diversidade: da periferia para o coração dos museus

4.4.8 A diversidade do ponto de vista dos públicos

Pode-se verificar, atendendo à análise já realizada ao longo deste capítulo, a importância que a democratização do acesso representa para a NML, que se traduz no compromisso de activamente servir não só um maior número de pessoas, mas com um perfil mais diverso, ou seja, mais representativos da realidade sociodemográfica em que se inserem estes museus. Com efeito, a diversificação dos públicos constitui uma prioridade e é determinante na forma como é definida a estratégia da organização museológica, sendo central o investimento na formação de novos públicos de forma integrada e transversal a todos os sectores museológicos (colecções, interpretação, acolhimento de visitantes, formação do corpo de pessoal, exposições), cuja filosofia assenta na eliminação de barreiras que impedem o acesso (físico, intelectual, cultural, económico, informativo, entre outros). Neste âmbito, os museus de Liverpool têm recebido um número considerável de prémios que atestam este compromisso em várias frentes, seja no domínio da comunicação e marketing (redes sociais, website, aplicações informáticas, campanhas) e de programas específicos (p. ex. trabalho desenvolvido ao nível da saúde mental – House of Memories), entre outros.99

A política de gratuitidade em todos os museus da NML constitui um dos factores cruciais na implementação desta estratégia. Identificada como uma barreira, a ausência de entradas pagas é entendida como um instrumento fundamental para levar a cabo o papel destes museus na sociedade:

[…] museums which must – or which choose to – have an admission fee are handicapped in pursuing a socially responsible mission, because such a fee is a barrier to people on low incomes

98 Entrevista a Zachary Kingdon (curator of African collections), World Museum Liverpool, Liverpool,

22/09/2011.

99 Por exemplo, o WML foi considerado o terceiro destino turístico mais acessível do Reino Unido em 2014

(World Museum Liverpool 2014). Para uma lista exaustiva dos prémios recebidos nos últimos anos veja-se: http://www.liverpoolmuseums.org.uk/about/awards/index.aspx (consultado em Setembro 23, 2014).

and therefore is a barrier to full inclusion. These museums have to find ways of overcoming this barrier if they are to exercise real social responsibility. (Fleming 2010b, 3)

Esta estratégia tem em conta o contexto social e económico da região, identificada como uma das mais pobres de Inglaterra, diagnóstico que leva a NML a considerar a barreira económica uma séria limitação ao acesso e tem sido determinante para restruturar a gestão financeira destes museus e as opções tomadas. Neste sentido, há uma relação de causa efeito entre o contexto económico e social de Liverpool e a política museológica desenvolvida, como se assume na declaração estratégica da organização museológica e em outros documentos oficiais. Experiências anteriores na introdução de entradas pagas nos museus de Liverpool demonstraram, por seu turno, a sua ineficácia. Atente-se ao caso do WML. Apesar de adoptar uma política de gratuitidade desde a sua fundação, como atesta a designação que chegou a ter no séc. XIX – “Liverpool Free Public Museum” –, entre 1997 e 2001 passou a cobrar bilhetes de entrada com o objectivo de obter mais receitas. Todavia, a iniciativa levou a uma descida significativa do número de visitantes e as receitas obtidas ficaram aquém das expectativas. A eliminação de entradas pagas foi, aliás, uma das primeiras tomadas de posição de David Fleming ao assumir a direcção dos museus de Liverpool (Millard 2010).

Note-se que uma política de gratuitidade foi implementada em todos os museus britânicos com estatuto de “museu nacional” sob a tutela do Department for Culture, Media and Sport (DCMS) desde 1 de Dezembro de 2001. Os museus de Liverpool também se enquadraram nesta medida, tendo em conta o seu estatuto de museus nacionais. De um modo geral, esta iniciativa significou o acesso livre às exposições permanentes dos museus nacionais, embora se mantivessem as entradas pagas para as exposições temporárias, que podem, em geral, alcançar um preço significativo (os valores oscilam, mas podem chegar até aos 20 euros). No caso de Liverpool, a opção adoptada foi a admissão gratuita, tanto para as exposições permanentes como para as temporárias e para a maioria das actividades e eventos dos museus. Globalmente, verificou-se nos museus de Liverpool um aumento progressivo do número de visitantes ao longo dos últimos anos (ver abaixo Gráfico 2) que é condizente com o discurso assumido. O WML, em particular, é sintomático da mesma tendência ascendente do número de visitantes (ver abaixo Gráfico 3) e está entre os museus mais visitados da NML (ver abaixo

Tabela 3), sendo o Museum of Liverpool, inaugurado em 2011, o mais frequentado dos oito museus.

Gráfico 2 – Visitantes da NML por ano (2005−2013)

Fonte: NML 0   500  000   1  000  000   1  500  000   2  000  000   2  500  000   3  000  000   3  500  000   N .º  D E   V IS IT AN T ES   ANO  

Gráfico 3 – Visitantes da WML por ano (2005−2013)

Fonte: NML

Tabela 3 – Visitantes da NML por Museu (2013)

Museus da NML Número de visitantes−2013

Museum of Liverpool 756,582

World Museum 678,871

Merseyside Maritime Museum 622,516

International Slavery Museum 451,679

Walker Art Gallery 237,451

Piermaster's House 205,841

Lady Lever Art Gallery 184,730

Sudley House 55,750

 

Fonte: NML100

100 http://www.liverpoolmuseums.org.uk/about/corporate/visitor-information/index.aspx (consultado em Junho

11, 2014). 0   100  000   200  000   300  000   400  000   500  000   600  000   700  000   800  000   900  000   2005   2006   2007   2008   2009   2010   2011   2012   2013   N .º  D E   V IS IT AN T ES   ANO  

De acordo com o último estudo de públicos (England’s Northwest Research Service for Economic Development and Tourism 2014) relativamente ao WML, 55% dos inquiridos são da região de Liverpool (55%), cerca de 15% são visitantes de outras zonas de Inglaterra e 13% são turistas estrangeiros (13%), demonstrando a atractividade e o impacto que o museu tem à escala local e regional. Destaca-se o perfil jovem dos visitantes, uma vez que 40% têm idade inferior a 35 anos, e o predomínio de visitantes do sexo feminino (62,8%). Comparativamente com os restantes museus da organização museológica, o WML é o preferido para visitas em família, especialmente famílias com crianças, provavelmente por reunir um conjunto de valências que, no geral, poderão ser potencialmente atractivas para este público-alvo, como é o aquário, o planetário, a “casa dos insectos” (Bug House), e a oferta de programas de demonstração do tipo hands-on, em que o visitante pode tocar e experimentar (p. ex. no Clore Natural History Centre e no Weston Discovery Centre), entre outros. Durante as nossas visitas ao museu pudemos observar, por exemplo, que as galerias World Cultures não tinham a mesma atractividade em termos de captação de visitantes, em comparação com outras áreas expositivas do museu.101 Além disso, nas informações recolhidas junto de

curadores, o público sénior foi identificado como sendo um dos públicos das galerias Word Cultures.102 Uma das razões poderá prender-se com a museografia adoptada, com um perfil

mais estético e convencional na abordagem, em oposição a outros ambientes museográficos que utilizam meios com um perfil mais interactivo dirigidos a um público jovem.

Do ponto de vista do alcance das aspirações estratégicas da NML na captação de públicos que reflictam uma população mais alargada, o estudo de visitantes ressalta alguns resultados relevantes nesse sentido. O estatuto socioeconómico, o nível de escolaridade e a etnicidade são alguns dos aspectos aferidos na composição dos públicos do WML. No que concerne ao perfil socioeconómico, o estudo conclui que 34,2% dos inquiridos exercem actividades ao nível das categorias mais baixas de qualificação profissional, enquanto 28% exercem uma actividade profissional que corresponde à categoria de quadros técnicos ou superiores. Em termos da aferição da escolaridade, verificou-se uma dispersão da percentagem dos inquiridos por diferentes níveis de escolaridade. Por exemplo, 21% dos inquiridos responderam ter um

101 O número de visitas por galeria não é contabilizado.

102 Entrevista a Zachary Kingdon (curator of African collections), World Museum Liverpool, Liverpool,

curso do ensino superior, mas 27% tinham habilitações de outros níveis de ensino e 13% respondeu não ter quaisquer qualificações formais. Os dados, tanto em termos de qualificação profissional, como em termos de escolaridade assinalam alguns resultados na captação de pessoas provenientes de meios mais desfavorecidos. Quanto à etnicidade, 5% dos inquiridos respondeu pertencer a uma minoria étnica, valor que se aproxima, em termos de representatividade das minorias étnicas que vivem na região de Liverpool, que ronda os 5,2%103, o que permite corroborar os esforços do museu na diversificação também deste ponto

de vista.

Assim sendo, estes resultados são consistentes com o discurso oficial que a organização museológica promove no sentido de que os visitantes sejam mais representativos da população local, procurando desconstruir as estatísticas mais correntes que demonstram que os museus, de uma maneira geral, são usufruídos apenas por uma pequena parcela da sociedade. No entanto, importa ressaltar que a diversificação de públicos não terá resultado apenas da política de gratuitidade, mas de uma estratégia integrada assente num programa de actividades que procura servir os interesses e necessidades de diferentes grupos.

Sobre o impacto das políticas de gratuitidade, é relevante analisar o que se passa nos restantes museus nacionais britânicos. Se, globalmente, ao eliminar-se as entradas pagas dos museus nacionais resultou um aumento significativo do número de visitantes (Fisher e Figueira 2012), este incremento não se traduziu numa significativa diversificação de públicos, tal como esperado. Com efeito, verificou-se o aumento do número de visitas daqueles que já visitavam regularmente museus, mas o perfil de visitante não se alterou substancialmente, prevalecendo o predomínio de visitantes com um estatuto socioeconómico favorecido (Plumb 2010, 106).