3.4 Estratégias para a diversidade
3.4.2 Exibindo a diversidade através da multivocalidade
Tendo por base a exposição Destination X (2010−2012), uma das exposições que tivemos oportunidade de visitar, analisar-se-á o modo como diversidade foi introduzida por meio de narrativas plurais, em particular, no que diz respeito à imigração.
A exposição Destination X (em sueco e em inglês) teve como enfoque a noção de viagem, que foi apresentada numa perspectiva multidimensional:
Why do people travel and immigrate? What are the driving forces that compel people to move from one place to another? What is it that we are yearning for, what is it that we hope to find? “Destination X” is an exhibition about being on the road, on the road or on the run - about tourists, immigrants, adventurers, pilgrims, explorers, refugees, travellers and nomads. (Museum of World Culture 2010a, s.p.)
Globalmente, a imigração, a par com o turismo (na sua diversidade), enquanto justificações para os movimentos de pessoas no mundo, foram os dois temas-chave da exposição. Ao longo da exposição, estes temas foram colocados em perspectiva; foram explorados e problematizados os diferentes significados que uma viagem pode ter, sublinhando as causas, as condições e as consequências dos movimentos humanos.
À semelhança de exposições anteriores, a temática extrapolou os limites geográficos de Gotemburgo para se situar (sobretudo) à escala global. O enfoque foi o presente, embora
pontualmente incluísse uma dimensão histórica, sobretudo para efeitos de contextualização e no sentido de dar conta das mutações e complexidade do mundo globalizado.
A exposição não seguia uma ordem cronológica, predominando uma estrutura organizada em tópicos, alguns mais evidenciados que outros: Travel Recollections: Souvenirs, Memories, Trophies; Worlds Apart – The Paradoxes of Travel; InTransit – No Mans Land; The Journey is the Destination; Definitions, Travel Statistics (entre outros); incorporando várias perguntas: Why do You travel?; Travel of the Future? (entre outras).
A imigração foi apresentada de forma positiva, como sendo um fenómeno que faz parte da história da humanidade. Os 200 milhões de migrantes da actualidade eram colocados em perspectiva quando se afirmava que não se tratava de uma tendência exclusiva dos últimos anos, mas de um fenómeno que se manteve estável nas últimas cinco décadas. Incluíram-se referências que indicavam, comparativamente com o presente, uma maior presença de estrangeiros em vários países no séc. XIX. Citações da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) corroboravam a atitude positiva da exposição em relação à imigração – aliás, a autoridade do documento é dominante nos princípios ideológicos do MWC.
Uma das formas de representar a imigração consistiu na apresentação de várias interpretações de artistas internacionais. Destacamos três exemplos. Na série Canto, Rogelio López Cuenca (Espanha) justapôs imagens publicitárias de turismo com fotografias documentais referentes à imigração, evidenciando os contrastes que coexistem entre as duas realidades no Norte de África (v. fig. 13−14, apêndice II). A obra de Valery James e Antonia Gallegos (Estados Unidos), Hardship and Hope: Crossing the US-Mexico Border (2010), centrou-se no problema da imigração entre o México e o Estados Unidos. As artistas/arquivistas, como se intitulam, conceberam uma instalação sob a forma de altar composto de despojos deixados por imigrantes na tentativa ilegal de passar a fronteira (v. fig. 15, apêndice II):
The genesis of this installation was an altar created in 2004 to young women crossing the Sonoran desert in Arizona. Beginning with a diaper bag found in the desert, a child’s birth certificate, infant clothing, and a bottle of No More Tears No Mas Lagrimas bay shampoo, over the years the altar grew as friends, neighbours and humanitarians contributed more items gathered in the desert, articles reflecting the true face of migration, the face of family.
[…] Each object found in the sand carries a personal untold story, an echo of the human heart, hope and longing, survival and defeat. (legenda da exposição)
Na série Exile (2002): Flight, Migration e Tomorrow Everything Will Be Different de Michel Séméniako (França), são mostradas imagens, encenadas, através de filme infravermelho que pretendem representar os sentimentos de ansiedade e de esperança numa vida melhor que está implícita nos movimentos de pessoas que seguem para o exílio (v. fig. 16, apêndice II). A escolha de interpretações artísticas em que estava implícita uma perspectiva crítica sobre a imigração também sublinha o papel do museu como facilitador de narrativas que fazem despoletar o sentido auto-reflexivo do visitante sobre o que se passa à sua volta.
O discurso expositivo estruturou-se também a partir de narrativas pessoais da experiência da migração, de que é exemplo o vídeo produzido pelo IOM (International Organization for Migration) com o testemunho de dois jovens, Rean do Irão e Doré da Nigéria sobre a sua história individual como migrantes. Na mesma perspectiva, outros testemunhos recolhidos em Gotemburgo foram apresentados em resposta à questão: Why do You Travel? (v. fig. 17−18, apêndice II) Alguns dos comentários reflectem acerca do sentido de pertença e do significado de viver num país que não o de origem:
Leaving your identity for something new is like the world coming to and end, de Prince (Muyiwa Alalu)
Travelling has meant a great deal to my family, before travelling was just for vacation but now is almost a form of necessity in order for all of us to meet (Ali Abdul)
You don’t belong to the country where you’re born. I think the most important thing is the destination of one’s struggle (Elvira Aviles Persson)
A introdução de narrativas pessoais em torno de objectos foi explorada na secção Travel Recollections: Souvenirs, Memories, Trophies, em que histórias individuais sobre viagens, objectos das colecções e novos objectos formaram um altar de souvenirs com cerca de 300 objectos. Os objectos seleccionados foram enquadrados pelas questões: What does one bring home nowadays? What did one bring home a century ago? Através de um convite publicitado
na comunicação social e no Facebook (Collecting day)61, os curadores seleccionaram objectos
(cedidos para a exposição) e as suas histórias pelo seu valor simbólico. Junto do altar de souvenirs, um posto multimédia dava a conhecer 24 dos objectos expostos e as suas histórias individuais (v. fig. 19, apêndice II).
Destination X foi uma exposição com um grande número de objectos provenientes das colecções (comparativamente com exposições anteriores) do MWC, aos quais se juntou um leque diverso de outros objectos cedidos ou encomendados pelo museu (objectos do quotidiano, objectos de culto, etnográficos, artísticos, documentais, entre outros), alguns dos quais já fomos referindo. Os objectos foram seleccionados para consubstanciar um discurso contemporâneo e multifacetado em torno da temática proposta. Tome-se como exemplo uma secção da exposição intitulada The Journey is the Destination. Uma vitrine apresentava diferentes tipos de sapatos, alguns provenientes das colecções, outros eram objectos do quotidiano cedidos ao museu e que eram acompanhados de uma história individual (v. fig. 20−21, apêndice II). Enquanto os objectos das colecções se apresentavam num tom descritivo e impessoal, os outros objectos correspondiam a um registo mais pessoal, como se pode comparar no exemplo que se transcreve:
2. A pair of women’s boots from Greenland. Bought by Master Mariner Nilsson 1892
3. This is my son John’s first pair of shoes, which he used when he learnt how to walk. Anna Javer.
Na forma como se apresentaram os objectos das colecções históricas ficou patente a sua não problematização, sendo recorrente a ausência de informação mais detalhada sobre os mesmos, tendo prevalecido, ao longo da exposição, como acessórios ou para conferir alguma densidade histórica à narrativa. No que diz respeito às legendas e painéis de texto, a opção por textos reduzidos poderá ter a ver com o facto da exposição se dirigir especificamente aos jovens um dos públicos-alvo priorizados pelo museu.
61 Veja-se a campanha: Come and Lend us Your Souvenirs and Travel Memories em:
Na exposição observou-se a continuidade de dois aspectos centrais defendidos nos primeiros anos de actividade do museu. Por um lado, a adopção de um discurso multivocal que foi incorporado na exposição com a introdução de um leque alargado de pontos de vista de natureza interdisciplinar: de especialistas, artistas e poetas, entre outros, e, por outro lado, o compromisso de apresentar a par com conteúdos de base científica conteúdos empíricos a partir de experiências individuais, numa perspectiva de complementaridade:
Through an interdisciplinary and thematically structured development of knowledge the museum will add new perspectives on relevant contemporary themes in forms that combine traditional scientific methods with the specific knowledge and competences that originate in a subjective background in a given culture or given topic. (Sandahl 2002, 7)
A ausência de aprofundamento dos temas apresentados na exposição foi, no entanto, uma oportunidade perdida no sentido de alicerçar o trabalho do museu no contexto mais alargado da investigação científica, como ficou patente nas primeiras exposições do museu, em que havia um projecto de parceria com a academia que originou a publicação de ensaios vários a partir dos temas abordados em exposição (cf. Abiri e Thörn 2005; Follér e Thörn 2005).
Ao integrar-se o tópico da imigração na exposição, ainda que no âmbito de uma narrativa mais alargada, confirma-se a transversalidade que o tema assume na programação expositiva do museu e a sua continuidade como motivo de interesse no quadro dos problemas globais da sociedade contemporânea.