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Museus em contexto de austeridade, diversidade na berlinda?

4.4 Diversidade: da periferia para o coração dos museus

4.4.9 Museus em contexto de austeridade, diversidade na berlinda?

Ao terminar este capítulo, a análise realizada clarificou que a implementação de uma estratégia para a diversidade cultural ocorre a múltiplos níveis da prática museológica na NML. A população imigrante é um dos públicos-alvo de actividades de âmbitos variados e enquadra-se numa estratégia museológica mais vasta, assente no alargamento e diversificação de públicos. Globalmente, os exemplos descritos ao longo deste capítulo remetem para a ocorrência de práticas inclusivas: a promoção mainstream da diversidade como política interna (p. ex. diversificar o corpo de pessoal) e externa (p. ex. declaração pública), situando a diversidade como ponto axial da estratégia museológica; uma estratégia que atende às necessidades e interesses de diferentes públicos, através de práticas de consulta e de colaboração (p. ex. interpretação, novas colecções, multivocalidade nas exposições, exposições comunitárias); a aplicação de métodos de auscultação regulares aos visitantes (p. ex. estudos de público) e de avaliação do trabalho desenvolvido; um trabalho de pendor colaborativo com organizações externas estimulado por uma equipa com a incumbência de promover, consolidar e sustentar projectos numa perspectiva de médio e longo prazo e uma equipa de comunidades especializada na captação de públicos e no fortalecimento das relações estabelecidas.

A promoção da diversidade como aspecto estratégico permanece na agenda desta organização museológica devido a uma forte liderança que viabiliza uma retórica com repercussões significativas e estruturais no seio da organização: a forma como se posiciona (valores, missão), como se organiza, como define a investigação e a programação, e como distribui os recursos humanos e económicos.

O alargamento e diversificação de públicos alcançado pela NML demonstra alguns dos resultados, não obstante, evidencia um processo longo de investimentos sucessivos e que necessita de ser continuamente estimulado. Perante a crise económica pós 2008, a questão da sustentabilidade de políticas para a diversidade é peremptória. No Reino Unido, as consequências fizeram-se sentir, em particular desde 2010, com o novo governo de coligação liderado por David Cameron, ao serem impostas medidas de contenção da despesa pública nos museus. Um relatório da Associação de Museus britânica demonstrou que os museus

nacionais sofreram cortes na ordem dos 15%, enquanto cortes mais variáveis foram aplicados em museus locais e museus independentes (Newman e Tourle 2011). Na sequência da redução de meios financeiros, foram eliminados postos de trabalho, diminuiu-se a oferta programática, nomeadamente nas actividades do tipo outreach, realizadas fora do museu, e os horários de abertura foram restringidos. Na NML, verificou-se um panorama similar. Os cortes sucessivos do governo central levaram, por exemplo, ao encerramento de um dos espaços museológicos em 2010, o National Conservation Center, e à supressão de 90 postos de trabalho (National Museums Liverpool 2013a).104

A organização museológica não depende exclusivamente do financiamento da administração central, ainda que esse represente o seu principal apoio, mas os cortes ocorridos tiveram implicações na redução da sua programação (National Museums Liverpool 2013a). Sendo a programação determinante na captação, assim como no fortalecimento e continuidade das relações com públicos subrepresentados, em particular no que concerne às actividades educativas e ao trabalho fora dos museus (outreach), junto das comunidades, é possível concluir que a austeridade tem vindo a constituir um obstáculo e um desafio para a performance da NML quanto à promoção da diversidade. Todavia, na estratégia assumida para os próximos anos não se verifica um recuo quanto ao papel destes museus na inclusão social e, neste contexto, a diversidade permanece central, quer no âmbito da diversificação de públicos, promovendo a ampla participação na programação do museu, quer do ponto de vista da diversificação do corpo técnico da NML. O desenvolvimento de práticas museológicas de carácter inclusivo e a ambição de se tornarem uma referência internacional neste domínio são categóricas (National Museums Liverpool 2013c). O impacto social destes museus em Liverpool prevalece como um dos argumentos que validam o seu papel na actual conjuntura de recessão e fragilidade social da cidade:

NML carries a very great responsibility in terms of delivering first class museums that, as part of a wider pattern of cultural and educational provision, can enhance well being, confidence and social connectedness. In a period of recession and public spending cuts this responsibility grows

104 A redução do número de profissionais na NML levou inclusivamente ao encerramento temporário dos

museus: http://www.liverpoolecho.co.uk/news/liverpool-news/merseysides-museums-galleries-closed-staff- 7026092 (consultado em Abril 27, 2014).

even greater, and NML can help mitigate the social consequences of adverse economic conditions. (National Museums Liverpool 2013a, 5)

Uma maior responsabilização da NML na sociedade é também o argumento instrumental subjacente à procura de outras fontes e receitas alternativas ao financiamento do governo, de modo a minorar as consequências de um orçamento mais reduzido e alcançar os objectivos traçados. Uma postura pró-activa quanto à austeridade é também assumida por Steve Judd quanto ao futuro do WML: «the less money there is, the harder the economic climate the more you should try, the more we should be determined […], the more ambitious you should be for the venue rather than giving up»105.

105 Entrevista a Steve Judd (director of World Museum Liverpool), World Museum Liverpool, Liverpool,

Cap. 5 – Museu Nacional de Etnologia

O Museu Nacional de Etnologia (MNE) é um dos dez museus portugueses categorizados como nacionais no seio da administração central e sob a alçada da Direcção-Geral do Património Cultural.1 Foi criado oficialmente em 1965 como Museu de Etnologia do Ultramar

já num contexto de crise do império colonial português, mas a sua inauguração no edifício actual só veio a acontecer em 1976. Concebido como um museu dedicado às culturas do mundo, abrangeu também desde logo as culturas de âmbito nacional, um factor que o distingue dos dois primeiros estudos de caso analisados. Em 2013, inaugurou a exposição permanente, O Museu, Muitas Coisas, que marca um olhar renovado sobre a investigação produzida em torno das colecções e a revisão da estratégia expositiva adoptada.

Para compreender o posicionamento do MNE no que concerne à diversidade cultural, em particular qual a relação que estabelece com as comunidades imigrantes procurámos compreender a génese do museu, a sua trajectória e enquadramento na política museológica nacional. Nesta perspectiva pretende-se contextualizar o seu percurso do ponto de vista histórico, social e político, e o papel dos protagonistas envolvidos. A segunda parte do capítulo incide primeiramente sobre um quadro mais vasto referente ao panorama museológico português que permite analisar o perfil das iniciativas dirigidas à população imigrante, seguindo-se a análise dos modos de colaboração adoptados pelo MNE com relação às comunidades imigrantes e a reflexão que suscita o seu património (material e imaterial) em matéria de representação e participação na actividade museológica numa perspectiva transversal (investigação, colecções, exposições, educação, papel social).

1 Neste núcleo de “museus nacionais” estão incluídos os seguintes: Museu Nacional de Arqueologia, Museu

Nacional de Arte Antiga, Museu Nacional do Azulejo, Museu Nacional dos Coches, Museu Nacional de Machado de Castro, Museu Nacional de Soares dos Reis, Museu Nacional do Teatro e da Dança, Museu Nacional do Traje e Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea. Note-se que para além destes, outros museus têm o estatuto de “nacionais” ainda que a sua designação não inclua a menção “nacional”. O papel dos museus nacionais carece de reflexão mais aprofundada no âmbito da sua definição, política estratégica e reorganização no mapa nacional como defendem Silva e Camacho (2011). O tema mereceu a edição de um dossier temático na revista Museologia.pt (2011), incluindo uma mesa-redonda que explorou aspectos ligados à definição da categoria “museu nacional”, enquadramento orgânico e modelos de gestão.