4.4 Diversidade: da periferia para o coração dos museus
4.4.5 Exposições: auto-representação e multivocalidade
A equipa das comunidades gere um programa público de exposições comunitárias (programme of community exhibitions). Entre os objectivos destaca-se a vontade de ampliar e diversificar a oferta destes museus com a contribuição das comunidades. Mediante um processo de natureza participativa, a NML pretende dar espaço à multivocalidade e à auto- representação por parte das comunidades, possibilitando a expressão da sua cultura, da sua identidade e do seu património (material e imaterial). No contexto deste programa, a noção de
78 Em 2010 a equipa das comunidades da NML desenvolveu um projecto no WML que consistiu na realização
de actividades artísticas com um grupo pertencente a uma minoria étnica (Black Minority Ethnic – BME) do centro de dia Mary Seacole House. Pretendeu-se estimular a criatividade de pessoas com problemas mentais. A avaliação do projecto demonstrou o impacto positivo do programa nos participantes do projecto (Andrews 2010).
comunidade foi definida como sendo um grupo social de qualquer dimensão, cujos membros tenham um interesse comum e partilham um património histórico ou cultural (National Museums Liverpool 2013e), que sendo abrangente é uma noção flexível. Para o efeito, são disponibilizadas áreas públicas com este fim. No caso do WML três áreas estão previstas. Destacamos uma dessas áreas, que se situa no quarto piso (community base) e é um espaço polivalente que serve tanto para exposições como para reuniões (v. fig. 49−51, apêndice II).
As experiências de base comunitária com exposições nos museus de Liverpool decorrem de um trabalho com as comunidades com alguma tradição. No entanto, devido ao volume de propostas espontâneas que a organização vinha recebendo, desde 2010 promove um processo mais formal de candidaturas através do documento público: Community Exhibtion Policy. Este documento não só enquadra os objectivos desta política, como elenca o conjunto de procedimentos da candidatura, os deveres e as responsabilidades de ambas as partes, as recomendações sobre a utilização dos espaços.79 Os museus de Liverpool assumem o
compromisso de dar resposta a pelo menos duas exposições por ano, em função de um conjunto de critérios: a adequação das propostas aos objectivos, aos princípios e à estratégia dos museus, entre outros (tema, conteúdo, apresentação, sentido de comunidade, financiamento, recursos, custos e riscos, potencialidade para atrair visitantes) (National Museums Liverpool 2013e).
O trabalho colaborativo com as comunidades no contexto destas exposições assenta num modelo em que o museu actua como facilitador ao colocar as infra-estruturas e as competências técnicas dos seus profissionais à disposição das comunidades. Cabe às comunidades a decisão sobre os conteúdos e as mensagens a transmitir, enquanto o museu assegura que o resultado é eficiente e profissional. Helen Robinson, responsável pelo departamento aquando da entrevista realizada (2011), sublinhou o papel das exposições comunitárias:
[…] the key things about the work the communities team does and the communities exhibitions is: you will not, you will find hard to distinguish between what/why is a community exhibition and an exhibition being produced by a curator, the quality of what you say is as good for both, so
the standards that we put in place for an exhibition that comes in […] everything around it, we put as much energy into a community exhibition as well.80
As exposições comunitárias são, globalmente, muito diversas no seu perfil, e podem resultar de projectos em curso, na sequência de parcerias ou de iniciativas isoladas. Algumas destas exposições podem ser, por exemplo, mostras de trabalhos realizadas por grupos com base na reinterpretação de colecções – Inspired by –, através do emprego de técnicas artísticas com a mediação da equipa. Mas é na relação de proximidade com diferentes comunidades e nessa interacção que se identificam as mais-valias desta abordagem:
I think the community exhibition is a success because people, one they can’t believe their work is in the museum, because we still have those preconceived ideas that a museum isn’t a place for us even if you visit, you don’t expect to see a piece of your artwork or a piece of… or text that you produce to be in a gallery.
[…] I think is so powerful, that they feel that their work is just as important as an artist from the seventeenth, eighteenth century. And I think that’s the most powerful thing, and I know that from […] some of the comments […] how important communities exhibitions are and how it makes feel, they feel empowered […].81
Não obstante os benefícios do desenvolvimento do programa de exposições comunitárias como espaço de auto-representação e de envolvimento de públicos diversos, observaram-se tensões quanto à departamentalização do programa, nomeadamente a ausência de maior entrosamento com o departamento de Etnologia do WML.82
Além do programa de exposições comunitárias, destacamos a produção de exposições que podemos designar de multivocais, nas quais se apresentam múltiplas perspectivas com a introdução de testemunhos de membros das comunidades. Esta abordagem é particularmente aprofundada no Museum of Liverpool. Por exemplo, no contexto de uma das exposições centrais deste museu, a The People’s Republic, dedicada a aspectos sociais do
80 Entrevista a Helen Robinson (head of communities), World Museum Liverpool, Liverpool, 22/09/2011. 81 Idem.
82 Entrevista a Zachary Kingdon (curator of African collections), World Museum Liverpool, Liverpool,
desenvolvimento da cidade, e a The Secret Life of Smtihdown Road, uma das secções (rotativas e temporárias)83 realizada em colaboração com a população local (v. fig. 52,
apêndice II). O pequeno núcleo expositivo retrata o bairro de Smithdown Road, em particular uma rua de comércio, procurando explorar a identidade e as histórias do bairro com a contribuição dos testemunhos de donos de lojas e empreendedores locais, incluindo imigrantes. Integrada num programa de investigação mais lato, Our City, Our Stories, este tipo de apresentação não só adopta uma abordagem que permite várias vozes no discurso, como integra as narrativas sobre a migração num quadro assumidamente holístico e multifacetado da história da cidade, dos seus bairros e dos diferentes grupos que os habitam.