Licenciamento de filmes infantis
3.2. A dobragem para o público infanto-juvenil
A melhor parte é saber que nós fazemos parte de um imaginário infantil.
Henrique Feist (Dobragens em Portugal, TVI 1.1.2012)
A dobragem é a modalidade tradutiva mais usada nos produtos audiovisuais infanto-juvenis estrangeiros, à semelhança do que acontece noutros países tradicionalmente legendadores, corroborando a noção de Gottlieb (2001: 85).
Em Portugal, existe uma certa aquiescência em relação à utilização da dobragem no caso dos públicos mais jovens como se pode comprovar pela opinião de José Navarro de Andrade13 entrevistado pela investigadora Sara Pereira (2007: 127) e que passo a citar:
Há um âncora fundamental nos desenhos animados que é a língua.
Os Pokémon são portugueses, porque falam português e nem pensar em legendar, têm de ser mesmo dobrados.
Noutro testemunho recolhido num documento vídeo transmitido na televisão portuguesa, o director de dobragem e actor dobrador, Rui Paulo, afirma que a necessidade de dobrar os filmes é actualmente uma exigência do público português:
13 À data de 2003, director de Programas Internacionais e Head of Acquisitions do canal privado SIC (Pereira 2007:114).
144
Dobrar os filmes de desenhos animados das majors, os filmes de cinema é um dado adquirido. Não há sequer hipótese de não acontecer porque, se isso não acontecer, as empresas de distribuição não vão distribuir o filme ou não vão fazê-lo lucrar [sic]. (Canal Q, 21.1.2011)
Este depoimento coloca o enfoque nas leis do mercado em conformidade com as expectativas dos consumidores infanto-juvenis, os quais reclamam produtos audiovisuais falados em português. Da parte dos fornecedores do serviço televisivo, a opção pela dobragem vai ao encontro dos seus deveres linguísticos na transmissão de obras faladas em português14. Tal permite alvitrar a hipótese do recurso à dobragem poder ilibar parcialmente as televisões da responsabilidade de promover a produção nacional, já que uma das suas funções é contribuir para a difusão e promoção da língua portuguesa.
Importa agora observar os factores condicionadores da dobragem de produtos infanto-juvenis sob duas perspectivas: a do destinatário e do tradutor.
No que toca ao destinatário, como observámos na secção 3.1, este tipo de público detém características específicas mais propícias ao uso da dobragem.
Na base destes factores está a incapacidade de ler legendas pelos mais novos ou as dificuldades com a sua leitura no seio das crianças mais velhas (cf.
Karamitroglou, 2000; O’Connell, 2003a; Schauffler, 2012). Assim, o receptor infantil pode beneficiar da dobragem ao nível da literacia e da percepção cognitiva e emocional.
Partindo da formulação proposta por Koolstra et al. (2002), onde se compararam as vantagens e desvantagens da dobragem e da legendagem, tentarei expor brevemente os benefícios da primeira, de acordo com a especificidade deste segmento etário e sem qualquer intuito valorativo.
Em relação ao processamento da informação, a dobragem facilita a compreensão, a descodificação e a apreciação da obra audiovisual, porque o receptor infantil não se distrai com a leitura e não implica um grau de esforço intelectual elevado, e é compatível com a elaboração simultânea de outras tarefas. De acordo com Koolstra et al. (2002: 339) esteticamente, a união entre
14 Recordo que o artigo 44 da secção V da lei 27/2007 de 30 de Julho refere que 50% das emissões televisivas devem ser consagradas à difusão de programas originariamente em língua portuguesa (cf.
secção 2.2.1).
145 imagem e som mantém-se sem a “poluição das linhas de texto” no ecrã o que permite à criança focalizar a sua atenção na imagem. Retomando o raciocinio dos referidos autores (2002: 340), a dobragem estimula o desenvolvimento das competências linguísticas na língua materna, permitindo uma assimiliação gradual das estruturas léxicais e sintácticas do discurso oral.
A meu ver, a dobragem possibilita a imersão total do receptor no imaginário infantil sem impedimentos visuais, pois as legendas podem comprometer a compreensão e apreciação do texto, dificultando à criança um maior envolvimento na narrativa audiovisual.
Do ponto de vista do tradutor, a utilização da dobragem significa que a duração das falas traduzidas deva estar sincronizada com o texto de partida por via de se manter o mesmo canal de comunicação, o que pode (ou não) facilitar o seu ajustamento, sem necessidade de condensar ou omitir partes do discurso como na legendagem. Por outro lado, a eliminação total da faixa original pode propiciar a inserção de texto suplementar em determinados momentos (off screen) em prol de uma melhor compreensão ou descodificação da mensagem por parte do receptor.
No entanto, a dobragem para públicos infanto-juvenis implica dificuldades suplementares exigidas ao tradutor, porque a sua actuação está condicionada a dois níveis: 1) às características intrínsecas do produto audiovisual; e 2) à especificidade do receptor. No primeiro caso, em relação ao produto, existem condicionalismos de mercado e de sincronia na dobragem para públicos infanto-juvenis. No que concerne a especificidade do receptor, as competências linguísticas, culturais e cognitivas implicam também uma atenção suplementar no processo tradutivo como se percebe na Figura 13.
146
Figura 13 – Esquema referente à especificidade da dobragem para públicos-infanto-juvenis
Observando, em primeiro lugar, os condicionalismos de mercado, refiro-me às convenções próprias da indústria audiovisual de cada país. Nas várias etapas a que o produto se submete, desde a tradução até à distribuição, existem agentes que, directa ou indirectamente, influenciam o resultado final. Trata-se, por exemplo, das imposições linguísticas e convenções técnicas dos distribuidores nacionais ou internacionais (por exemplo, da Disney), dos critérios de selecção e adequação das vozes, tendo em conta que se devem adequar a um destinatário infantil inserido no contexto sociocultural português.
Por outro lado, entendo por condicionalismos de sincronia, aqueles procedimentos directamente relacionados com as verbalizações das personagens. A dobragem implica um ajustamento à duração e articulação das falas, ou seja, a isocronia temporal bem como a sincronia labial (lip-sync), ambas em prol da harmonia visual entre os movimentos labiais das personagens no ecrã e os sons proferidos e escutados pelo público (cf. secção 1.3.1). Para este público em especial, Chaume (2012: 78) relembra que o grau de permissividade é maior porque “child audiences will not notice any delay, nor will they demand higher synchronization quality”. Deste modo, o processo da dobragem pode eventualmente resultar simplificado, devido ao grau de
Dobragem
147 tolerância e flexibilidade dos mais jovens em relação ao ‘colete-de-forças’ da sincronia de acordo com a formulação de Romero Fresco (2009a: 46).
Analisando agora os factores externos ao texto, a tradução para dobragem tem de tomar em consideração as competências linguísticas, culturais e cognitivas, adstritas à especificidade deste público. Como já foi aflorado na secção 3.1, as capacidades linguísticas destes receptores podem obrigar a uma maior simplificação da linguagem, à eliminação de registos ou variações dialectais e a adaptações lexicais, de modo a que a compreensibilidade seja um parâmetro determinante no processo tradutivo. As referências culturais podem revelar-se opacas para este público-alvo, pelo que o tradutor terá de procurar adaptar ou localizar essas marcas tanto quanto o texto e a imagem o permitirem. Os factores cognitivos estão interligados com a natureza lúdica e imaturidade, próprios da natureza infantil.
Após a delineação dos pressupostos norteadores da dobragem para públicos infanto-juvenis, veja-se agora a jusante como se materializam esses produtos.
Actualmente, no universo audiovisual português, a dobragem aplica-se sobretudo a programas de animação (desenhos animados, filmes de animação), mas também a séries de imagem real. Em termos de complexidade tradutiva, a dobragem de imagem de animação afigura-se como um processo menos exigente. Isto deve-se, sobretudo, ao facto das falas inseridas neste tipo de produto audiovisual serem, em si mesmo, gravações efectuadas por actores para sonorizar a imagem e a sincronização labial das personagens de animação não se aplicar. Chaume (2004b: 43) explica-o:
because the characters obviously do not speak, but rather move their lips almost randomly without actually pronouncing the words, a precise phonetic adaptation is not necessary.
A natureza ficcional e imaginária da imagem, sustentada pela presença dos
‘bonecos animados’, facilita a aceitação de personagens que falam a nossa língua. A animação apresenta-se claramente como um produto inventado o que permite uma assimilação mais credível das falas, não causando estranheza, a menos que existam referências explícitas visualmente que indiquem essa proveniência estrangeira como, por exemplo, inscritos ou signos iconográficos.
148
Embora actualmente as séries e filmes de animação sejam o resultado de processos criativos muito complexos, gerados e desenvolvidos por computador de modo a aproximarem-se o mais possível da realidade, as personagens continuam a ser criaturas ficcionais, o que torna o processo de sincronização para dobragem menos exigente do que com a imagem real, como afirma Koolstra et al. (2002: 349):
Movies with puppets (animation) are almost always dubbed, because the imperfect synchronicity is also present in the original language and it is characteristic (and maybe also attractive) for this programme type.
Neste caso, Chaume (2004b: 46) aconselha a que a sincronia quinésica seja um factor a ter em conta na animação infantil, devido às formas de comunicação não-verbal como os gestos:
Kinetic synchrony is important to children’s cartoons programs, as the cartoon characters tend to gesticulate in an exaggerated way to capture the attention of the young viewers. These gestures should be accompanied by a coherent translation.
Significa isto que a dobragem de animação oferece maior margem de manobra no processo de ajustamento dos diálogos, o que permite maior enfoque no escopo da obra como refere Agost (1999: 86):
la tarea del traductor que se centrará en la transmisión de los aspectos relacionados con la pragmática y en el intento por conseguir una expresividad que es la que origina que los niños queden cautivados por las imágenes que aparecen en la pantalla.
Antes de concluir esta secção alusiva à dobragem de animação, creio ser necessário ressalvar que nem toda a animação se destina a públicos infanto-juvenis. A título ilustrativo, as séries de desenhos animados, South Park (Comedy Central, 1997-presente) ou Family Guy (20th Century Fox Television, 1999-presente) à data emitidas em Portugal, destinam-se claramente a um público adulto, o que explica a opção pela legendagem nos dois exemplos citados.
No que concerne a dobragem de imagem real vocacionada para os mais jovens, temos de diferenciar produtos televisivos/vídeo e produtos fílmicos. No caso das obras fílmicas, deverá existir uma maior exigência ao nível dos três níveis de sincronismo - quinésia, isocronia e lip-sync – propostos por Chaume
149 (2004b), pois qualquer desfasamento ou dessincronia serão facilmente perceptíveis no grande ecrã devido às dimensões da imagem.
Em relação às séries televisivas para públicos infanto-juvenis, parece existir uma maior permissividade em relação às convenções de sincronização. É ainda Chaume (2004b: 49) que salienta esta possibilidade:
Television series designed for young audiences also accept certain liberties in isochrony, as young audiences, although more aware than child audiences, do not place synchronization quality at the top of their priorities when judging a television series.
À falta de estudos empíricos sobre a recepção da dobragem junto dos públicos infanto-juvenis, entendo que as audiências infantis são mais flexíveis em relação à sincronia porque reagem sobretudo a estímulos cognitivos visuais, enquanto os receptores juvenis, mais conscientes de que se trata de um texto traduzido e adaptado, adoptam naturalmente uma posição mais crítica em relação a eventuais desajustes na sincronização de imagem real.
Como resultado desta análise, verificou-se que a dobragem se afigura como modalidade tradutiva mais adequada aos condicionalismos e capacidades inerentes aos públicos infanto-juvenis. Daí que se conclua que é grande a responsabilidade do tradutor/dobrador em adaptar o texto original a estas premissas, e formular as estratégias tradutivas mais convenientes com vista a um melhor proveito comunicativo deste público-alvo.