Ciente de que todo e qualquer fenómeno tradutivo se encontra condicionado por múltiplas variantes, entendo que a tradução para dobragem apresenta um grau elevado de complexidade tradutológica. O fenómeno de transferência interlinguística não se reduz à mera substituição lexical ou adaptação sintáctica entre duas línguas diferentes. Envolve um reenquadramento semiótico de toda a obra, ou seja, obriga a reavaliar os códigos verbais, visuais e acústicos.
Embora o conceito de ‘constrained translation’ cunhado por Titford (1982) e desenvolvido por Mayoral, Kelly e Gallardo (1988) não seja consensual (cf.
Zabalbeascoa, 2008: 33), considero que a noção é aplicável em especial à dobragem. Em termos latos, para além dos factores linguísticos transversais a qualquer texto traduzido, a dobragem manifesta um grau elevado de dependência em relação à imagem e ao som e à dinâmica criada por ambos, enquanto veículos portadores de sentido.
Nesta perspectiva, Mayoral et al. (1988: 357), importando os conceitos de Shannon e Weaver (1948), descrevem o tradutor como um descodificador da mensagem de partida e codificador da mensagem de chegada. No caso do texto audiovisual, a organização dos vários códigos deve ter em conta o ‘noise’, ou seja, todos os factores que podem impedir a que os intuitos comunicativos possam ser atingidos. Entre estes, destaco aqueles que são causados pela coexistência de diferentes sistemas culturais pois, segundo Mayoral et al.
(1988: 361):
the noise produced in the act of communicating by means of translation proceeds not only from the use of two different languages but also from the cultural differences between the source and the receptor.
Este ruído deriva das interferências culturais e até dos choques entre culturas dissemelhantes, causando sérias dificuldades na transferência interlínguística aquando do processo tradutivo. Aqui, adopta-se a perspectiva do tradutor, considerando como ‘ruído’ todos aqueles componentes discursivos linguístico-culturais que podem obstar a uma transposição comunicativa eficaz.
51 Fuentes Luque (2000: 49) adoptou o mesmo conceito, embora do ponto de vista do receptor, referindo-se à presença dos elementos culturais externos ao contexto cultural do receptor, afirmando que o grau de ruído ou a eficácia da comunicação dependerá da frequência, conhecimento, familiaridade e permeabilidade estereótipica dos receptores da cultura de chegada.
Assim, a noção de ruído será, aqui, usada como equivalente conceptual da noção de obstáculo ou dificuldade tradutiva. Atente-se, em particular, aos referentes culturais, às variações linguísticas e ao humor que podem constituir um verdadeiro impedimento na transposição para outra língua e cultura.
Similarmente, Gambier (2009: 18) alude a que muitos estudos em TAV baseiam-se em determinados tópicos vistos como um problema tradutológico, como traduzir ou adaptar referências culturais, o humor, a linguagem tabu, os sociolectos, entre outros.
No contexto deste trabalho, proponho uma análise breve da enunciação de Díaz Cintas (2001b: 97) que identificou as três principais condicionantes na tradução para dobragem, a saber, o humor, a linguagem tabu e as referências culturais.
Seguindo a ordem inversa àquela apontada por Díaz Cintas, em matéria de referentes culturais, existem diferentes acepções terminológicas na definição e caracterização do “cultural data” (Delabastita, 1990: 102), como veremos seguidamente.
Inseridos num universo linguístico, estes “products of the culture”, como lhes chama Nedegaard-Larsen (1993: 207), merecem atenção especial quando exibidos num enquadramento cultural diferente daquele do produto original.
Para Santamaria (2010: 516-528), estes culturemas (cf. Nord, 1997) ou referentes culturais, para além do respectivo valor referencial e expressivo, estão potencialmente imbuídos de um “capital ideológico”, directamente relacionado à representação mental de um indivíduo, no seio de um grupo, participante de uma sociedade. A adaptação (ou não) destes referentes pode implicar uma sobrecarga do processamento cognitivo no público de chegada, mais um dado que o tradutor tem de ponderar no tratamento tradutivo destes elementos discursivos.
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A expressão metafórica culture bumps, cunhada por Leppihalme (1997), tem sido usada frequentemente como hiperónimo das ocorrências linguístico-culturais capazes de causar dificuldades tradutivas. O sentido original do termo culture bumps extrapolou o universo conceptual daquilo a que chamamos de alusões, para designar, lato sensu, todos os fenómenos linguísticos adstritos a determinada cultura e que, por força do processo tradutivo, podem revelar-se opacos e indecifráveis na cultura de chegada.
Por seu lado, Antonini (2005: 213; 2008: 140; 2009: s.p.) e Antonini e Chiaro (2009) empregam a imagem metafórica de uma descarga na corrente eléctrica - lingua-cultural drops in translational voltage – para designar qualquer ocorrência em que a mensagem traduzida não é correctamente apreendida pelos espectadores. Antonini e Chiaro (2009: 100) referem-se, em particular, à percepção de:
lingua-cultural uneasiness or turbulence, such as a cultural reference which is not completely understood, an unnatural sounding utterance, an odd-sounding idiom or a joke which falls flat. (itálico no original)
Enraizadas a determinadas esferas culturais, estas marcas constituem aquilo que Ramière (2010: 101) apelida de "moments of resistance". Apresentam dificuldades de cariz referencial (por exemplo, pela inexistência de determinado referente na cultura de chegada) ou de cariz conotativo, resultantes de imagens e associações em contextos culturais diferentes. A autora (2006: 160) propõe uma abordagem pragmática, em que as estratégias de compensação facilitem a transposição para uma nova realidade sem implicar perdas de sentido.
Outro autor, Pedersen (2005: 1) observa a existência de "translation crisis points” identificando os trocadilhos, a poesia e as alusões, assim como os referentes culturais extralinguísticos, como instâncias problemáticas no fenómeno tradutivo porque:
they present translation problems; they constitute turning points, at which the translators have to make active decisions, and these points are thus indicative of overall strategy and to what norms the translator professes.
Conquanto estas referências remetam para entidades extralinguísticas como locais, instituições, figuras históricas, entre outras, Pedersen (2008: 102)
53 recorda-nos a sua dimensão verbal, expressa através de palavras, observando que a sua extrapolação para a língua de chegada pressupõe um
“conhecimento enciclopédico” da realidade sociocultural do produto original.
Questionando a tradutibilidade do componente cultural dos filmes, Whitman-Linsen (1992: 125) afirma que a correspondência total na transposição intercultural é ilusória, em particular no caso da inexistência de equivalentes lexicais ou semânticos na língua e cultura de chegada. Nestes casos, a decisão de manter, substituir, adaptar ou omitir estas marcas pode não ser pacífica.
Whitman-Linsen (1992: 125) advoga que o princípio de gerar uma resposta similar é válida, o que significa valorizar o efeito comunicativo da mensagem.
Já Fuentes Luque (2000: 38) alerta para a relevância contextual de que estas marcas se revestem no texto, bem como a sua função didáctica e divulgadora de outras realidades.
Assim, a cooperação semiótica existente na dobragem, resultante da interacção entre os códigos linguístico, visual e acústico pode ajudar a clarificar a tradução dos referentes culturais (cf. Chaume, 2012: 145).
Intrinsecamente ligada aos fenómenos culturais, a linguagem tabu, conceito tão difuso quanto ‘escorregadio’, não é consensual na prática tradutológica e depende de variantes internas e externas ao produto audiovisual, tal como professado por Veiga e Roberto (2003: s.p.) quando afirmam que:
Translating taboo language is one of the most complex tasks for the translator, as it is particularly marked by cultural and sociological references and value mores. The translator must not only understand the language level of the slang, swear words and expletives and their significance and the register of the text in which these are found, but also find equivalent utterances in the target language relevant to the target audience in a corresponding community.
Sem abarcar a abrangência conceptual do termo, a linguagem tabu é aqui entendida como qualquer ocorrência linguística ligada a termos vulgares e rudes, moralmente ofensivos e/ou de cariz sexual e/ou ao calão que, como refere Saldanha (2012: 33), “acabam por se tornar um “problema” pelas implicações socioculturais, morais e até de autocensura a que o tradutor se vê sujeito ao cotar-se em relação ao contexto geral da língua-cultura do texto de
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chegada.” A percepção do que é um tabu linguístico ou uma ofensa verbal não é consensual nem estático, porque o que é considerado ofensivo e reprovável é subjectivo e variável, intra e inter comunidades, dependendo daquilo que cada sociedade entende como interdito. Allan e Burridge (2006, citado em Saldanha, 2012: 57) sublinham que:
every taboo must be specified for a particular community of people, for a specified context, at a given place and time. There is no such thing as an absolute taboo (one that holds for all words, times and contexts).
Xavier (2009: 56) explica as razões subjacentes à dificuldade do tradutor em lidar com estes casos de variação linguística:
os itens tabu (…) recuperam valores comunicativos e sócio-semióticos da cultura de partida. A transferência destes elementos desviantes implica considerações de caracter cultural que se baseiam nos diferentes graus de aceitação de linguagem tabu nos contextos de cultura, que se relacionam por via da tradução.
Vários estudos (Chiaro, 2007; Veiga e Roberto, 2003; Xavier, 2009) comprovaram que a omissão e a atenuação dessas estruturas verbais parecem ser as estratégias mais utilizadas, acabando por se verificar uma perda semântica considerável junto do público de chegada. Curiosamente, outra análise feita por Filmer (2012: s.p.) em Itália detectou que a linguagem racista e xenófoba de um filme dobrado foi substituída por expressões de cariz homofóbico o que, segundo a autora, aconteceu “partially due to linguistic constraints, but here is also argued partially due to more significant societal and translator ’s habituses.”
No corpus deste trabalho, não se verificam ocorrências de linguagem tabu, fruto das políticas de contenção linguística, relacionadas com o tipo de audiência alvo. No entanto, como veremos no Capítulo 2, existem vários tipos de restrições de linguagem impostas ao tradutor pela empresa produtora e distribuidora do produto audiovisual.
Tendo em mente que a natureza singular do texto audiovisual assenta na sua confluência semiótica, pretendeu dar-se conta (ainda que superficialmente) de
55 dois dos aspectos mais problemáticos da TAV: as referências culturais e a linguagem tabu.
Falta, ainda, analisar o humor, o que faremos no subcapítulo seguinte. O humor distingue-se como um fenómeno complexo, inserido em determinado contexto sociocultural, geográfico e ideológico. Quando expresso por palavras, o humor torna-se mais do que um obstáculo para o tradutor, transforma-se num desafio.