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1.5. Sobre o Humor, o Cómico e o Risível

1.5.1. O humor e a TAV

1.5.1. O humor e a TAV

L’humour est souvent considéré comme intraduisible, et pourtant on le traduit.

Laurian (1989: 6)

Mais do que cair na tentação ingrata de tentar definir o humor, interrogo-me sobre como traduzir o humor em contexto audiovisual. E como o fazer, quando o próprio produto audiovisual aparece etiquetado como ‘cómico’, quando uma plateia invisível de espectadores parece achar graça às falas e se ri com muita frequência.

Em minha opinião, o humor é uma das áreas problemáticas da TAV e da dobragem, em particular. Um dos objectivos deste trabalho será analisar a problemática da tradução do humor na dobragem das séries infanto-juvenis em Portugal. Aqui, o humor é observado como uma confluência de componentes linguísticos e culturais, veiculada por sons e imagens. Na óptica da TAV, analisa-se o humor veiculado pelo código verbal, pese embora não seja somente a dimensão verbal que concorre para a produção do humor. Todos os

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elementos visuais, auditivos, verbais ou não verbais comportam sentido e contribuem directa ou indirectamente para a construção humorística. Partilho da opinião de Whitman-Linsen (1992: 147) ao afirmar que:

If film dubbing represents the quintessence of the art of translating and the rendering of humor sets the highest hurdles within this film dubbing, then the translating of visually-linked humor tops the hierarchy of supreme difficulties.

Interessa, assim, analisar a dimensão verbal do humor traduzido e dobrado para a língua portuguesa. Conquanto não possa ser apartado da sua dimensão cultural, pois está interligado às idiossincrasias culturais de cada povo e nação, o humor perfila-se como um aspecto digno de análise na dobragem em Portugal. Relembro as palavras de Díaz Cintas (2003: 253) quando refere que:

cierto es que el humor es un sentimiento social, distinto y peculiar en cada sociedad y que diferentes culturas (…) lo conceptualizan de manera diferente e encuentran lo cómico en situaciones dispares.

Quando se fala em traduzir o humor, fala-se em obstáculo, dificuldade, problema. A intersecção entre os Estudos do Humor e os Estudos de Tradução deu-se, sobretudo, a partir da década de 80, questionando-se a (in) tradutibilidade do humor e suscitando um debate ideológico e filosófico sobre a sua exequibilidade (cf. Vandaele, 2001). Autores como Diot (1989), Landheer (1989), Laurian (1989) e Leibold (1989) reflectiram acerca da problemática da tradução do humor que, segundo Vandaele (2001: 30), “tout comme la poésie, le calembour et la métaphore, [l’humor] est souvent mentionné parmi les cas prototypiques de ce qui défie le traducteur. ”

Ainda a propósito do grau de dificuldade atribuido à tradução do humor, Agost (1999: 108) garante que “el humor es también uno de los aspectos más difíciles de traducir, ya que implica un esfuerzo imaginativo y una creatividad especial, así como una competencia lingüística muy extensa.” Neste sentido, Veiga (2006: 230) acrescenta que o tradutor de produtos audiovisuais legendados deverá possuir uma competência de tradução do humor audiovisual, compósito inter-relacional das competências de tradução, técnica e humorística.

Relativamente aos Estudos em TAV, existe um número considerável de artigos e teses publicados sobre a tradução do humor audiovisual em geral ou sobre

63 algum aspecto particular, a saber, Chiaro (2004, 2005, 2011), Vandaele (2002), Martínez Sierra (2004), Sanderson (2009), Schröter (2005), Zabalbeascoa (1993, 2005), Fuentes Luque (2000), Martínez Tejerina (2008), Arampatzis (2011) e Schauffler (2012), trabalhos esses a que faremos referência, ainda que muito breve. Faça-se uma menção especial ao trabalho pioneiro da investigadora portuguesa Maria José Veiga (2006) que analisou o humor na tradução para legendagem do Inglês para o Português.

De salientar que a maioria destes trabalhos tratou a questão da possibilidade ou impossibilidade de traduzir o humor, as eventuais perdas de carga humorística, fruto do processo tradutivo, ou as questões linguísticas específicas do discurso cómico, entre outros aspectos.

Uma das investigadoras mais profícuas na relação entre o humor e a TAV, Delia Chiaro, ocupou-se particularmente do Verbally Expressed Humor (VEH), considerando o humor como um dos tipos de linguagem mais complexos de traduzir pelo facto de lidar com duas das maiores premissas da teoria da tradução: da equivalência e da (in)tradutibilidade (2005: 135). Das razões apontadas acerca da dificuldade tradutiva do discurso humoristico, Chiaro (2011: 367) sublinha ainda a exploração extrema das opções linguísticas, dificilmente transponíveis de uma língua para outra sem perda de comicidade bem como um conhecimento enciclopédico implicito partilhado (ou não) por emissores e receptores. Acrescente-se ainda a singularidade cultural das dimensões cómicas (Chiaro, 2011: 367) ou seja, aquilo que faz rir um povo em detrimento de outro.

Tomando como ponto de partida as teorias subjacentes aos Estudos do Humor, Vandaele (1999, 2002) advoga um modelo interaccional da teoria da incongruência e da superioridade e exemplifica-o no comportamento humorístico dos signos verbais, gráficos e acústicos de dois filmes.

No âmbito da sua tese de Doutoramento, Martínez Sierra (2004) adopta um enfoque comunicativo sociocultural na detecção e caracterização das ocorrências humorísticas, e propõe uma observação analítica e comparativa das versões original e dobrada do produto audiovisual norte-americano The Simpsons. Baseando-se em Zabalbeascoa (1996), Martínez Sierra (2004)

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avançou com uma proposta de taxonomia do humor, analisando a transponibilidade de um ou mais elementos humorísticos do texto de partida para o texto de chegada e, assim, avaliar de forma empírica as eventuais perdas de carga humorística. Esse conjunto sequencial de constituintes cómicos, que o investigador apelidou de chistes, pode ser formado por um só elemento (chiste simples) ou, com maior frequência, constituído pelo somatório de vários itens, tornando-se assim num chiste complexo. Podem ser constituídos por elementos linguísticos e paralinguísticos em consonância com constituintes visuais ou acústicos, entendidos isolada ou conjuntamente, com maior ou menor grau de vinculação cultural. Realço ainda que os dados quantitativos obtidos no seu corpus mostraram que os componentes visuais contribuíram para uma melhor compreensão do texto de chegada, derrubando a noção da imagem como um factor restritivo da TAV (2004: 417). Noutro estudo posterior, Martínez Sierra (2008: 233) constata a tradutibilidade do humor, registando-se um perda ligeira de carga humoristica (14,4%) mantendo-se fiel à finalidade de reproduzir o humor.

Mais focalizado nos jogos de palavras, Sanderson (2009) alerta para a perda do efeito humoristico quando o trocadilho não se constrói em conformidade com o sema visual. Considerando os pressupostos epistemológicos da Teoria da Relevância de Sperber e Wilson (1986), fundamentandos nas Máximas Conversacionais Griceanas, Sanderson (2009: 126) propõe um conjunto de estratégias específicas para a dobragem de trocadilhos e aconselha a manutenção do efeito cómico como prioridade tradutológica:

what we call in dubbing the seme in praesentia (as the original dialogue has been erased, only the visual content remains) becomes the translator’s top priority in order to transfer the humorous illocutionary effect produced by the original puns to the TT.

Já Schröter (2005) analisou quantitativamente as instâncias de language-play, comparando 18 filmes originalmente falados em língua inglesa com as respectivas versões dobrada e legendada em quatro línguas. Interessado particularmente em fenómenos linguísticos de elevada complexidade - os language-play – termo agregador dos jogos de repetição (rimas, aliterações), das figuras de estilo (metáforas, similes) para além dos puns ou wordplay

65 (trocadilhos), este investigador (2005: 84) comprovou que, no geral, os language-play são passíveis de ser traduzidos de modo satisfatório, com resultados ainda mais positivos no caso da dobragem (Schröter, 2005: 364).

Pioneiro na observação descritivista da tradução do humor nos textos audiovisuais, Zabalbeascoa (1993) propõe um modelo de prioridades e restrições aplicável, em particular, à dobragem das sitcoms em televisão. Para este autor, a escala de prioridades depende de certos factores operativos (participantes, contexto, língua, discurso), enquanto as restrições são de ordem textual, contextual e profissional. No caso das sitcoms, Zabalbeascoa (1993:

314) assinala como prioridade máxima a preservação do riso, dizendo que:

as translating involves making choices and sacrifices, when comic effect is the main reason for the existence of a text, as is the case of almost every television sit-com, then the translator will have to deal first and foremost with the problems that arise out of trying to get a laugh from the TT audience.

A possibilidade ou a impossibilidade de replicar as ocorrências humorísticas do produto original noutra língua e noutra cultura foi o que motivou Fuentes Luque (2000) a empreender um dos poucos estudos de recepção sobre o humor traduzido. Adoptando uma metodologia experimental e inovadora que consistia na medição das reacções dos espectadores numa escala quadripartida - sorriso, riso, estranheza e sem reacção - e posteriores respostas a um questionário, este investigador concluiu que se perdeu carga humorística ao traduzir para dobragem, embora em menor grau do que na legendagem.

O estudo académico realizado por Martínez Tejerina (2008) observou o fenómeno da tradução do humor sob o prisma dos jogos de palavras baseados na polissemia, tomando para análise, um corpus extenso constituído pela filmografia dos Irmãos Marx dobrada em Castelhano. Partindo da proposta de Delabastita (1989), esta autora propõe uma classificação alternativa à tradução de trocadilhos em que assinala as seguintes estratégias: tradução literal, neutralização, substituição, recriação e omissão. Esta taxonomia demonstrou grande aplicabilidade na minha análise empírica, como veremos no Capítulo 4.

Os resultados evidenciaram que “la traducción de los juegos de palabras es

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posible si se rechaza el concepto de identidad prescriptivista.” (Martínez Tejerina, 2008: 346). Mais uma vez, se outorga a prioridade ao efeito perlocutório do texto audiovisual que, no caso dos trocadilhos, só é possível frequentemente graças ao esforço intelectual do tradutor em encontrar soluções criativas nessa transferência linguístico-cultural.

Numa abordagem indirecta ao humor, Arampatzis (2011) recorre a produtos audiovisuais de ficção humorística como matéria-prima na análise das tendências tradutivas das variações linguísticas.

Por seu lado, Schauffler (2012) empreendeu um estudo experimental de recepção em TAV, utilizando duas versões alternativas de um filme de animação norte-americano legendadas para a língua alemã. Tomando como ponto de referência os jogos de palavras ou wordplay, a investigadora pretendeu aferir se uma tradução direccionada para o skopos do texto, que priorizasse a transferência do efeito humorístico, conseguia obter um maior grau de compreensão e satisfação do humor. A investigadora (2012: 173) avaliou quantitativa e qualitativamente os resultados obtidos, cruzando os dados com um grupo de controlo de nativos da língua inglesa e concluiu que

“the skopos-oriented translation (…) was received significantly better than the existing version which prioritised formal equivalence. This is the case regardless of the viewer’s age, gender, or level of English knowledge.”

Reportando, por último, à tese de Maria José Veiga (2006), e tomando como ponto de referência as implicações linguístico-culturais do humor traduzido e legendado para a língua portuguesa, a investigadora propõe um conjunto de competências que concorrem para a tradutibilidade do humor, o que explica, em boa medida, “a projecção mediática que gozam em Portugal” (Veiga, 2006:

190). Tomando por base os Recursos Cognitivos preconizados por Attardo (1991), a autora considera que a tradução do humor define-se como um processo cognitivo multifacetado (2006: 231) em que os mecanismos linguísticos não podem ser apartados do valor comunicativo da imagem nos produtos audiovisuais (2006: 237). Daí advém a sua proposta de aliar a sensibilidade e a consciência humoristicas às qualidades tradutivas e técnicas

67 do tradutor de TAV, o que resultará na natureza especifica da competência de tradução do humor audiovisual.

Ainda no âmbito da TAV, importa destacar alguns trabalhos dedicados ao universo infanto-juvenil. Um desses estudos é a tese de Doutoramento empreendida por Iglésias Gomez (2009) onde se faz uma investigação exaustiva sobre a história das dobragens Disney em Espanha no período compreendido entre 1937 e 1977, cruzando essa análise com versões mais recentes dobradas em Castelhano. O autor empreende uma observação empírica da variação linguística, dos referentes culturais e dedica um capítulo extenso ao tratamento do humor e, analisando-o do ponto de vista do tradutor de guiões, exemplifica, através de inúmeras ocorrências tradutivas, como a comicidade foi mantida. O investigador (2009: 361) conclui a sua avaliação, avançando com algumas propostas operativas para docentes e investigadores e propondo que:

en la traducción del humor verbal el traductor debe concentrarse en traducir “funcionalmente” y no “formalmente” o, dicho con otras palabras, en traducir para producir un efecto equiparable (no necesariamente idéntico) al del chiste original, tomándose las libertades que hagan falta para ello. Que el efecto se consiga por la misma vía que en el guión original es deseable pero secundario.

Fica assim sublinhado pelo autor que a tradução do humor deve alicerçar-se em pressupostos funcionalistas para que a comicidade possa ser replicada no produto audiovisual dobrado.

Em suma, a análise sucinta sobre a literatura publicada sobre esta matéria e as reflexões pessoais serviram assim para dar uma visão abrangente das formulações teóricas e questões práticas respeitantes à tradução do humor no discurso audiovisual.

Como veremos na secção seguinte, o riso ficcional tornou-se um elemento omnipresente, (quase) indissociável do humor como é referido por Morreall (2009: 60) a propósito da ligação estreita entre estes dois elementos:

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the pleasure in humor has a natural disposition to issue in laughter.

That laughter serves as a contagious social signal: “We are safe. I enjoy this – you enjoy it too.” And laughter is itself enjoyable. When we think that someone should be amused by something, we expect to see at least the beginning stages of laughter. And when we think that someone should not be amused by something, we do not expect to them to laugh.

Neste sentido, pretendo analisar o Riso Enlatado enquanto elemento semiótico numa perspectiva holística para, em seguida, reflectir sobre as suas implicações em relação à TAV.