1.4 Os poetas, o historiador e a mulher: desarquivando angústias em Linden Hills
1.4.2 A ELE FOI DADO O PODER: O ARQUIVISTA AUTORIZADO
Como já mencionado, para alguns teóricos, o arquivo está indissoluvelmente ligadoà memória e às questões de poder;Derrida (2001) atrela o conceito tanto a começo quanto a comando. Para ele, o poder arcôntico, que está fundamentado sobre a autoridade de consignação (“reunião”), “concentra também as funções de unificação, identificação e classificação.” (DERRIDA, 2001, p.13-14). Foucault (1972) entende que as relações de poder que permeiam o arquivo são claras, uma vez que há um filtro que limita o que pode ou não ser veiculado; assim, a natureza do arquivo “é moldada por forças sociais, políticas e [até] tecnológicas” (MANOFF, 2004, p.12, trad. livre). Em Linden Hills, Gloria Naylor apresenta o arquivo sob diferentes enfoques e, no personagem do Dr. Braithwaite, o leitor encontra o arconte por excelência, aquele autorizado a consignar memórias – fatos e documentos – e arquivá-los no arkheion, que, no romance, é a sua própria casa.O personagem é um grande intelectual, que teve seus estudos patrocinados pelo avô de Luther. Quando volta para Linden Hills como historiador, recebe a incumbência de arquivar a história da comunidade, e é o único a ter acesso aos registros da família – relatórios, documentos oficiais e até notas de venda, datadas de 1820 –“informações de valor inestimável” (NAYLOR, 1985, p.259). Em suas mãos, aqueles arquivos receberam um status diferenciado, deixando de ser “o saldo mais ou menos intencional de uma memória vivida, [tornando-se] a secreção voluntária e organizada de uma memória perdida.” (NORA, 1993, p.16) Sua casa, um depósito de preciosidades acadêmico-literárias– inclusive um exemplar de The Philadelphia Negro58(DU
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The Philadelphia Negro: A Social Study. University of Pennsylvania Press (1899). Um dos primeiros trabalhos
a combinar a etnografia urbana, história social e estatística descritiva, tornou-se um clássico na literatura das Ciências Sociais. Du Bois é considerado um dos precursores da Sociologia Americana. (cf. ANDERSON, 1996).
BOIS, 1899), assinado pelo próprio autor – está localizada em um lugar privilegiado, que permite a ele a observação contínua de tudo e todos na comunidade; nada escapa a seu olhar. Assim, o historiador está em posição – figurada e literal – de arconte, para criar e gerenciar seus arquivos, realizando “o agenciamento necessário à sua constituição: [...] devido à autoridade de que dispõe, não apenas opera a seleção arquivística, como designa um domicílio (arkheion, [...]) aos documentos.’’ (SILVA, 2018, p. 79).
Sua coleção de doze livros sobre Linden Hills (onze completos e o último em andamento) lhe rendera inclusive uma possibilidade de indicação ao prêmio Nobel (NAYLOR, 1985, p. 261). Entretanto, ao escrever o sexto volume, o historiador percebe uma mudança nos objetivos da população local e, para seu desapontamento, entende que seu trabalho era um “relatório sobre pessoas perdidas”, em busca de poder e prestígio social (NAYLOR, 1985, p. 261). Lester oconfronta com duas perguntas bem interessantes: a primeira era por que o pesquisador não usava seu trabalho para “salvar vidas”, como a de Laurel, que ele sabia estar com sérios problemas existenciais.Distanciamento é a justificativa do doutor: ele apenas estudaas pessoas e, para isto, “era necessário andar em meio a elas, comer com elas e rir com elas”; mas para atingir seu objetivo, bem estabelecido desde o início, ele deveria evitar “todo e qualquer envolvimento”59(NAYLOR, 1985, p. 262). Segundo ele, aquelas pessoas, que “estavam caminhando para a perdição”, sequer se deram ao trabalho de se examinar “como ele as examinara” (ibid). Assim, ele seria um tolo, “se não tirassse vantagem do acesso concedido pelos Nedeed a tantas informações preciosas. [...] minha única expectativa é a de registrareste conhecimento, não retificá-lo” (NAYLOR, 1985, p. 262, meus grifos). Para Bradley (1999), esta postura é uma falácia; a neutralidade é utópica,
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Sua postura remete, ainda que sutilmente, à dos primeiros etnógrafos europeus, que, a princípio, recebiam informações sobre outros povos sem sair de sua terra. Quando passaram a acompanhar as expedições,
observavam de longe, sem se envolver com a comunidade estudada. (cf. URIARTE, 2012). O estranho é que ao contrário daqueles, o historiador de Linden Hills não é o Outro ali.
pois,ao escrever a história, o pesquisador a reescreve, recriando o passado “em novos formatos.” (BRADLEY, 1999, p.109, trad. livre). Schwartz (2006) dialoga com Bradley ao defender que “arquivistas continuamente reformulam, reinterpretam e reinventam o arquivo,[o que] “representa um enorme poder sobre memória e identidade [...].” (SCHWARTZ, 2006, p. 3, trad. livre).
A segunda pergunta de Lester é sobre a fidedignidade das informações e a consequente legitimidade do trabalho do historiador, já que o material de sua pesquisa advinha de informações cedidas pelos Nedeed, os primeiros arcontes de Linden Hills: “Não importa o quão objetivo tente ser, o senhor só vê um lado da história – o lado deles.” (NAYLOR, 1985, p. 263).Com efeito, a legitimidade é uma das grandes discussões sobre o arquivo e abarca “não tanto os métodos de sua acumulação, mas [...] noções seminais sobre a verdade, realidade, e autoridade do conhecimento/poder [...] nos espaços físicos, intelectuais e metafóricos, onde conhecimento e poder se cruzam.” (SCHWARTZ, 2006, p. 5, trad. livre)O jovem parece perceber o poder seletivo de arcontes e arquivos de controlar o passado, marginalizando umas histórias e privilegiando outras (cf. SCHWARTZ, 2006). Mais uma vez, o pesquisador responde de modo absolutamente técnico ao concordar que, caso se pautasse exclusivamente nos documentos cedidos pela família, seu trabalho estaria realmente comprometido, mas, uma vez que triangula todo o material que recebe com outras fontes (“transcrições de tribunais do distrito, minutas do conselho estadual imobiliário, entrevistas com moradores”), ele pode ter acesso à “verdadeira história” (NAYLOR, 1985, p.263).
Para surpresa de Lester e Willie, até suas andanças e descobertas naqueles poucos dias haviam sido registradas pelo Dr. Braithwaite, que os viu como “brilhantes e ambiciosos”, jovens com um grande potencial(NAYLOR, 1985, p.265). Contudo, nem eles, nem o historiador, apesar de toda a riqueza de seus arquivos, e de conseguirem ler a comunidade com olhos iluminados, promovem qualquer tipo de mudança no local. Ao contrário, suas
interpretações os distanciam ainda mais dos moradores “irrecuperáveis” (ENGLES, 2009, p.674, trad. livre) e suas práticas desmedidas de alpinismo social.
O pesquisador ‘absolve’ Luther e seus ancestrais de toda a responsabilidade pela tragédia social que se instalara na comunidade. Para ele, Linden Hills fora projetado para ser um modelo de “orgulho negro”, e que a grande culpa dos Nedeed– se é que eles tinham alguma – era ter desejado poder, “poder negro”: “Estas eram para ser casas negras com aspirações negras e histórias – boas ou ruins”. Entretanto, a comunidade se esfacelara em sua busca desenfreada, e se tornara tão sem face “quanto o corpo de Laurel Dumont”, que representava, em última análise, “um sonho já despedaçado.” (NAYLOR, 1985, p.261).
A opressão exercida por Luther é patente também em sua vida familiar, padrão vigente em toda a dinastia Nedeed. Seus ancestrais tratavam suas mulheres como meras reprodutoras e, uma vez cumprida sua ‘missão’ de gerar um herdeiro, elas caíam, ou eram lançadas no ostracismo. No caso do último Luther Nedeed, a situação é ainda mais grave, pois ele literalmente aprisiona sua mulher e filho no porão de sua casa. Conquanto muito parecida com o pai fisicamente, a criança tem um tom de pele mais claro, o que leva Luther a desconfiar de traição e executar seu juízo. No confinamento, o menino, que já estava doente, acaba morrendo. Passado o primeiro momento de sua enorme dor, quando quase enlouquece, Willa, a esposa, começa a se recompor e passa a viver seus dias lendo as memóriasdas Senhoras Nedeed, suas antecessoras, que ela encontra casualmente no porão. E é por meio do mergulho nestes arquivos pessoais, íntimos e esquecidos, que ela volta à vida e executa sua última e, talvez, mais importante missão.