[... ] É necessário, pois, aceitar como princípio e ponto de partida o fato de que existe uma hierarquia de raças e civilizações, que nós pertencemos à raça e civilização superior [...]. (Jules Harmand, defensor francês do Colonialismo, 1903, apud SAID, 1993, p.38).
O projeto de alargar fronteiras não foi exclusividade dos contemporâneos de Cabral e Colombo; relatos históricos atestam que, por necessidade ou demonstração de poderio, o homem sempre buscou novas terras, por meio dos métodos dos quais dispunha. No século II da era cristã, o Império Romano atingiu a Armênia e o Atlântico; os mongóis, sob o comando de Genghis Khan, conquistaram o Oriente Médio e a China no século XIII; o Império Asteca se estabeleceu no México subjugando outros povos, entre os séculos XIV e XVI (LOOMBA, 1998); entre outros. Com o advento das grandes navegações, o alcance das conquistas seria bastante ampliado, uma vez que “a ‘descoberta do mar’ pelos europeus, que a coroa de
Castela involuntariamente acelerou, com a chegada de Colombo à costa das Américas em 1492, inaugurou uma nova fase de formação de impérios mundiais” (COLÁS, 2010, p.7, trad. livre, grifos do autor).
O fator complicador é que as novas terras, via de regra, pertenciam a outrem, o que transformou o sonho de expansão dos conquistadores no pesadelo76 da espoliação para os conquistados. Surgia, assim, o Imperialismo, “traço essencial da Modernidade [...]”, um sistema de governo político-econômico “centralizado, hierárquico, conquistado e sustentado pela coerção, por meio da qual um território central domina territórios periféricos, intermedia as principais interações e canaliza recursos das periferias e entre elas” (MANN, 2012, apud JERÓNIMO, 2013, p.953, trad. livre); para Said (1993), o sistema é “a prática, a teoria e as atitudes de um centro metropolitano dominante governando um território distante.” (SAID, 1993, p.29).
Colás (2010, p.8-9) pontua três características básicas do Imperialismo moderno: o caráter mercantilista dos novos impérios (cuja economia passa a se expandir com o comércio além-mar); a expansão territorial, e a colonização das Américas, África, Austrália e Ásia. Uma vez estabelecida esta dominação imperial, iniciava-se o processo de exploração de recursos – naturais e/ou humanos. Como consequência da implantação deste domínio, surge o Colonialismo77, “componente central da expansão europeia do século XVI” (FERREIRA, 2014, p.255); “um sistema de conquista e controle de terras e bens de outros povos” (LOOMBA, 1998, p.12, trad. livre). Os impérios europeus se espalharam (e enriqueceram) vertiginosamente a partir do século XV pelos continentes ‘não civilizados’, onde
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Este pesadelo seria intensificado a partir dos anos 1880, quando o Imperialismo se tornou uma prática “dominante e notadamente mais agressiva entre os países europeus, por uma variedade de razões políticas, culturais e econômicas.” (ASHCROFT et alii, 2007, p. 111, trad. livre).
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Embora caminhem juntos, Imperialismo e Colonialismo são sistemas distintos. O primeiro se origina na metrópole; o segundo é o resultado da ação da metrópole nos territórios ocupados, as colônias. O
império/metrópole é de onde flui o poder que controla a colônia. É possível haver um império (como os Estados Unidos atualmente) sem colônias oficialmente implantadas; o colonialismo, entretanto, não existe sem as mesmas. (cf. LOOMBA,1998, p. 6-7, trad. livre).
estabeleceram assentamentos – as colônias78 – dependentes de um governo exterior – a metrópole.
Como apontado por Esteves (2012), a colônia servia amplamente aos interesses das metrópoles não apenas por ser fonte de bens materiais e humanos, como também por ter se tornado um local de escoamento, para onde se deportava a população excedente e marginalizada dos países colonizadores, “o que contribuiria para solucionar, ou pelo menos amenizar, graves problemas sociais que poderiam ocorrer nas metrópoles, motivados pela marginalização econômica e política a que considerável parcela da população havia sido submetida pelo capitalismo.” (ESTEVES, 2012, p. 23). A implantação do Colonialismo praticamente drenou os recursos das colônias, criando, “o desequilíbrio econômico necessário para o crescimento do capitalismo e industrialização europeus; [...] o Colonialismo é a parteira que presenciou o nascimento do capitalismo europeu […].” (LOOMBA, 1998, p.13, trad. livre).
Na tentativa de justificar a espoliação de bens e terras dos povos conquistados, os impérios europeus levantaram a falsa bandeira de ‘levar a civilização aos bárbaros’, pois assim eram vistos os não europeus. Deste modo, a noção de império envolvia não somente a conquista e exploração de povos e territórios estrangeiros, o controle/supressão de sua soberania, mas também uma ‘missão de civilização’ cujo objetivo era “gerar ordem, progresso e estabilidade ao redor do mundo.” (COLÁS, 2010, p.7, trad. livre). A ‘missão’ do europeu ariano e ‘superior’ vestia-se, assim, de trajes de uma benevolência e humanidade, que abertamente se apoiavam em
potentes formações ideológicas que incluem a noção de que certos territórios e povos precisam e imploram pela dominação, bem como formas de conhecimento filiadas à dominação: o vocabulário da cultura imperial oitocentista clássica está repleto de palavras e conceitos como raças ‘servis’
78 Segundo Ferreiro (2014, p.276), a palavra colônia, de origem latina, designava um assentamento fora de Roma.
ou ‘inferiores’, ‘povos subordinados’, ‘dependência’, ‘expansão’ e ‘autoridade’. (SAID, 1993, p.30, grifos do autor).
O encontro (confronto) entre os europeus com povos cultural, linguística e fenotipicamente diferentes foi, desde o início, permeado pela alteridade (nós X eles/os outros): “a etnicidade é um tipo organizacional em que itens biológicos e culturais são usados como sinais diacríticos para demarcar fronteiras” (BARTH, 2000 apud FERREIRA, 2014, p.260). A alteridade ergueu (e apoiou-se em) ideologias racistas e a própria noção de raça (com o subsequente racismo), foi um produto do período pós Renascimento. Assim, o mundo colonial passou a ser entendido como um lugar habitado por pessoas “intrinsecamente inferiores, não apenas à margem da história e civilização, mas também geneticamente predeterminadas à inferioridade. Sua sujeição não era apenas uma questão de lucro ou conveniência, mas um estado natural.” (ASHCROFT et alii, 2007, p. 41, meus grifos). O racismo foi um traço preponderante do colonialismo, principalmente por servir de sustentação ideológica para um sistema formado por/para brancos europeus, que buscavam justificar – inclusive por meio de teorias médicas79 – a exploração econômica e a espoliação cultural a que expunham as sociedades que vitimavam. Tal ideologia parece ter contaminado a tal ponto o imaginário coletivo, que não suscitou qualquer tipo de problematização à época; ao contrário, como apontado por Ferreira (2014, p.255), “ela foi naturalizada nos campos literário80, ideológico e científico”.
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Segundo Fanon (1979 apud ESTEVES, 2012, p. 30), os ‘achados científicos’ do dr. A. Porot, apontam para a inferioridade biológica dos nativos da África do Norte, que, segundo ele, eram “seres primitivos, não evoluídos, e, por isso, delinquentes; num estágio inferior da evolução”. É óbvio, então, que os tais ‘seres’ precisavam ser ‘domesticados’, missão que os ‘evoluídos’ arianos europeus prontamente abraçam. A teoria da Evolução de Darwin (1858) também se adequou perfeitamente aos interesses do Imperialismo, intensificado no final do século XIX. (ASHCROFT et alii, 2007, p. 41).
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Em O filho de todos (UMRIGAR, 2017), a autora propõe uma interessante reflexão sobre as ‘boas intenções’ do homem branco ao criar um enredo contradiscursivo no qual um juiz branco, filho de senador, adota um menino negro de nove anos, cuja mãe era viciada em drogas. Apesar de, inegavelmente, proporcionar uma vida melhor a Anton, o juiz Coleman utiliza meios escusos para realizar a adoção e apazigua seus conflitos morais por meio da justificativa de ter ‘redimido’ a vida do menino.
Neste período, o comércio marítimo passa a ser a menina dos olhos dos centros imperialistas, que agora recorriam diretamente à fonte para obtenção de seus produtos. Com a intensificação do sistema, houve um aumento da produtividade nas metrópoles, o que gerou um aumento da demanda de mão de obra. À espoliação de bens e terras somar-se-ia a espoliação da vida humana, pois, juntamente com os metais preciosos, pedrarias, especiarias e tecidos, transportados das colônias para as metrópoles, um outro ‘produto’ – o escravo – passaria a ser traficado. E com este tráfico humano inaugura-se um dos episódios mais lamentáveis da humanidade.