PSICOFÁRMACOS
1.4 A ELETROCONVULSOTERAPIA: UMA FORMA “MODERNA” DE TRATAMENTO
Belfort Roxo não menciona para o caso específico do tratamento da depressão, a eletroconvulsoterapia (preferia o choque por cardiazol) mas este era o tratamento “moderno” considerado mais eficaz pelo psiquiatra cubano E. Mira Y Lopez, no manual “Psiquiatria Básica” traduzido para o português em 1949. Lopez, ao se referir à terapêutica dos deprimidos, desaconselha a medicação excessiva de hipnóticos (já que a insônia é um dos sintomas mais presentes) e indica, juntamente com o repouso e a “limpeza orgânica” (como fase prévia do tratamento) o eletrochoque como “recurso moderno” preferencial:
... urge a denominada “limpeza orgânica [grifos no original] como fase prévia dos tratamentos dos síndromas depressivo-melancólicos. Convém também proporcionar ao deprimido, um acompanhante que seja discreto, neutro e amável: um enfermeiro do sexo oposto deve estar com êle dia e noite. Podem ser úteis visitas breves e alguma intervenção psicoterápica despida de muitas explicações. A alimentação será simples, porém rica em vitaminas, leite gelado, suco de frutas etc. assegurar o repouso noturno sem recorrer a doses excessivas de medicação hipnótica é outra finalidade primordial, já que a insônia figura entre os sintomas mais rebeldes. O recurso moderno preferido é o eletrochoque.281
Tanto o choque por cardiazol quando o choque elétrico constituíam, na época (década de 1940) as etapas mais recentes na longa história da convulsoterapia, que
281 LOPEZ, E. Mira Y. Psiquiatria básica. Tradução de Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro:
Guanabara, 1949. P.251.
166 remonta ao final do século XVIII, quando Roess atestou que pacientes que sofriam de algum transtorno mental apresentavam melhora após serem inoculados com vacina contra a varíola. Desde então, médicos favoráveis a uma explicação biológica para os chamados males da mente, cogitavam sobre a incompatibilidade entre esse tipo de doença e as convulsões. No entanto, foi somente nas primeiras décadas do século XX, entre 1917 e 1935, que métodos para a indução de choque fisiológico começaram a ser desenvolvidos.282
Primeiramente, Wagner-Jauregg ganhador do prêmio Nobel em 1927, utilizou febre induzida por malária para tratar paresia de origem neurosifilítica. Depois, em 1927, vieram as experiências com os comas e convulsões induzidos por insulina conduzidas pelo médico polonês Manfred Sakel para tratar esquizofrênicos. Em Budapeste, o neurologista Von Meduna, em 1934, utilizou metrazol para provocar convulsões em pacientes portadores de psicoses afetivas e esquizofrenia.
Finalmente, em 1937, os italianos Ugo Cerletti e Lucio Bini desenvolveram a técnica da convulsoterapia elétrica (Eletroconvulsoterapia) para tratar, sobretudo, pacientes esquizofrênicos.
Inicialmente, esse tipo de terapia estava voltado mais ao tratamento das chamadas psicoses, em especial, vinculadas a quadros clínicos de Esquizofrenia, e constituíam campo de interesse, sobretudo, dos adeptos de uma interpretação biológica das doenças mentais. A própria técnica convulsoterápica era chamada de terapia biológica pelos estudiosos do tema. A estes se opunham profissionais influenciados pelas ideias de Sigmund Freud e adeptos de uma interpretação psicológica, sobretudo, das neuroses. No entanto, tanto nos Estados Unidos e Europa, como no Brasil, antes e depois do advento dos psicofármacos, até os dias atuais, há relatos do uso de ECT também para tratar de casos de Depressão Maior, com ou sem sintomas psicóticos.
No Brasil, localizamos teses de Doutorado e artigos científicos sobre o uso de convulsoterapia a partir do ano de 1940, sendo alguns dos mais antigos dois artigos publicados na Revista de “Neurobiologia de Pernambuco”. Ambos versam sobre convulsoterapia induzida por processos químicos: o primeiro, da autoria de João Marques de Sá e intitulado “Considerações sobre a Convulsoterapia na Assistência
282 STONE, Michael H. A cura da mente. A história da psiquiatria da antiguidade até o presente. Tradução de: Maria Cristina Monteiro. Porto Alegre: Artmed, 1999.
167 a Psicopatas de Pernambuco”, publicado em 1940283, e o segundo, de Renê Ribeiro, publicado na mesma revista em 1941 e intitulado Ensaio da Associação Picrotoxina-Pentametilenotetrazol na Convulsoterapia284.
Entre os primeiros estudos clínicos sobre o emprego da convulsoterapia destacamos os artigos publicados em 1943 nos “Anais do Instituto de Psiquiatria” e que trazem o cotejo entre a eletroconvulsoterapia e a convulsoterapia química, provocada por Cardiazol285 . Naquele mesmo ano, um estudo chamou a atenção: o artigo de Paulo Pinto Pupo: Acidentes encefálicos da convulsoterapia, dos “Arquivos da Assistência a Psicopatas do Estado de São Paulo”286.
Esses artigos versam, sobretudo, sobre o emprego da convulsoterapia em pacientes internados em instituições asilares. O número de textos relacionados ao tema cresce na segunda metade da década de 1940 e no ano de 1950 já é possível encontrar anúncios de aparelhos de terapia profunda a 220 KVP destinados ao tratamento com ECT, como mostra a imagem a seguir. No entanto, descobertas realizadas na década seguinte viriam a modificar radicalmente esse quadro: o desenvolvimento de drogas psicoativas, a partir de 1951/1952.
(Fonte: O HOSPITAL. . [S.L], v. 37, N. 3, Março de 1950, p. 202).
283 SÁ, João Marques de. Considerações sobre a convulsoterapia na Assistência a Psicopatas de Pernambuco. Revista de Neurobiologia, Recife, Vol. 4, N. 4, 1940.
284 RIBEIRO, René. Ensaio da Associação Picrotoxina-Pentametilenotetrazol na Convulsoterapia. Revista de Neurobiologia, Recife, Vol. 4, n.4 1941.
285 SOUZA, Flávio de. Cotejo entre os resultados clínicos observados com a Convulsoterapia elétrica e a provocada pelo Cardiazol. Anais do Instituto de Psiquiatria, 1943.
286 PUPO, Paulo Pinto. Acidentes encefálicos da convulsoterapia. Arquivos da Assistência a Psicopatas do Estado de São Paulo. São Paulo, 1943.
168 2 A CONCEPÇÃO PSICOFISIOLÓGICA DAS AFECÇÕES MENTAIS
As diferentes formas de convulsoterapia – elétrica e química – constituíam, ao lado da administração de brometos, barbitúricos, estimulantes, hormônios e vitaminas as formas usuais de intervenção médica sobre episódios depressivos e maníacos da chamada Psicose Maníaco-Depressiva entre as décadas de 1930 e o início de 1950. A psicoterapia também era empregada, no entanto, em uma parcela pouco significativa de pacientes, sobretudo, entre aqueles que tinham condições de pagar por sessões terapêuticas.
No Brasil, por influência dos estudos de psiquiatras como Belfort Roxo, a explicação e o tratamento biológico para as afecções da mente prevaleciam em relação ao tratamento psicoterápico. Essa tendência adquire uma nova tonalidade em fins da década de 1940, na França, com estudos que visam reafirmar a origem biológica dessas afecções mediante a defesa da unidade psicofisiológica dos fenômenos psíquicos. Entre os adeptos dessa teoria, destaca-se um jovem psiquiatra francês: Jean Delay287, considerado o grande nome no processo de desenvolvimento dos modernos psicofármacos em meados da década de 1950.
Citado psiquiatras brasileiros em artigos produzidos nas décadas de 1950 e 1960 sobre o tema da origem biológico-química das afecções mentais, Delay publicou em 1945 o livro “A psicofisiologia humana” em que realiza uma síntese original dos principais pressupostos da psiquiatria biológica tornando-se, segundo aqui defendemos, uma referência teórica obrigatória para toda uma geração. Foi também o autor das primeiras classificações das drogas psicofarmacológicas, no final da década de 1950, e seus parâmetros de classificação foram amplamente citados por psiquiatras brasileiros da década de 1960.288
287Jean Delay (1907-1987) foi um psiquiatra, neurologista e pesquisador francês. Atuou juntamente com seu pupilo Pierre Deniker (1917-1998) no hospital psiquiátrico de Saint Anne, em Paris, no qual desenvolveram pesquisas e experimentos que resultaram no desenvolvimento do primeiro neuroléptico: a clorpromazina, em 1952. Delay atuou também como professor na Sorbonne e publicou várias obras relacionadas ao caráter fisiológico dos fenômenos psíquicos bem como sobre seus estudos envolvendo psicofarmacologia, área da qual é um dos precursores. Elaborou, juntamente com Pierre Deniker, uma classificação das substâncias psicotrópicas publicada em 1957, sendo o seu trabalho apresentado no III Congresso Mundial de Psiquiatria, realizado em Zurich, em 1961. Dentre suas obras, destacam-se: La Psychophysiologie Humaine, Les dissolutions de la memoire, Les maladies de la memoire e Les dérèglements de l´hummeur. Foi um dos precursores no estudo, pesquisa e terapêutica com drogas psicoativas e uma das principais referências citadas pelos psiquiatras brasileiros (notadamente José Caruso Madalena) ao longo das décadas de 1960 e 1970.
288 Entre os psiquiatras brasileiros que citam os estudos e as classificações desenvolvidas por Jean Delay em seus artigos, ao longo das décadas de 1960 e 1970, identificamos: José Caruso
169 Mediante a análise dessa obra, selecionamos alguns temas abordados pelo autor que nos pareceram de maior relevância na construção de seus argumentos.
Esses temas aparecerão também nos artigos de psiquiatras brasileiros escritos dez, vinte anos depois da primeira edição do livro de Delay, o que nos leva a supor que a obra tenha repercutido de forma positiva entre nossos autores constituindo-se uma referência em relação à abordagem científica dos fenômenos psíquicos.