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MELANCOLIA VERTICAL

2.2 A MELANCOLIA EM SUA DIMENSÃO VERTICAL

Robert Burton (1577-1640) - humanista, matemático, teólogo e reitor de um dos colégios da Universidade de Oxford - publicou a obra “The Anatomy of Melancholy” (1621) 85. Segundo o psiquiatra brasileiro José Alves Garcia, as descrições sobre melancolia de Burton foram influenciadas por sua própria vivência (teriam inspiração autobiográfica, portanto) uma vez que apresentava aspectos de hipocondria e ciclotimia, além de aspectos políticos, utópicos e poéticos. Sua clientela eram viúvas inconsoláveis, negociantes e armadores falidos, noivos frustrados, sofredores de todo o tipo.86

Burton, que escreve sob o pseudônimo de Demócrito Júnior, até então tinha sua produção caracterizada por textos de Teologia. No entanto, na medida em que se considerava um “teólogo melancólico” julgou-se apto a adentrar na seara dos médicos, uma vez que considerava a melancolia uma doença tanto do corpo quanto da alma e, que, por isso, necessitaria tanto de tratamento corporal quanto espiritual:

84 A teoria de que os “espíritos animais” percorriam os nervos permaneceu, com diferentes interpretações até o limiar dos séculos XVIII e XIX quando Luigi Galvani (1737-1798) e Emil du Bois-Reymond (1818-1896) demonstraram que a condução nervosa é de natureza elétrica. O termo neurônio foi cunhado em 1891 por Wilhelm von Waldeyer (1836-1934) para denominar a unidade funcional e anatômica do sistema nervoso. E, finalmente, Charles Scott Sherrinton, em meados do século XX, descobriu a existência dos espaços existentes entre as células nervosas e/ou entre estas e as células musculares, denominando essas estruturas de “sinapses”.

85 Segundo Garcia, a denominação “anatomia” parecia ser um termo comumente utilizado pelos médicos no século XVII. Assim, encontramos obras publicadas no período com títulos tais como “Anatomia da Vontade”, “Anatomia da inteligência”, e assim por diante. (GARCIA, J.A. Uma doença em vias de transição. Psicose maníaco-depressiva. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. V. 6, N.1, 1957. P 5-22).

86 GARCIA, J.A. Uma doença em vias de transição. Psicose maníaco-depressiva. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. V. 6, N.1, 1957. P 5-22. p. 5.

63 Se algum médico nesse ínterim retorquir (...), e se sentir ofendido por eu ter invadido sua profissão, eu o hei de responder em poucas palavras que não faço algo diverso do que eles fazem conosco. Se for para o lucro deles, conheço muitos de sua facção que receberam as ordens, na esperança de um benefício, é uma transição comum; e por que um teólogo melancólico, que não ganha nada pela simonia, não poderia professar a medicina? (...) É de uma doença da alma que estou a tratar, tão delegável a um teólogo quanto a um médico, e quem sabe não haja um acordo entre essas duas profissões? (...) Elas diferem apenas quanto ao objeto: o de uma é o corpo, o da outra é a alma, usando remédios diversos para curar; (...) Uma ajuda os vícios e as paixões da alma, ira, luxúria, desespero, orgulho, presunção, etc., aplicando um medicamento espiritual; enquanto a outra se utiliza das drogas propriamente ditas em doenças somáticas. Ora, como esta é uma enfermidade comum ao corpo e à alma, de tal modo que precisa tanto de cura espiritual quanto corporal, não pude encontrar uma tarefa mais adequada para me ocupar, um tema mais relevante, tão necessário, oportuna e normalmente concernente a todos os tipos de homens, que deveria participar igualmente de ambas e exigir um médico completo. Um teólogo sozinho pouco pode fazer contra essa mazela composta, um médico contra alguns tipos de melancolia pode muito menos, mas juntos forjam uma cura absoluta.87

Em Burton a melancolia era caracterizada como “... uma disposição [grifos no original] a capitalizar os tormentos de cada dia, de que ninguém escapa, e que se torna, no hábito, uma reação sustentada, que é comparável a uma verdadeira doença.”88 Dizendo-se ele mesmo tomado pela melancolia, apontava a escrita como uma espécie de escoadoro para os pensamentos e sentimentos característicos dessa “mazela” composta. Não como uma forma de se livrar, ou de tratar da melancolia, mas de conviver com ela. Como afirmava, sendo a melancolia um tipo de purulência, escrever seria como “coçar a sarna”. A melancolia como algo que alimentaria a escrita e esta como uma forma de escoar a melancolia:

Se alguém objetar contra a matéria e a maneira de tratar este assunto e demandar uma razão para tanto, posso alegar mais de uma; escrevo sobre melancolia, pois me ocupo para afastar a melancolia. (...) Com esta finalidade escrevo (....).Quando aceitei pela primeira vez esta tarefa (...) eis o meu objetivo: vel ut lenirem animum scribendo, aliviar minha mente pela escrita; pois tinha (...) um tipo de purulência na cabeça, de que muito eu desejava me livrar, e não imaginei nenhum escoadoro mais conveniente que este. Além disso, talvez não me possa conter, pois ubi dolor, ibi digitus, é preciso coçar a sarna. [grifos no original] 89

Imbuído de ideais humanísticos e éticos, vale-se de um tema aparentemente médico – a melancolia – para fazer, de forma irônica, uma crítica contundente sobre a ineficácia do conhecimento, as contradições e mazelas do comportamento humano em sua própria época.

87 BURTON, Robert. A anatomia da melancolia. Tradução de Guilherme Gontijo Flores e prefácio de Manoel Tosta Berlinck. Curitiba: Editora da UFPR, 2010. p.60-61. (Vol. 1)

88 GARCIA, J.A. Op. Cit., p. 6.

89 Ibid., p. 61.

64 Sua prosa, irônica e reflexiva, é entremeada por inúmeras citações de diferentes contextos históricos (período greco-romano clássico, período helenístico, período feudal, etc.) dentre as quais se destacam as falas de filósofos, estadistas, poetas, santos, literatos, líderes militares, historiadores, médicos, entre outros – com o objetivo de chamar a atenção para a loucura que impera em sua própria época, destacando que diante de tal contexto, a melancolia é uma das poucas saídas altivas disponíveis aos adeptos da contemplação e da erudição.

Não é por mérito, virtude (...) sabedoria, valor, erudição, honestidade, religião, ou qualquer outra competência que nós somos respeitados, mas sim por dinheiro, opulência, cargo, honra ou autoridade: honestidade é considerada sandice; velhacaria, política; homens admirados por achismo, não pelo que são, mas pelo que parecem ser: mudando de lado, mentindo, manipulando, tramando, contratramando, temporizando, confabulando, enganando, fingindo, que por necessidade deve-se ofender gravemente a Deus, se estiver conforme com o mundo.

(...) Um toma para si temperança e santidade; outro, austeridade; um terceiro afeta um tipo de simplicidade, quando na verdade, este, e este, e este, e o resto são todos hipócritas, ambidestros, superficiais, como figuras mutáveis, um leão de um lado, um cordeiro do outro.

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Segundo o autor, quando se atinge um olhar elevado, por sobre o mundo, é possível de lá perceber que todo ele é louco e ondulante, tomado por assaltos, tumultos e acasos; que entontece e é melancólico e que, diante de tal visão, não há outro recurso ao homem de pensamento senão apiedar-se, recolher-se em si mesmo, ou, simplesmente, rir-se, da mesma forma que Demócrito, segundo as cartas pseudo-hipocráticas anteriormente mencionadas. Aliás, Burton faz referência a essa história na primeira parte do seu livro justificando, assim, a escolha do seu pseudônimo: nada melhor do que um “Demócrito Júnior” para dar autoria a uma obra sobre melancolia...

A melancolia, dessa forma, seria considerada por Burton menos uma doença e mais uma consequência de uma determinada maneira de se relacionar com o contexto em que se vive: vendo esse contexto sob uma perspectiva panorâmica, ele pareceria tão louco, entontecido e desvairado, que a postura melancólica ou mesmo seu oposto (o rir sem motivo característico da mania) constituiriam algumas das poucas formas realmente sensatas de se posicionar de forma crítica e inteligente frente a esse mesmo contexto. Diante da loucura do mundo, o homem de pensamento ensimesma-se ou ri-se, e essa é a sua afronta.

90 BURTON, R. Op. cit., p. 122.

65 Como se vê, numa direção diferente da tendência médica que busca, na Inglaterra ao longo do século XVII, entender a causalidade orgânica da melancolia, mediante a análise da constituição e movimento dos “espíritos animais”, o livro de Burton caminha para outra compreensão da melancolia: não necessariamente como uma doença do corpo, mas, sobretudo, um tormento da alma, relacionado a um inconformismo em relação às mazelas do contexto, do qual se tinha consciência mas do qual era difícil esquivar-se, posicionamento que resgata, de certa forma, a Problemata XXX atribuída a Aristóteles.

Tal concepção aproxima-se daquilo que Giorgio Agamben denomina como dimensão vertical da melancolia. No texto “O demônio meridiano”91 o filósofo italiano relembra que na Idade Média, padres da igreja católica – sobretudo os que viviam em mosteiros – nomeavam essa espécie de morte instalada na alma de “desídia”,

“tristítia”, “taedium vitae”, “acídia”.92 Nos textos religiosos desse período, há admoestações aos homines religiosi em relação a esse perigo, conhecido como

“demônio meridiano” justamente por que atacava quando o sol culminava no horizonte.

Dentre as características desse estado - que é propriamente mais psicológico do que orgânico, mas que abala o físico também, uma vez que a alma sente-se sem forças diante da vida -, sobressai-se um retrair-se vertiginoso da estação diante de Deus93. Uma fuga do homem frente à riqueza das possibilidades de sua espiritualidade e caracterizada por uma dura ambiguidade: ao mesmo tempo em que o acidioso retrai-se diante de seu fim divino, não consegue deixar de aspirá-lo.

Seu objeto, torna-se, dessa forma, inatingível, uma vez que o deseja, mas não o caminho que a ele conduz, obstruindo, ele próprio, a estrada que o elevaria até esse objeto:

91 AGAMBEN, G. Estâncias. A palavra e o fantasma na cultura ocidental. Tradução de Selvino José Assmann. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

92 Ibid., p.24.

93 BERLINCK, Manoel Tosta. A melancolia e suas manifestações segundo a Psicopatologia Fundamental. Projeto de pesquisa em Psicopatologia Fundamental. Laboratório de Psicopatologia Fundamenta. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica – PUC, São Paulo.

Disponível em: fundamentalpsychopathology.org/uploads/files/manoel_tosta_berlinck_- _a_melancolia_e_suas_manifesta%C3%A7%C3%B5es_segundo_a_psicopatologia_fundamental_-_projeto_de_pesquisa.pdf. Acesso em: 18/12/2014. P.3.

66 O ideal melancólico, por sua vez, é inatingível, por sua específica qualidade de perfeição. É manifestação da melancolia, é razão da tristitia [grifo no original] e não saída. Chamado, também, de eu ideal, é um corpo (pois o eu é sempre corporal) cuja forma coincide com a morte do próprio corpo. O melancólico sabe, no âmago de si, que nenhum esforço, nenhum dispêndio de energia, irá modificar essa situação, essa inércia. O intenso trabalho na melancolia visa uma inibição empobrecedora do eu. Comer, dormir e orar em excesso, a vida sem tonalidade passa a compor o cotidiano do melancólico.94

Assim, ocorre o deslocamento do eixo vertical, característico desse sentimento, desse “demônio meridiano”. O acidioso não deixa de desejar o objeto inatingível – esse objeto é o ideal – mas ele encontra-se nas alturas. Diante da impossibilidade de atingi-lo e da dificuldade de deixar de desejá-lo, imobiliza-se numa tristeza angustiosa, que tanto pode movê-lo para o vício quanto para a inação, manifestando-se, desta forma, tanto a mania quanto seu inverso, a melancolia.95

O eixo vertical da melancolia é retomado na prosa de Robert Burton. A ideia parece já nas imagens que ilustram o frontispício da edição de 1621 (Ver anexo I) Segundo Berlinck:

Para Burton, o humano é um anjo decaído cuja existência é capturada por essa dinâmica vertical. Nesse sentido, Burton se aproxima da concepção hegemônica na Idade Média onde o humano, visto como criatura de Deus, feito à sua imagem e semelhança, é, no entanto, sujeito ao pecado, à queda, ao apequenamento essencial do ser.96

Acreditamos que esse ideal a ser atingido, no contexto em que a obra de Burton foi escrita – primeira metade do século XVII – , seria mais um ideal relacionado ao conhecimento, ao mundo das ideias, do que propriamente um ideal espiritual. O sentimento – a melancolia – se assemelha à tristitia vivenciada pelos religiosos na Idade Média, mas não o objeto dessa angústia. Arriscamo-nos a dizer que há uma redescoberta desse estado em virtude das questões que se apresentam para os estudiosos do século XVII, no contexto em que se encontram (o ambiente do pós-contra reforma, do desenvolvimento do conhecimento científico e da expansão da imprensa; das guerras religiosas e das tensões entre os estados monárquicos em ascensão). A imensurável quantidade de citações no texto de Burton, o desalento que manifesta em relação à sua própria época (ainda que sob o disfarce da sátira) indicam que nossa hipótese deve ser considerada.

94 Ibid., p. 4.

95 Ibid., p. 5.

96 BERLINCK, Manoel Tosta. Prefácio. Apud BURTON, Robert. A anatomia da melancolia.

Tradução de Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: UFPR, 2011. P. 5. (vol. 1).

67 Diante desse aprisionamento da alma a um ideal tão inatingível quanto irresistível, manifesto num temperamento inconstante, que oscila de uma tristeza imobilizante para a agitação sem consolo, o corpo é aniquilado, seja pela fadiga (sobrecarregado com afazeres que tentam distraí-lo, afastá-lo desse ideal); seja pela inação, que pode ir desde um não estar com os outros, passando por um não levantar-se da cama até um não alimentar-se e que perigosamente beira a uma morte auto infligida. O corpo, lentamente, é aniquilado, restando somente, o ideal.

Em sua explicação sobre quem seriam os predispostos à melancolia, segundo o médico-teólogo, a relação entre a busca do conhecimento e a melancolia fica clara. Afirma que dentre os afetados por esse estado de ânimo estariam os nascidos de pais melancólicos, os de natureza solitária, os grandes estudiosos afeitos a muita contemplação e com uma vida fora de toda a ação. 97 E qual a origem da melancolia, o coração (o órgão das emoções e das paixões) ou o cérebro? Segundo Garcia, para Burton “... primeiro é na imaginação e depois é na razão que os pacientes são afetados”98. E quais os afetos típicos desse tipo de comportamento? “... [o] medo e a tristeza são os verdadeiros caracteres e inseparáveis companheiros dos melancólicos” 99

É importante salientar, de fato, que a obra de Burton é considerada uma das mais expressivas do início do século XVII100. O texto, cujo estilo é caracterizado pelo próprio autor como centão101 amplia-se, a partir de um tema central – a melancolia - para inúmeros outros subtemas, indo desde reflexões sobre a guerra até questões relacionadas à religião e alimentação e no qual se destaca constantemente o datada de 1621, foi seguida de outras quatros reedições – 1624, 1628, 1632 e 1638 – todas em vida, revistas e ampliadas pelo próprio autor. Ainda no século XVII, a obra foi traduzida para o francês, para o espanhol e para o alemão. À edição póstuma de 1952 foram acrescentadas anotações de Burton, elevando o total de páginas do texto original em inglês para 1200. Seu livro é considerado um marco da prosa elisabetana e na literatura mundial.

101 Um texto original construído e permeado por inúmeras citações literárias, bíblicas, filosóficas, médicas...

68 loucura sob o prisma do humanismo e do racionalismo, libertando-a do estigma a ela imposto pelo pensamento medieval.

No entanto, como vimos, a concepção manifesta na obra de Burton sobre a melancolia não é a que se observa em outros estudos realizados por médicos daquele mesmo século XVII e que constituíam, basicamente, por tentar entender, ainda muito influenciados pela tradição hipocrático-galênica dos humores e dos espíritos animais, a constituição orgânica da melancolia.

Essa visão seria abalada no início do século seguinte, quando a loucura em todos os seus matizes – mania, melancolia, demência... – passaria a ser considerada de fato, uma doença pelo saber médico. No processo de institucionalização da loucura por esse saber nasce uma nova especialidade; a psiquiatria. É a partir de então que notamos uma clivagem, uma ruptura, entre uma concepção médico-científica da melancolia e uma visão filosófico-literária. É no processo de instituição e afirmação dos saberes sobre o homem – e dentre esses saberes, da circunscrição da loucura pela psiquiatria – que podem ser localizadas as origens da depressão enquanto entidade nosológica.

69 3 SÉCULO XVIII: A PSIQUIATRIA CLÁSSICA E A ORIGEM MORAL DA

MELANCOLIA