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MELANCOLIA VERTICAL

2.1 PENSAMENTO EUGÊNICO: ORIGENS E DESDOBRAMENTOS

O fato de sociedades caracterizarem de forma depreciativa e pejorativa povos diferentes como forma de assim legitimar, de certa forma, sua dominação, é algo remoto no Ocidente, no entanto, em nenhum outro contexto as consequências dessa prática pareceram tão trágicas como a partir da segunda metade do século XIX, quando a ideologia racista emergiu simultaneamente em vários países europeus, vindo a mostrar seus trágicos efeitos sobre o mundo especialmente a partir do início do século XX.

No entanto, as origens da ideologia racista do século XIX, devem ser buscadas em um período anterior, no século que consolidou a razão como chave de todo e qualquer conhecimento e assegurou que todos os homens nascem livres e iguais: o século XVIII, ou o “século das luzes”.

106 2.1.1 A Teoria do Direito da Força

O crescente interesse por povos “diferentes” e “exóticos” foi uma das características do pensamento intelectual europeu, especialmente o francês, ao longo de todo o século XVIII. Havia certa curiosidade e mesmo certo entusiasmo pelos traços culturais dos novos “espécimes de humanidade” que existiam além da França (no Oriente, na América e na África).176

Essa curiosidade transformou-se em missão para os heróis da revolução francesa, que desejavam levar a liberdade para todos os povos. Tal missão fazia parte de um dos grandes lemas da Revolução: o lema da fraternidade entre os povos. Contudo, foi justamente nesse país amante da liberdade, da igualdade e da fraternidade, que surgiram os primeiros indícios daquilo que mais tarde a Europa toda viria a conhecer: o pensamento racista. Como tantas outras correntes de pensamento, o racismo circulou livremente entre os acalorados debates do século XVIII, quando era apenas mais uma das tantas ideias amplamente discutidas. A origem desse tipo de pensamento foi apontada por alguns autores como advindas da doutrina do “direito da força”, do século XVIII.177

... a ideologia racista, com raízes profundas no século XVIII, emergiu simultaneamente em todos os países ocidentais durante o século XIX (...) Até o período da corrida “para a África” o pensamento racista competia com muitas ideias livremente expressas que, dentro do ambiente geral do liberalismo, disputavam entre si a aceitação da opinião publica.178

Essa atmosfera de livre expressão das mais diferentes teorias foi em parte possível pelo desenvolvimento das idéias liberais. No entanto, dentre todas as ideias manifestadas nesse período, apenas algumas se sobressaíram e tornaram-se fortes o bastante para centralizar a opinião pública a seu favor. Dentre elas, duas acabaram por atingir um maior número de adeptos, o que possibilitou que se firmassem enquanto doutrinas teóricas no século XIX: a primeira delas afirmava que a história é produto da luta de classes e a outra afirmava que a história é produto da luta de raças.179

176ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Antissemitismo, imperialismo, totalitarismo.

São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Tradução de Roberto Raposo. p.191.

177 Ibid., p. 192.

178Ibid., p. 189.

179Id.

107 A origem das ideias que interpretavam a história como o produto da luta de raças, pode ser localizada na França do inicio do século XVIII na teoria de um representante da nobreza, o Conde de Boulainivilliers, que teve sua obra publicada após a sua morte. Boulainivilliers, preocupado com a crescente ascensão política do terceiro estado e com a proeminente decadência da nobreza, procurou criar uma teoria que justificasse a superioridade da nobreza francesa frente aos “gens de lettres et de lois”, afirmando que estes não tinham a mesma origem do restante do povo francês.

Segundo ele, a França havia sido formada por duas nações diferentes: a gaulesa e a germânica. Porém, os germânicos, por terem conquistado os habitantes mais antigos do território, tomando suas terras e impondo-lhes suas leis, constituíram-se como classe governante, uma classe de nobres cuja superioridade era legitimada pelo direito de conquista e não por qualquer vínculo entre homens e solo existente anteriormente no território.

Essa obra, lida principalmente a partir da segunda metade do século XVIII, tornou-se uma arma da nobreza para justificar a sua superioridade em uma França às portas da Revolução.180

É importante salientar que Boulainvilliers ainda não falava de raças, mas de povos diferentes. Contudo, ao afirmar que a superioridade de um povo está mais relacionada à conquista do que ao solo, tornou-se uma antinacionalista numa época em que a idéia de nação era inédita e tida como revolucionária. Mas sua principal contribuição ao pensamento racista é que ele falou, pela primeira vez, em superioridade germânica, teoria que seria resgatada e aprimorada no século XIX por Gobineau.

Quando em 1853, o Conde Arthur de Gobineau publicou “Essai sur I’inégalité des races humaines”, suas idéias pareciam totalmente adversas à mentalidade europeia da época, afinal, insistia na idéia de declínio das civilizações quando o tema central era a idéia de progresso. Talvez por isso, suas ideias tenham feito sucesso apenas algumas décadas mais tarde, no final do século, quando Nietzsche e outros estudiosos falavam abertamente da decadência europeia.181

180Ibid., p. 192-193.

181 HERMAN, Arthur. A ideia de decadência na história ocidental. Tradução de Cyntia Azevedo e Paulo Soares. Rio de Janeiro – São Paulo: Record, 1999. P. 115.

108 O aspecto central da obra de Gobineau, que reescreveu a história da humanidade em quatro volumes, é a sua insistência em afirmar que existência humana na terra estava fadada à total extinção. Chegou ao extremo mesmo de datar a duração da existência humana no planeta: 12 e 14 mil anos no máximo. O motivo de total extinção? A mistura de raças.

Envolvido pelas doutrinas do século XVIII sobre a origem do povo francês, aceitava a hipótese de que os burgueses descendiam dos galo-romanos e os nobres dos germânicos, só que ao contrário dos nobres exilados que usaram a teoria de Boulainvilliers como consolo para a derrota sofrida em 1789, Gobineau associou a decadência da nobreza francesa à decadência da nobreza da Europa e de toda a humanidade.

Esse destino degenerativo assoma doravante a Europa no século XIX. Para a mentalidade de Gobineau, a civilização européia não possuía uma progressão linear ascendente da barbárie a civilidade ou da escravidão à liberdade. Ao contrário: movia-se em círculos, conforme as pessoas mais próximas da raiz ariana e, por conseguinte, mais vivazes, conquistavam aqueles mais distantes dessa origem, apenas para se misturarem com os inferiores e perderem a própria pureza racial. A história passava a ser um ciclo interminável de guerras, miscigenação e conquistas – a versão racista de anakuklois de Gobineau. Não há vencedores na história, apenas, ao longo do tempo, perdedores... 182

A França em que Gobineau escreveu seu Essai era governada pelo rei burguês Luís Felipe. A vitória do terceiro estado já estava mais do que consolidada e à nobreza, só restava se lamentar. Numa época em que a França era o único país onde os negros gozavam de direitos civis, Gobineau não se conformava em ver a nobreza destituída do poder feudal que a colocou no topo da sociedade europeia, onde havia permanecido até a revolução francesa.

Produto de uma classe fracassada e adepto do romantismo político, Gobineau resolveu reavaliar a doutrina “dos dois povos”, tentando explicar por que os melhores homens (os germânicos) que haviam galgado rumo ao topo da sociedade durante séculos, não se encontravam mais no poder. Chegou à conclusão de que a queda das civilizações está relacionada à degeneração da raça, causada pela mistura de sangue. Segundo o autor, qualquer que seja a mistura, o produto é sempre inferior, pois a raça inferior é a que sempre irá predominar e isso ocorrendo,

182 Ibid., p.69.

109 a humanidade deixaria de progredir, caminhando para sua própria ruína, conforme destaca Herman:

O processo civilizador era para Gobineau um processo de corrupção, simbolizado pela miscigenação racial. Os conquistadores quedaram vítimas de seu próprio gênio por criarem uma ordem política e social estável. (...) Para ele, a mistura fatal dos povos numa sociedade complexa era a fonte da criatividade mas também da instabilidade. (...) Conforme a ração dominante dilui seu sangue em relações com raças inferiores, sua prole perde a capacidade de controlar os acontecimentos. As civilizações entram literalmente em crise, conclui Gobineau, por não estarem mais nas próprias mãos.183

Embora tenham alcançado repercussão somente no final do século XIX, as ideias de Gobineau serviriam para criar em seus contemporâneos pelo menos uma idéia fixa: a necessidade de sobrevivência dos mais aptos.

Como percebeu que a situação política na França não poderia mais ser revertida, isto é, os nobres não mais teriam os privilégios que outrora haviam colocado acima de todas as classes, propôs, como salvação da França, uma política onde o governo aristocrático fosse substituído por uma elite racial, mais apta para dirigir o país, evitando sua ruína. Essa elite racial seria composta por arianos, que, segundo Gobineau, formavam uma “raça de príncipes”:

O que Gobineau realmente procurou na política foi a definição e a criação de uma “elite” que substituísse a aristocracia. Em lugar de príncipes, propunha uma “raça de príncipes”, os arianos, que segundo dizia corriam o risco de serem engolfados, através do sistema demográfico, pelas classes não arianas inferiores (...).Graças à raça, podia ser formada uma

“elite” com direitos às antigas prerrogativas feudais e isso apenas pela afirmação de que se sentiam nobres. 184

As intenções de Gobineau ressaltavam basicamente duas coisas: que a humanidade estava dividida em raças superiores e inferiores e que a mistura dessas raças faria com que predominassem os elementos inferiores, o que seria o fim da humanidade. Para que tal “tragédia” não ocorresse e lavasse a cabo todo o progresso alcançado pela Europa, era preciso e necessário que os elementos superiores permanecessem no poder e dominassem os inferiores. Era o nascimento do racismo moderno propriamente dito.

183 Ibid., p. 68-69..

184ARENDT, Hannah. Op.cit., p.202-203.

110 pouca repercussão, permanecendo mais como uma expressão da rebelião romântica, um gesto de provocação frente a uma ordem social instituída pela burguesia.

Contudo, outros elementos “diferentes” passariam a fazer parte cada vez mais da realidade europeia do século XIX. A expansão da revolução industrial trouxera em seu bojo, além de classe burguesa, a urbanização da sociedade e o proletariado urbano, uma nova classe que com seus hábitos, com sua miséria, com suas doenças e, principalmente, com sua insubordinação à disciplina da fábrica, ameaçava a recém instalada ordem burguesa. Sempre oportuno relembrar a descrição feita por Engels no livro “A situação da classe trabalhadora em Inglaterra”

(1845) sobre as deploráveis condições de vida dos moradores dos bairros operários situados em cidades inglesas, como Manchester por volta de 1840:

De ambos os lados do rio de águas estagnadas e nauseabundas, tão negro como o pez, estende-se, desde a sua entrada na cidade ate a confluência com o Irwell, uma larga cintura de fabricas e de habitações operarias; estas estão no estado mais deplorável possível. (...) O sitio é horrendo [fica] do lado de Manchester, a sudoeste de Oxford Road e chama-se Pequena Irlanda (Little Ireland). Numa depressão de terreno bastante funda, numa curva do Medlock, e cercada pelos quatro lados por grandes fabricas e margens altas cobertas de casas ou aterros, estão cerca de 200 casas repartidas em dois grupos, sendo frequentemente a parede de trás a divisória; habitam al cerca de 4 000 pessoas, quase todas irlandesas. As casas são velhas, sujas e do tipo mais pequeno: as ruas são desiguais e cheias de saliências, em parte sem pavimento nem canais de escoamento; por todo o lado ha uma quantidade considerável de imundícies, detritos e lama nauseabunda entre os charcos estagnados; a atmosfera esta empestada com as suas emanações, enegrecida e pesada pelos fumos de uma dúzia de chaminés de fábricas. Uma multidão de mulheres e crianças esfarrapadas vagueiam por estes sítios, tão sujas como os porcos que se espojam nos montes de resíduos e nos charcos. Em resumo, todo este local oferece um espetáculo tão repugnante como os piores bairros das margens do Irk. A população que vive nestas casas arruinadas, por detrás destas janelas quebradas nas quais foi colocado papel oleoso, e destas portas fendidas com os caixilhos podres, e ate nas caves húmidas e sombrias, no meio desta sujidade e deste cheiro inqualificáveis, nesta atmosfera que parece intencionalmente fechada, na verdade deve situar-se no escalão mais baixo da sociedade. Tal e a conclusão e a impressão que o aspecto deste bairro, visto do exterior, impõe ao visitante.185

185 ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora em Inglaterra. Tradução de Analia C. Torres. Porto: Afrontamento, 1975. p.95-96.

111 Como narrou Engels, a situação de sobrevivência da classe operária e certamente do proletariado urbano como um todo, era algo deplorável, não apenas na Inglaterra, que foi o berço da Revolução Industrial e, portanto da urbanização e massificação da sociedade, mas em outros países do ocidente europeu que, durante o século XIX, viviam o mesmo processo. A existência desses novos “espécimes de humanidade” e seus hábitos degenerativos, não ameaçariam a integridade física e moral das elites?

Com o desenvolvimento das relações industriais e da urbanização, o proletariado passou a representar uma ameaça física – por causa das suas doenças e dos seus hábitos insalubres – e moral, por causa da sua insubordinação ao sistema fabril.

Além do surgimento de novos atores internos – as massas urbanas – novos personagens externos também entrariam em cena para ajudar a compor o quadro racial europeu no século XIX. A expansão da Revolução Industrial, para outros países da Europa, trouxe a tona, como é sabido, a superprodução de bens industrializados e a falta de matérias-primas, o que levou a expansão das atividades econômicas europeias para o Oriente e para a África. Os europeus passaram a explorar, então, econômica e politicamente, os povos nativos, com o objetivo de garantir mercado consumidor de seus produtos e matéria-prima para suas indústrias.

A política imperialista, não só deu aos europeus a sensação de dominarem o mundo como fez com que caracterizassem diferentes (asiáticos e africanos) como inferiores, afinal, não haviam alcançado o “progresso” europeu científico e tecnológico atingido pelos europeus. Seria novamente a teoria do desenvolvimento cientifico do século XIX, que trouxe em seu bojo uma justificativa muito mais convincente que o direito da conquista para legitimar a superioridade de uns homens sobre os outros: o darwinismo.

Ao mesmo tempo em que profundas modificações econômicas e sociais ocorriam no Ocidente, a ideia de progresso continuava permeando a mentalidade europeia. Essa era a única “lei” universalmente aceita: a crença no progresso da humanidade. Progresso que significava mudança, mudança para melhor, ou evolução. Essa ideia pareceu mais concreta a partir de 1859, quando o naturalista inglês Charles Darwin lançou a sua obra sobre a Origem das Espécies.

112 A obra de Darwin afirmava que na natureza as espécies evoluem por uma questão de sobrevivência e que esta evolução se dava lentamente a partir de pequenas mudanças que ocorriam de forma continua e quase imperceptível o tempo todo. Tais mudanças eram produto de lutas eternas entre essas mesmas espécies.

A capacidade de dominação das espécies mais fortes sobre as mais frágeis e a capacidade de adaptação é que determinavam a evolução. Os mais aptos sobreviviam e os mais fracos pereciam.

Era uma nova natureza que se apresentava aos olhos europeus, a partir das idéias de Darwin: uma natureza de dentes e garras vermelhas186, onde a luta pela sobrevivência e pela própria existência era o grande motor da evolução. Darwin comprovou essa evolução através de seus experimentos nas Ilhas Galápagos, no Pacífico, e chocou o mundo acadêmico ao ir mais longe: o homem também era produto de uma evolução. Inicialmente, teria a mesma constituição física e biológica de um primata comum, mas teria evoluído para uma espécie superior e dominando todas as outras espécies.187

O processo evolucionário da natureza – e não Deus – passava a ser o grande agente criativo e destrutivo de todas as coisas. A secularização avançava e a teologia já não tinha forças para esbravejar contra as “heresias” cientificas que passaram a ser proferidas após as descobertas de Darwin. O único ser que poderia combater o processo cósmico era o próprio homem, já que se elevara acima dele tomando consciência de sua própria evolução.

Novos intelectuais, empolgados pelas ideias darwinianas, passaram se valer de preceitos tais como: sobrevivência dos mais aptos, luta pela sobrevivência e superioridade biológica, para tentar explicar a dinâmica das sociedades. Era o nascimento do “darwinismo social”, que teve entre seus principais expoentes Herbert Spencer (1820-1903) e que foi marcado pelo uso de conceitos biológicos para a interpretação da evolução das instituições e das culturas, fazendo o que Darwin jamais ousara fazer.

O darwinismo social preocupava-se, sobretudo, em compreender a evolução do organismo social e colocava a luta como chave para o progresso, sobretudo nos assuntos internacionais. Muitas idéias de evolucionistas convictos foram usadas

186 BAUMER, Franklin L. O pensamento europeu moderno. Lisboa : Edições 70, 1977. Vol.

II – Séculos XIX e XX.

187 Id.

113 pelos darwinistas sociais para reafirmar antigos conflitos raciais internos da Europa e justificar a política externa imperialista – com relação aos povos da África e Ásia.188

Edward Burnett Taylor (1832-1917), um evolucionista convicto e chamado pai da Antropologia, dizia, em 1871, que a história das sociedades assim como da natureza, estava sujeita a leis definitivas, que determinam estágios sucessivos de cultura, sendo que cada um nasce e cresce de acordo com o estágio anterior.

Assim, as sociedades tinham tendências a seguir linhas de desenvolvimento semelhante, passando por três estágios: selvageria, barbárie e civilização, embora nem todas viessem a seguir o mesmo caminho. Alguns cientistas sociais utilizaram as idéias de Taylor para classificar as sociedades africanas como selvagens, legitimando a conquista como sendo uma forma de levar o progresso alcançado pelos europeus às sociedades inferiores.

2.1.3 A Possibilidade do Controle da Hereditariedade Humana

A ideia da luta pela existência continuou empolgando discípulos ambiciosos de Darwin, que insistiam em usar seus postulados para explicar e justificar toda a realidade. Mas a contribuição fatal para o desenvolvimento da ideologia racista, no século XIX, não foi nada por Darwin, mas por seu primo, o matemático e fisiologista Francis Galton (1822-1911).

Aperfeiçoando os estudos sobre genética, efetuados por Mendel, Galton propôs uma teoria que se preocupava basicamente com o devir biológico do homem:

a sua hereditariedade. Seu objetivo era investigar como se poderia orientar, através de procedimentos biológicos, a multiplicação da espécie humana, visando o seu melhoramento. As bases de sua teoria foram lançadas em 1875 sob o nome de

“Teoria da hereditariedade”, obra em que Galton expunha os resultados de suas investigações sobre a hereditariedade do talento.189

Em 1883, Galton lançou a nova ciência: Eugenics, cuja preocupação fundamental era o melhoramento genético das sociedades humanas. Contudo, os estudos eugênicos só passaram a ter grande repercussão mundial a partir de 1900,

188 ARENDT, Hannah. Op.Cit., p. 209.

189 MARQUES, Vera Regina Beltrão. A medicalização da raça: médicos, educadores e discurso eugênico. Campinas: UNICAMP, 1994. . 49.

114 quando o mundo científico “redescobriu” as Leis de Mendel e os eugenistas tiveram mais fundamentos para expor sua teoria.

A preocupação dos primeiros eugenistas era com os males que julgavam hereditários e que mais contribuíam para a degeneração das populações humanas:

a loucura, a epilepsia, o alcoolismo, a criminalidade, entre outras doenças. Em 1904, Galton iniciou um curso de Eugenia em Londres e quatro anos depois era fundada na mesma cidade uma sociedade intitulada: “Eugenics Education Society” . Em 1912, foi realizado o Primeiro Congresso de Eugenia em Londres.190

Em 1880, foi criado nos Estados Unidos um Instituto destinado à pesquisas e experimentos sobre a hereditariedade humana. Sendo um dos países da América onde o pensamento eugênico obteve maior aceitação, em 1932 sediou o 2º Congresso de Eugenia, realizado em Nova Iorque. Na Alemanha, o surgimento do pensamento eugênico remonta aos escritos de Alfredo Ploetez, de 1885 e intitulados: “Fundamentos da Eugenia”.

O mesmo autor lançou, em 1904, uma publicação sobre estudos acerca da hereditariedade humana. Em Berlim foi fundado um dos mais importantes Institutos de pesquisas eugênicas da Europa, onde trabalhou inclusive Eugen Fisher, um dos mentores científicos da máquina de extermínio nazista.191

Além desses países, no início do século XX o pensamento eugênico se espalhou por vários países do mundo: Suécia, Dinamarca, Bélgica, Itália, Espanha, Portugal, Noruega, Holanda, Rússia, Polônia, a ex Tchecoslováquia, Japão, China, Austrália, Nova Zelândia e Índias Inglesas.192

A grande aceitação do pensamento eugênico nos meios acadêmicos se

A grande aceitação do pensamento eugênico nos meios acadêmicos se