MELANCOLIA VERTICAL
3.2 PHILIPPE PINEL E O TRATAMENTO MORAL
105Id.
106 Imbuído dos ideais revolucionários franceses de liberdade, fraternidade e igualdade e pela concepção iluminista de razão, Pinel é considerado um dos principais precursores do tratamento moral para os alienados. Originário do Languedoc, formou-se em medicina em Toulouse e concluiu seus estudos em Montpellier até “subir para Paris” em 1778, expressão empregada na época e que serve para exemplificar a trajetória de pelo menos 90 % dos alienistas franceses. Inicialmente, não teve sucesso profissional na cidade, sobrevivendo como professor de matemática e tradutor de obras de medicina. Posteriormente, começou a trabalhar na Casa de Saúde de Jacques Belhomme, uma espécie de clínica de repouso para ricos e que gozava, na época, de reputação singular. Quando eclode a Revolução Francesa, Pinel já contava com mais de quarenta anos. Negligenciado e subaproveitado pelo governo absolutista, adere às ideias revolucionárias, especialmente sob a influência das obras de Rousseau e Montesquieu e das ideias de Condorcet, do qual era amigo. Por um decreto da Convenção Nacional (sugerido por seus amigos Cabanis e Thouret, ambos médicos) Pinel ascendeu ao cargo de diretor do hospital de Bicêtre, em 1793. Mais tarde, foi nomeado médico chefe do hospital La Salpêtrière em 1795. Na administração dessas instituições, realizou o ato que o imortalizaria como o fundador da psiquiatria moderna: retirou a corrente dos alienados. Sua atuação como chefe desses dois hospitais franceses inaugurou a chamada Escola dos Alienistas Franceses.
Desenvolveu um novo método de abordagem da loucura: adepto dos ideais da revolução, acreditava que em toda loucura subsistia um pouco de razão, motivo pelo qual era possível ao médico envolvido nessa terapêutica, curar os doentes. O tratamento, no entanto, precisava ser diferente do que até então era realizado: proibiu a prática das sangrias, purgantes e vomitativos e desenvolveu uma abordagem em que incitava o paciente a revelar a verdade da loucura para o médico alienista. Nesse processo, viriam à tona as causas – morais – das afecções da mente, tornando possível o tratamento, também de fundo moral. Dentre seus principais trabalhos, destacam-se a sua classificação das doenças mentais - Nosographie philosophique (1798), e Traité médico-philosophique sur l'aliénation mentale (1801), no qual expõe seu método de abordagem e terapêutica das afecções mentais.
Morreu em Paris, em 1826.
72 no interior do asilo psiquiátrico.107 O tratamento moral se caracterizava, segundo Foucault, pela relação de estreita dependência estabelecida entre o doente e um determinado poder, representado pelo alienista. Esse poder se manifesta inicialmente como uma batalha na qual primeiro o alienista age de modo a instigar que a loucura se mostre, se manifeste, venha à tona – a verdade da loucura, segundo Foucault – para só então, mediante sua observação, descrição e diagnóstico, definir a terapêutica.
Primeiro, o princípio de estreita dependência do doente em relação a certo poder; esse poder tem de estar encarnado num homem, e somente num homem, o qual exerce esse poder não tanto em função e a partir de um saber, quanto em função de qualidades físicas e morais que lhe permitem exercer um império que não pode ter limites, um império irresistível. E é a partir daí que se torna possível a mudança da corrente viciosa das idéias, essa ortopedia moral, digamos assim, a partir da qual a cura é possível.108
Esse procedimento, que se insere nos primórdios da prática psiquiátrica, muito pouco se assemelha, em sua morfologia e no aspecto geral de suas disposições, ao que na mesma época caracterizava o processo diagnóstico e terapêutico da medicina de um modo geral. Essa heterogeneidade, que marcaria a prática dos primeiros alienistas pode ser entendida, sobretudo, se pensarmos numa dificuldade crucial que se apresenta para a psiquiatria em sua pretensão de se constituir como um saber médico-científico: essa dificuldade consiste justamente pelo fato de a prática psiquiátrica, diferentemente das outras especialidades médicas, manifestar-se como uma medicina em que o corpo está ausente. 109 É o problema de localizar no corpo as lesões, os sinais físicos da patologia que pretende combater.
Ao longo do século XIX, a anatomopatologia e a clínica se articulam no hospital mediante a correlação entre o classificar os sintomas (próprio da clínica) e o localizar as lesões (próprio da anatomopatologia) possibilitando diagnosticar e caracterizar doenças, estabelecendo vínculos entre sintomas e lesões110. No entanto, no espaço do poder psiquiátrico, a situação é um pouco diferente. Por um lado, porque para o saber psiquiátrico, então em conformação, importava saber se
107CAPONI, Sandra. Loucos e degenerados. Uma genealogia da psiquiatria ampliada. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012.p.36.
108 FOUCAULT, Michel. O poder psiquiátrico: curso dado no Collège de France (1973-1974). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.p. 14.
109 Ibid., p. 346-347.
110 CAPONI, Sandra. Op.cit., p. 33-34
73 um indivíduo era ou não louco (uma espécie de diagnóstico binário) e não a precisão nosológica111. Diferentemente da medicina, a psiquiatria não tinha como produzir diagnósticos diferenciados, apenas, diagnósticos absolutos, exatamente por essa dificuldade em detectar, no corpo, lesões que indicassem a presença de uma doença mental.
Dentre as afecções mentais, se insere a melancolia. Em sua “Nosografia Filosófica” (1798) Pinel inclui a melancolia entre as neuroses das funções cerebrais, mais exatamente na seção dedicada às perturbações das capacidades mentais (Vesânias). Notemos que o termo melancolia, de origem hipocrático-aristotélico-galênica ainda permanece na nosografia pineliana, no entanto, a conotação que adquire a partir dessa obra a vincula a um discurso novo acerca do tema: é entendida não mais como uma figura da loucura, algo indistinto, mas como uma vesânia, uma perturbação mental específica relacionada às funções cerebrais, com contornos próprios e diferenciados em relação à outras formas de perturbação mental. Manifesta-se no cérebro, afeta a razão e tem origem moral.
É interessante notar que a define como um tipo de temperamento, que pode ser diferenciado em dois tipos: um deles é o que se transmite de pai para filho; outro é aquele que é adquirido em alguma etapa da vida. Em relação a essa segunda forma, admite que possam ser duas as causas principais: uma de caráter geográfico e outra de ordem moral. Em relação à primeira, afirma que a melancolia pode ser frequente nos lugares em que, sendo a atmosfera muito quente, de repente, sopram ventos boreais e o ar se torna úmido, ou onde o ar nebuloso causa uma palidez em tudo o que existe.112
Los climas ardientes de la India, del Alto Egipto, las costas de Berbería, la palestina, las islas de la Grecia, y las províncias meridionales de la Francia, son generalmente las mas aptas para hacer contraer afecciones hipocondríacas ó melancólicas, ó tambien la manía, tanto por la exâltacion escesiva de la imaginacion, quanto por los efectos inmediatos del calor intolerable. (...)113
Em relação às causas, observa-se o predomínio de uma etiologia moral:
defende que não raramente se tornam melancólicos os que enfraquecem pelo uso
111 FOUCAULT, Michel. O poder..., op. cit., p. 346.
112 PINEL, Philippe. Compendio de la nosografia filosófica del Dr. Pinel. Madrid: 1829, p.
244.
113 PINEL, Philippe. Nosografia filosófica o aplicación del método analítico á la medicina.
Madrid: 1803, p. 17. V. 2.
74 do álcool ou os que, acostumados ao álcool e aos narcóticos, se abstêm deles114. Considera ainda a miséria, o abuso do amor, a repentina preguiça a uma vida ativa, as reflexões, os estudos profundos, a continência absoluta e todas as paixões do ânimo (amor, inveja, ciúme...). Destaca também os efeitos da superstição:
No omitir elos efectos terribles de la supersticion, pues algunas veces la melancolia sueleh acerse por esta causa endémica ó epidémica. La supersticion se habia apoderado em otro tempo de las jovenes de Melaso, que, cansadas de vivir se procuraron la muerte; y no hace mucho tempo que, por la misma causa, las vírgenes de um monastério creían em determinados dias y horas que se habian veulto gatas, y como de comum acuerdo procuraban maullar.115
Não omite, contudo, possíveis causas orgânicas: supressão do suor, menstruações, hemorróidas, lóquios, lactância prolongada, vermes intestinais, blenorragia e cura incauta de algumas enfermidades116 Entre os sintomas, destaca como um dos primeiros a negligência para tudo: olhos lânguidos, sono agitado, sensibilidade requintada, choro sem motivo e alienação. Uma imaginação centrada numa ideia fixa é o sintoma seguinte e mais importante, segundo Pinel: o sintoma mais aparente da doença, e não a tristeza pura e simplesmente. Ainda segundo o médico, os melancólicos julgam-se tão inaptos para desempenhar suas tarefas que passam a colocar todo o seu engenho em tramar estratagemas para tirar a própria vida117.
Embora tente relacionar a melancolia também a desequilíbrios orgânicos, observamos a dificuldade em localizar no corpo a origem e os sinais físicos da doença. Pois é nos comportamentos, nos afetos, nos hábitos e paixões do indivíduo que a doença se manifesta, sob o olhar atento do médico alienista e a patologia mental que, por ter uma origem moral, pode ser tratada dessa mesma forma.
É nos excessos, não apenas relacionados aos vícios do corpo, mas também às ambições da alma: os estudos intermitentes, as reflexões prolongadas, a dedicação às artes e às letras, estabelecem algumas das possíveis causas de uma melancolia exógena, adquirida, mas também, de uma predisposição do indivíduo ao temperamento melancólico (note-se na citação a seguir a menção ao humor atrabiliário, expressão que remonta à tradição hipocrático-galênica). No entanto,
114 PINEL, P. Compendio de la..., op. cit., p. 244.
115 Id.
116 Id.
117 Ibid., p. 245.
75 associa a esta predisposição a prática da observação diária, mencionando a sua importância para a confirmação do diagnóstico:
... por otra parte la observacion diária confirma lo que este autor griego há dicho de los melancólicos; á saber, ‘que estan sujetos á ideas extravagantes, unos temen ser envenenados, otros aborrece nel trato, y se retiran á la soledad, ó se entregan á todo género de supersticiones ó terrores vanos&c’ pero antes de considerar á la melancolia como enfemedad, exâminenos si em el estado actual de nuestros conocimientos debemos admitir uma disposicion física y mora, que se pueda llamar temperamento melancólico [grifos no original], acerca del qual han sido los Galéni costan fecundos em teorias vanas. Señalan, digamos lo así, por eco como carctéres generales de este temperamento um humor atrabiliario redundanto, color moreno, cuerpo flaco y seco, taciturnidad sombría, &c.118
Na sequência, Pinel indica como terapêutica os vômitos biliosos, a diarreia, a disenteria, os fluídos hemorroidais, as várias erupções e as urinas sedimentosas. O autor também menciona que algumas vezes observou-se uma melhora de pacientes melancólicos após o episódio de uma febre alta. São tratamentos purgativos, que teriam como função limpar o organismo, purificá-lo de alguma forma, reiterando a noção de tratamento moral.119No entanto, segundo Pinel, a medicina seria, em geral, pouco eficiente para tratar dessa afecção mental. O enfermo, segundo o autor, envelhece e enfraquece, aumentando-se, dia-a-dia, sua morosidade e seu fastio. 120
Existiria cura para a melancolia? Segundo Pinel, se estiver relacionada a outra enfermidade, de cunho físico, deve-se tratar a enfermidade causadora. Mas, quando se ignora a causa, às vezes pode ser necessário que o médico contemporize os caprichos do enfermo, noutras, deve se opor a eles com constância, até mesmo, enganá-lo, para o seu próprio bem (a cura moral). Pode ser útil reprimir repentinamente e com veemência a imaginação do melancólico, submergindo-o em água. Deve-se também procurar mudar seu regime de vida, proporcionando-lhe todas as distrações possíveis, como a amenidade dos campos, a conversação agradável dos amigos, os passeios a cavalo, a música, a pintura, o teatro, jogos, bailes, ou seja, cercar-lhe de alegria, gozo e festividade, à moda dos antigos sacerdotes egípcios.121
Ao longo do final da primeira metade do século XIX e, sobretudo, ao longo da segunda metade daquele século, é possível perceber nos manuais de psiquiatria,
118 PINEL, P. Nosografia filosófica o aplicación del método..., op. cit, p.20-21.
119 PINEL, P. Compendio de la..., op. cit., p. 245.
120 Id.
121 Id.
76 sobretudo alemães, uma transição do termo melancolia para o termo depressão como patologia mental de origem cerebral, uma doença de causas biológicas mas que poderia ser diagnosticada clinicamente também mediante a análise atenta das condutas, dos comportamentos, da alteração dos afetos.
O movimento em que a melancolia enquanto entidade nosográfica distancia-se de uma visão filosófico-literária no interior do discurso psiquiátrico, passando a ser entendida como uma depressão do humor, cujas causas residem no cérebro e os efeitos se manifestam nas condutas, é percebido, sobretudo, nos manuais de psiquiatria alemã da segunda metade do século, primeiramente, em Wilhelm Griesinger e depois, em Emil Kraepelin.
A partir de uma perspectiva genealógica de origem foucaultiana nos permitimos afirmar que é nos manuais de psiquiatria alemã situados entre as décadas de 1840 e 1890 se observa o “nascimento” da depressão enquanto entidade nosográfica propriamente dita, primeiramente como uma consequência da melancolia – depressão do humor – e, posteriormente, como uma entidade outra, própria, algo distinto, uma patologia mental de origem biológica propriamente dita.
77 PARTE II - DA MELANCOLIA À DEPRESSÃO: A PATOLOGIZAÇÃO DOS
AFETOS
78 1 A TEORIA DA DEGENERAÇÃO E A PSIQUIATRIA AMPLIADA
Objeto de estudo de neurologistas, filósofos, médicos e anatomistas no século XVII, as afecções mentais e sua inter-relação com os processos cerebrais e o meio passaram a constituir o foco de um saber específico a partir do século XVIII na França: a psiquiatria.
No entanto, esse saber médico-científico sente dificuldade em afirmar-se, em seus primórdios e perante os demais saberes, em virtude de uma característica crucial: trata-se de um saber sobre o corpo em que o próprio objeto está ausente, argumenta Michel Foucault. Isso porque, segundo o autor, o saber psiquiátrico não conseguia localizar no corpo sinais, lesões que justifiquem cientificamente a origem orgânica das afecções mentais.122
O corpo sobre o qual o poder psiquiátrico delineava o seu poder era um
“corpo fantasmagórico”. Houve então, segundo Foucault, a necessidade de ampliar esse corpo para justificar sua intervenção: daí deriva uma espécie de “corpo ampliado”, e da intervenção do saber psiquiátrico sobre esse corpo, delineando-o e definindo-o, nascendo assim aquilo que Sandra Caponi denomina como uma
“psiquiatria ampliada”.
Esse movimento pode ser compreendido se pensarmos que, ao longo do século XIX, na Europa, o corpo passa a ser pensado como algo caracterizado por determinadas potencialidades e funções precisas, para além de tecidos e órgãos, multiplicando-se, a partir de 1860, as referências ao “corpo neurológico”. Se a anatomopatologia tenta penetrar nos detalhes mais profundos do organismo sem se preocupar com a superfície, o saber neurológico caracteriza-se justamente por se constituir como uma descrição de superfície: visa descrever condutas, reações, ações e as diferentes respostas a diferentes estímulos.123
No entanto, a tentativa de localização anatomopatológica das afecções mentais pela psiquiatria manifesta-se como um fracasso na segunda metade daquele mesmo século, ou seja, fracassa a tentativa de inscrição da loucura no interior de uma sintomatologia médica geral, afinal, o corpo neurológico foge da psiquiatria, como também o corpo anatomopatológico. Nesse sentido, à medida que se firmam enquanto um olhar de superfície, que se atinham ao indivíduo, os
122FOUCAULT, Michel. O poder..., p.. 346.
123 CAPONI, Sandra. Op. Cit., p. 35.
79 diagnósticos psiquiátricos passam a se valer de outros instrumentos para validar sua intervenção e acessar esse corpo psíquico: os interrogatórios, a hipnose e as drogas. A psiquiatria institui-se e firma-se, desta forma, como uma “medicina do não patológico”, afirma Foucault.124
Em meados década de 1850, na França, esse corpo “fantasmagórico”
ampliou-se para além das condutas e do histórico do paciente passando a abranger também a sua hereditariedade. Há o deslocamento de um olhar de superfície, que se atinha ao indivíduo, visando a disciplinarização de seus hábitos e a cura moral de sua loucura, para um olhar que considera sua ancestralidade e visa controlar sua descendência, com o intuito de evitar degenerações mentais futuras. É a teoria da degeneração, nascida no contexto da ideia de decadência que assolava o pensamento ocidental125 e que teve no pensamento do psiquiatra francês Benedict Augustin Morel um dos seus principais defensores.