3 ORGANIZAÇÃO E APRESENTAÇÃO DO TRABALHO
Grupo 14: Obrigado deus Tupã por estar sempre presente
22 Nos protestos políticos como os das mães e avós da praça de maio, H.I.J.O.S (filhos pela identidade e pela
2.2 A ESCOLA TAPEBA E A BUSCA POR LEGITIMAÇÃO
Pra nós ser respeitados, nossa escola reconhecida, a gente queria ter um certificado.
Beth - Líder e professora do Trilho
Desde o início de sua criação na década de 80, até hoje, as escolas indígenas no Ceará enfrentam problemas relacionados à sua aceitação ou legitimação. Sua inserção num contexto de etnogênese30 reflete os conflitos inerentes às interações sociais decorrentes desse processo. Sendo assim, num cenário de disputas a escola procura afirmar sua legitimidade entre os atores internos (índios) e externos (não índios). Se em algumas comunidades os professores, juntamente com a proposta de uma escola indígena, têm desfrutado de respaldo e apoio internos desde o início, em outras, isto ainda está sendo
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Barreto Filho (2004, p. 94) define etnogênese como o processo de formação, manutenção e dinâmica de uma fronteira socialmente efetiva e uma identidade categórica.
conquistado gradualmente. Entre os Pitaguary, por exemplo, as escolas funcionavam apenas como reforço educativo para os estudantes indígenas matriculados nas outras instituições de ensino. Já entre os Jenipapo-Kanindé, os professores indígenas dividiam a docência com os professores brancos.
Uma das alegações que se sobrepunha na configuração desse cenário era a questão da formação docente. “O que valia para elas [as mães] era um diploma e isto a gente não tinha”, assim explica a professora Eveline a crise de legitimidade que sua escola atravessava perante a comunidade Jenipapo-Kanindé. Este grupo étnico foi um dos que optou pela permanência dos professores não índios na organização de sua escola diferenciada. A escolaridade do professor indígena, desse modo, no momento mesmo em que o projeto de educação escolar diferenciada ia tomando corpo e se expandindo, era apontada pela própria comunidade como uma necessidade basilar. As primeiras experiências se restringiam apenas às classes de alfabetização de crianças e adultos, ampliando-se o leque de habilidades e competências do professor com a expansão gradativa do ensino para outros níveis. Com isso, se antes a pouca escolaridade dos docentes não era empecilho para a abertura de uma sala de aula, com o desenvolvimento deste projeto educacional tal condição tornou-se uma exigência.
Dessa maneira a formação docente foi incorporada pelo movimento de professores como uma de suas principais pautas de discussão e reivindicação. A saída para essa problemática veio com a criação dos primeiros cursos de magistérios indígenas realizados no estado entre 1999 e 2005. Nesse período ocorreram três experiências envolvendo diversos atores e agências como, por exemplo, as secretarias de educação, universidades, ONGs e FUNAI. Os cursos se caracterizaram como uma formação em serviço, com titulação em nível médio. Assim, aqueles que ainda não haviam completado o ensino fundamental teriam que fazê-lo ao longo dos cursos de magistério nas escolas regulares (NASCIMENTO, 2006).
Na avaliação dos professores, apresentada e discutida em minha dissertação de mestrado, é destacada a contribuição dos cursos para a aceitação e legitimação das propostas de educação diferenciada. Com efeito, tais experiências teriam ajudado aos professores na apreensão de elementos didático-pedagógicos fundamentais para o exercício de sua prática docente, como a realização de planejamento, o aprendizado de novas metodologias etc. De posse desses novos saberes-fazeres simbolicamente materializados nos diplomas, os docentes indígenas ascendem socialmente, uma vez que, em muitos
casos, eles se constituem como uma primeira categoria de funcionários públicos dentro de suas comunidades.
No entanto, o status social diferenciado alcançado pelos professores também tem ocasionado disputas entre eles e as lideranças tradicionais, fazendo com que os docentes índios percebessem o papel de destaque que desempenhavam em sua área de atuação. Além disso, vale ressaltar também uma outra conseqüência dos magistérios na atuação profissional desses atores: a melhora em sua auto-estima. Nesse sentido, merece destaque o caso dos Jenipapo-Kanindé que, após a conclusão do curso de magistério, assumiram a docência e a gestão em suas escolas, posicionando-se, por conseguinte, de uma nova maneira em relação aos professores não índios. Assim, compreendo que a formação pedagógica favoreceu a positivação da presença do próprio índio enquanto professor nas escolas de suas comunidades, como sugere o depoimento da professora Eveline: “As mães que tiravam os filhos no início, começaram a voltar pra escola indígena. Hoje eu posso dizer que a gente teve uma vitória muito grande, inclusive, a confiança da comunidade que a gente não tinha no começo”.
“A vitória muito grande” dos professores, com a diplomação e conseqüente conquista da confiança das comunidades em suas práticas educativas, tem representado, em alguns casos, uma maior credibilidade na proposta das escolas diferenciadas, não apenas junto a seus grupos de origem, mas também fora deles. A luta constante dos professores em promover a entrada e a permanência dos alunos na escola indígena é traduzida, dentre outras coisas, nos esforços investidos na realização dos rituais pedagógicos, tendo em vista que um dos objetivos manifestos de tais ações é a aproximação entre escola e comunidade, como pretendo demonstrar no capítulo seguinte. Conforme será visto, as práticas docentes desses atores, espetacularizadas nos momentos rituais, performam seus dramas relacionados ao preconceito, a não credibilidade de suas propostas educacionais e, de certo modo, às possíveis crises entre professores e lideranças tradicionais.
Além desses problemas, as escolas indígenas têm enfrentado os desafios postos na interação com atores e agências externas. Até o início da década de 90 tais escolas não tinham apoio local da SEDUC ou das secretarias municipais de educação, uma vez que elas estavam sob a responsabilidade técnica-administrativa da FUNAI. O órgão indigenista federal teve sua presença tardia no estado, limitando a sua atuação apenas ao atendimento daqueles grupos considerados reconhecidos oficialmente. Na consideração do conjunto de
problemas que têm contribuído para a instabilidade de algumas escolas diferenciadas, pode-se destacar ainda a estrutura física precária face às escolas não indígenas próximas melhor equipadas; incompatibilidades entre líderes e professores; perseguição política das administrações municipais na disputa por matrículas e a constante negação do grupo como comunidade étnica.
Nos anos de 1990, quando a maioria das escolas passou a ser vinculada administrativamente a rede estadual de ensino, os municípios sentiram-se ameaçados com a diminuição do número de alunos em suas matrículas oficiais, o que, consequentemente, representaria um expressivo déficit financeiro no seu orçamento. Algumas cenas de retaliações foram protagonizadas contra os atores participantes desse cenário, como por exemplo, a recusa de algumas prefeituras em cadastrar, nos programas do Governo Federal, os alunos indígenas que, independente do vínculo com a rede de ensino (estadual ou municipal), tinham direito a receber benefícios.
Agravando ainda mais a situação, algumas escolas tentaram impedir a volta dos alunos indígenas aos seus quadros de matriculados quando estes pleiteavam vagas com o objetivo de dar prosseguimento aos seus estudos. Eram práticas comuns as ameaças à validade dos estudos nas escolas Tapeba, como demonstra a professora Iolanda, da comunidade do Trilho: “As escolas não indígenas não queriam aceitar os documentos que a escola indígena expedia. Os professores chegaram a ir na direção das escolas pra conversar e explicar que os alunos estavam vindo de uma escola diferenciada”.
Desse modo, o sentido do termo diferenciada, na fala da professora, também faz referência a precariedade dos equipamentos, material de escrituração e das condições gerais de estruturação das escolas indígenas. Tal cenário, marcando o seu contexto de nascimentos, ainda persiste na atualidade, a despeito da atuação das agências coordenadoras e executoras das políticas públicas na área da educação escolar indígena. Diante desse quadro, a situação é interpretada pelos professores índios como sinais de discriminação e preconceito, ligando-se, inclusive, ao fato de suas escolas não serem reconhecidas pelo Conselho de Educação do Ceará (CEC). O credenciamento dessas no CEC está sujeito a observação de uma série de exigências que escapam à realidade sócio- educacional das comunidades indígenas.
Exemplo da situação adversa do panorama educacional Tapeba, suas escolas se encontram nas mais variadas condições de funcionamento, estrutura física e organização: há algumas funcionando em cabanas improvisadas devido aos processos de retomadas
(Sobradinho31, Vila dos Cacos, Capoeira), em pequenos prédios cedidos pela família do professor (escola do Capuan), alugados pelo município (Abá Tapeba, NEDI Abá Tapeba e Avô Batista de Matos), construídos pela comunidade em parcerias com instituições não governamentais de apoio aos índios (Trilho, Jardim do Amor, Conrado Teixeira, Narcisio Ferreira Matos); construído pelo estado, via SEDUC (Índios Tapeba) e em prédios doados pelo município (Maria Silva do Nascimento – Lameirão).
Estas circunstâncias, no entanto, não inviabilizam a efetivação desse projeto educacional, (re)criado, conforme tenho sugerido, a partir de conflitos e situações adversas. “Dizendo” por meio de imagens (SAMAIN, 1995), as fotografias que se seguem, feitas em outubro de 2008 na semana que antecede a realização dos eventos ritual-pedagógicos Feira Cultural, Jogos Indígenas e Festa da Carnaúba, se constituem num recorte específico dessa realidade escolar. É necessário dizer que, no momento em que as imagens foram captadas, as atividades escolares Tapeba estavam voltadas para a preparação desses eventos, sendo a maioria realizada fora do espaço cotidiano da sala de aula.
Quase todas as escolas estavam fechadas, com suas atividades pedagógicas transferidas para os Pau-Branco, na comunidade Lagoa 2, local reservado para as tarefas extracotidianas (escolares e não escolares) do grupo. Os professores, alunos e demais comunitários, envolvidos na organização, se dividiam entre inúmeras ocupações, tais como a construção das ocas, ensaios de apresentações artísticas, preparação de comidas e bebidas, confecção de artesanatos, além dos principais protagonistas (professores e alunos) darem entrevistas e acompanharem os pesquisadores nos seus circuitos de interesses.
Sequência
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Figura 9 – Escola Diferenciada Indígena E.F.M Índios Tapeba. Local: Lagoa 2
Figuras 10 e 11 – Escola Diferenciada Indígena E.F.M Conrado Teixeira. Local: Lagoa 1
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Figura 12 – Escola Diferenciada Indígena E.F.M Tapeba. Local: Capuan
Figura 13 – Escola Diferenciada Indígena E.F.M Maria Silva. Local: Lameirão
Figura 14 – Escola Diferenciada Indígena E.F.M Vila dos Cacos. Local: Vila dos Cacos
Figura 15 – Escola Diferenciada Indígena E.F.M Amélia Domingos. Local: Jardim do Amor
Sequência
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Figura 16 – Núcleo de Educação Infantil – anexo da Escola Diferenciada Indígena E.F.M Abá Tapeba. Local: Capuan
Figura 17 – Escola Diferenciada Indígena E.F.M Narciso Ferreira Matos. Local: Lagoa 1
Figura 18 – Sala de aula do 3º ano da Escola Narciso Ferreira Matos
Ao terem suas atividades iniciadas, geralmente, em lugares não adequados, de acordo com os padrões de estrutura física exigidos pelos sistemas educacionais, a exemplo das normas do Conselho Estadual de Educação32, muitas escolas indígenas ainda hoje se caracterizam pela precariedade de suas instalações. Torna-se oportuno dizer a este respeito que as histórias de fundação das escolas Tapeba seguem, quase sempre, a mesma trajetória. Exemplo dessa situação, a escola da comunidade do Trilho começou seu funcionamento debaixo de uma mangueira, construindo, posteriormente, com recursos angariados pela comunidade, um pequeno prédio. A despeito dos padrões arquitetônicos e sanitários exigidos pelo Conselho de Educação, as comunidades indígenas, conforme procuro demonstrar, têm levado adiante seus projetos de escola.
32 Tais normas determinam a necessidade de alguns itens para que a instituição de ensino seja credenciada e seus cursos autorizados e reconhecidos. Sobre o assunto ver a Resolução Nº 372/2002 do CEC.
Figura 19: Mangueira onde funcionou a primeira escola do Trilho
No que diz respeito à organização das 12 escolas Tapeba33, 08 são assistidas pela Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação (CREDE 01), órgão descentralizado da SEDUC com atuação nos municípios de Aquiraz, Caucaia, Eusébio, Guaiúba, Itaitinga, Maracanaú, Maranguape e Pacatuba. As 04 restantes, 03 recebem o apoio da secretaria municipal de educação e 01 funciona somente com o apoio da comunidade, não sendo, por este motivo, contabilizada no censo educacional. De um modo geral em Caucaia, segundo dados do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE), há um total de 3.539 docentes, 108.259 alunos e 1.449 salas de aula. Destes estão nas escolas indígenas 1.510 alunos, 85 professores, distribuídos em 11 escolas que ofertam o ensino fundamental, educação infantil e de jovens e adultos.
Segundo dados da SEDUC de 2008, a maioria dos professores Tapeba possui formação de nível médio em magistério indígena completo, havendo ainda os que estão cursando o magistério indígena, o ensino superior fora das aldeias e aqueles que cursaram o superior completo em um curso específico para formação de professor indígena realizado na Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT). Quanto à formação no ensino superior, em outubro de 2008 o MEC, através do Programa de Apoio a Formação e Licenciaturas Indígenas (PROLIND), aprovou o desenvolvimento de um curso de Licenciatura Intercultural a ser implementado em 2009 numa parceria do movimento indígena, sobretudo a OPRINCE, e a Universidade Estadual do Ceará (UECE). Neste curso, participarão 80 professores pertencentes aos diversos grupos étnicos, dentre estes, alguns Tapeba.
Nesse cenário de busca por legitimação, a escola diferenciada, não obstante problemas estruturais que lhes colocaria em certa posição de desvantagem em relação às escolas não indígenas da região, parece adotar como uma das principais estratégias de fortalecimento a aproximação com a luta pela terra. Sendo assim, num quadro de ações que visam promover uma maior visibilidade da unidade de reivindicações do movimento indígena, as estratégias político-territoriais das retomadas figuram também enquanto destacadas ações pedagógicas, como tentarei demonstra a seguir.
33 É oportuno chamar a atenção para a dificuldade do trabalho com dados estatísticos no contexto escolar indígena, uma vez que são recorrentes as divergências entre os dados das agências oficiais e os coletados em campo pelo pesquisador. Na confecção dos primeiros é levado em conta o vínculo institucional enquanto que nos segundos são consideradas as respostas dadas pelos interlocutores, segundo uma lógica diversa da institucional, englobando professores que não possuem vínculo empregatício com o estado ou município, além de escolas não reconhecidas pela Secretaria de Educação Básica do Ceará ou secretarias de educação municipais.
2.3 ESTRATÉGIAS DE LEGITIMAÇÃO: AS RETOMADAS COMO AÇÃO