5 O MÉTODO
5.1 A CONSTITUIÇÃO DO CORPUS
5.1.1 A escolha da comunidade
Tendo em vista que esta pesquisa insere-se num projeto maior, do qual um dos objetivos é estudar o dialeto rural afro-brasileiro, procurou-se selecionar comunidades compostas de afro-descendentes que viviam em relativo isolamento. Apesar de ser o isolamento total o mais indicado para a pesquisa, hoje é difícil encontrar comunidades onde essa situação seja realidade, pois não se deve considerar apenas o isolamento geográfico. Os meios de comunicação de massa, principalmente o rádio e a televisão, ultrapassam o limite espacial, integrando regiões distantes. Comumente, encontram-se famílias que possuem um rádio ou televisão, mesmo em locais onde a energia elétrica não tenha chegado, visto que baterias de carro são usadas para lhes dar vida e basta apenas um aparelho para reunir em torno dele uma parte significativa dessas comunidades cuja população é bastante reduzida.
Para atender a esse critério, buscou-se selecionar comunidades cuja composição no período de formação, tenha reunido escravos ou ex-escravos, seja na constituição de quilombos, onde se refugiavam os escravos, seja em terras ‘doadas’ a escravos após a sua libertação como forma de pagamento, ou na posse da terra por ex-escravos após a decadência dos engenhos e conseguinte abandono de seus proprietários.
Como já citado anteriormente, o projeto conta com quatro corpora. Na denominação dos corpora, busca-se utilizar o nome da comunidade onde suas amostras foram recolhidas. Dessa forma, a amostra de Helvécia foi constituída na comunidade de mesmo nome, localizada no município de Nova Viçosa, extremo sul do estado, assim como Cinzento, que se localiza no município de Planalto, no semi-árido, e a de Sapé, constituída na comunidade de mesmo nome, distrito do município de Valença, no Recôncavo Baiano. Das amostras, apenas a de Rio de Contas, foge ao critério de denominação estabelecido. Este corpus não recebe o nome da comunidade, mas sim do rio que corta as localidades de Barra e Bananal, localizadas na Chapada Diamantina, onde foram realizadas as entrevistas.
O banco de amostras de fala do Projeto Vertentes amplia-se à medida que novos membros se incorporam ao projeto, contribuindo com a constituição de um corpus. A contribuição desta pesquisa foi a constituição do corpus de Sapé. O projeto já contava com amostras de diferentes regiões do estado: extremo-sul, semi-árido e zona da mata, deixando descoberta uma região de relevante importância no que se refere à presença de afro- descendentes na história da formação do PB, o Recôncavo baiano, onde se desenvolveram engenhos cuja mão-de-obra era predominantemente escrava. Esse foi o primeiro critério
utilizado na escolha da comunidade: selecionar comunidades compostas, em sua maioria, de afro-descendentes, que vivem em relativo isolamento e localizada no Recôncavo. Será focalizado, nesta seção, como se escolheu a comunidade de Sapé para integrar o Projeto
Vertentes.
Muitas investigações foram feitas até se chegar à comunidade ideal80, comunidade composta, predominantemente, de afro-descendentes, remanescente de quilombos ou de engenhos decadentes. Nessa busca, encontraram-se alguns obstáculos: ou os habitantes desse tipo de comunidade estavam fortemente integrados aos centros urbanos, principalmente, por motivos econômicos e pela invasão dos meios de comunicação, ou as comunidades, originariamente afro-descendentes, já haviam perdido suas características étnicas. Outro fator relevante observado foi a presença de particularidades lingüísticas nas comunidades visitadas. Em Sapé, é notável a ausência de concordância verbal e nominal81, além de apresentar um traço fonético bastante peculiar a seus habitantes, a substituição do /r/ por /s/ diante de consoante dento-alveolar [t], além das características próprias da zona rural.
Ainda há de se investigar a realidade sócio-histórica da comunidade antes de elegê-la nosso instrumento de observação. Para a hipótese proposta, a comunidade ideal seria aquela que tivesse tido a origem a partir de antigos quilombos, pois, espera-se que esses lugares guardem resquícios não só das tradições sociais, mas também do contato lingüístico, principalmente, se observados os falantes mais idosos. A história de Sapé não se configura dessa forma, a sua constituição deu-se, não por negros fugidos, mas por negros forros, que só se tornaram livres algum tempo após a libertação dos escravos e se reuniram na região por terem recebido dos antigos donos os pedaços de terra onde moram seus descendentes até hoje. Próxima à comunidade de Sapé, a uma distância aproximadamente de 10 quilômetros, situa-se uma comunidade branca cujo nome é bastante sugestivo Rapa Tição, um pouco mais antiga que Sapé. Essa separação racial em comunidades distintas também pode ser vista na região de Rio de Contas.
Quanto ao léxico, chamou-nos a atenção uma palavra na primeira visita à cidade: caçulo, uma variação de gênero de caçula de origem africana segundo Buarque de Hollanda (1996, p. 309).
Por todas as particularidades acima apontadas, Sapé foi a comunidade escolhida para realização do trabalho, entre três outras comunidades visitadas, a Ilha do Pati, Monte
80 O termo ideal aqui é utilizado no sentido apenas de atender aos critérios pré-estabelecidos de acordo com o
objetivo da pesquisa.
81 Fenômenos já estudados em outras comunidades e considerados evidência de crioulização prévia (Lucchesi,
Recôncavo e Santo Amaro, todas na região do Recôncavo, porém já bastante integradas à vida urbana. Além do fato de localizar-se próxima a comunidades quilombolas, como Tesoura e Orobó82 e com as quais os moradores têm contato. É importante salientar que essas comunidades quilombolas não foram escolhidas por estarem, como as outras mencionadas, mais integradas à vida urbana e por não se constituírem, predominantemente, por negros.