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exercício dos direitos fundamentais) 434 ou “a concretização de direitos fundamentas ” (indispensável à exequibilidade dos direitos e a prevenção de eventuais conflito de

5.5. As liberdades de aprender e de ensinar garantidas na CRP

5.5.1. A escolha da escola como um direito e um dever

Como já o afirmamos anteriormente, a liberdade de escolha da escola é um direito/dever dos pais que, só é concretizável se existir uma efectiva liberdade de projectos educativo das escolas particulares. Só assim se pode afirmar que a liberdade de escolha de escola está na base da liberdade de aprender e da liberdade de ensinar e, portanto, também do direito à educação a todos os cidadãos sem excepção, por ser o garante daquelas liberdades.

O direito à escola é segundo Gomes Canotilho, “o direito à aprendizagem da

leges artis de uma profissão inserida no mercado de trabalho. No plano analítico

diz-se que o direito à escola é o direito à obtenção de meios para estudar; o direito à aprendizagem das leis da profissão e o direito a resultados formativos em concorrência com as exigências do processo e da oferta do mercado de trabalho para jovens”541

. Por sua vez, a educação é ”uma coisa eminentemente social” 542 diz-nos Durkheim na sua obra Educação e Sociologia, que por essa razão aceita o controlo do Estado, “sem que este deva necessariamente monopolizar o ensino”543

.

Há portanto consenso em torno da necessidade de desenvolver as capacidades cognitivas e adquirir conhecimentos, sendo que para tal necessário a passagem por um sistema educativo que faculte os meios para sua aquisição dos saberes, avalie os desempenhos e confira certificados. As divergências surgem quando questionamos em particular o papel das famílias e do Estado.

Durkheim contrapõe aos direitos e deveres do Estado, os direitos da família, e defende que “a criança é antes de mais dos seus pais”544, razão pela qual a eles

541

Cfr. Gomes CANOTILHO – O Direito Constitucional como Ciência de Direcção, 2008, p. 4.

542

Cfr. Émile DURKHEIN – Educação e Sociologia, 2007, p. 14.

543

Idem, p. 61.

544

162

compete dirigir “o seu desenvolvimento intelectual e moral”545, justificando-se desse modo a primazia familiar em detrimento do Estado. Nas suas palavras:

“A educação é então concebida como uma coisa essencialmente privada e doméstica. Quando nos colocamos neste ponto de vista, tendemos naturalmente para reduzir o mínimo possível a intervenção do Estado na matéria. Este deverá, diz-se, limitar-se a servir de auxiliar e de substituto das famílias. Quando estas não estão em condições de cumprir os seus deveres, é natural que o Estado se encarregue disso. É até natural que ele lhes entregue a tarefa mais fácil possível, colocando à disposição escolas para onde possam, se o quiserem, enviar às crianças. Mas o Estado deve conter-se estritamente dentro destes limites, e evitar quáquer acção positiva destinada a imprimir uma orientação determinada no espírito da juventude”546 .

O pensamento de Émile Durkheim continua actual e muito próxima da posição defendida pela DUDH na qual “toda a pessoa tem direito à educação” (artigo 26.º, nº 1), pertencendo aos pais «a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos» (artigo 26.º, nº 3). Os mesmos valores são reafirmados pela Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia quando refere que são “respeitados, segundo as legislações nacionais que regem o respectivo exercício, a liberdade de criação de estabelecimentos de ensino, no respeito pelos princípios democráticos, e o direito dos pais de assegurarem a educação e o ensino dos filhos de acordo com as suas convicções religiosas, filosóficas e pedagógicas (artigo 14.º, nº 3).

Numa visão claramente oposta, João Barroso e Sofia Viseu, referem que a livre escolha da escola pelas famílias e pelos alunos é, sem dúvida, “um dos principais instrumentos para a criação de um mercado educativo”547

. Para o autor, esse mercado educativo tem vindo a ser construído através da “possibilidade de escolha das escolas pelas famílias, quer no interior do serviço público, quer entre escolas públicas e privadas”548

E as suas críticas à livre escolha acentuam-se quando refere que a

“A liberdade de escolha da escola pelos pais reforça a estratificação económica, social e étnica entre as escolas, uma vez que os critérios de escolha utilizados pelos pais de estatuto

545

Cfr. Émile DURKHEIN – Educação e Sociologia, 2007, p. 60.

546

Idem, Ibidem.

547

Cfr. BARROSO; VISEU – A interdependência entre escolas, 2006, p. 135.

548

163 económico mais elevado se baseiam mais na “qualidade” dos alunos do que na qualidade das aprendizagem e os pais das classes populares, ou de minorias étnicas, não têm informação, tempo e recursos para identificarem as “boas escolas” e, mesmo se tivessem, não tinham condições para porem em prática as suas opções. Ou seja, os comportamentos das famílias não são homogéneos, havendo diferenças claras de estratégias e resultados, conforme o seu estatuto social e proximidade dos valores escolares pelo que em vez de diversificar a oferta o que este tipo de regulação faz é hierarquizá-la”549.

Não obstante as críticas, a interpretação que fazemos da Constituição, permite-nos alegar que a liberdade de escolha resulta da combinação do já citado direito e dever dos pais na educação dos filhos (artigo 36.º, nº 5), com a incumbência do Estado em «cooperar com os pais na educação dos filhos» (artigo 67.º, nº 2, al c e 68.º, nº 1). Este entendimento sugere que seja assegurada a existência quer das escolas privadas, quer das públicas para que haja na verdade uma liberdade de escolha, mas simultaneamente e em conjunto com a racionalidade, eficiência e qualidade do ensino, deve ser assumida uma nova concepção dos direitos sociais. Temática à qual voltaremos no capítulo dedicado à Constituição social.

Uma última referência ao Relatório sobre Portugal produzido pelo Fundo Monetário Internacional, onde no que se refere à escolha da escola podemos extrair a seguinte perspectiva:

“Where they coexist with public schools, they are often the first choice for parents. The Tribunal de Contas study found that charter school costs were lower by about €400 per student than for regular public schools, while the subsequent MEC working group study estimated the difference at only €50 per student after adjusting for expenditure cuts that have been made since 2009/10”550

.

O acima exposto, traduz um importante contributo para a discussão do tema em estudo: liberdade de educação e direito à educação. Em suma o Relatório exige a combinação de mais produtividade e eficiência com um menor custo. O objectivo é

549

Cfr. BARROSO; VISEU – A interdependência entre escolas, 2006, p.135-136.

550

Cfr. FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL – Rethinking the State - Selected Expanditure Reform Options, 2013, p. 62.

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flexibilizar o sistema educativo e limitador o papel do Estado como prestador de serviços educativos.