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ESCRITA NO ESPAÇO INSTITUCIONAL

3.2 DIRECIONAMENTO DO ENSINO DA LINGUAGEM ESCRITA NA ATUALIDADE: PONTOS DE CONVERGÊNCIA ENTRE OS

3.2.3 A escrita no 4º ano do Ensino Fundamental

Ao longo do período histórico da educação no Brasil, observa-se a hegemonia de determinadas teorias. Os documentos oficiais são exemplo de institucionalização de discursos calcados em definições teóricas de determinados autores. Hoje, é certo que a concepção de linguagem como interação defendida tanto por Bakhtin quanto por Vigotski é viga mestra das orientações teórico-práticas do currículo de educação nacional, amplamente divulgadas pelos PCN e pelas Propostas Curriculares. Além disso, a mediação – importante conceito do processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança defendido por Vigotski – resgata, nesses documentos, o papel do professor e da escola no compromisso com o ensino e a aprendizagem.

Essa posição social do professor (mediador) materializa-se, por exemplo, nas situações de aprendizagem sobre a língua, considerando sempre o aspecto interacional da linguagem e as condições em que ela é produzida no espaço da sala de aula. As interações com a linguagem escrita de gêneros não totalmente familiares ainda às crianças, por exemplo, tornam-se oportunidades para o esclarecimento sobre as condições de produção (para quem estamos escrevendo, com qual intenção, por meio de que gênero etc.). Outras situações de produção podem exigir a mediação do professor como leitor, principalmente nas atividades que dizem respeito especificamente ao desenvolvimento das habilidades de escrita de textos. Em relação ao ato de ler, ou seja, na interação com o texto, a mediação do professor também é necessária. Significa dizer que o professor mediador está em relação direta com a atividade de produção que leva à aprendizagem e ao desenvolvimento do conhecimento da escrita e, consequentemente, à conquista da autonomia.

Essa postura do professor como mediador no processo de ensino e aprendizagem da linguagem escrita, então, reafirmaria a concepção de linguagem como interação.

A PC-SC, por exemplo, alerta para a necessidade de mudança efetiva na postura do professor, pois o discurso pedagógico, à época em que foi escrita, apresentava uma tendência para o autoritarismo, contrariando o princípio interacional da linguagem hoje tão amplamente divulgado. O documento assim se expressa:

A compreensão e adoção do princípio interacional deve levar a uma série de atitudes que devem redirecionar o processo pedagógico: escutar o

aluno; permitir que ele apresente seu ponto de vista e o defenda; interessar-se pela história de sua vida; não obrigá-lo a falar ou escrever sobre um tema que ele não domina; não impor modelos rígidos para realização de tarefas; aceitar interpretações ou leituras adequadas; permitir que ele se leia e se corrija quando e quantas vezes necessário; realizar tarefas coletivas com distribuição e revezamento de papéis; equilibrar as tarefas de estrutura com outras de caráter oral; apresentar problemas inovadores para que a resposta seja buscada como desafio; permitir que o aluno compare, contraste, generalize, particularize, descubra semelhanças e diferenças através de sua própria atividade mental; permitir que ele pesquise e crie, enfim – e criar é ser também um bom professor. (SANTA CATARINA, 1998, p.63).

Depreende-se daí a importância do papel do professor para a aprendizagem ocorrida no espaço escolar. Isso significa dizer que a ação pedagógica baseada em um ensino verticalizado pelo qual se concede ênfase à transmissão do professor (emissor – aquele que sabe) para o aluno (receptor – aquele que ignora), deve ceder lugar à aprendizagem em consonância com os pressupostos do princípio interacional da linguagem. Certamente esse enfoque poderá proporcionar significativas mudanças no ensino-aprendizagem da linguagem, de acordo com o referido documento:

Priorizar o ensino é, fundamentalmente, omitir e/ou recusar o princípio interacional da linguagem e, por extensão, da construção societária no mundo humano. Encarar a aprendizagem para dar sentido ao ensino é, antes de mais nada, interagir, interpretar, compreender, participar. É, também, como corolário, abandonar o autoritarismo nas relações dentro da escola e da sala de aula. Por outro lado compreender o processo de aprendizagem é atuar no sentido de que haja continuidade na conquista do saber, o que nunca acontece na solidão – isto é, para caminhar com o aluno, o professor também vai, necessariamente, construindo o seu próprio saber (que, aliás, deve ser registrado através de relatos, para que seja possível a interação e o aprendizado

em outros níveis dentro da própria escola) (SANTA CATARINA, 1998, p.69).

Todavia há que se ter o cuidado de não cair novamente em extremismos ao assumir a abordagem discursiva da linguagem apresentada nos documentos oficiais de educação: o professor deve estar apto a estabelecer um equilíbrio entre ensino e aprendizagem, uma vez que a proposta sócio-histórica busca justamente uma relação de “tensão positiva” de diálogo entre professores e alunos. Procurando desenvolver a capacidade de produzir e compreender discursos nas mais diversas situações de interação, bem como levar os alunos à reflexão e à análise em torno do que produziram, o professor encaminhará seus alunos rumo à autonomia discursiva, como sujeitos da enunciação.

Destacamos, assim, o papel decisivo da escola no desenvolvimento da autonomia discursiva da criança. Como vimos acima, essa autonomia advirá do necessário equilíbrio entre ensino e aprendizagem.

Especificamente em relação ao 4º ano do Ensino Fundamental, caracterizamos como evidência de autonomia discursiva dos alunos requerida para essa etapa de escolaridade, a produção de textos orais ou escritos com sentido. Portanto, as situações de aprendizagem devem ocorrer de maneira a formar o produtor de textos23. As aprendizagens para a formação do processo de autoria – que começa a se constituir nos três primeiros anos de escolaridade e, a nosso ver, precisa se fortalecer já no 4º ano do Ensino Fundamental – ocorrem por meio de práticas de escrita que contemplam as três dimensões constitutivas do enunciado defendidas por Bakhtin e por nós já destacadas: o objeto, seu sentido (tema), o projeto de discurso, vontade de discurso (estilo), e as formas típicas composicionais (composição). Para tanto há que se considerar a situação de comunicação (a qual define a escolha do enunciado e os vínculos composicionais). Sem perder de vista essas dimensões em situações de uso da linguagem escrita concretizada no enunciado pleno, o professor promove a relação do autor dos primeiros textos com as condições de produção recém iniciadas – como, por exemplo, a de ter o interlocutor “ausente” no momento da produção. Sendo o professor do 4º ano o interlocutor dos textos dos alunos e também o interlocutor dos textos lidos com os alunos, estará dando passos largos em direção à

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Ao usarmos a expressão “produtor de textos”, é importante lembrar que a estamos compreendendo no contexto das condições de produção e de recepção do discurso.

autonomia incentivando a continuidade do processo de formação de leitores e autores apenas iniciado.

Depois dos três anos de alfabetização orientados nessa perspectiva, o 4º ano de Ensino Fundamental é o momento de consolidação dos conhecimentos básicos sobre a linguagem e, além disso, a continuação do processo de aprendizagem rumo ao desenvolvimento de textos com autoria e de novos conhecimentos que os anos subsequentes exigirão.

4 METODOLOGIA DA PESQUISA – RELAÇÕES DIALÓGICAS