ANEXO 6 – Lista de expressões temporais
3.3 A estrutura temporal do discurso (VENDLER e DOWTY)
A relação entre tempo e discurso apóia-se em alguns conceitos e categorias nem sempre tomados no mesmo sentido. Para esclarecer alguns desses conceitos e categorias, VENDLER (1967) procurou desvendar, por meio da categoria dos verbos, uma maneira particular de expressão do tempo, diferentemente de sua divisão tradicional em presente, passado e futuro. A categoria dos verbos, segundo VENDLER (1967), pressupõe o que denomina time schemata, uma espécie de
esquemas temporais. Para demonstrar a existência desses esquemas, ele analisa
alguns verbos do inglês que expressam um processo ao longo do tempo, como em I
am running (Estou correndo), como resposta para a pergunta 1: What are you doing ? (O que você está fazendo?). A pergunta 1 não poderia ser respondida por *I am knowing (Estou conhecendo), o que significa que, em inglês, há verbos que
admitem os tempos progressivos (expressos pela terminação –ing) como o verbo to
run (correr) e verbos que não o admitem, como o verbo to know (conhecer). Tal
distinção sugere a existência de verbos (como to run) que expressam processos que ocorrem ao longo do tempo, ou seja, consistem em uma seqüência de fases. VENDLER (1967) identifica dois tipos de verbos entre os que admitem os tempos progressivos, isto é, verbos que apresentam dois esquemas temporais: o primeiro consiste nos verbos que exprimem atividade e o segundo, verbos que exprimem
accomplishment (atividade/tarefa finalizada). Exemplo clássico do primeiro tipo é o
verbo correr. Se alguém que corre resolve, num dado momento, parar de correr, mesmo assim pode-se dizer que ele correu, ou que ele praticou a atividade de
correr. Se alguém que pratica o cooper (corre 4 km em até 12 minutos) resolve parar
definitivamente no meio da corrida, ele não praticou cooper. Assim, praticar cooper é uma tarefa finalizada. Atividades e tarefas finalizadas são esquemas temporais.
Outra característica dos verbos de atividade consiste no fato de o processo ser distribuído homogeneamente ao longo do tempo, como em Corri durante 20 minutos, ou seja, a ação de correr foi distribuída homogeneamente ao longo do tempo. Por outro lado, em Corri 4 quilômetros em 20 minutos não quer dizer, necessariamente, que o processo tenha ocorrido homogeneamente, sem interrupção, ao longo do tempo, da mesma forma que, em Escrevi a tese em 4 meses, não significa dizer que em todo e qualquer momento do período de 4 meses eu tenha ficado escrevendo, embora estivesse engajado no propósito de fazê-lo.
Os verbos que não apresentam o aspecto progressivo – ou não expressam processo ao longo de um período de tempo – também podem ser subdivididos em dois grupos. O primeiro, chamado de achievement terms (termos que expressam a
realização) é composto pelos verbos que se referem a momentos precisos, como em
chegar ao topo, vencer a corrida, ganhar na loteria, reconhecer alguém, e o segundo
grupo, que se refere a certos períodos de tempo, é chamado de state terms (termos estativos), tais como: amar alguém, acreditar em algo, que têm um valor de verdade relacionado a um período de tempo. VENDLER (1967) propõe, portanto, os seguintes esquemas temporais para os verbos (do inglês)47:
1) atividade => A was running at time t (A estava correndo no momento t), significa dizer que o instante t pertence a um intervalo em que A estava correndo;
2) accomplishment (tarefa finalizada) => A was drawing a circle at t (A estava traçando um círculo no momento t) significa que t está situado no intervalo de tempo em que A levou para concluir a atividade;
3) achievement (expressão de realização) => A won a race between t1 and t2 (A venceu a corrida entre t1 e t2) significa que o momento em que A venceu a corrida se situa entre t1 e t2;
4) states (estativos) =>A loved somebody from t1 to t2 (A amou alguém de t1 a t2) significa que, em qualquer instante situado entre t1 e t2, A amou alguém.
Como os exemplos citados por VENDLER (1967) são, em sua maioria, acompanhados por expressões adverbiais temporais, DOWTY (1986) levanta a hipótese de que, em discursos que apresentam tarefas finalizadas ou expressões da realização sem a presença de expressões adverbiais, o processo descrito em um enunciado é interpretado como posterior ao processo expresso pelo enunciado antecedente. Isto é, o tempo, num discurso temporalmente marcado, flui naturalmente para frente, noção compatível com a representação do fluxo do tempo por meio de uma seta apontando para a direita. Além disso, no caso da ausência de
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outras formas temporais, como orações subordinadas ou concordância de tempos, a classe aspectual dos predicados parece determinar as relações temporais, ou seja, na ausência de outra marca mais explícita, os esquemas temporais indiciariam a temporalidade discursiva.
A questão central da proposta de DOWTY (1986) não é situar os processos e estados no tempo, mas situá-los uns em relação aos outros, ou seja, ele se interessa pela ordem do discurso, um dos aspectos da temporalidade discursiva. As relações temporais no discurso para DOWTY (1986) são determinadas por meio de(da):
1) análise semântica das classes aspectuais (esquemas temporais); 2) um princípio de interpretação de frases sucessivas;
3) uma dose significativa de implicatura (nos termos de GRICE, 1979) e um raciocínio baseado em conhecimento de mundo.
As classes aspectuais do item 1 referem-se às atividades/tarefas finalizadas/expressões de realização/estativos de VENDLER (1967). A distinção entre tarefas finalizadas e expressões de realização nem sempre apresenta contornos bem definidos. É o caso do verbo morrer, que para VENDLER (1967), expressa uma realização e que pode ser também considerado um processo finalizado, já que, do ponto de vista médico, por exemplo, morrer não é um processo instantâneo, mas apresenta uma certa duração. Como o próprio VENDLER (1967) admite, sua classificação de esquemas temporais não pretende contemplar todos os verbos da língua. Admite, ainda, que um mesmo verbo pode expressar mais de um esquema. Sua intenção consiste em sugerir uma forma de descrição do uso de verbos que apresentam dois ou mais esquemas temporais.
O princípio citado no item 2 é denominado princípio de interpretação do discurso
temporal (doravante, PIDT), no qual, a partir de uma seqüência de sentenças S1, S2, … Sn a serem interpretadas como discurso temporal, o tempo de referência de cada sentença Si é:
( i ) o tempo expresso pela expressão adverbial, se houver uma;
( ii ) o tempo imediatamente posterior ao tempo de referência de Si – 1.
O tempo de referência corresponde ao tempo em que o evento ou estado efetivamente ocorreu, se se tratar de passado. DOWTY (1986) distingue o tempo do acontecimento de outro que ele chama de tempo da fala (speech time), no qual
"…the sentence is heard or read by the reader" 48 (DOWTY 1986:45). Se o tempo de referência ( i ) for anterior ao momento da fala ( j ), tem-se a expressão do passado. Se ( i ) e ( j ) forem coincidentes, tem-se o presente, e se ( i ) for posterior a ( j ) faz- se alusão ao futuro. Assim, as relações entre tempo do acontecimento e tempo da fala definem semanticamente o passado, o presente e o futuro.
O PIDT prevê que as sentenças com aspectos perfectivos ou progressivos não mencionam o tempo da fala, mas o situa em um outro instante (i1), que mantém uma relação específica com ( i ). As expressões adverbiais definidas situam o tempo de referência em uma data ou momento preciso.
Um exemplo citado pelo próprio DOWTY(1986) parece contradizer a condição ( ii ) do PIDT:
John hurried to Mary’s house after work. But Mary had already left for dinner. (John
correu para a casa de Mary depois do trabalho. Porém, Mary saíra para jantar).
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A primeira parte John hurried to Mary’s house after work encontra-se no Simple Past (Pretérito Perfeito regular) e contém, além da desinência –ed do verbo hurry outra marca temporal after work, que poderia ser representada assim:
--- --- --- --- i (i1 – 1) i1 i2 T onde i = momento em que John terminou seu trabalho;
i1 = momento em que John chegou à casa de Mary;
i1 – i = intervalo de tempo entre o término do trabalho e a chegada de John até a casa de Mary;
i2 = momento da enunciação (speech time); T = (linha do) tempo.
A segunda frase encontra-se no Past Perfect (pretérito-mais-que-perfeito) – had left, tempo passado que exprime uma anterioridade em relação a outro evento, também no passado. Quando John chegou à casa de Mary, ela não se encontrava lá. Ela pode ter saído em qualquer momento anterior à chegada de John, inclusive depois de John ter terminado seu trabalho, ou seja, entre i e i1. Isso indica que o momento exato da saída de Maria não é recuperável por essa seqüência de frases, podendo estar situado à esquerda ou à direita de i, mas nunca à direita de i1, como prevê o PIDT. DOWTY (1986) tenta salvar sua análise do Present Perfect, apoiando-se no conceito de implicaturas conversacionais (GRICE, 1979), sugerindo que há recursos na língua para se expressar a simultaneidade entre o tempo da segunda frase e o intervalo entre i e i1, e assim descarta a possibilidade de Mary ter saído entre os instantes i e i1.
Essa análise mostra que a semântica sozinha não explica a questão do intervalo entre os acontecimentos ou de sua sobreposição temporal, sendo necessário algo mais, como sugere o próprio DOWTY (1986:60): "…pragmatics inference play a role in
determining the ordering of events conveyed by a discourse." 49 Em outros termos, a ordem dos eventos depende da significação das frases isoladas, da sua ancoragem a um tempo de referência; da relação da temporalidade da frase com outras frases e da sua atualização (transformação em enunciado). Mesmo se se considerar que o locutor tenha escolhido recursos lingüísticos precisos para expressar seu pensamento, cabe ao ouvinte/leitor a tarefa de fazer o percurso inverso e reconstruir o pensamento daquele que produziu o discurso. É essa reconstrução que nos interessa neste trabalho. Se a língua oferece recursos diversos que indiciam o sentido desejado, não se tem nenhuma garantia de que o dito seja expressão exata da intenção do locutor. Daí, a tarefa complexa do leitor que, ao se deparar com expressão de uma provável idéia, procura sua reconstrução. Se acrescentarmos o fato de o texto ser em língua estrangeira, sua tarefa se torna ainda mais complexa. Não se trata aqui de justificar o possível fracasso do leitor ao interpretar, através do discurso escrito, as relações temporais nele presentes, mas de situar esta tarefa nas perspectivas semântica, pragmática e discursiva da linguagem.