CAPÍTULO II – AS RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL E SUAS
3. Breve história do movimento radiofônico comunitário no Brasil
3.1 A evolução das rádios comunitárias no Brasil
As rádios comunitárias brasileiras evoluem em diversas frentes: lutas, regionalidades, localidades e intenções de continuar beneficiando as comunidades.
José Ignácio López Vigil (2003, p.496) destaca que uma rádio comunitária não se distingue apenas pela potência do sinal, não sendo só para áreas rurais, para populações em locais distantes dos centros urbanos; não são somente periféricas, nem muito menos provisórias, desenvolve-se nos mais diferentes tipos de comunidades, lugares (urbanos ou rurais), operando sem fronteiras, sem ser necessariamente amadora, mas também feita pela população.
Para Cicilia Peruzzo (1998, p.7), é importante as rádios serem chamadas de comunitárias em vez da nomenclatura de rádios piratas (termo até hoje aplicado principalmente pelas emissoras comerciais ou grupos comunicacionais hegemônicos), pois:
Essas expressões estão carregadas de conotações ideológicas. Quando são chamadas de comunitárias normalmente se lhes atribui um caráter público. São vistas enquanto engajadas nas atividades comunitárias e, portanto, portadoras de potencial para contribuir para o desenvolvimento social e na construção da cidadania. Ao serem taxadas de piratas elas são tidas como ilegais, invasoras e perversas (PERUZZO, 1998, p.7).
Segundo Raquel Paiva (2003, p.139), “uma das razões para a criação de um veículo comunitário é a vontade de produção de fala própria, sem filtros e intermediários”. Para Denise Cogo (2004, p.45) “a comunicação comunitária radiofônica é um tipo de comunicação que se baseia principalmente nos modelos das rádios comunitárias, reivindicando o que é comum, o que é mais pautado para os interesses do nicho comunitário”, onde também:
Há diferentes tipos de rádios de baixa potência que se autodenominam comunitárias, mas que em muitos casos estão mais próximas às rádios convencionais, tanto comerciais como religiosas. Além das rádios comunitárias, há emissoras que se dizem comunitárias, mas que na prática são de caráter comercial (rádio local como negócio) e/ou vinculadas a igrejas e políticos “profissionais”. Todos estes tipos de emissoras tendem a prestar alguns serviços em benefício das “comunidades”, mas não são propriamente comunitárias, no sentido de pertencerem, ou melhor, de serem gerenciadas e operadas por organizações coletivas representativas locais (PERUZZO, 2011, p.3).
Maria Terezinha da Silva (2007, p.153) inspira-se em Jesús Martín-Barbero (estudioso das mediações) para dizer que as rádios comunitárias também podem midiatizar e estarem consonantes com as normatizações jurídicas, econômicas, políticas e instigarem o associativismo civil e afirmações identitárias nos nichos em que estão inseridas. Com relação
a essa questão identitária, é interessante lembrar, conforme dito anteriormente, sobre comunicação comunitária, que essa questão importante, justamente por instigar o comunitarismo e o pertencimento.
Destaque-se assim o sucesso das emissoras de rádio comunitária no Brasil (muitas em termos quantitativos, em aumentarem o número de canais e outras – mais importantes – em termos qualitativos – sendo pioneiras e combativas vozes), principalmente em locais isolados ou não beneficiados por políticas adequadas pelos poderes públicos constituídos.
A prática tem demonstrado que pequenas emissoras comunitárias tem conseguido índices altos de audiência e de aceitação pelas comunidades locais. Primeiro porque desenvolvem uma programação sintonizada com os interesses, cultura e problemática locais. Segundo porque têm revelado grande capacidade de inovar programas e linguagens, o que as diferenciam das FMs tradicionais. Terceiro porque acabam revelando um grande potencial de atrair os anunciantes locais tanto pelo preço mais baixo das inserções, quanto pela possibilidade da alta segmentação de mercado, ou seja, atinge diretamente o público-alvo do anunciante local (PERUZZO, 1998, p.7).
Há perseguições, praticamente sem limites, contra as rádios comunitárias no Brasil.59
Pelo modo como se dá a repressão às rádios comunitárias, não é difícil compreender a ameaça que elas representam ao projeto de hegemonia das elites. O pânico mal dissimulado que a utilização popular desses meios de comunicação provoca nas classes dirigentes fortalece a nossa convicção de que o desenvolvimento de jornais, rádios e TVs comunitários é uma estratégia vital na luta por uma nova cultura (COUTINHO; PAIVA, 2011 p.6).
A perseguição ao movimento de rádios comunitárias é histórica e recrudesce. Em um primeiro momento, deu-se com o fechamento das emissoras. Com as pressões do movimento e conscientização após a Lei de Rádios Comunitárias (número 9.612/98), algumas emissoras começaram a entrar na Justiça Federal pelo direito de comunicar e funcionaram via liminares. O passo seguinte à perseguição foi da cassação dessas liminares e perseguição de meios de comunicação comerciais em forte campanha, classificando, negativamente, as rádios comunitárias brasileiras como “rádios piratas”, inclusive sobre o fato de essas emissoras poderem derrubar até avião. O passo seguinte foi o de lacre, fechamento e confisco de equipamentos, o que mexeu financeiramente com as emissoras, já que os equipamentos são o que corresponde ao maior custo para funcionamento de uma rádio. Mesmo assim, a maioria
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Além da fiscalização legal pela ANATEL, que geralmente age com segurança da Polícia Federal, há também denúncias constantes contra o funcionamento das emissoras, principalmente de meios de comunicação convencionais, de políticos incomodados com denúncias feitas pelas comunidades e localidades e até por rádios comunitárias que já conseguiram legalização. E, ultimamente, também denúncias contra o radialismo comunitário partem do próprio movimento de rádios comunitárias, notadamente de emissoras que conseguiram a legalização e, muitas vezes incomodadas com as não legalizadas, agem denunciando aos órgãos fiscalizadores.
das FMs comunitárias conseguia outros equipamentos. A nova “moda” é agora o processo, via Código Penal, em que comunicadores comunitários são acionados juridicamente na Justiça Federal porque estariam cometendo crimes, por emitirem ondas sonoras sem autorização oficial. Isso termina por gerar prisões de comunicadores e acúmulo de processos em cima de líderes comunitários radiofônicos.60
Raquel Paiva e Muniz Sodré (2003) ressaltam como são tratados os produtores de emissoras comunitárias, principalmente os das rádios ainda não legalizadas:
Agentes federais invadem as rádios, exibem um mandado de busca e apreensão (geralmente, não deixam cópias, que são entregues apenas no meio do processo) e levam todo o material. Não raro, esse tipo de procedimento é apoiado por armas pesadas, e pode mesmo ocorrer que os responsáveis saiam dali algemados para a prisão (PAIVA; SODRÉ, 2003, p.38).
É uma clara analogia à perseguição que os comunicadores sofrem dos órgãos oficiais e também dos meios de comunicação comerciais.
Diante deste quadro, pode-se perceber, em pleno século 21, as conformações de uma luta social pela liberdade de expressão num setor específico dos meios de comunicação. Uma luta com conformações medievais, travada basicamente entre grupos majoritários, hegemônicos, representantes da elite industrial, política e latifundiária brasileira e uma parcela significativa da população, representada principalmente pelas organizações não governamentais e movimentos populares (PAIVA; SODRÉ, 2003, p.38).
Fábio Mansano (2004, p.5) discorre acerca da importância das diversas formas de participação nas rádios comunitárias, e promove o reconhecimento do outro como aliado e o próprio reconhecimento. Para este autor (2004, p.5), as rádios comunitárias representam atualmente um dos passos mais importantes dados pela sociedade brasileira no caminho da democratização dos meios de comunicação.
Conforme José Marques de Melo (2003, p.20), quanto mais transparentes forem os meios de comunicação, maior será a transformação dos cidadãos em partícipes cotidianos das decisões tomadas pelos três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). A premissa também é válida para rádios comunitárias, que, por terem a possibilidade de estar próximas às comunidades e ao cidadão, podem transpor ainda mais essa possibilidade de participação cotidiana.
60 Alguns já estão cumprindo pena. Em razão de o crime ser de menor poder ofensivo, as penas são revertidas em
serviços comunitários ou na proibição de o condenado sair de casa em determinados dias e horários. O paradoxal é que prestar serviço comunitário como pena se isso já é ou era feito pela rádio.
A comunicação comunitária deve ser utilizada como meio de comunicação do local, de novas conquistas de espaços; ou seja, espaços nos quais a comunidade possa se representar melhor. É o local de visão do oprimido em todos os sentidos, inclusive o comunicacional, da prática de suas identidades.
Segundo Mario Kaplún (1984), não há desenvolvimento sem participação consciente dos setores populares, em que estes se mobilizem, assumam papel protagonista e sejam criadores de soluções próprias.
Para Ladislau Dawbor, é na organização comunitária como “espaço local” ou “espaço de vida”, que se torna possível a recuperação do “controle por parte do cidadão no seu bairro e na sua comunidade” (apud SALDANHA, 2006, p.8).
Essas são contradições que geram processos de resistência em momentos de repressão social, de convergência histórica em momentos de acumulação de forças opositoras e de desarticulação dessas mesmas forças quando as condições internas que as geram se encontram incapazes de articular uma alternativa histórica. Portanto, os movimentos sociais existem nas sociedades tensionadas por conflitos de interesse entre as classes sociais. Neste sentido, os movimentos sociais se encontram de acordo com a conjuntura, com os interesses de grupos específicos, classes e segmentos de classes e em torno de projetos alternativos de sociedade (FESTA; SILVA, 1986, p.12, tradução nossa).
Segundo Cicilia Peruzzo (2007, p.246), “a comunicação comunitária diz respeito a um processo comunicativo que requer o envolvimento das pessoas de uma ‘comunidade’, não apenas como receptoras de mensagens, mas como protagonistas dos conteúdos e da gestão dos meios de comunicação”.61 Esta autora enfatiza que as elites da radiodifusão não querem dividir o poder da palavra (2006, p.141-149). Sempre monopolizaram o uso dos meios de comunicação para disseminação de sua visão de mundo e defesa dos interesses das classes dominantes. As rádios comunitárias rompem essa situação ao transmitir a voz das classes populares, a partir de seu modo de falar e das condições de existência de cada localidade.
Márcia Vidal Nunes (2001, p.234), sobre a diferenciação entre rádios comunitárias que fazem e não fazem um trabalho comunitário ideal, apresenta o conceito de rádio comunitária autêntica, destacando-as como as que contam com gestão coletiva, participação plural e
61 A luta por uma rádio comunitária engajada, que não se limite a repetir ou distribuir informações geradas no
seio das classes governantes não é nova. Remonta quase que às origens desse meio de comunicação que, desde cedo, apresentou potencialidades democráticas, possuidor de uma característica técnica que possibilita a todos o acesso imediato a determinadas informações (SANTORO, 1981, p.97), destacando que o meio de comunicação, principalmente o popular, comunitário, deve sair apenas do status de distribuidor para o status de meio, bem como para ter o trabalho de informar, em nível local; é um instrumento de contrainformação, essencial como mobilizador e conscientizador em uma população quase nada alfabetizada. A expressividade pelas antenas dos sinais de rádio comunitárias do Brasil democratiza, como destaca SANTORO (1981, p.97), que as rádios comunitárias continuam tendo sua razão de existir.
programação elaborada pela população, atos fundamentais para o exercício alternativo da cidadania. Márcia Vidal (2001) ainda traz referências e reflete sobre o papel das rádios comunitárias no século XXI, lamentando a interferência política (partidária) e comercial na participação das comunidades nas rádios comunitárias.
Não é possível a consolidação da identidade comunitária através dessas emissoras, porque elas representam interesses privados específicos. Apropriando-se do espaço público, os políticos profissionais privatizam a cena pública e dissolvem a cena pública midiática, que se poderia constituir no livre espaço do debate democrático, para exaltar suas qualidades públicas, suas realizações, ao fazer campanha política de forma direta, indireta ou subliminar (NUNES, 2001, p.246).
Apesar de a autenticidade ser uma utopia, ou uma busca que pode excluir boa parte das rádios comunitárias do Brasil, é uma possibilidade válida, mas também não pode ser encarada de forma radical, pois, mesmo não sendo cem por cento comunitária, essas emissoras, em um âmbito local e regional, podem ter contribuições valorativas, principalmente nas regiões do País em que antes do advento das rádios comunitárias não existia nenhum meio de comunicação massiva. Um dos grandes desafios é justamente continuar a fazer em prol da comunidade que dizem representar.