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A Internet como rede sociotécnicas

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CAPÍTULO III – A INTERNET E OS NOVOS PROCESSOS

1. A Internet como rede sociotécnicas

Entende-se a Internet como sendo uma rede sociotécnica, em razão das possibilidades sociais geradas pela tecnologia, sem esquecer-se de que o contato e a função humanas são mais importantes que a tecnologia propriamente dita. Através de suas redes informáticas, ajuda ao que é social, por isso as tradicionais redes sociais, baseadas no contato humano, evoluem para as redes sociotécnicas, também mediadas pelas tecnologias atuais. Uma delas é a Internet.

A construção social de um social em rede, caracterizado por circuitos informativos interativos, obriga-nos a repensar as formas e as práticas das interações sociais fora da concepção funcional-estruturalista, baseada em relações comunicativas analógicas. O próprio papel da tecnologia comunicativa no interior das relações sociais deve ser completamente repensado. As fórmulas da sociedade de massa, baseadas na distinção identitária entre emissor e receptor, entre empresa e consumidor, entre instituições e cidadãos, entre público e privado, não conseguem mais explicar a complexidade das interações sociais nem as formas do habitar metageográficas contemporâneas (FELICE, 2008, p.23-24).

O termo sociotécnico advém da colaboração, da possibilidade de agentes estarem interagindo e compartilhando informações e vivências.

A rede sociotécnica é composta das relações entre humanos e não-humanos que tecem conhecimentos oriundos da “realidade”, trazendo a todo o momento novos componentes para a rede, via negociações estabelecidas. Nesse sentido, é possível estabelecer uma rede de conhecimentos em pleno desenvolvimento, através do contexto social e técnico da realidade dos envolvidos nela, modelados pelas negociações internas e externas ao laboratório de atuação (CARVALHO, 2007, p.48-49).

Ingrid Carvalho (2007, p.47), ao citar Bruno Latour (1990) sobre rede sociotécnica, enfatiza que uma das principais características é o fato de estas serem caóticas, fazerem parte de uma rede complexa de condicionalidades e de interações. Caos não é encarado como ponto desfavorável, mas sim como fator de agregação e de não controle, como complementaridade do processo comunicacional (LATOUR, 1990 apud CARVALHO, 2007, p.47).

O fato de ser caótico é justificado principalmente por conta da horizontalidade da Internet, que, muitas vezes, não tem um único ponto de emissão, mas vários, principalmente porque o emissor muitas vezes é o receptor. Não há um ponto inicial, e, muitas vezes, sequer um ponto final, a comunicação é dinâmica e viral. O termo viral vem de expansão rápida e às vezes exagerada de determinadas comunicações ou postagens na Internet. É essa virulidade que faz assuntos sérios ou considerados bobos ganharem repercussão regional, estadual, nacional e até mundial. Até hoje não há uma explicação lógica para a virulização, só se sabe que ela existe, ajudando a tornar a Internet positivamente caótica.

Uma rede sociotécnica84 também é classificada principalmente por sua:

Heterogeneidade, permitindo múltiplas entradas e conexões, marcada pela pluralidade e pela complexidade, adquirindo pontos de convergência e de bifurcação estabelecidos a todo o momento, definidos pelos agenciamentos internos sem limites externos. Sua topografia não se caracteriza amorfa, apresentando, porém, estruturas diferenciadas. Nesse caso, a estrutura caótica não se torna obstáculo à construção do conhecimento; ao contrário, ver-se-á que é o melhor dos coadjuvantes para o desenvolvimento do conhecimento (CARVALHO, 2007, p.47).

Convém lembrar-se de que nem todas as redes são virtuais, muito menos de que estão conectadas pela Internet. Há redes físicas, inclusive as redes sociais nascem de redes físicas no território. As redes existem desde o período em que o homem começou a organizar-se; e foi por meio delas que foi instigada a facilitação de sua comunicação, algumas vezes para suprir questões pessoais e familiares, utilizando-se desses canais, também para realizar transações comerciais e até estratégias militares.

A Internet tem abrangência mundial. Ela está presente, ao menos, via conexão por satélite, em todos os lugares do Planeta, podendo ser captada em todos os cantos, desde que haja aparelhos receptores. Também pelo menos algum lugar dos 205 países (ou lugares

84 “A rede não pode ser confundida com um único tipo de vínculo, pois é capaz de crescer por todos os lados e

direções, sendo seu único elemento constitutivo o nó (entende-se por construção dos nós o desencadear da pesquisa). Para tanto, a habilidade dos atores de se propagarem na rede, tecendo as malhas do conhecimento (entende-se por malhas: fios conectores dos nós que sustentam a produção científica, concretizando o fato – o próprio conhecimento científico), envolve apropriar-se de preceitos científicos, bem como de questões referentes à sobrevivência humana ou ao futuro de reservas naturais do País, nas quais permeiam as redes sociotécnicas, tecidas a todo o momento” (CARVALHO, 2007, p.49).

reconhecidos como tal) do mundo está interconectado com essa super-rede. Além de satélite, as conexões de Internet podem ser feitas por cabo, telefone ou rádio.85

Por sua vez, a Internet só pode ser encarada como uma rede sociotécnica a partir do momento em que haja organicidade.

Em rede sociotécnica, as relações sociais só acontecem quando ela se constitui efetivamente participativa e colaborativa, com características de um grupo e não apenas de um agrupamento. A diferença entre grupo e agrupamento foi estabelecida pelo filósofo J. Paul Sartre (2002), referindo-se ao grupo como uma relação mútua e dependente e o agrupamento como uma situação de passividade e indiferença (CARVALHO, 2007, p.52).

Concorda-se com Fabiano Marques Vieira (2006, p.34) quando destaca que essa rede sociotécnica possibilita grandes formas de compartilhamento de recursos e informações. Sendo que, em uma perspectiva mais social, o conceito pode cair um pouco por terra. Ela é uma consequência direta dos avanços sociais políticos e econômicos vividos pela humanidade. Tais avanços permitem uma comunicabilidade mais direta e muito mais rápida, principalmente em uma perspectiva instantânea e eficaz. Se antes o telefone possibilitava uma comunicabilidade sonora e o fax uma comunicabilidade de envio de textos, a Internet reúne tais características e muitas outras.

Tudo, do ontem a hoje, é passado por redes. A Internet potencializa essas redes e instiga outras, principalmente no campo virtual, retroalimentando esse campo com o real e o mundo físico. É que a Internet também popularizou as redes, praticamente as mundializando e sedimentando. Trata-se de uma razão para encarar-se o conceito de Balanchander Krishnamurthy e Jennifer Rexford (2001, p.10-11), da rede como um meio de comunicação, para transportar mensagens entre os computadores da Web, oferecidos na Internet, sendo que Web dá aos usuários da Internet o acesso a recursos por meio da troca de mensagens HTTP.86 A sigla Web vem justamente de World Wide Web, que é o universo por meio de informações acessíveis por meio de computadores interligados. Essa perspectiva informacional também ajuda a entender o que é o mundo das redes de computadores, principalmente para uma utilização social.

85 Atualmente estuda-se a transmissão massiva da Internet através do sistema de fornecimento de energia

elétrica; ou seja, por meio da fiação que comumente transporta energia elétrica. Outra forma já utilizada é a transmissão por cabos de fibra óptica, o que garante forte ganho na socialização de dados. Quanto mais rápida é a conexão de Internet maior possibilidade de ganhos sociais e políticos.

86 Uma mensagem HTTP significa um código de transmissão informacional justamente para explanar sobre a

comunicabilidade entre computadores ou servidores (que provém vários computadores) para uma rede integrada de computadores, geralmente ligada à Internet. “Hyper Text Transfer Protocol. Foi desenvolvido originalmente para transferir páginas HTML, mas pode e é usado também para outros tipos de arquivo. As páginas WEB são acessadas usando-se este protocolo” (HARDWARE, 2013).

Mark Burgess (2006, p.33) conceitua rede como sendo um conjunto de caminhos para a comunicação entre dois ou mais ambientes informacionais. Fabiano Marques Vieira (2006, p.17) acrescenta que as redes são projetadas para apoiar os usuários. O usuário é o sujeito ativo do processo comunicacional na rede. Ele utiliza a Internet não só no sentido de receber, mas também de emitir, tornando o ato mais dinâmico e horizontal. Essa é uma das grandes diferenciações dessa rede em relação a outras. E, principalmente, devido a sua rapidez de circulação de informações e capacidade de formar elos entre esses usuários, é que se caracteriza como um dos maiores inventos do mundo moderno, essencialmente em sua perspectiva social.

Rose Marie Inojosa (1999, p.120) traz o conceito de rede de compromisso social. Esse tipo de rede ocorre com a mobilização de pessoas físicas e jurídicas, notadamente a partir da percepção de um problema que rompe ou põe em risco o equilíbrio social. “Esta percepção ampliada da sociedade atrai estas pessoas para articular-se em função de um propósito comum e as leva a definir, em conjunto, um objetivo em comum, capaz de ser realizado através dessa articulação” (INOJOSA, 1999, p.120).

Fabiana Mayumi Kuriki et al. (2005, p.22-30) destacam que uma rede ou as redes têm como principais características uma estrutura horizontal, instigando a democracia e a participação, bem como sendo aberta para instigar a presencialidade, com valores e objetivos compartilhados, instigar a autonomia e a identidade, sendo que os efeitos organizacionais em uma rede só fazem sentido com participação. “É isso que promove o desenvolvimento da rede, não apenas a atuação pontual e individual de cada organização” (KURIKI et al., 2005, p.53).

As redes, segundo Guido Lemos, Luiz Gomes Soares e Sérgio Colcher (1995, p.10), organizam a comunicação. Isso é dado principalmente pela característica da própria função da rede, mesmo ela não sendo digital. Por isso as redes frequentemente também são chamadas de comunidade ou por sua organicidade são encaradas como tal.87

Outro conceito da informática que também converge para a perspectiva social é dado sobre a diferença entre rede e sistema distribuído. Andrew S. Tanenbaum (1997, p.2-3) frisa que em uma rede os usuários são logados88 explicitamente; são conhecidos ou se fazem conhecidos. Por outro lado, em um sistema distribuído, nada é explícito, sendo que tudo é feito automaticamente sem conhecimento do usuário. A rede movimenta o sistema

87 Conforme será visto no transcorrer deste capítulo.

88 Logado é a ação de logar, que significa estar conectado ou conectado a alguma rede. Essa conexão ocorre

principalmente com a inserção de um usuário cadastrado (conhecido por login) em alguma rede que geralmente adentra o sistema através de uma senha.

distribuído.89 Por isso as redes são mais complexas e mais importantes, justamente uma grande justificativa para as questões sociais da nossa contemporaneidade.

Do ponto de vista sociológico, Maria da Glória Gohn (2008, p.446) classifica as redes como sendo a capacidade de articulação da multiplicidade do diverso. Isso é justificado principalmente por conta do poder de multiplicação de atores e até de vozes nos processos.

Esse conceito informático traz uma reflexão sobre o poder da rede e a positividade na sua concentração enquanto elemento agregador não só no virtual, mas também no mundo real.

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