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Um conceito popular via estudiosos e ativistas que há anos refletem, lutam

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CAPÍTULO II – AS RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL E SUAS

1. O que é uma rádio comunitária? Ampliando os conceitos Uma caracterização

1.3 Um conceito popular via estudiosos e ativistas que há anos refletem, lutam

São socializados alguns conceitos vindos de agentes de movimentos sociais e de partícipes das entidades específicas e históricas que lutam pela instalação, manutenção, legalização e continuação na batalha de melhor comunicar pelas rádios comunitárias no Brasil. A luta é de mais de trinta anos. Esse movimento, apesar de heterogêneo, tem forte representatividade e interação entre pessoas de vários cantos do País.

No Brasil, as rádios comunitárias são originárias principalmente dos movimentos populares e sociais que viram, nessas emissoras, uma ação diferencial e, de voz e vez, para as comunidades que representavam. Márcia Detoni (2004, p.279), aderindo aos aspectos teóricos mais aceitos no aporte que explica socialmente o que são essas emissoras, classifica rádio comunitária como o tipo de meio de comunicação social que tem:

Programação voltada para os problemas e realidades do bairro ou região, que valorize a cultura local e tenha um forte compromisso com a educação para a cidadania; participação direta da população ao microfone e na produção dos programas; participação da comunidade no gerenciamento e na definição dos programas da emissora por meio de assembleias coletivas; finalidade não lucrativa. Os recursos para o funcionamento da emissora são arrecadados através de apoio cultural e de contribuições da comunidade.

Armando Coelho Neto (2002, p.23) diz que uma rádio comunitária é um dos mais legítimos movimentos populares, que reivindica a liberdade de expressão. Segundo Mauro Sá Rêgo Costa (2011, p.1) as emissoras de rádio comunitária existem para a promoção do desenvolvimento social, cultural, político e comunitário, instigando e buscando o exercício pleno da cidadania.43

André Barbosa Filho (2003, p.50) reflete que a prestação de serviços públicos das rádios, entre as quais se encontram também as comunitárias, possui forças e poderes inimagináveis, pois o rádio tem poder de cativar e seduzir seus ouvintes, influenciando a cotidianidade das pessoas e possibilitando resultados positivos. Para este autor, o rádio tem sensorialidade, penetração, é regional, é íntimo, é imediato e instantâneo, é simples, móvel, acessível, barato e tem ilimitadas funções sociais. Por sua vez, José Eugênio de Oliveira

43 José Ignácio López Vigil (2003, p.495), ex-presidente da Associação Mundial de Rádios Comunitárias –

AMARC – e estudioso do assunto, destaca que o termo rádio comunitária é apenas uma das formas de se chamar mundialmente esse tipo de emissora, visto que, em outros países (principalmente os latino-americanos e europeus), as rádios comunitárias também são conhecidas (tendo o mesmo trabalho) como rádios livres, rádios rurais, educativas, populares, participativas, indígenas, públicas e associativas. O mesmo autor levanta a teoria de que as rádios comunitárias “cidadanizam” (p.486); trata-se de um termo relativo à capacidade de instigar a cidadania nas comunidades em que estão inseridas e, principalmente, para destacar o papel dessas emissoras.

Menezes (2007, p.119-120) diz que o rádio é um espaço de expressão de múltiplos tempos, vozes e paisagens sonoras, sendo também um espaço para mestiçagens sonoras, notadamente onde as pessoas navegam pelas diferenças, entrelaçam-se pelas peculiaridades, escapam das padronizações, convivem com a dimensão plural da realidade, encontrando, inclusive, novas formas de sobreviver e também de solucionar problemas.

Na opinião de Carlos Camacho Azurduy (2007, p.109-110), uma rádio deve educar para a democracia, e, principalmente, instigar a pluralidade, a participação, a integração e a criticidade das comunidades inseridas.44 Lílian Mourão Bahia (2008, p.198) apresenta a entrevista de um dos líderes do movimento de rádios comunitárias, na região metropolitana de Belo Horizonte, em que este profere a emblemática frase “é preciso que se entenda que a comunidade tem uma rádio e que a rádio tem uma comunidade”.

Segundo Paulo Fernando Silveira (2001, p.3), nas nações em que o Estado funciona instrumentalmente, e administra os serviços das telecomunicações, agindo como mero gestor do sistema, sem interferir, como regra, na livre manifestação do pensamento, nem realizando a proibição da difusão das informações por qualquer veículo, não emergem as estações chamadas alternativas, piratas ou clandestinas.

Daniel Augusto Vila-Nova Gomes (2009, p.65) afirma que a radiodifusão comunitária é uma prática social em que a comunidade exerce a construção de laços de convivência unindo seus integrantes sociais. “Num país em que nem sempre todos foram iguais, nem tampouco livres, para emitirem, mesmo que numa limitada parcela de espaço público, suas vontades e opiniões particulares, essas rádios simbolizam uma alternativa democrática para usos pedagógicos e emancipatórios da cidadania” (GOMES, 2009, p.65). Conforme Lílian Mourão Bahia (2008, p.32-33), as rádios comunitárias surgiram em razão do desejo de expressão das comunidades, principalmente quando essas comunidades têm verdadeiro espaço de expressão em seus meios.

As rádios comunitárias, segundo Daniel Augusto Vila-Nova Gomes (2009, p.180), têm permitido, a um só tempo, a formação de arenas de influência na circulação da comunicação social de opiniões e vontades dos cidadãos e movimentos sociais, bem como a construção de identidades por sujeitos que invocam essas arenas como espaços alternativos de vivência compartilhada das liberdades, da igualdade e da fraternidade.

44 O autor boliviano trabalha a perspectiva das rádios populares (como também são conhecidas as rádios

comunitárias na maioria dos países latino-americanos, tradicionalmente mais engajados em uma luta comunicacional, envolvendo a comunicação popular, que termina por refletir também na comunicação comunitária).

Na concepção de Claudia Mara Stapani Ruas (2004, p.155), as rádios comunitárias e suas interfaces com a comunicação popular tornam-se um fator de crescimento social, educativo e cultural da população, que pode se organizar em favor dos processos de autotransformação, de forma democrática e revolucionária.

Segundo Fred Ghedini (2009, p.15-16), uma rádio comunitária é uma emissora de caráter local, com intenções de informar, entreter, prestar serviços à população de sua área de atuação, facilitando e incentivando o acesso a seu microfone pela comunidade, sendo que há mais municípios no Brasil com emissoras de rádio comunitárias autorizadas a funcionar do que com emissoras FM comerciais.45

Para Ilza Girardi e Rodrigo Jacobus (2009, p.24-25), as rádios comunitárias, mesmo as que não operam conforme seus projetos originais, têm intencionalidades de funcionamento democrático, com aberturas ao estímulo da participação das comunidades em que estão inseridas. Os autores (2009, p.24-25) também comentam que as rádios comunitárias sérias (que chamam de rádios comunitárias com “C” maiúsculo), se diferenciam das rádios ditas comunitárias “picaretarias”, e “neopentecostais”.46

No Brasil, uma rádio comunitária tem autorização para funcionar em período de três a dez anos, renováveis por igual tempo, de acordo com o Ministério das Comunicações. Raramente há fiscalização, e muitas emissoras, mesmo legalizadas, terminam passando vários anos ou décadas à mercê de novas autorizações que acabam não ocorrendo ou sendo proteladas, já que dependem do Ministério das Comunicações e do Congresso Nacional.

Essas emissoras podem ser um diferencial em relação aos meios de comunicação considerados comerciais ou público-estatais,47 e que, sendo chamados de comunitário ou não, são importantes na essência e na função de ser diferente, agregador, socializador e emancipador, de fazer o diferencial e agir em prol da coletividade.

45 Fred Ghedini (2009, p.17) destaca que as rádios comunitárias estão na segunda posição dos meios de

comunicação mais presentes nas cidades do Brasil, perdendo apenas para a TV aberta, presente em praticamente todas as cidades. As rádios comunitárias legalizadas estão presentes, aproximadamente, em metade dos municípios brasileiros, enquanto as não legalizadas estão em, pelo menos, 70% dos municípios. Esses dados variam, principalmente em relação as não legalizadas, porque diariamente ocorrem aberturas e fechamentos de emissoras em praticamente todas as unidades federativas brasileiras.

46 Essas “picaretarias” seriam “rádios comunitárias” de intenções comerciais e/ou propriedade de políticos

profissionais. “Usam brechas da lei para brigar pela outorga de comunitária, mas adotam práticas mais comuns às comerciais, sendo utilizadas em benefício e/ou promoção do(s) seu(s) proprietário(s). São comunitárias de fachada” (GIRARDI; JACOBUS, 2009, p.24-25). As “neopentecostais” pertencem a entidades religiosas sem grande poder aquisitivo. “Mesmo em menor escala que as “picaretárias”, não deixam de incorporar certas práticas comuns ao coronelismo eletrônico, entre as práticas que são mais comuns em rádios comerciais, e que são normalmente incorporadas pelas ‘pseudocomunitárias’” (GIRARDI; JACOBUS, 2009, p.24-25).

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Consideram-se não só emissoras de rádio, mas também jornais, revistas, emissoras de televisão e conglomerados de Internet e telefonia.

A adoção desse formato significa voltar à programação para a comunidade. No rádio comercial em amplitude modulada, adquire características popularescas [...] Já nas emissoras comunitárias [...] representa a adoção de uma linha de trabalho afinada com os interesses dos ouvintes, servindo de canal aos seus anseios e buscando, deste modo, a resolução de problemas do bairro ou grupo de bairros de sua abrangência (FERRARETO, 2001, p.62).

Entidades como Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária-ABRAÇO (2013a) e Associação Mundial de Rádios Comunitárias-AMARC- Brasil (2013a) destacam que o número de FMs comunitárias no País é de, aproximadamente, 30.000 rádios.48

1.3.1 As entidades que representam o movimento de rádios comunitárias no Brasil

O movimento de rádios comunitárias no Brasil é representado por duas grandes entidades que atuam nacionalmente. São elas: a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária-ABRAÇO49 e a Associação Mundial de Rádios Comunitárias-AMARC-Brasil,50 que também é internacional. A partir do momento que há organização e foco na luta, as próprias rádios comunitárias brasileiras podem conhecer coletivamente seus problemas e terem atuações conjuntas para melhores dias. Às emissoras já legalizadas devem contribuir para o fortalecimento da luta das rádios que ainda pleiteiam legalização. Ambas têm representação em praticamente todos os Estados, com maior presença regional para a ABRAÇO.

São duas instituições sem fins lucrativos e não têm números precisos da quantidade de emissoras no Brasil (apenas estatísticas). Elas congregam centenas ou milhares de emissoras e dezenas de milhares de radialistas e comunicadores comunitários em seus quadros.

AMARC-Brasil e ABRAÇO têm em seus estatutos a responsabilidade de defender e pregar melhores dias e situações para as rádios comunitárias no Brasil. São esses órgãos os

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Apenas um sexto desse montante está legalizado. Ou seja, enquanto o País tem menos de 5.000 emissoras legalizadas, dentre 20.000 e 25.000 outras emissoras estão sem legalização ou aguardando abertura de editais para outorga para poderem funcionar.

49 A ABRAÇO, que tem dezoito anos de existência, considera-se uma entidade de união (2011b), com a intenção

de que as rádios comunitárias devem pressionar o Congresso, propiciando que comunidades possam se apropriar da tecnologia da transmissão desse tipo de emissora, saindo da posição de passividade para a criação, elaboração e gestão do seu próprio meio de comunicação.

50 A AMARC foi fundada em 1983 no Canadá. Em seu sitio brasileiro (http://amarcbrasil.org/o-que-e-a-amarc/),

destaca que é uma organização não governamental internacional, de caráter laico e sem fins lucrativos, congregando mais de quatro mil rádios comunitárias de cento e quinze países. “A missão da AMARC é promover a democratização das comunicações para favorecer a liberdade de expressão e contribuir para o desenvolvimento equitativo, socialmente justo e sustentável de nossos povos. Democratizar a palavra para democratizar a sociedade” (AMARC BRASIL, 2013b). A AMARC foi fundada na América Latina em 1990, tendo, aproximadamente 400 associadas, com dezoito sub-representações no Brasil.

representantes oficiais do movimento e são elas que são chamados a depor, propor e discutir nos fóruns oficiais sobre temáticas da comunicação comunitária radiofônica no Brasil.

Entretanto, as duas entidades nacionais não se entendem sequer sobre o conceito do que é uma rádio comunitária, já que a ABRAÇO, em um conceito mais abrangente, considera que uma rádio comunitária é qualquer emissora que se diga ou se proponha a ser comunitária; por sua vez, a AMARC-Brasil tem entendimento mais socializante das emissoras, e só classifica as rádios comunitárias como aquelas que realmente, nos padrões mundiais da entidade, caracterizam-se e promovem um trabalho de rádio comunitária mais voltado à politização.

Para a AMARC (2011b), que tem trinta e um anos de existência no Mundo e vinte e quatro anos no Brasil, não importa a nomenclatura da emissora, se é comunitária, cidadã, popular, educativa, livre, participativa, rural, associativa, alternativa, mas sim que seja uma emissora democratizante em sentido social.

Nestas emissoras pode-se trabalhar com voluntários(as) ou pessoal contratado, com equipamentos caseiros ou com o que há de mais desenvolvido tecnologicamente. Ser comunitário não se contrapõe à produção de qualidade nem à solidez econômica do projeto. Comunitárias podem ser as emissoras de propriedade cooperativa, ou as que pertencem a uma organização civil sem fins-lucrativos, ou as que funcionam com outro regime de propriedade, sempre que esteja garantida sua finalidade sociocultural e sua gestão democrática (AMARC, 2011b).

Convém assinalar, ainda, que em algumas unidades federativas brasileiras há instituições estaduais, regionais e até municipais que congregam as emissoras de rádio comunitária e que não têm interlocução com essas duas grandes instituições, mas, nacionalmente, quando ocorrem os fóruns governamentais e deliberativos são a AMARC- Brasil e a ABRAÇO as chamadas para o debate coletivizante de melhores dias para as rádios comunitárias no País. Essa dicotomia prejudica o próprio movimento e deslegitima um movimento em uníssono nacional, já que demandas – como aumento do número de canais, legalização de todas as emissoras comunitárias sérias e ainda garantia de verbas públicas para as emissoras e anistia para comunicadores processados – são tônicas comuns a todo o movimento do País.51

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